Não me sai da cabeça, esta mota que deixei em Bhubaneswar. As estradas e os caminhos percorridos, as mudanças de "humor", os cuidados e os rituais, os sustos, as surpresas. Foram cinco mil quilómetros, não há como não ter saudades.
Quase-quase a chegar a casa, hoje recordo mais uma das particularidades desta minha vespa.
A ideia de personalizar a mota nasceu ainda antes do arranque. Uma vespa é para personalizar, sejam apenas pormenores, seja um look completo. Eu optei por alguns pormenores, como já vimos aqui e aqui.
Hoje vou lembrar mais um pormenor: o meu nome, pintado na vespa.
A ideia surgiu porque a maior parte dos camiões, na Índia, tem o nome do condutor pintado por cima do vidro pára-brisas. Logo nos primeiros dias, comprámos tintas e pincéis - mas só mais de uma semana depois é que finalmente começámos a pintar as motas.
Foi em Auroville, perto de Pondicherry, depois da semana passada em Bombaim. A minha tatuagem nova estava ainda fresca, o céu prometia chuva mas tínhamos tempo livre, e aproveitámo-lo para finalmente pintar as motas. O Luís começou a preparar a base para escrever "Super Freen", o nome da sua mota; e eu desenhei a lápis na minha, as letras do meu nome, inspiradas no filme "Sholay" - o clássico de Bollywood que ainda hoje desperta paixões. Depois pintei a base de branco... mas sinceramente com arte nenhuma, que jeito para estas coisas tenho muito pouco, se é que tenho algum.
Depois do contorno branco, o Luís tomou as rédeas e deu a primeira "demão" com as cores que eu escolhera: vermelho, laranja e amarelo. E assim ficou a mota durante mais uma semana ou duas, sei lá quantas centenas ou milhares de quilómetros:
Só em Gopalpur-on-Sea, já no Orissa, é que finalmente voltámos a dar atenção às pinturas. O Luís lá aperfeiçoou a sua mota, eu pouco tinha a acrescentar porque, quase de certeza, se tocasse na pintura era para borrar. Ou seja: foi o artista de serviço que voltou a dar ao pincel, desta vez para uma segunda demão:
Mas o serviço ainda não estava acabado. E apesar de em Bhubaneswar eu e o Luís termos seguido por caminhos diferentes, não desisti enquanto o meu nome não ficou acabado. Estava já mentalizado em fazer a linha de contorno preta por mim próprio, arriscando sabe-se lá que tragédias - mas o meu amigo Kousik, o tal da aldeia que por acaso também é artista, mal se apercebeu das minhas intenções decidiu que não era boa ideia eu pegar no pincel. E foi ele, portanto, que terminou esta bela obra:
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13/07/2015
03/07/2015
A MINHA VESPA #03
Durante quase toda a viagem pela Índia, a minha mota teve dois espelhos que fizeram algum furor, por serem meio retorcidos e muito originais. Acontece que em Bhubaneswar, há duas ou três semanas, a base de um dos espelhos partiu-se e o dito caiu - em andamento. Consegui apanhá-lo (nem sei como, mas consegui) e guardei-o muito bem guardadinho... tudo bem, consigo viver só com um espelho, pensei.
No dia seguinte troquei o do lado esquerdo para o lado direito... mas confesso que não conseguia ver nada, a emenda afinal não me resolvia o problema. O mecânico de Bhubaneswar garantiu-me que demorava quase um mês para encomendar um novo (que ideia tão ridícula, mas enfim), por isso esperei até chegar à aldeia do meu amigo Kousik e perguntei-lhe se sabia onde podíamos comprar um espelho.
Incrível. Custou-me um euro: o espelho, a base - e os dez minutos de mão-de-obra.
Não era nada de especial... mas era um espelho. E que falta me fazia. No entanto, ao fim de três dias a viajar nas estradas esburacadas do West Bengal, a base começou a "escorregar" e o espelho a inclinar-se, aos poucos, deitando-se ao ponto de estar já encostado às costas da minha mão. Coisa que não me dava jeito nenhum, como podem calcular. Preciso da mão para acelerar e travar. Manias.
