"São excelentes exemplos de soluções
corajosas e engenhosas para o problema de estabelecimento de
caminhos-de-ferro em terrenos montanhosos e tão acidentados", argumentou a UNESCO quando atribuiu o título de Património da Humanidade a três das cinco linhas férreas de montanha construídas na Índia no final do séc. XIX.
A primeira a merecer o reconhecimento da UNESCO foi a Darjeeling Himalayan Railway, em 1999. Construída entre 1879 e 1881, tem treze estações ao longo de setenta e oito quilómetros; e liga a estação de New Jalpaiguri (a 100m de altitude) à de Darjeeling (a 2.200m). Experimentei-a em 2011, mas apenas de Kurseong a Darjeeling, porque parte da linha estava fechada, devido a uma enchurrada.
Em 2005 a distinção de Património da Humanidade alargou-se também à Nilgiri Mountain Railway, inaugurada pelos britânicos em 1908 e que ainda opera locomotivas a vapor. A linha tem ao todo quarenta e dois quilómetros e faz cento e oito curvas, passando por dezasseis túneis e duzenas e cinquenta (!) pontes. É um passeio que recomendo vivamente a quem esteja por perto. A paisagem é deliciosa, o comboio muito giro, e concerteza que vão conhecer gente interessante. Eu fiz o percurso Ooty - Coonor em 2005 e fiquei rendido.
Finalmente, em 2008, a linha Kalka-Shimla teve também direito a ser Património Mundial: com quase cem quilómetros, liga Kalka (650m) a Shimla (2.075m), a antiga capital de Verão da Índia, durante a ocupação britânica. Tem 919 curvas, 102 túneis e 864 pontes. Foi inaugurada pelo vicerei da Índia Lord Curzon em 1891 e há uma história comovente relativa à sua construção:
O senhor engenheiro Barog, responsável pela construção do maior túnel desta linha, aparentemente fez mal as contas quando mandou escavar o túnel, primeiro de um lado da montanha, depois do outro... pois as duas metades não estavam alinhadas. Foi multado simbolicamente em apenas uma rupia, mas não conseguiu viver com a vergonha e acabou por se suicidar dentro do túnel. Mais tarde, o engenheiro Herlington acabou por concluir a obra, com a ajuda de um sadhu chamado Bhalku, e deu ao túnel o nome do seu antecessor.
Mas histórias à parte: a viagem é um espectáculo, e recomendo-a também. Viajei nesta linha em 2007, descendo de Shimla ao final da tarde, e foi um passeio inesquecível, serpenteado pelos Himalaias.
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07/08/2015
06/08/2015
GRUTAS DE AJANTA
Vinte e oito de abril de 1819.
Seguia o oficial britânico John Smith com um grupo numa expedição de caça, à procura de tigres, quando deram de caras com um grupo de ascetas acampados na floresta, em volta de uma fogueira. Junto a eles encontraram um trilho que seguia em direcção a uma gruta - e movido pela curiosidade, John Smith não resistiu a entrar lá dentro.
Aquilo que encontrou deixou-o sem palavras. Dentro da gruta havia um antigo templo budista com as paredes e pilares cobertos de pinturas com personagens da Jataka (a literatura que conta as vidas passadas do Buda, seja em forma humana ou animal).
Sem pensar duas vezes, John Smith agarrou uma faca e cravou o seu nome e a data numa das pinturas.
Este é um daqueles pormenores que os guias indicam aos turistas, na visita às grutas: a um canto num dos pilares... a assinatura de John Smith. Felizmente, o vandalismo do senhor não foi mais além da assinatura - pelo menos que se saiba - e agora é possível visitar em Ajanta três dezenas de grutas escavadas nas rochas, todas riquíssimas em esculturas e pinturas.
