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10/07/2014

SABIA QUE... #27

...a cerimónia de abertura dos Jogos Olimpicos de Pequim começou no dia 8/8/8 às 8 horas da noite, oito minutos e oito segundos.

E este não é o único exemplo em que o número 8 foi usado por empresas, eventos e marcas por ser auspicioso. Ou porque "cai bem" com o público chinês.

As Torres Gémeas da Malásia, cuja arquitectura é quase toda de inspiração muçulmana, têm 88 andares cada.

Em 2003, um número de telefone em que todos os dígitos eram 8 foi vendido à Sichuan Airlines por duzentos e cinquenta mil euros. E esta não é a única companhia aérea a "aproveitar-se" do 8. O código do vôo da Air Canada entre Xangai e Toronto é o AC88. Mas se voarmos na KLM entre Hong Kong e Amesterdão, o vôo é o KL888. Se formos para Pequim pela Etihad Airways, voamos no EY888. Na United Airlines entre San Francisco e Pequim: UA888. Na British Airways, entre Londres e Chengdu: BA88. Na Cathay Pacific, entre HK e New York: CX888. Os voos da Singapore Airlines e da Sri Lanka Airlines para a China começam todos por 8.

A minivan da General Motors é vendida na China com o nome Buick GL8 - mas nos outros países tem outro nome.

Na China, quando se quer usar o "efeito psicológico" num preço não se usam números acabados em 9, como no Ocidente. Em vez disso, os preços acabam em 8, pois além de mais barato é auspicioso. É comum ver produtos nas lojas que custam 58, 88, 168 yuans...

Já o número 4, como falámos antes, é evitado. A Nokia não tem séries começadas em 4. A máquina fotográfica Powershot G, da Canon, passou da G3 para a G5. A transportadora rodoviária de Singapura "censura" todas as matrículas que tenham um 4.

O poder nos números, hem?

Ou, melhor: o poder da superstição.

E POR FALAR EM NÚMEROS

Quem acompanha as minhas voltas há mais tempo sabe que gosto de números. Sendo assim, quando chego a um lugar como Hong Kong e começo a dar-de-caras, todos os dias, com exemplos vivos de números que têm influência no quotidiano das pessoas - adoro.

Como sou curioso, basta ver este-e-aquele para ir à net investigar... e descobrir logo mais não-sei-quantas histórias.

Este post é dedicado a números - e ao significado que têm na cultura chinesa.

O número 1 soa a "honra" e é por isso muito respeitado.

O número 2 é normalmente associado a sorte, na cultura chinesa. Diz-se que "as coisas boas vêm em pares" e é muito comum duplicar determinados números ou caracteres, para conseguir assim uma duplicação da sua força/sorte. Foneticamente, é muito parecido com a palavra "fácil".

O 3 tem um som muito parecido com "nascimento", "crescimento" ou "vida" e é por isso considerado um número de muita sorte. Além disso, são três os momentos mais marcantes da vida: nascimento, casamento e morte.

Elevador de um prédio que não tem os 4º, 14º e 24º andares.

Sobre o número 4 já conversámos no post anterior. É um número evitado por estar relacionado com a morte, e tem algumas combinações fatais. Mas também pode ter associações interessantes. Por exemplo: com o número cinco. Este tem um som muito parecido com "não" ou "nada", pelo que o 54 acaba por soar a "não-morte". Logo, a negação de uma coisa má... acaba por ser positiva.

Mas na maior parte das vezes, o número 5 está associado aos cinco elementos da filosofia chinesa (água, fogo, terra, madeira e metal); e também tem um som parecido com o pronome "eu". As gerações mais novas de alguns países asiáticos utilizam o 555 como uma espécie de LOL, pois soa a gargalhada.

O número 6 representa "riqueza" em cantonês e soa a "fuidez" em mandarim. É, por isso, um bom número para negócios. Mas também pode ter uma associação com "queda" ou "declínio", por isso é preciso ter cuidado com as combinações que se fazem com outros números.

