Nem sei bem o que dizer.
Tão tristes, as notícias que chegam de Kathmandu.
Que pesadelo, esta inimaginável tragédia.
A Nomad tem sido incansável ao garantir um acompanhamento contínuo do desenrolar da situação no Nepal, através de alguns contactos no terreno. Sigam o perfil @nomad_viagens no Twitter e saibam também como podem ajudar, mesmo longe.
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27/04/2015
18/05/2007
Começou ontem à tarde. Estava em Pashupati, uma zona sagrada de Kathmandu que é uma espécie de aldeia dentro da cidade, cheia de templos e sadhus a meditar, e um rio onde os nepaleses lavam os pés dos mortos antes de os cremarem.
Eu estava sentado numa espécie de varanda sobre o rio, no topo de uma colina com vista sobre toda a área. Eu e dezenas de nepaleses, e lá em baixo outras tantas centenas, ao longo das margens, nas pontes, espalhados pelos templos.
O fumo das cremações enchia o ar com um cheiro que me é difícil descrever. O cheiro a carne queimada – carne humana.
E de repente a chuva. Grossos pingos de água quente manchando a pedra do chão, primeiro timidos e ganhando confiança aos poucos. Abriguei-me debaixo de uma árvore, junto a vários nepaleses, à espera que acalmasse. Passaram cinco minutos, e outros cinco, nos degraus junto ao rio já corria uma cascata castanha. A árvore deixou de ser abrigo, chovia copiosamente sobre quem se juntara debaixo dela.
Corremos à procura de um lugar mais abrigado. Corremos devagar, porque a corrente da água no chão era tão forte que corríamos o risco de escorregar. Antes molhado que partido.
Apesar de quase cheio, ainda havia espaço num dos templos. Encharcado, sentei-me no muro a fumar um cigarro. Ao meu lado, um sadhu com rastas até à cintura e o corpo coberto de cinzas, a cara pintada de amarelo e encarnado, ouvia música através de uns headphones cor-de-laranja. Um sadhu com um MP3 novinho em folha!
Num pequeno templo mesmo ao nosso lado, um grupo de rapazes nepaleses tinha-se sentado à conversa com um sadhu, a fumar uma ganza. E mesmo à nossa frente, do outro lado do rio, começava mais uma cremação. O barulho da chuva a cair na pedra e da água a correr nos degraus abafava o choro das mulheres. Três homens faziam companhia a um cadáver cujos pés estavam mergulhados no rio. Levantaram-no devagar e levaram-no para junto da multidão. Seis fogueiras continuavam a arder, apesar da chuva. O fumo misturava-se com os pingos, o ar continuava impregnado daquele cheiro, o mesmo de Varanasi.
Ainda não parou de chover em Kathmandu. Ontem à tarde, ontem à noite, hoje de manhã e parece-me que vai ser assim o resto do dia. Troveja, de vez em quando o flash de um relâmpago ilumina o ar húmido da cidade. A electricidade é desligada entre as quatro da tarde e as oito e meia da noite. Chove, e eu vou-me embora. Daqui a dois ou três dias volto a atravessar a fronteira, de regresso à Índia.
Eu estava sentado numa espécie de varanda sobre o rio, no topo de uma colina com vista sobre toda a área. Eu e dezenas de nepaleses, e lá em baixo outras tantas centenas, ao longo das margens, nas pontes, espalhados pelos templos.
O fumo das cremações enchia o ar com um cheiro que me é difícil descrever. O cheiro a carne queimada – carne humana.
E de repente a chuva. Grossos pingos de água quente manchando a pedra do chão, primeiro timidos e ganhando confiança aos poucos. Abriguei-me debaixo de uma árvore, junto a vários nepaleses, à espera que acalmasse. Passaram cinco minutos, e outros cinco, nos degraus junto ao rio já corria uma cascata castanha. A árvore deixou de ser abrigo, chovia copiosamente sobre quem se juntara debaixo dela.
Corremos à procura de um lugar mais abrigado. Corremos devagar, porque a corrente da água no chão era tão forte que corríamos o risco de escorregar. Antes molhado que partido.
Apesar de quase cheio, ainda havia espaço num dos templos. Encharcado, sentei-me no muro a fumar um cigarro. Ao meu lado, um sadhu com rastas até à cintura e o corpo coberto de cinzas, a cara pintada de amarelo e encarnado, ouvia música através de uns headphones cor-de-laranja. Um sadhu com um MP3 novinho em folha!
Num pequeno templo mesmo ao nosso lado, um grupo de rapazes nepaleses tinha-se sentado à conversa com um sadhu, a fumar uma ganza. E mesmo à nossa frente, do outro lado do rio, começava mais uma cremação. O barulho da chuva a cair na pedra e da água a correr nos degraus abafava o choro das mulheres. Três homens faziam companhia a um cadáver cujos pés estavam mergulhados no rio. Levantaram-no devagar e levaram-no para junto da multidão. Seis fogueiras continuavam a arder, apesar da chuva. O fumo misturava-se com os pingos, o ar continuava impregnado daquele cheiro, o mesmo de Varanasi.
Ainda não parou de chover em Kathmandu. Ontem à tarde, ontem à noite, hoje de manhã e parece-me que vai ser assim o resto do dia. Troveja, de vez em quando o flash de um relâmpago ilumina o ar húmido da cidade. A electricidade é desligada entre as quatro da tarde e as oito e meia da noite. Chove, e eu vou-me embora. Daqui a dois ou três dias volto a atravessar a fronteira, de regresso à Índia.