As grutas de Ajanta são um grupo de mosteiros, templos e colégios budistas, a cerca de cem quilómetros de Aurangabad, que foram construídos em duas fases: uns no século II AC; os outros, no século V... já depois de Cristo, portanto, durante o chamado "período Gupta". As pinturas e os frescos nas suas parede são hoje aclamados como o melhor exemplo de arte indiana ancestral, numa representação da arte religiosa budista que só encontra parecenças em Sigiriya, no Sri Lanka.
As grutas foram escavadas num penhasco que fica no lado sul de um desfiladeiro, ao longo de um rio chamado Waghur - e são Património da Humanidade desde 1983, tal como Ellora. Recebem quase meio milhão de turistas por ano.
Seguia o oficial britânico John Smith com um grupo numa expedição de caça, à procura de tigres, quando deram de caras com um grupo de ascetas acampados na floresta, em volta de uma fogueira. Junto a eles encontraram um trilho que seguia em direcção a uma gruta - e movido pela curiosidade, John Smith não resistiu a entrar lá dentro.
Aquilo que encontrou deixou-o sem palavras. Dentro da gruta havia um antigo templo budista com as paredes e pilares cobertos de pinturas com personagens da Jataka (a literatura que conta as vidas passadas do Buda, seja em forma humana ou animal).
Sem pensar duas vezes, John Smith agarrou uma faca e cravou o seu nome e a data numa das pinturas.
Este é um daqueles pormenores que os guias indicam aos turistas, na visita às grutas: a um canto num dos pilares... a assinatura de John Smith. Felizmente, o vandalismo do senhor não foi mais além da assinatura - pelo menos que se saiba - e agora é possível visitar em Ajanta três dezenas de grutas escavadas nas rochas, todas riquíssimas em esculturas e pinturas.
As grutas de Ajanta são um grupo de mosteiros, templos e colégios budistas, a cerca de cem quilómetros de Aurangabad, que foram construídos em duas fases: uns no século II AC; os outros, no século V... já depois de Cristo, portanto, durante o chamado "período Gupta". As pinturas e os frescos nas suas parede são hoje aclamados como o melhor exemplo de arte indiana ancestral, numa representação da arte religiosa budista que só encontra parecenças em Sigiriya, no Sri Lanka.
As grutas foram escavadas num penhasco que fica no lado sul de um desfiladeiro, ao longo de um rio chamado Waghur - e são Património da Humanidade desde 1983, tal como Ellora. Recebem quase meio milhão de turistas por ano.
GRUTAS DE ELLORA
Esculpidos nas enormes formações rochosas de Charanandri - uma montanha de basalto a 30km de Aurangabad, no estado do Maharashtra - os 34 templos e conventos de Ellora são um exemplo ímpar da arquitectura antiga indiana dos séculos V ao X.
As grutas de Ellora estão inscritas na lista do Património da Humanidade da UNESCO desde 1983 e são uma das mais impressionantes atracções turísticas da Índia, que remetem para um ambiente "à Indiana Jones".
A gruta 16, por exemplo - conhecida por Templo de Kailasa - demorou cem anos a fazer e tem o dobro do tamanho do Partenon, em Atenas. É a maior escavação monolítica do mundo, ou seja, um templo esculpido em apenas uma rocha! Durante a sua construção, foi preciso remover duzentas mil toneladas de pedra! Este templo representa o Monte Kailash, a morada do deus Shiva, e é uma visão inesquecível - diria mesmo arrepiante! - seja pelas suas dimensões, ou pelo detalhe e riqueza de pormenor em todas as esculturas. A base, que contém dezenas de elefantes em tamanho real, foi feita de forma a dar a sensação que os animais estão a segurar toda a estrutura. Impressionante.
Mas, como disse antes, há ao todo trinta e quatro "grutas". Doze são budistas, dezassete hindus e cinco jain - a prova de que, neste período da História, as religiões conviviam em harmonia.
