Mostrar mensagens com a etiqueta OS COLEGAS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta OS COLEGAS. Mostrar todas as mensagens

06/10/2015

A SENHORA DO LADO DIREITO E O RAPAZ DO LADO ESQUERDO

O voo de Kuala Lumpur para Yangon demora apenas duas horas e meia - nada de especial, comparado com as maratonas que às vezes faço entre Europa e Ásia.

Mas, curiosamente, a viagem de ontem à tarde provou-me que duas horas e meia podem custar muito mais a passar do que seis, sete ou vinte horas.

Tudo começou quando entrei no avião e reparei que o meu boarding pass indicava o lugar 16B, ou seja, ia ficar sentado no meio de uma fila. Nem à janela, nem à coxia. Estranhei, porque normalmente na AirAsia marco sempre o lugar quando compro o bilhete. Sendo uma lowcost, tem um custo acrescido - mas é tão barato que prefiro dar mais um bocadinho e garantir um lugar à janela, para assim encostar a cabeça e dormir um pouco. No entanto, fosse por erro da companhia ou por distracção minha, desta vez não tinha um lugar à janela. E como o voo vinha completamente cheio, decidi não chatear a hospedeira (e ainda bem, porque quando cheguei a casa fui confirmar na reserva e realmente o erro tinha sido meu).

Enfim: lugar ao meio.

Mas podia ser pior. Podia ser na Iberia, ou na Lufthansa - e então ter de me encaixar sabe-se lá com que ginásticas e malabarismos, passes de mágica e truques de contorcionistas. Na AirAsia costuma haver respeito pelas pernas dos passageiros.

Continuando: sentei-me.

Do meu lado esquerdo, junto à janela, vinha um rapaz de 26 anos chamado Chit Ko Ko, que depois de oito anos a trabalhar como chef num restaurante chinês na Malásia, voltava finalmente a Yangon, onde a família o esperava para uma nova vida. Queria casar-se com a namorada que não via desde miúdo, queria votar nas eleições que aí vêm e fazer parte da mudança que sonha para o seu país, queria vir à janela e pagou mais por isso, porque era a primeira vez que viajava de avião. Suponho que, na ida da Birmânia para a Malásia, há quase uma década, tenha ido por terra. Ilegal, claro.

"Não vais reconhecer o teu país", disse-lhe. "Está muito diferente, vai ser um choque."

E o sorriso dele aumentava, de cada vez que lhe falava das mudanças no "seu Myanmar".

Do lado direito, na coxia, vinha uma senhora dos seus sessenta. De boné branco, com o nome de uma marca de remédios, a condizer com um polo roxo com o mesmo logotipo e um saco dourado igual. Vinha de uma espécie de congresso, ela e mais umas cinquenta pessoas, tinham estado em KL para um encontro - estão a ver o cenário. Todos mais-ou-menos vestidos de igual, com os mesmos brindes e sempre a rir, espírito de grupo depois de uns dias de teambuilding. Provavelmente ficaram num daqueles hotéis gigantes para grupos, onde comeram e beberam e fizeram a festa; provavelmente houve discursos e cantoria, algumas bebedeiras, muitas histórias trocadas, um tour organizado de autocarro às Petronas e às Batu Caves. Bem pintada, a senhora: sempre impecável, com a carteira pousada no colo mal se sentou - e com uma espécie de inquietação que, apesar de relativamente discreta, tinha um potencial enorme de se tornar irritante.

Estávamos ainda na pista quando a Senhora do Lado Direito começou a conversar com o Rapaz do Lado Esquerdo. Claro que não entendi nada do que diziam, pois falavam em birmanês. Mas depressa me apercebi do conteúdo, quando a senhora começa a passar ao rapaz (ou seja, à minha frente) frascos de comprimidos e saquinhos com sei-lá-o-que lá dentro.

Não se calava.

Eu sorri com o insólito da coisa, os dois em amena cavaqueira e eu no meio, respirei fundo e contei até dez, "isto é só um bocadinho, eles já se calam."

Mas não.

O avião entrou na pista e não se calaram, eu peguei na revista e fingi estar a ler - e não se calaram. Comecei a abanar o passaporte, a segurar no banco à minha frente, a mexer-me e a "ocupar" o espaço entre eles para dar a sensação que estava nervoso... mas não se calaram. Prego a fundo, agora é que não consigo sair daqui, vou esperar por estarmos lá em cima e depois tenho de sair deste lugar, não posso viajar assim, com esta irritação em estéreo, são duas horas e meia, vou dar em maluco.

