Ontem acordei com a notícia triste do incêndio que lavrava descontroladamente, há mais de 24 horas, em Valparaíso.
Esta cidade chilena que é reconhecida pela UNESCO como Património da Humanidade foi uma das paragens no meu roteiro de viagem, na aventura de três meses que fiz há um ano na América do Sul - e foi um dos lugares mais coloridos que já visitei.
Daí o choque, ao ver as fotografias publicadas pelos jornais, todas pintadas de fogo e negro. Um lugar tão feliz, que canta as cores do arco-íris, que grita o seu amor em cada parede. Uma cidade-poema. Que tragédia.
Curiosamente: apesar de só ter escrito sobre este passeio em Junho, completa-se agora um ano do dia em que visitei Valparaíso. Dezasseis de abril.
Lembro então dois posts que publiquei a propósito deste passeio, e que são como declarações de amor a este muito especial cantinho do mundo:
Ode a Valparaíso (Pablo Neruda)
Um colorido sobe-e-desce
Que passe rápido, Valpa. E que recuperes depressa o teu sorriso colorido, esse amor que tens à vida e à sua celebração.
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15/04/2014
04/07/2013
03/07/2013
O DIA EM QUE A MINHA CÂMARA FALECEU
Nem sei por onde começar o post de hoje. Como já devem ter percebido, o tema não é dos mais felizes.
O segundo dia de passeio na Bolívia foi o último da minha máquina fotográfica, depois de dois intensos anos
partilhando comigo horizontes e sorrisos. Apagou-se.
Ultimamente já andava a "queixar-se", fosse porque
tinha algumas dificuldades a focar, ou porque a objectiva estava suja, ou porque
às vezes faltavam-lhe as forças e desligava-se sozinha. Foram muitos lugares
e momentos, muitas sensações e enquadramentos. Esta coisa de andar sempre às voltas implica muita
rodagem, muita resistência, muito desgaste.
E a queda de ontem, ao fim da tarde, naquele lugar que só
existe nos sonhos... deu em pesadelo.
Comecei a manhã com uma sensação estranha, que não conseguia
nem consigo explicar muito bem. Tinha tomado o chá de coca e uma aspirina, bebi café e coca-cola,
masquei umas folhas para ver se passava... mas havia uma fraqueza, uma espécie
de tontura. Parecia que estava dentro de uma bolha e o mundo à minha volta
aparecia meio desfocado, os sons muito ao longe. Anunciei ao Bunty e às nossas
companheiras de viagem que me estava a sentir esquisito, mas que estava bem - e sentei-me à janela. Apesar do ambiente dentro do carro ser de gargalhadas e música, para mim tudo
era longínquo e fiz pouco mais do que perder-me na paisagem. Tirei algumas fotografias. Não me sentia
mal. Sentia-me estranho.
Parámos aqui e ali, passeei um pouco na
esperança que isto tudo passasse, mas durante quase toda a manhã estive longe. Até quando chegámos ao ponto mais alto deste passeio - e o lugar a maior altitude onde já estive, acima dos cinco mil metros! - fiz pouco mais do que olhar à volta, respirar fundo, sorrir e agradecer aos santinhos e aos deuses o facto de estar aqui.
E quando pouco depois a bolha rebentou e eu senti -
fisicamente, juro - que estava de volta, sorri e disse em boa voz que estava
tudo bem:
"I'm back!"
Mas este meu regresso coincidiu com uma perda. Estava a preparar uma foto de grupo:
"Sentem-se aí nessa rocha... mais perto... olhó
passarinho..."
E click.
O click final. A imagem: em preto.
Exactamente. Este espaço entre a última linha e esta... é a
última foto da minha câmara. Depois disso, um aviso em inglês. Desliguei e
liguei várias vezes. Carreguei-a de novo. Sempre a mesma coisa.
Assim sendo, e porque apesar de tudo uma máquina é só uma máquina, e coisas são coisas... as fotos de hoje são uma espécie de homenagem a esta fiel companheira. Neste post partilho algumas fotos que tirei durante a
última manhã que "passámos juntos". Eu e a minha Nex5. A partir daqui, a viagem será
documentada com as fotos que tirar com o meu iphone e com a máquina do Bunty, que
partilharemos até ao fim dos 99 dias.
02/07/2013
ANTES QUE ME ESQUEÇA
A emoção foi tanta na "Ilha de Gelo", que sem querer deixai cair a máquina fotográfica ao chão. Que susto: tal qual um padeiro de um anúncio da Benetton, ou um Al Pacino numa cena emblemática do "Scarface", ou um tailandês em dia de Songkran; a máquina ficou imediatamente coberta de uma fina camada de pó branco.
Sacudi tudo muito bem sacudido, rezei à Virgem e ao Buda e sabe-se lá a quantos deuses e santos e anjinhos... pareceu-me tudo em ordem, e que assim continue, bate na madeira três vezes.
Estava estafado e fui para a cama cedo, pouco depois de jantarmos e de beber mais um chá de coca. Amanhã é outro dia.