As grutas de Ellora estão inscritas na lista do Património da Humanidade da UNESCO desde 1983 e são uma das mais impressionantes atracções turísticas da Índia, que remetem para um ambiente "à Indiana Jones".
A gruta 16, por exemplo - conhecida por Templo de Kailasa - demorou cem anos a fazer e tem o dobro do tamanho do Partenon, em Atenas. É a maior escavação monolítica do mundo, ou seja, um templo esculpido em apenas uma rocha! Durante a sua construção, foi preciso remover duzentas mil toneladas de pedra! Este templo representa o Monte Kailash, a morada do deus Shiva, e é uma visão inesquecível - diria mesmo arrepiante! - seja pelas suas dimensões, ou pelo detalhe e riqueza de pormenor em todas as esculturas. A base, que contém dezenas de elefantes em tamanho real, foi feita de forma a dar a sensação que os animais estão a segurar toda a estrutura. Impressionante.
Mas, como disse antes, há ao todo trinta e quatro "grutas". Doze são budistas, dezassete hindus e cinco jain - a prova de que, neste período da História, as religiões conviviam em harmonia.
05/08/2015
ABRIGOS DE BHIMBETKA
Inscritos na lista da UNESCO desde 2003, os abrigos na rocha de Bhimbetka são um dos lugares mais surpreendentes que já visitei na Índia.
Bhimbetka fica numa área de floresta a 45km de Bhopal e contém um grupo de catorze abrigos na rocha que guardam alguma da melhor arte pré-histórica do mundo. São quatro centenas de pinturas que datam do período Mesolítico e exploram temas como a caça e a dança, ritos religiosos, nascimentos e enterros. São os mais antigos registos de vida humana na Índia, feitos com gordura animal, carvão e outros minerais.
As pinturas foram descobertas em 1957 pelo arquólogo indiano Vishnu Shridhar Wakankar. Estudos posteriores revelaram que o lugar foi testemunha de uma sequência contínua de culturas da Idade da Pedra. A maior parte das inscrições tem quase dez mil anos!
Já não me lembro a que propósito é que vim visitar Bhimbetka. Acho que li qualquer coisa no Times of India... mas, lá está, não me lembro. Do que não me esqueço foi da surpresa de me ver a vaguear - praticamente sozinho porque não vem quase ninguém aqui - entre pinturas rupestres de uma qualidade ímpar. Bisontes e leões, javalis e rinocerontes, tigres, elefantes - que variedade tão grande.
É verdade que Bhimbetka fica completamente "fora do radar". É, provavelmente, um dos mais subvalorizados Patrimónios da Humanidade na Índia. Mas vale muito a pena visitar.
Bhimbetka fica numa área de floresta a 45km de Bhopal e contém um grupo de catorze abrigos na rocha que guardam alguma da melhor arte pré-histórica do mundo. São quatro centenas de pinturas que datam do período Mesolítico e exploram temas como a caça e a dança, ritos religiosos, nascimentos e enterros. São os mais antigos registos de vida humana na Índia, feitos com gordura animal, carvão e outros minerais.
As pinturas foram descobertas em 1957 pelo arquólogo indiano Vishnu Shridhar Wakankar. Estudos posteriores revelaram que o lugar foi testemunha de uma sequência contínua de culturas da Idade da Pedra. A maior parte das inscrições tem quase dez mil anos!
Já não me lembro a que propósito é que vim visitar Bhimbetka. Acho que li qualquer coisa no Times of India... mas, lá está, não me lembro. Do que não me esqueço foi da surpresa de me ver a vaguear - praticamente sozinho porque não vem quase ninguém aqui - entre pinturas rupestres de uma qualidade ímpar. Bisontes e leões, javalis e rinocerontes, tigres, elefantes - que variedade tão grande.
É verdade que Bhimbetka fica completamente "fora do radar". É, provavelmente, um dos mais subvalorizados Patrimónios da Humanidade na Índia. Mas vale muito a pena visitar.
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