Não se calaram.

Ou seja: chegados a cinco mil metros, ou seja lá a que altitude estávamos, eu voltei-me para a senhora e, interrompendo o longo monólogo com um sorriso, perguntei-lhe se não queria trocar de lugar comigo.

"Não."

"Mas se calhar é mais prático trocarmos de lugar", insisti sempre a sorrir.

"Porquê?"

E aqui o sorriso diminuiu ligeiramente, mas juro que estava a achar piada à situação, por isso nunca fiz "cara feia":

"Porque estão os dois em alegre conversa, e sinceramente para mim é um bocado desconfortável estar no meio."

"Queres descansar?", perguntou o rapaz.

"Sim."

Ao que a senhora acrescentou:

"Mas uu não quero trocar de lugar."

E dito isto, o meu sorriso esmoreceu e então deixei bem claro:

"Okay, então por favor deixem-me descansar agora."

Note-se ainda que tinha passado a noite a acompanhar as eleições e o futebol, ou seja, não tinha muitas horas de sono. Estava realmente cansado.

Fechei os olhos e deixei-me relaxar. A situação tinha tanto de cómico como de trágico. Não estava especialmente irritado, apesar de ter motivos para isso. Mas estava, como se diz no Norte e como diria o Almodovar, "à beira".

Nem dois minutos passaram, quando a senhora voltou ao ataque. Primeiro a falar baixinho, o que (agora admito) começou a irritar-me. Mas não abri os olhos. Pode ser que não seja nada, pensei. Mas não era. E muito rapidamente o murmúrio deixou de ser murmúrio e lá estava ela a vender a merda dos comprimidos, desculpem-me o francês mas era assim mesmo. O rapaz praticamente nem respondia, e quando abri os olhos sorriu timidamente como que a dizer "eu não tenho culpa".

Virei para a senhora um olhar cheio de facas apontadas - e ela calou-se e fingiu que não era com ela.

Fechei os olhos - e recomeçou imediatamente a falar.

"Really?", disse eu em voz alta, já a passar-me.

"Mas porque é que não trocas com ele?", respondeu-me a Senhora do Lado Direito a apontar para o Rapaz do Lado Esquerdo.

"Eu quero ir à janela, é a primeira vez que voo, quero ver o meu Myanmar."

E eu no meio.

"A senhora é que está a falar com ele, troque comigo se quiser continuar. Senão, por favor respeite o meu espaço. Tenho duas pessoas a falar aos meus ouvidos, uma de cada lado."

E apesar de poder dar a sensação de estar irritado - e estava - a verdade é que consegui dizer isto tudo a sorrir, mais pelo insólito da conversa do que propriamente pelo espírito da coisa.

Entretanto apareceu a comida. Acabámos por conversar um bocadinho os três, enquanto comíamos. O Rapaz do Lado Esquerdo não tinha encomendado nada (paga-se à parte, claro) por isso tanto eu como a Senhora do Lado Direito partilhámos as nossas refeições com ele.

Ela até era simpática, muito educada e visivelmente feliz e apaixonada pelo que fazia. Mas vender o produto, em birmanês, aos meus ouvidos - há limites.

Finda a refeição, deixei claro que "agora quero descansar" e fechei os olhos. Calaram-se os dois, finalmente, adormeci e até sonhei, passou-se uma hora até que começo a ouvir uma música rock. Abro os olhos: tenho um telemóvel à frente da cara. É a Senhora do Lado Direito que o segura, mostrando ao Rapaz do Lado Esquerdo o filme que fez da banda rock birmanesa a actuar no jantar da empresa.

A sério?!

Devo ter-lhe feito uma cara de tal forma ameaçadora que a Senhora do Lado Direito se levantou sem dizer mais nada - e foi ter com os outros do boné branco com o logotipo. o Rapaz do Lado Esquerdo sorriu e encostou a cabeça ao banco da frente, eu fechei os olhos outra vez e deixei-me adormecer... mas por pouco tempo.

De repente, senti o ar aquecer do Lado Esquerdo, primeiro no braço e depois no pescoço. O que é isto? Abri os olhos e inspirei ao mesmo tempo, imediatamente o meu corpo sofreu uma convulsão e virei a cabeça para o Lado Direito. Oh não.