Já o número 7, que também é um número de sorte no Ocidente, dá sorte a relacionamentos, pois simboliza "união" e "certeza". Em termos de fonética, também é muito parecido com "levantar" e com "essência da vida".

O número 8, que já foi mencionado no post anterior, é o mais auspicioso. Tem um som muito parecido com "prosperidade" e "riqueza" e é o mais procuradoe utilizado pelas pessoas. A ver se partilho aqui uma lista de exemplos que encontrei na internet... mas não agora, que tenho mais números aqui à espera ;)

O 9, por exemplo, tanto simboliza "harmonia" como "todo", ou mesmo "longa duração", ou "longa vida". É um número com muito sucesso em casamentos, pois claro. Mas é também um número que foi sempre associado, ao longo da História, às famílias imperiais e a variadíssimos rituais.

Há muitos mais números com significados e energias muito especiais, seja na China como noutros países asiáticos - e até de outras partes do globo. Há também combinações de números que, pelo som, acabam por ter variadíssimas conotações - positivas, negativas ou apenas caricatas. Podíamos ficar aqui o dia todo a explorar o assunto... mas para um post apenas, já temos aqui muito material.

Dou apenas um exemplo: o 168.

Este número é repetido vezes sem conta, normalmente em nomes de lojas, empresas ou então só para marcar presença em estabelecimentos comerciais. E porquê? Porque a pronunciação do número 1-6-8 acaba por soar a "prosperidade todo o caminho" ou "fazer dinheiro todo o caminho".

Assim seja!

E passa a outro e não ao mesmo, portanto.

;)

03/07/2014

ONDE É QUE ESTÁ O BOTÃO DO EJECT?

Portanto: adeus, Pequim - até à próxima.

Da guesthouse ao aeroporto foi um instante - viajei numa espécie de nostálgico turpor, sentado no banco de trás do táxi, acelerando na autoestrada vazia enquanto a cidade e as suas histórias ficavam para trás, no espaço e no tempo; o sol a nascer atrás de um horizonte de prédios em contra-luz.

Check-in. Imigração. Shuttle para o terminal. Pequeno-almoço. Embarque.

Vamos lá embora.

Próxima paragem: Macau.

Tinha pedido um lugar à janela e fui parar à fila 22, que é lugar junto à saída de emergência - mais espaço para as pernas, que bom - mas o único que não tinha janela. Estive quase-quase para protestar com a hospedeira, mas acabei por me resignar. O voo: quase-cheio. As probabilidades de conseguir mudar: quase-nulas. E para ser muito sincero, queria mais dormir que ver as vistas. Assim sendo: toca a esticar as pernas porque enquanto o avião cruzar os céus, eu cruzo sonhos.

Fecho os olhos, respiro fundo, deixo o corpo e mente repousar, sempre são quatro horas de viagem até Mac... mas que chinfrineira é esta?

O Bêbado

Abro os olhos. Endireito-me no lugar, olho para trás com olhos de mas-o-que-vem-a-ser-isto. Um chinês de meia-idade e barriga-e-meia fala como um actor num palco, como se os passageiros das filas à volta fossem o público. O que, de certa forma, acaba por ser verdade. Só falta o holofote. Enrola o mandarim mais do que já se enrola quando se está sóbrio, senta-se e levanta-se, levanta-se e senta-se, ri e boceja em alto som, os dentes cheios de boca, os anéis cheios de dedos, e a hospedeira manda sentar, e a hospedeira manda estar sossegado, e a hospedeira vai ter com ele quando toca no botão-de-chamar-a-hospedeira, não entendo nada do que lhe diz, mas percebo muito bem. Ela vai embora, ele volta a carregar no botão-de-chamar-a-hospedeira. Mais duas, três, quatro vezes. Que triste coreografia.

O avião está pronto para sair há meia hora, mas estamos "à espera de vez".

O Mauzão

Sentada ao meu lado está uma senhora nervosíssima. Olha para o espelho, olha para as unhas, olha para as luzinhas acesas do no-smoking, olha para as luzinahs acesas do exit, olha para mim e desvia e foge, olha para o marido e agarra-se ao braço dele. Ele não reage, é de uma frieza inabalável, de vilão de filme de karaté, de quem não tem paciência para estas mariquices. Mauzão.

