02/09/2011

MOSQUITOS, SORRISOS & SUDOKU


"Moskva! Moskva!", diz-me uma senhora de farda a apontar para a rua. Não entendo o que quer dizer com aquilo. Só quero saber qual a plataforma onde tenho de esperar pelo comboio de regresso a Tyumen, que deve estar a chegar. Estou em Tobolsk desde ontem, são 15:36, o comboio parte daqui a 30 minutos.

"Moskva!", insiste. Eu olho para o lado de fora da estação, continuo sem perceber nada. "Rusky... niet!", tento. Mas ela abana o meu bilhete na mão, tenta explicar-me qualquer coisa, aponta para a rua... será que... e de repente, fez-se luz.

Há pouco mais de 24 horas...

Cheguei ontem a Tobolsk às 08:28 em ponto, como previsto. Feliz por ter conseguido a ligação directa, saí do comboio com um largo sorriso na cara - contrastando ainda mais com a paisagem de rostos à minha volta.

Como a estação ficava a 15km do centro da cidade, optei por comprar logo o bilhete regresso a Tyumen, de onde continuaria a minha viagem transiberiana, na noite seguinte. Como já expliquei antes, Tobolsk é um desvio da rota original.

Juntei-me à pequena fila da Kacca, preparado para encarar as habituais trombas - e, enquanto esperava, copiei para uma folha de papel algumas frases em russo, tipo "quero um bilhete para Tyumen", "comboio amanhã" e "a que horas parte?". E acrescentei um smile no final.

Ao chegar a minha vez, colei a folha ao vidro e sorri os bons-dias em russo. Resultou - mas só um bocadinho, o que já não é mau. Não consegui igual sorriso de troco, mas as trombas aligeiraram e a senhora explicou-me com um aceno que tinha percebido a mensagem. Alívio. Melhor ainda: deu-se ao trabalho de me fazer uma lista com as hipóteses possíveis - e eu escolhi o comboio das 15:56, que chegava a Tyumen com tempo mais-do-que-suficiente para eu apanhar a minha ligação para Omsk (a próxima paragem no transiberiano).

Saí da estação todo contente: tinha conseguido comprar um bilhete sem dramas nem mal-entendidos (coisa rara, segundo a maioria dos viajantes com quem troquei impressões sobre a Rússia).

O autocarro para o centro não demorou muito a chegar e, já a bordo, fui recebido por um bem-disposto "pica", que ia apontando sorridente para alguns edifícios enquanto entrávamos na cidade, e depois avisou-me onde sair e como ir para o hotel. O sol brilhava num céu azul com algodão-doce. "Tobolsk promete", pensei.














O lonely planet descrevia Tobolsk como "uma das vilas mais históricas da região, com um kremlin bonito e um centro histórico charmoso e decrépito, onde fervilha uma comunidade de artistas, cheios de entusiasmo em conhecer estrangeiros". Dizia ainda que estão a ser investidos milhões de dólares em infraestruturas para o turismo, blá, blá, blá...

Mas artistas, nem vê-los. Nem os entusiasmados, nem os enfadados. Ninguém. A cidade era quase-fantasma, faltavam apenas os tradicionais novelos de ramos secos a rolar pela paisagem. E o centro histórico... mas qual centro histórico? Ah, sim... aqueles andaimes à volta da igreja... as gruas... ok. Já percebi.




















Basicamente, os milhões investidos (mais que o orçamento do Ministério do Turismo do Cazaquistão) transformaram a cidade numa espécie de mega-urbanização-fantasma com avenidas largas e árvores recentemente plantadas, relvados com flores de todas as cores, candeeiros novinhos em folha. Mas ninguém na rua. Umas vacas, de vez em quando.



















Em Tobolsk, as Coisas Novas já tinham qualquer coisa de Velhas; e as Coisas Antigas já tinham qualquer coisa de Novas.

Não havia cafés, nem restaurantes, nem nada que animasse a cidade. Havia uma estação dos correios (com internet!); três hoteis pseudo-chiques a cobrar um insulto por quartos novinhos em folha mas cujos acabamentos já estavam a ceder - e cheios de mosquitos!; dois ou três restaurantes, todos dentro dos hotéis, férteis em mármores e colunas, candelabros de cristal com acabamentos dourados, guardanapos de pano dobrados com requintada criatividade, cortinados de cetim, reflexos e brilhos... "o que é que eu estou a fazer aqui?"

E os mosquitos - já mencionei os mosquitos?

Um desvio de quatro horas para esta m... enfim, não valia a pena chorar sobre o assunto - aliás, só me deu mesmo para rir. A própria senhora da recepção (que era, note-se, muito simpática) perguntou-me o que estava eu a fazer ali.

Eu sei lá.

É a Sibéria e mais-não-sei-quê.




















Dei uma envergonhada volta pela cidade, inventei razões para fotografar sabe-se lá o quê - e quando voltei ao hotel, desesperado por não ter um sítio decente para me sentar a comer, vislumbrei uma tenda no parque de estacionamento, nas traseiras do edifício. Aproximei-me e encontrei uma paisagem de mesas de madeira com bancos corridos. Genial!