O gajo tinha-se peidado.

Mais uma vez: desculpem lá qualquer coisinha, eu nem sou de descrever nestes termos as coisas à minha volta, quem me acompanha sabe disso. Mas hoje não estava para grandes floreados.

A sério?!

E não foi uma, nem duas, nem três. Felizmente a Senhora do Lado Direito tinha ido embora e eu já tinha o corpo todo inclinado para o lugar dela, cheio de nojo do cheiro mas principalmente de sentir aquele ar quente a tocar-me.

Mas este avião nunca mais chega ao seu destino?!

Quantas horas passaram desde que saímos de Kuala Lumpur? Uma e meia? Sete? Oito? Duzentas?!

Deixem-me sair daqui. E entretanto a Senhora do Lado Direito voltou e tive de corrigir a postura, mas felizmente o ar tinha arrefecido e assim permaneceu. Pouco depois o Rapaz do Lado Esquerdo pediu desculpa, deixem-me passar, preciso de ir à casa-de-banho.

Ai precisas, precisas.

E pouco mais aconteceu. Mal voltou da casa-de-banho anunciaram que estávamos a chegar a Yangon, não-sei-quê dos cintos, não-sei-quê dos aparelhos electrónicos, não-sei-quê dos tabuleiros, o costume.

Isto do tempo é uma coisa muito relativa. Às vezes duas horas custam muito mais a passar do que seis. Vá-se lá entender ;)

Ou como me disseram no outro dia:

"Os anos passam a correr. O pior são os dias."

06/09/2014

UMA NOITE NA ESTRADA

Passa do lado de fora a paisagem escura, iluminada apenas pela lua, a quatro ou cinco dias de estar cheia, e pelos faróis do autocarro onde viajo. Parti de Denizli às dez da noite, como previsto. O destino: Goreme, no coração da Capadócia, onde deveríamos chegar às oito da manhã.

Estávamos - eu e o grupo da Nomad que me acompanha - prontos para uma noite santa, depois de um dia inteiro a passear nas varandas de cálcio em Pamukkale; bem como nas ruínas romanas de Hierapolis, mesmo por cima dessa paisagem tão branca que parece neve (mas não é).

Mal cheguei ao meu lugar, percebi que esta ia ser uma daquelas viagens que merece ser recordada. Não necessariamente pelas melhores razões. Ou pelas piores. Apenas pelo "boneco" da coisa.

Sentados mesmo ao pé de mim, nos dois lugares imediatamente atrás do meu, e nos outros dois do lado oposto do corredor, estavam quatro elementos da mesma família, pai mãe filho filha. O pai parecia que vinha anestesiado, sempre a olhar para o infinito e com uma ligadura á volta da cabeça que parecia uma daquelas fitas de desporto dos anos 80, mas em branco. As crianças, de dois e quatro anos, prometiam uma noite de birras e correrias... mas não sei se a mãe as sedou ou de que estranhos truques se fez valer, porque pouco depois de arrancarmos, acalmaram. Nesta paisagem tudo aparentemente pouco digno de nota, não fosse o stress da mãe. Na primeira hora de viagem não parou de chamar o assistente de bordo - sim, há nos autocarros turcos um assistente de bordo - a refilar com tudo e mais alguma coisa, mandando recados que o rapaz levava ao driver, para depois voltar com a resposta. Não consegui entender o que tanto a irritava, mas a verdade é que parecia indignada com qualquer coisa, ainda pensei que teria sido obrigada a viajar com as crianças ao colo para dar lugar a passageiros extra, mas nada disso. Os miúdos tinham, cada um, o seu lugar.

O assistente de bordo, por sua vez, era outro filme. Meio-totó, passou a noite a cumprir tarefas incompreensíveis a olho nu. Desde usar uma luva de plástico na mão direita para servir os copos de plástico com a mão esquerda (com os dedos dentro dos copos), a demorar-se meia hora a preparar o carrinho com os snacks e as bebidas, para depois servir apenas três ou quatro filas e "fechar a loja", ou então a dar um telefone a duas pessoas do meu grupo, acordando-as do seu sono conseguido a custo - mas um telefone que não era deles, e que acabou devolvido ao próprio assistente, sem que ele tentasse saber de quem era realmente o telefone. Enfim, o rapaz era muito estranho, "fazia caras" quando o chamavam, tanto sorria imenso como soprava balões.