O telefone não pára de tocar. O Mauzão atende e fala como se estivesse no restaurante a comer um pato à pequim depois de ter despachado dois ou três inimigos. Atende, apesar de estarmos já a avançar para a pista (finalmente!), apesar da hospedeira ter mandado desligar o telefone várias vezes. Quero-lá-saber. Atende em alto e bom som, não tão alto quanto o bêbado atrás de nós, mas alto. Depois desliga. Depois atende. Depois desliga. Outra coreografia a juntar à do Bêbado e da hospedeira. Que bailado este, patrocinado pela Air Macau.

O Dorminhoco

Na fila à minha frente, um passageiro decide deitar-se ao longo dos bancos que tem vazios, ao lado. A hospedeira vem dizer-lhe que enquanto estivermos a descolar, tem que ir sentado e de cinto apertado. Não tem descanso, a sorridente rapariga. Mais tarde pode deitar-se, diz-lhe. Ou acho que diz. Ele faz-se de parvo, ou é mesmo parvo, finge não entender, dá voltas à almofada mas a hospedeira acaba por dar-lhe a volta a ele. Senta-se. E mal ela se afasta, volta a deitar-se.

A Criança

Uma voz anuncia que vamos finalmente levantar voo. O Bêbado da fila de trás arrota em aprovação, o ar enche-se de um perfume triste e a senhora ao meu lado segura-se com mais força ao braço livre do Mauzão, que ainda está ao telefone. Nem olha para ela. Na fila em frente, do outro lado do corredor, uma Criança com trinta-e-tal anos abraça-se a um urso de peluche castanho, diz-lhe ao ouvido para não ter medo, que tudo vai correr bem. Pouco depois adormece. Ela.

Onde é que eu estou? Que lugar é este - este momento, isto existe mesmo ou estarei a sonhar?

Ainda nem levantámos voo e já estou à procura do botão do eject.

Primeiro que consiga alguma paz de espírito para dormir - ainda vai demorar um bocadinho. Tenho que me adaptar a esta paisagem à minha volta. Mas como? Agora as paredes tremem e um barulho surdo toma conta do espaço todo, há dedos a apertar braços, dentes cerrados e pessoas ao telefone. Uns nervosos, outros ansiosos, há quem não dê por isso, tanto-faz.

Uma omolete

Acabo por adormecer, mas não por muito tempo. Acordo com o aroma quente das refeições que estão a ser servidas. Omolete ou noodles com carne? Escolho a opção mais amarela, em homenagem ao sorriso do Bêbado. A mulher ao meu lado olha para o Mauzão, ele faz-lhe sinal que não e ela recusa a refeição. Pouco depois há-de tirar umas salsichas da mala e oferecer ao marido.

Ponho os phones nos ouvidos, mesmo assim não consigo deixar de ouvir o Bêbado. Felizmente, por pouco tempo. Depois de sacar-de-uma-escarra (não sei o que fez com ela, entrei automaticamente em estado zen para me abstrair de tanta informação), descalçou-se e esticou-se ao comprido nos três lugares que tinha disponíveis. E a minha fila cheia. De repente o ar encheu-se de um ambiente de quarto fechado.

A sério: onde é que está o botão de eject. Aquele botão que os pilotos têm quando o avião é atingido pelo inimigo, é só carregar e somos imediatamente lançados, ainda sentados na cadeira, e depois abre-se um para-quedas e tudo acaba em bem, a não ser que o inimigo esteja à espera no solo. Mas eu quero lá saber do inimigo. Eu quero é sair daqui para fora. Onde é que está o botão do eject?

A viagem prossegue dentro da normalidade possível. Eu vou tirando notas mentais até que a informação é tanta que saco do telefone e escrevo algumas coisas, não vá o diabo tecê-las e esquecer-me. Só a mim. Volto a adormecer. Acordo com alguém a abanar-me os ombros, é a hospedeira a avisar-me que tenho de endireitar o banco, desligar o telefone, a rotina do costume. Obedeço, sou um bom rapaz, porquê dificultar o trabalho à rapariga, ainda por cima com um sorriso tão vermelho e tão giro.