17/05/2007
16/05/2007
WHY LIKE THIS?
O André e a Inês foram embora hoje de madrugada. Vieram despedir-se ao meu quarto, mas eu estava ferrado e não me lembro de quase nada. Eram cinco da manhã, acho. Voaram para Delhi, daqui a dois dias voltam para Portugal. Eu por cá fico, mais algum tempo, até novo reencontro em Lisboa.
Então poderemos lembrar, mais uma vez, os dias loucos desta aventura a três. O fim de tarde no Nine Bar, o nosso amigo canibal, as conversas em Português nas ruas de Panjim, as corridas do André até ao mar por razoes que não é preciso descrever. A noite ao relento em Palolem, de fato-de-banho, deitados na canga até às tantas a rir de tudo e mais alguma coisa. Vingativo como um caranguejo!
Depois de Goa, Bombaim. O Abbey e a Louisa, a night que era só para ser um copo e acabou num after-hours com tudo bêbado. O passeio de carro, com motorista, da ponta sul ao extremo norte da cidade, com passagem em Juhu Beach e no pani puri de Lokhanwala.
Aurangabad, as grutas de Ellora, as grutas de Ajanta – e Fardapur. Eu e o André a fazer a barba e hair massage, o jantar em casa do Shoo Shoo e do Ashroft, a henna da Inês que teima em nao sair. A minha visão do Inferno, numa estação de comboios cujo nome nem me vou dar ao trabalho de tentar lembrar. E depois a viagem de 28 horas até Varanasi, a chegada à noite, o riquexó que obviamente nos queria levar a todo o lado menos ao nosso hotel. A caminhada pelas ruas, de mochila às costas, às escuras. O passeio de barco ao nascer-do-sol, o passeio de barco ao pôr-do-sol, e a cerimónia inesquecivel junto ao rio a que tivémos o privilégio de assistir.
E finalmente o Nepal! Os três dias de trekking, o sol a nascer no Annapurna, os 3280 degraus de uma assentada só, o ataque das sanguessugas, os cães que nos fizeram companhia, o passeio à noite em Gandruk, a chuvada a caminho de Birethandi. As pessoas sempre a sorrir e a dizer Namaste. Os Himalaias, os Himalaias, os Himalaias! E Kathmandu, provavelmente uma das surpresas mais agradáveis dos últimos tempos, quem diria que a cidade é-o-que-é.
Eles foram embora – eu fico mais uns dias e depois volto à estrada. Quero perceber melhor Kathmandu, quero aventurar-me nas ruas cheias de templos e gente. Há qualquer coisa de estranho e maravilhoso no ritmo desta cidade, ainda não sei muito bem o quê mas vou tentar descobrir.
Eles foram embora, e como diz aqui o ditado:
What to do? Back to Kathmandu!
Então poderemos lembrar, mais uma vez, os dias loucos desta aventura a três. O fim de tarde no Nine Bar, o nosso amigo canibal, as conversas em Português nas ruas de Panjim, as corridas do André até ao mar por razoes que não é preciso descrever. A noite ao relento em Palolem, de fato-de-banho, deitados na canga até às tantas a rir de tudo e mais alguma coisa. Vingativo como um caranguejo!
Depois de Goa, Bombaim. O Abbey e a Louisa, a night que era só para ser um copo e acabou num after-hours com tudo bêbado. O passeio de carro, com motorista, da ponta sul ao extremo norte da cidade, com passagem em Juhu Beach e no pani puri de Lokhanwala.
Aurangabad, as grutas de Ellora, as grutas de Ajanta – e Fardapur. Eu e o André a fazer a barba e hair massage, o jantar em casa do Shoo Shoo e do Ashroft, a henna da Inês que teima em nao sair. A minha visão do Inferno, numa estação de comboios cujo nome nem me vou dar ao trabalho de tentar lembrar. E depois a viagem de 28 horas até Varanasi, a chegada à noite, o riquexó que obviamente nos queria levar a todo o lado menos ao nosso hotel. A caminhada pelas ruas, de mochila às costas, às escuras. O passeio de barco ao nascer-do-sol, o passeio de barco ao pôr-do-sol, e a cerimónia inesquecivel junto ao rio a que tivémos o privilégio de assistir.
E finalmente o Nepal! Os três dias de trekking, o sol a nascer no Annapurna, os 3280 degraus de uma assentada só, o ataque das sanguessugas, os cães que nos fizeram companhia, o passeio à noite em Gandruk, a chuvada a caminho de Birethandi. As pessoas sempre a sorrir e a dizer Namaste. Os Himalaias, os Himalaias, os Himalaias! E Kathmandu, provavelmente uma das surpresas mais agradáveis dos últimos tempos, quem diria que a cidade é-o-que-é.
Eles foram embora – eu fico mais uns dias e depois volto à estrada. Quero perceber melhor Kathmandu, quero aventurar-me nas ruas cheias de templos e gente. Há qualquer coisa de estranho e maravilhoso no ritmo desta cidade, ainda não sei muito bem o quê mas vou tentar descobrir.
Eles foram embora, e como diz aqui o ditado:
What to do? Back to Kathmandu!
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