Mas voltando à família sentada atrás de mim: era uma família meio-ganzada, meio-chanfrada. Deram trabalho a quem trabalha, seja lá como for que trabalha, chatearam q.b. mas depois calaram-se e quase não se deu por eles até saírem, às seis da manhã.

E que bom que foi, quando saíram. Porque conquistei imediatamente dois dos seus lugares. Mas dessa corajosa movimentação falamos daqui-a-nada. Voltemos, por algumas linhas, ao momento da partida.

Acabei de entrar no autocarro. O grupo sentou-se nos lugares designados, e eu no meu. Sentado à janela, no lugar mesmo ao meu lado, viajava um velhote a dormir. Mas estaria mesmo a dormir? O senhor não se mexia, parecia já falecido. E o pior é que ocupava 110% do seu lugar - ou seja, 10% do meu. Não é muito, eu sei - mas é aquele bocadinho que uma pessoa não apetece chatear, para não ser "chatinho", mas que nos obriga a encolher um-tanto-ou-quanto, para depois tentar conquistar aos poucos aquilo que é nosso por direito, à medida que ficamos impacientes com o ligeiro desconforto.

O autocarro partiu, Turquia fora, pela noite dentro.

O meu lugar era incrivelmente curto, não só pelos 10% que me faltavam no lado direito, mas porque o banco à minha frente estava muito perto. Muito mesmo. Joelhos encostados ao banco da frente. Como na Iberia.

Ao fim de quarenta minutos parámos e, ao sair para tomar ar, apercebi-me que havia lugares estupidamente largos, outros mais "normais", alguns mais apertados. Quem desenhou o autocarro, ou quem o montou, esqueceu-se de uniformizar a distância entre bancos - e assim era uma questão de sorte (ou azar, no meu caso) o espaço que cada um tinha para as pernas.

Sabendo isto, fui a sofrer o resto da viagem.

Dormi pouco - e o pouco que dormi foi sendo interrompido pelas paragens que o autocarro fazia, ou porque as luzes acendiam para isto-ou-aquilo... ou porque, finalmente, às seis da manhã, a família ganzada-stressada saiu. E eu saltei de um banco para o outro. Que maravilha. E depois dormi a melhor hora e meia de sono, nesta noite.

Mas voltando ao senhor dos 110%, sentado a meu lado.

Por momentos especulou-se acerca do estado do homem. Estaria morto ou vivo? Ou algures in between? É que não mexia uma palha. Mas rapidamente me apercebi que o senhor estava vivo. Bem vivo - mas não muito famoso no que respeita ao intestino, derivado ao cheiro. ;)

A sério. Aquele momento em que, no escuro de uma viagem nocturna sentes o velhote ao teu lado a mexer-se, só alguns milímetros, muito ligeiramente... e depois um calorzinho no ar, acompanhado do cheiro de um pei... o quê?!

Sim: uma bufa.

E alguns minutos depois: outra.

E mais outra.

E mais vale sacar do tiger balm da mochila, aplicar um bocadinho debaixo do nariz e deixar actuar.

Dormi - ou tentei dormir - a noite toda virado para o corredor. E assim se justifica o facto de ter saltado do meu lugar para os outros, mal saiu a família ganzada/stressada.

01/09/2014

OS COLEGAS

Ontem à noite estava em "arrumações" no telefone, organizando algumas notas de viagem, recados e lembretes que tinha um bocado "ao molho" - quando encontrei uma nota chamada "Os Colegas".

Começava com a seguinte frase:

"Novo tema no blog dedicado aos companheiros de viagem em aviões, autocarros, comboios, etc."

E depois prosseguia com a descrição de duas situações vividas nos voos que fizera nessa quarta-feira de Julho, quando regressei a Portugal depois de mais um Transiberiano com a Nomad e das rápidas passagens por Macau, Hong Kong e Siem Reap.

Situação 1 (voo Siem Reap - Kuala Lumpur):

A primeira história referia-se a um chinês que vinha no mesmo voo que eu para a Malásia. Viajava, como eu, sozinho - e era daqueles "cromos" que mete conversa com toda a gente, que sorri imenso (demasiado?) e está sempre à procura de uma desculpa para aprofundar os novos conhecimentos.