Ao meu lado, a senhora segura nas mãos do Mauzão, mas desta vez por razões diferentes. Vejo palitos partidos no chão, que ela vai atirando à medida que deixam de ter utilidade. E o bocado que segura agora está a ser muito útil para limpar as unhas ao marido. A sério.

A Criança do urso de peluche continua abraçada ao próprio. Tem os braços cheios de nódoas negras - ela, não o urso. Há com cada pancada.

O Bêbado já acordou e decidiu que era uma boa altura para cantar. Canta.

O Dorminhoco também já está sentado, decidiu que era uma boa altura para aderir ao cartão das milhas da Air Macau e pediu ajuda à hospedeira, porque não sabe ler e escrever, ou porque não tem os óculos com ele, ou porque não tem paciência, ou pura e simplesmente porque acha que a hospedeira é que tem de fazer aquilo. Ela está sentada ao lado dele a escrever as informações que ele vai ditando. Que filme.

O avião aterra. Ainda na pista e já estão telefones a tocar. O Mauzão atende logo e manda despachar dois ou três gajos. Só falta a cena do polegar-para-baixo. O Dorminhoco levanta-se e abre o compartimento em cima, tira a mochila e ouve logo com a hospedeira histérica a mandar sentar, por motivos de segurança, blá blá, ele senta-se mas fica o compartimento em cima aberto, os outros passageiros agachados com medo que as malas lhes caiam em cima da cabeça. Ainda estamos na pista, a travar.

O avião pára onde tem de parar. A viagem acabou. Que filme, este. A China toda materializa-se por milagre no corredor entre as filas de bancos. Que pressa esta, que as pessoas têm de sair dos aviões, não é só na China, e é irracional.

A mulher ajeita o colarinho ao Mauzão, que em todo este processo não lhe dirigiu a palavra uma única vez. A Criança de trinta-e-tal anos arruma o peluche dentro de um saco, antes de o fechar pede desculpas pela barbaridade do acto. Eles não nos percebem, eu e tu. Até já, ursinho lindo. O Bêbado acalmou, curiosamente. Já nem o vejo, para ser sincero, deve ter furado a fila para ser o primeiro a sair do avião, dizem que há setenta e duas virgens à saída para o primeiro, só isso pode explicar a pressa. E daí: nunca entendi muito bem a cena das setenta e duas virgens. Mas isso são outras discussões.

Saio do avião e vejo um cartaz enorme que diz "Bem-vindos a Macau". Em português.

02/07/2014

AS APARÊNCIAS ILUDEM ;)

Só mais uma coisa, antes de "virar a página":

A foto que escolhi como "click do dia", no post anterior, tem um twist delicioso que gostaria agora de revelar. Aquilo que parece um monge muito concentrado na leitura de textos sagrados ou mantras ancestrais... revela-se como algo surpreendente.

Fica a foto original, que partilhei há pouco:

E agora a mesma "paisagem", mas vista de um ângulo diferente:

E esta, hem? ;)

ADEUS, PEQUIM

Até à próxima. Não sei quando será - mas volto. Vou "passar o testemunho" da viagem do Transiberiano que faço com a Nomad, por isso tão depressa não repito esta façanha de oito mil quilómetros, nem as paragens aonde voltei ao longo dos últimos três anos.

É assim a vida: temos de fazer opções, escolher caminhos, abdicar de umas coisas para enriquecer noutras; destruir para criar. Sem drama. Ao longo do último ano tomei a decisão de abrandar um pouco o ritmo das viagens com os grupos da Nomad, para ter mais tempo para alguns projectos pessoais. Nem que seja para passar mais tempo em casa. E o Transiberiano foi o "sacrificado". Mas como costumo dizer: não há passos atrás, só passos ao lado. E muito sinceramente acho que a viagem vai ficar melhor servida daqui para a frente. Mas cada coisa a seu tempo.