Sacudi tudo muito bem sacudido, rezei à Virgem e ao Buda e sabe-se lá a quantos deuses e santos e anjinhos... pareceu-me tudo em ordem, e que assim continue, bate na madeira três vezes.
Estava estafado e fui para a cama cedo, pouco depois de jantarmos e de beber mais um chá de coca. Amanhã é outro dia.
SAI UMAS FOLHAS DE COCA FRESQUINHAS!
Não sei se foi da altitude ou se da paisagem à minha volta,
mas cheguei ao fim da tarde cheio de dores de cabeça. Também pode ter sido das
nuvens. Bem que o Juan nos avisou para não ficarmos muito tempo lá dentro.
Parámos junto a umas casas muito humildes, com vista para um
lago - e o Juan indicou-nos um quarto cheio de tigres, onde arrumámos as
mochilas. As miúdas foram passear até à beira do lago, eu atirei-me para cima
da cama com vontade de desligar o mundo à minha volta. A cabeça latejava ao
ritmo de uma festa trance.
Quando pensava que não ia conseguir aguentar nem mais um
minuto, o Juan apareceu e perguntou-me se estava a sentir-me mal. O que é que
parece? Receitou-me então umas folhas de coca - juntei três ou quatro e
tirei-lhes o caule central, depois dobrei-as em quatro e "arrumei-as"
entre a gengiva e a bochecha. À medida que o sumo semi-amargo se ia espalhando
na boca, engoli-o e, como que por magia, pouco depois já não sentia quase dores
nenhumas. Incrível.
Ainda bebi muita água e um chá, comi umas bolachas e descansei
meia hora - e depois desafiei o Bunty a vir ao lago. As nossas companheiras
estavam de volta, algumas cansadas, outras com dores de cabeça, outras não
sentiam nada de especial e já estavam a beber cervejas com outros grupos.
Saímos para a rua, então. Atravessámos a estrada e
caminhámos pela margem até uma ilha branca, que os nativos chamam "Ilha de Gelo" mas que na verdade é de sal. O contraste entre o branco do chão, o
rosa da água e o azul do céu era simplesmente arrebatador.
E com imagens como as que se seguem, não tenho mais nada a
acrescentar ;)
01/07/2013
O LUGAR ONDE NASCEM AS NUVENS
Como sabem, o relato desta aventura acontece... a uma
distância de segurança, chamemos-lhe assim. Vontades, contrariedades e
eventualidades ditaram que se estabelecesse um intervalo entre a
"realidade" e o "relato" - mas isso a mim pouco me
interessa. Desde que conte o que tenho a contar.
Se por um lado faço um esforço para que o relógio e o mapa
não influenciem o fervor das palavras e sentimentos que partilho, a verdade é
que há lugares tão únicos e momentos tão especiais, que às vezes duvido se
foram vividos ou sonhados.
Estes dias a caminho de Uyuni, por exemplo. Se não fossem as
notas de viagem e as fotografias guardadas no computador. Quem diria.
Entre adormecidos vulcões e viva neve ao fundo, um céu impossível
de acreditar de tão azul e tão limpo, uma paisagem pindérica de tantas cores e
padrões, e lagos serenos com pacatos flamingos... avançámos até ao lugar onde
nascem as nuvens.
Mais um geyser, dizem
já os cépticos - mas os cépticos provavelmente nunca aqui estiveram. Eu estive.
Eu, o Bunty e o internacional quarteto de divertidas e giras estrangeiras. Este
lugar: aqui é onde nascem as nuvens.
Dentro do carro, ainda ao longe, apercebemo-nos que havia naquele
vale qualquer coisa de especial - uma espessa nuvem branca a contrastar com as
cores vivas da terra e do céu, libertando-se do chão como fumo de nargilé. Ao
perto, depois dos inevitáveis "não se demorem mais do que não-sei-quantos
minutos, por causa dos gases", "cuidado onde põem os pés" e
outros avisos, descobrimos então que estávamos num lugar só possível em contos
e fábulas.
Aqui nascem as nuvens, garanto-vos.
Não há fábricas, não há operários, não há talentosos artesãos
nem mágicos duendes. Não há truques. É a natureza. Com lama a borbulhar e gases
mal-cheirosos, altas temperaturas e altitudes pouco amigas. Aqui, algures onde
quase nem se dá por isso, neste fim-de-mundo há vapores e cheiros e calores, e
lá se vão elas para o céu, as nuvens, brancas e gordas, vão ali tapar o sol,
vão ali chover e trovejar, fazer aquelas coisas que as nuvens fazem.
OS PRIMEIROS UAUS
Estou sem palavras para descrever o horizonte, tudo o que eu
vejo do lado de fora da janela, tudo o que sinto neste primeiro dia de uaus e clicks. Mas vou fazer um esforço, prometo.
Enquanto procuro palavras e organizo ideias, deixo-vos as
primeiras fotos do passeio:
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