Ora eu normalmente até sou uma pessoa sociável, gosto de fazer novos amigos, sou curioso, interesso-me por histórias. Às vezes. Porque tem dias que não estou muito para aí virado, admito. Não apetece. Não tenho paciência. Quero estar no meu cantinho, sozinho. E neste meu regresso a casa, que prometia demorar umas oitocentas e noventa e três horas, confesso que não estava para grandes conversas.

Pode ser?

Mas o senhor não sabia disso. O senhor sentou-se na mesma fila que eu, com um lugar vazio entre os dois - ora que sorte, hem? -, e até tentou uma ou duas ou três abordagens, mas eu respondi sempre com respostas curtas e sorrisos frios. E apesar de termos trocado as saudações normais de quem vai viajar junto, apesar de até ter respondido a esta e aquela pergunta... a verdade é que deixei que o meu olhar se perdesse na paisagem do lado de fora da janela e, sem grandes cerimónias, acabei por frustrar qualquer tentativa de socialização do lado de dentro do avião.

Assim sendo, o senhor voltou-se para outras pessoas.

Apesar de ter dormido a viagem quase toda, apercebi-me que o senhor levantou-se e sentou-se uma série de vezes. Ouvi-o a falar com este e aquele, a rir e a espantar-se com alguma coisa - não me interessou o suficiente para abrir os olhos, por isso não dei por nada.

Mas quando chegámos ao fim do voo, quando finalmente o avião aterrou e pudemos desapertar os cintos e tirar as malas dos compartimentos em cima das nossas cabeças - então começou um rol imenso de despedidas e votos de muita saúde, boa sorte, boa viagem, etc.

"As melhoras para a sua tia!"

"Divirta-se no festival!"

"Não pense mais nisso, vai ver que tudo se resolve."

O senhor estava íntimo de metade do avião. Imagino quantos amigos terá no facebook. ;)

Situação 2 (voo Istambul - Lisboa):

Enquanto esperava para embarcar no último voo desta longa epopeia de regresso a casa, sentou-se quase-quase ao meu lado uma senhora (portuguesa, penso eu) que não arava de tossir.

Eu nem sou muito paranóico com as doenças e os vírus de que se ouve falar por aí - mas à 79ª vez em seis minutos de convivência no mesmo espaço, confesso que comecei a sentir-me um bocado incomodado.

Ainda apanho qualquer coisa.

Resisti a levantar-me durante algum tempo, mas o incómodo era tal que não tive alternativa. Fingi que tinha uma coisa importantíssima a fazer algures longe dali, qual Clark Kent à procura de uma cabine telefónica onde se despir para depois sair a voar e salvar o Mundo... acho que tive sucesso.

Quando começou o embarque deixei que a maioria das pessoas entrasse. Não gosto de ficar em pé na fila, normalmente deixo-me sentado e entro mais para o final. E quando finalmente me levantei do meu novo lugar para ir para o avião, meti-me na fila e senti que alguém também se tinha posicionado atrás de mim.

Cof-cof-cof.

Não pode ser.

Cof-cof-cof.

É ela. Reconheço-a pelos três cofs.

Que nervos.

Cof-cof-cof.

E eu a olhar para o infinito, para o lado oposto da senhora, a tentar não respirar.

Cartão de embarque, passaporte, 'bora lá. Atravessei o corredor em passos largos, entrei no avião e pedi aos santinhos todos, aos anjos e arcanjos, aos deuses hindus e aos filósofos chineses: por favor, que a senhora do cof-cof-cof não se sente ao meu lado.

Tive sorte, calhou-me na rifa um velhote que veio a dormir o tempo todo.

03/07/2014

ONDE É QUE ESTÁ O BOTÃO DO EJECT?

Portanto: adeus, Pequim - até à próxima.

Da guesthouse ao aeroporto foi um instante - viajei numa espécie de nostálgico turpor, sentado no banco de trás do táxi, acelerando na autoestrada vazia enquanto a cidade e as suas histórias ficavam para trás, no espaço e no tempo; o sol a nascer atrás de um horizonte de prédios em contra-luz.

Check-in. Imigração. Shuttle para o terminal. Pequeno-almoço. Embarque.

Vamos lá embora.

Próxima paragem: Macau.