E é tempo de despedidas. Como sabem já estou em Hong Kong, e se ainda estamos por aqui à volta das fotos e peripécias de Pequim, deve-se ao facto de não ter conseguido aceder ao blog durante mais de uma semana, por estar bloqueado na China.

Mas como dizia: é tempo de despedidas. No que diz respeito a Pequim, estamos conversados. Não quer dizer que não volte a partilhar curiosidades, pensamentos e imagens que tenha guardados, mas por agora é só.

Fica então o click do dia - feito no Lama Temple, um dos meus cantinhos preferidos da cidade - e já de seguida mais duas mãos cheias de fotos que celebram Pequim. Como diria alguém: não é bem um adeus, é só um até já.











01/07/2014

LOST IN TRANSLATION A LA CHINESA

No restaurante onde levei o grupo da Nomad a comer Pato à Pequim, o menu era - como de costume - um tesouro de traduções insólitas.

Aqui pode-se experimentar cócegas fritas à beijing antiga, fatias de pulmão de marido e mulher; um elevador frio, um biscoito que dispara uma beringela, um rico e razoável... e até pés de galinha picantes de arrancar os ossos!

Ora espreitem lá:













A GRANDE NOSTALGIA

Fui, pela quinta e provavelmente última vez durante muito tempo, dar mais uma volta à Grande Muralha da China. O céu limpo e a temperatura ainda mais alta do que aquilo que apetecia - mas foi um passeio que despertou uma vontade nova de explorar ainda mais a Muralha, noutras latitudes e noutras épocas.

Deve ser giro vir aqui no Inverno, por exemplo.

Fica um exercício a preto e branco, cheio de nostalgia e uma vontade enorme de voltar depressa.













A VIDA NO HUTONG

Volto para a "minha" guesthouse no hutong*. Nestas ruas apertadas e coloridas, Pequim é a Pequim que eu gosto mais, é um corre-corre de sensações e imagens, é o contraste às ruas largas sem identidade, às grandes construções que dão torcicolo só de olhar. Aqui tudo está perto, tudo passa a razar, desvia-e-deixa-passar, o cheiro da fruta fresca e das sopas quentes na panela.

A vida no hutong acontece quer tu estejas ou não, quer venhas de passagem ou para ficar, devagar a tentar absorver tudo ou a correr com mil coisas na cabeça.

Saio do metro e avanço pelo passeio que ladeia a avenida principal, lojas e árvores e paragens de autocarro, semáforos e passagens de peões. E quando entro no hutong, por uma rua apertada onde praticamente só circulam pessoas e mercadoria, é como se saísse da China e entrasse em Pequim. Parece estranho mas é mesmo assim.

Tento absorver tudo para depois descrever, tiro notas mentais deste e daquele pormenor, mas como é que dou uma ordem a isto tudo, uma lógica a esta paisagem de caracteres chineses e de comida que não sei traduzir, à música pop que acompanha um teledisco na televisão do cabeleireiro, as toalhas penduradas a secar à porta, os olhares curiosos quando passo.

Ni hao, digo e recebo sorrisos de volta.

T-shirts levantadas deixando a barriga ao léu. É do calor.

Cruzo-me com uma senhora a empurrar uma bicicleta, com um caniche branco sentado no cesto à frente do volante. Um velho excêntrico de rabo-de-cavalo e leque enorme aberto, é o Lagerfeld cá do bairro. Dois adolescentes vestidos de preto e com o cabelo às cores, a passar de skate entre a confusão de bancas de fruta e de fritos, de roupa em segunda mão espalhada no chão, de artigos para a cozinha, de legumes para a sopa e DVDs pirateados.

Oiço um electrónico buzinar, quase tímido mas insistente, olho para trás e está uma mota a tentar passar. Desvio-me. Que silêncio bom, este das motas eléctricas, ao fundo o som típico de um filme de artes marciais.