Sorrisos. Esta vila pode ser desinteressante e desprovida de carisma, mas de uma coisa não me posso queixar: há mais sorrisos per capita do que em qualquer outro lugar onde tenha estado na Rússia, até agora.

Nem tudo estava perdido, afinal. Poucos minutos depois de me sentar a beber uma imperial em copo de plástico, a sorridente (e gira) empregada estava a servir-me porco grelhado, pão e uma salada de tomate e pepino, em prato e talheres de plástico.

(Um bocadinho descartável demais para a minha eco-consciência, mas ok.)

O resto do dia, passei-o a escrever, a preparar posts e fotos para o blog, a jogar sudoku no telemóvel, a matar mosquitos e a ver as mesmas notícias na televisão, over and over again. Motins em Inglaterra. Neonazis a espancar um steward num jogo de futebol, em Kiev. Israel a preparar o terreno para ter "desculpas" para atacar o Líbano mais uma vez. Um palco a cair numa feira nos Estados Unidos, matando cinco pessoas. Motins em Inglaterra. Neonazis a espancar um steward num jogo de futebol, em Kiev. Israel a preparar o terreno para ter "desculpas" para atacar o Líbano mais uma vez. Over and over and over again.

Chegada a noite, vesti o meu fato de gala (boxers e t-shirt) e assisti da minha varanda ao espectáculo que a cidade preparou especialmente para mim: uma tempestade de relâmpagos. Sem chuva nem trovoada - só luz. Maravilha.

Só consegui apagar as luzes e dormir, depois de espalmar nas paredes e no tecto os mosquitos que tinham resistido ao primeiro round. E, como se diz: dormi que nem uma pedra. Pelo menos, até às quatro horas e desfocados minutos - quando fui acordado por um irritante zumbido e uma comichão. Levantei-me, ensonado, a coçar-me e a resmungar, acendi a luz e preparei-me para dizimar o "turno da noite". Demorei pouco mais de quinze minutos, o suficiente para estar completamente desperto no fim - pelo que me custou voltar a adormecer. Tinha cometido um massacre, havia sangue espalhado pelas paredes, a consciência pesava. Lá fora, o céu começara a clarear.



















E de manhã...

Quando abri os cortinados, sorri ao dar de caras com o mesmo azul com algodão-doce de ontem. Tomei o pequeno almoço ao som de clássicos como "The House of the Rising Sun", "If you're going to San Francisco", "Wicked Game" de Chris Isaak e "Hello" de Stevie Wonder. Não as versões originais, mas uma adaptação livre para Música de Elevador/Banda Sonora de Westerns Antigos.

Saí à rua: o vento soprava frio. Lembrei-me dos (raros) dias solarengos de Inverno, na Praia das Maçãs. Não sei se é das saudades do mar, mas juro que até me cheirou a maresia.

Alucinações à parte: dei mais uma rápida volta pela cidade, não fosse ter passado ao lado de algum pormenor importantíssimo - mas não tinha camisola nem paciência, por isso regressei ao meu quarto cheio de cadáveres de mosquitos nas paredes.

Às 14:56 estava de mochila às costas, a subir para um autocarro rumo à estação de comboios. Ainda tinha uma hora. A senhora "pica" era uma simpatia, apesar de me ter cobrado extra pela bagagem. Sentou-se ao meu lado a fazer conversa, expliquei-lhe que era de Portugal e perguntou-me se tinha uma moeda do meu país. Não tinha - mas tinha da Tailândia. Ficou toda feliz, e entre sorrisos e palavras que não compreendi, deu-me de presente uma moeda russa - que tinha qualquer coisa de especial, não percebi o quê. Guardei-a.

Estação de comboios de Tobolsk, 15:26

"Moskva! Moskva!", diz-me a senhora da farda, à entrada da plataforma. Mostra-me o bilhete, onde está impressa, entre outra informação, a minha hora de partida: faltam 30 minutos para o "meu" comboio. Penso eu.

Continua a apontar para a rua - e eis que se faz luz nesta cabeça de mosquito-espalmado. A senhora não está a apontar para a rua. Está a apontar para um relógio. E, nesse relógio, os ponteiros marcam 13:26. Hora de Moscovo.

Estou duas horas adiantado. Nem me passou pela cabeça que a hora marcada no bilhete fosse a hora de Moscovo. Tobolsk tem duas horas de diferença da capital. Duas horas a mais. Começo a fazer contas de cabeça. Estou adiantado, o que é menos mau do que estar atrasado. Vou ter de esperar duas horas - podia ser pior. Jogo mais uns sudokus.

Mas será que chego a Tyumen a tempo de apanhar a ligação para Omsk?

3 comentários:

LV disse...

Descrição magnífica !!!!!

catarina.com disse...

cada vez gosto mais de ler este blog =)

Rita Miranda disse...

Este post está particularmente bom e hilariante!
Boas viagens!