Tinha pedido um lugar à janela e fui parar à fila 22, que é lugar junto à saída de emergência - mais espaço para as pernas, que bom - mas o único que não tinha janela. Estive quase-quase para protestar com a hospedeira, mas acabei por me resignar. O voo: quase-cheio. As probabilidades de conseguir mudar: quase-nulas. E para ser muito sincero, queria mais dormir que ver as vistas. Assim sendo: toca a esticar as pernas porque enquanto o avião cruzar os céus, eu cruzo sonhos.

Fecho os olhos, respiro fundo, deixo o corpo e mente repousar, sempre são quatro horas de viagem até Mac... mas que chinfrineira é esta?

O Bêbado

Abro os olhos. Endireito-me no lugar, olho para trás com olhos de mas-o-que-vem-a-ser-isto. Um chinês de meia-idade e barriga-e-meia fala como um actor num palco, como se os passageiros das filas à volta fossem o público. O que, de certa forma, acaba por ser verdade. Só falta o holofote. Enrola o mandarim mais do que já se enrola quando se está sóbrio, senta-se e levanta-se, levanta-se e senta-se, ri e boceja em alto som, os dentes cheios de boca, os anéis cheios de dedos, e a hospedeira manda sentar, e a hospedeira manda estar sossegado, e a hospedeira vai ter com ele quando toca no botão-de-chamar-a-hospedeira, não entendo nada do que lhe diz, mas percebo muito bem. Ela vai embora, ele volta a carregar no botão-de-chamar-a-hospedeira. Mais duas, três, quatro vezes. Que triste coreografia.

O avião está pronto para sair há meia hora, mas estamos "à espera de vez".

O Mauzão

Sentada ao meu lado está uma senhora nervosíssima. Olha para o espelho, olha para as unhas, olha para as luzinhas acesas do no-smoking, olha para as luzinahs acesas do exit, olha para mim e desvia e foge, olha para o marido e agarra-se ao braço dele. Ele não reage, é de uma frieza inabalável, de vilão de filme de karaté, de quem não tem paciência para estas mariquices. Mauzão.

O telefone não pára de tocar. O Mauzão atende e fala como se estivesse no restaurante a comer um pato à pequim depois de ter despachado dois ou três inimigos. Atende, apesar de estarmos já a avançar para a pista (finalmente!), apesar da hospedeira ter mandado desligar o telefone várias vezes. Quero-lá-saber. Atende em alto e bom som, não tão alto quanto o bêbado atrás de nós, mas alto. Depois desliga. Depois atende. Depois desliga. Outra coreografia a juntar à do Bêbado e da hospedeira. Que bailado este, patrocinado pela Air Macau.

O Dorminhoco

Na fila à minha frente, um passageiro decide deitar-se ao longo dos bancos que tem vazios, ao lado. A hospedeira vem dizer-lhe que enquanto estivermos a descolar, tem que ir sentado e de cinto apertado. Não tem descanso, a sorridente rapariga. Mais tarde pode deitar-se, diz-lhe. Ou acho que diz. Ele faz-se de parvo, ou é mesmo parvo, finge não entender, dá voltas à almofada mas a hospedeira acaba por dar-lhe a volta a ele. Senta-se. E mal ela se afasta, volta a deitar-se.

A Criança

Uma voz anuncia que vamos finalmente levantar voo. O Bêbado da fila de trás arrota em aprovação, o ar enche-se de um perfume triste e a senhora ao meu lado segura-se com mais força ao braço livre do Mauzão, que ainda está ao telefone. Nem olha para ela. Na fila em frente, do outro lado do corredor, uma Criança com trinta-e-tal anos abraça-se a um urso de peluche castanho, diz-lhe ao ouvido para não ter medo, que tudo vai correr bem. Pouco depois adormece. Ela.

Onde é que eu estou? Que lugar é este - este momento, isto existe mesmo ou estarei a sonhar?

Ainda nem levantámos voo e já estou à procura do botão do eject.

Primeiro que consiga alguma paz de espírito para dormir - ainda vai demorar um bocadinho. Tenho que me adaptar a esta paisagem à minha volta. Mas como? Agora as paredes tremem e um barulho surdo toma conta do espaço todo, há dedos a apertar braços, dentes cerrados e pessoas ao telefone. Uns nervosos, outros ansiosos, há quem não dê por isso, tanto-faz.