Passo por um grupo de homens a jogar cartas, nem dão por mim. Algumas velhotas sentadas num velho sofá cheio de buracos. Olham-me sem dizer nada, mas vejo dentes quando lhes sorrio. Oiço crianças a brincar e a rir. Concentram-se pessoas à volta de um carrinha cheia de melancias. Ao lado um miúdo sentado no chão faz desenhos com giz no alcatrão. Cheira-me a erva doce. A cebolinho. A aniz. Ao cigarro do gajo que se cruza comigo, agora.

Um velhote a cantarolar, enquanto caminha. Uma mulher a discutir com outra, enquanto lava o vidro da montra da loja. Duas miúdas a jogar badminton, vestidas de cor-de-rosa e Minnies e Kittys. Uma mulher de saltos muito altos e saia muito curta e rosto muito pintado, um grupo de estudantes fardados a comprar qualquer coisa numa loja, não sei se são doces ou cromos para a caderneta, ou-lá-o-que-é.

Compro mangostão no sítio do costume, troco cumprimentos e sorrisos, passo ainda numa pastelaria e levo uma fatia de pão-de-ló. E assim se passa pela vida, nas ruas do hutong.

* (hutong é o nome que se dá aos bairros tradicionais de Pequim, que são como pequenas aldeias labirínticas dentro dos quarteirões enormes formados pelas avenidas grandes)

30/06/2014

TUDO ESTÁ BEM QUANDO ACABA BEM

Cinco e meia da tarde. Tínhamos visto o último edifício e começámos a voltar para o centro de Pequim. Às seis era suposto encontrar os outros dois portugueses, que iam embora à noite. E de repente a minha mota deixou de funcionar.

A bateria que a senhora-da-loja tinha garantido que estava cheia: kaput.

Encostei a mota e procurei um ponto de referência. Havia um supermercado numa esquina. Empurrei-a até lá, a amaldiçoar a senhora e a rir com o Hugo, estacionei-a à frente da loja e telefonei à senhora.

Atendeu um homem. Não falava inglês.

"One moment, one moment", gritava-me enquanto corria pelo hutong, a chamar a mulher para me atender. Ou pelo menos era o que parecia estar a fazer, tendo em conta a respiração ofegante e os gritos pelo meio.

Veio a senhora ao telefone. Passou-o a um rapaz.

"Where are you now", pergunta-me num inglês impecável. Disse-lhe o nome da ruaescrito na placa mesmo à minha frente; e o nome do supermercado onde estacionara a mota. Ele vacilou um pouco, pediu-me para repetir, fez uma pausa e sem grandes convicções pediu-me para esperar meia hora, "vou mandar alguém para aí".

Nem pensar que ia ficar ali à espera. Tinha dois "clientes" à espera para jantar, antes de irem para o aeroporto. Tinha de ir ter com eles.

"Nada disso, esperem vocês aí na loja que eu já passo aí."

Sentei-me na mota do Hugo e fomos os dois por Pequim fora, a acelerar o que era possível - a mota não andava a mais de 35km/h - e a rir às gargalhadas. A cada buraco ou lomba, parecia que a motinha se ia despedaçar em mil pedaços.

Que final de tarde emocionante!

Chegámos às seis à lojinha de souvenirs, sempre a rir, nem sei como nos levaram a sério. Expliquei no mapa onde estava a mota, mostrei-lhes as fotografias que tirei à mota, ao estacionamento, ao nome do supermercado e ao nome da rua. Estavam fascinados com a minha solução.



O Hugo ainda disparou um "então a bateria estava carregada, hem?", mas a senhora deu-lhe uma palmada marota no rabo como que a responder tu-não-falas-assim-comigo-que-eu-podia-ser-tua-mãe. Tudo a rir.

E sem mais questões nem dramas, deram-me o passaporte e pronto: problema resolvido. A mota a meia-Pequim de distância, e nós de volta ao metro, de volta ao hutong, de volta ao hotel, para dizer adeus aos últimos companheiros de viagem do Transiberiano.

É mesmo assim: há males que vem por bem, e bens que vêm por mal, e tudo está bem quando acaba bem. E se não está bem, lá dizem os indianos, é porque ainda não acabou.

HÁ MALES QUE VÊM POR BEM

"Esquece", disse finalmente ao Hugo, um dos últimos resistentes do grupo do Transiberiano. "Vamos para Qianmen, no livro diz que há outras lojas lá. Aqui não vamos a lado nenhum."

Estávamos há uma hora às voltas na mesma rua, na rua em frente e na outra ao lado.

O Hugo tinha ficado mais um dia, depois da grande parte do grupo ter voltado para Lisboa - e a nossa ideia era passar o dia a pedalar por Pequim. O dono da minha guesthouse tinha-nos recomendado um sítio onde alugavam bicicletas, mMas não encontrávamos bicicletas nenhumas. Perguntámos ao senhor do quiosque, ao segurança do centro comercial, à senhora das flores, a três rapazes que passavam com uma bola de basquete, a um grupo de velhotes, ao porteiro de uma garagem... e nada. Algumas pessoas apontavam para ali, outras para acolá, a maioria não percebia nada do que dizíamos, ou não queria perceber.

Desistimos.

Enfiámo-nos no Metro e gozámos o ar condicionado. Depois de uma hora às voltas debaixo de um calor abrasador (céu limpo e subida da temperatura máxima, dizia o boletim meteorológico) - podem imaginar como nos soube bem.

Qianmen. Saímos para a rua, tomámos um café, andámos mais um bocadinho e no primeiro sítio onde era suposto haver uma loja de bicicletas, havia uma loja de chás. Este guia já está um bocadinho desactualizado.

Mas:

É já ali, mostraram-nos vários dedos apontados, quando perguntámos onde se podiam alugar bicicletas.

E era. Já ali. Ao fundo da rua, depois do restaurante onde duas noites antes tínhamos comido um "pato à pequim" delicioso e uma carne de burro surpreendentemente boa, também.

BIKE RENTAL, dizia um cartaz à porta de uma loja de souvenirs.

ELECTRIC BIKE RENTAL, dizia outro cartaz em baixo.

"E que tal se fossemos numa destas eléctricas?", sugeriu o Hugo.

E porque não?, pensei. E assim foi. Pagámos o aluguer e deixei o passaporte como caução, a senhora garantiu-nos a pés juntos, com uma expressão quase-ofendida quando insistimos, que as baterias estavam cheias. Deu-nos um mapa e avisou que só podíamos ir até ao perímetro da Segunda Circular (Pequim tem cinco). Sim, senhora!

E assim começou um "daqueles" dias.

A manhã quase toda a serpentear por hutongs (bairros tradicionais) e lagos, a negociar semáforos vermelhos quando não vinha ninguém, a atravessar pelas passadeiras porque scooters e bicicletas em Pequim têm estatuto quase de peão. Sentidos proibidos, sinais vermelhos, inversões de marcha - desde que haja respeito e cuidado, pode ser.

Ao fim da manhã parámos num hutong ao pé da Drum Tower e descobrimos um rooftop à sombra das árvores, que agradável surpresa, que cerveja fresquinha. O dia estava especialmente quente - ainda bem que trocámos os pedais pelo acelerador, nem quero imaginar o que teríamos sofrido numa bicicleta tradicional.


Lá está: há males que vêm por bem. Não encontrámos as bicicletas de manhã, perdemos uma hora às voltas... mas por causa disso acabámos na loja de souvenirs a alugar duas scooters eléctricas. E não podia ter sido melhor.

Almoçámos num "buraco" perto do Beihai Park que servia umas asas de frango com molho picante "secreto", entre outras iguarias. E já de barriga cheia fomos atrás de alguns prédios emblemáticos da nova arquitectura de Pequim. Que descoberta boa! O "ovo", as "cuecas", entre outros.





Já no final do dia, quando começávamos a voltar para Qianmen, a minha mota de repente deixou de funcionar. A bateria tinha acabado. E estávamos no ponto mais longínquo do dia... quinhentos metros depois da Segunda Circular.

E agora?! ;)