Uma omolete

Acabo por adormecer, mas não por muito tempo. Acordo com o aroma quente das refeições que estão a ser servidas. Omolete ou noodles com carne? Escolho a opção mais amarela, em homenagem ao sorriso do Bêbado. A mulher ao meu lado olha para o Mauzão, ele faz-lhe sinal que não e ela recusa a refeição. Pouco depois há-de tirar umas salsichas da mala e oferecer ao marido.

Ponho os phones nos ouvidos, mesmo assim não consigo deixar de ouvir o Bêbado. Felizmente, por pouco tempo. Depois de sacar-de-uma-escarra (não sei o que fez com ela, entrei automaticamente em estado zen para me abstrair de tanta informação), descalçou-se e esticou-se ao comprido nos três lugares que tinha disponíveis. E a minha fila cheia. De repente o ar encheu-se de um ambiente de quarto fechado.

A sério: onde é que está o botão de eject. Aquele botão que os pilotos têm quando o avião é atingido pelo inimigo, é só carregar e somos imediatamente lançados, ainda sentados na cadeira, e depois abre-se um para-quedas e tudo acaba em bem, a não ser que o inimigo esteja à espera no solo. Mas eu quero lá saber do inimigo. Eu quero é sair daqui para fora. Onde é que está o botão do eject?

A viagem prossegue dentro da normalidade possível. Eu vou tirando notas mentais até que a informação é tanta que saco do telefone e escrevo algumas coisas, não vá o diabo tecê-las e esquecer-me. Só a mim. Volto a adormecer. Acordo com alguém a abanar-me os ombros, é a hospedeira a avisar-me que tenho de endireitar o banco, desligar o telefone, a rotina do costume. Obedeço, sou um bom rapaz, porquê dificultar o trabalho à rapariga, ainda por cima com um sorriso tão vermelho e tão giro.

Ao meu lado, a senhora segura nas mãos do Mauzão, mas desta vez por razões diferentes. Vejo palitos partidos no chão, que ela vai atirando à medida que deixam de ter utilidade. E o bocado que segura agora está a ser muito útil para limpar as unhas ao marido. A sério.

A Criança do urso de peluche continua abraçada ao próprio. Tem os braços cheios de nódoas negras - ela, não o urso. Há com cada pancada.

O Bêbado já acordou e decidiu que era uma boa altura para cantar. Canta.

O Dorminhoco também já está sentado, decidiu que era uma boa altura para aderir ao cartão das milhas da Air Macau e pediu ajuda à hospedeira, porque não sabe ler e escrever, ou porque não tem os óculos com ele, ou porque não tem paciência, ou pura e simplesmente porque acha que a hospedeira é que tem de fazer aquilo. Ela está sentada ao lado dele a escrever as informações que ele vai ditando. Que filme.

O avião aterra. Ainda na pista e já estão telefones a tocar. O Mauzão atende logo e manda despachar dois ou três gajos. Só falta a cena do polegar-para-baixo. O Dorminhoco levanta-se e abre o compartimento em cima, tira a mochila e ouve logo com a hospedeira histérica a mandar sentar, por motivos de segurança, blá blá, ele senta-se mas fica o compartimento em cima aberto, os outros passageiros agachados com medo que as malas lhes caiam em cima da cabeça. Ainda estamos na pista, a travar.

O avião pára onde tem de parar. A viagem acabou. Que filme, este. A China toda materializa-se por milagre no corredor entre as filas de bancos. Que pressa esta, que as pessoas têm de sair dos aviões, não é só na China, e é irracional.

A mulher ajeita o colarinho ao Mauzão, que em todo este processo não lhe dirigiu a palavra uma única vez. A Criança de trinta-e-tal anos arruma o peluche dentro de um saco, antes de o fechar pede desculpas pela barbaridade do acto. Eles não nos percebem, eu e tu. Até já, ursinho lindo. O Bêbado acalmou, curiosamente. Já nem o vejo, para ser sincero, deve ter furado a fila para ser o primeiro a sair do avião, dizem que há setenta e duas virgens à saída para o primeiro, só isso pode explicar a pressa. E daí: nunca entendi muito bem a cena das setenta e duas virgens. Mas isso são outras discussões.

Saio do avião e vejo um cartaz enorme que diz "Bem-vindos a Macau". Em português.