Tentei arranjar por mim próprio e não consegui, por isso planeei ir a uma oficina e pedir uma ajudinha. Mas, curiosamente, numa segunda tentativa acabei por desenrascar uma solução... enfim, pouco ortodoxa, mas que na verdade me resolveu o problema.
E assim tenho andado nos últimos dias:
No dia seguinte troquei o do lado esquerdo para o lado direito... mas confesso que não conseguia ver nada, a emenda afinal não me resolvia o problema. O mecânico de Bhubaneswar garantiu-me que demorava quase um mês para encomendar um novo (que ideia tão ridícula, mas enfim), por isso esperei até chegar à aldeia do meu amigo Kousik e perguntei-lhe se sabia onde podíamos comprar um espelho.
Incrível. Custou-me um euro: o espelho, a base - e os dez minutos de mão-de-obra.
Não era nada de especial... mas era um espelho. E que falta me fazia. No entanto, ao fim de três dias a viajar nas estradas esburacadas do West Bengal, a base começou a "escorregar" e o espelho a inclinar-se, aos poucos, deitando-se ao ponto de estar já encostado às costas da minha mão. Coisa que não me dava jeito nenhum, como podem calcular. Preciso da mão para acelerar e travar. Manias.
Tentei arranjar por mim próprio e não consegui, por isso planeei ir a uma oficina e pedir uma ajudinha. Mas, curiosamente, numa segunda tentativa acabei por desenrascar uma solução... enfim, pouco ortodoxa, mas que na verdade me resolveu o problema.
E assim tenho andado nos últimos dias:
A MINHA VESPA #02
Os mais atentos já devem ter reparado que a minha mota tem, à frente, um adereço tipo "Rolls Royce". Pois: fui eu que o acrescentei. Para ficar mais chique. ;)
A pequena peça é um amuleto que comprei em Bangkok, no mercado que fica entre o Grande Palácio e o rio Chao Phraya. Colei-o ao farol com supercola e pintei-o de prateado. Dá estilo ou não dá?
O amuleto é um Garuda, uma figura mítica que é meio águia, meio homem. É ele quem leva Vishnu para todo o lado - e é um dos meus personagens preferidos da mitologia hindu.
A pequena peça é um amuleto que comprei em Bangkok, no mercado que fica entre o Grande Palácio e o rio Chao Phraya. Colei-o ao farol com supercola e pintei-o de prateado. Dá estilo ou não dá?
O amuleto é um Garuda, uma figura mítica que é meio águia, meio homem. É ele quem leva Vishnu para todo o lado - e é um dos meus personagens preferidos da mitologia hindu.
23/06/2015
MURSHIDA-QUÊ?
Murshidabad.
Assim se chama esta terrinha onde estou agora, no estado do West Bengal, junto às margens do Ganges (que aqui tem outro nome), e a muito poucos quilómetros da fronteira com o Bangladesh.
A quem possa interessar, fica o mapa actualizado do percurso feito até agora, nesta viagem:
Nada mau, hem?
Já são quase quatro mil quilómetros.
Tivesse eu tempo e os bolsos cheios... há ainda tanto mapa para desbravar. Mas posso desde já confirmar que não vou mais longe que Murshidabad. O próximo passo é "virar à esquerda", para oeste, e começar a descer em direcção a Bhubaneswar, onde vou deixar a mota até ao meu regresso.
Assim se chama esta terrinha onde estou agora, no estado do West Bengal, junto às margens do Ganges (que aqui tem outro nome), e a muito poucos quilómetros da fronteira com o Bangladesh.
A quem possa interessar, fica o mapa actualizado do percurso feito até agora, nesta viagem:
Nada mau, hem?
Já são quase quatro mil quilómetros.
Tivesse eu tempo e os bolsos cheios... há ainda tanto mapa para desbravar. Mas posso desde já confirmar que não vou mais longe que Murshidabad. O próximo passo é "virar à esquerda", para oeste, e começar a descer em direcção a Bhubaneswar, onde vou deixar a mota até ao meu regresso.
22/06/2015
MAIS UM DIA NA ESTRADA (À CHUVA)
Passaram a correr, os dias na aldeia do meu amigo Kousik. Acabei por nem publicar muita coisa aqui, pois confesso que os dias foram vividos quase sempre num dolce fare niente que me soube às mil maravilhas. Era mesmo o que estava a precisar. Longas conversas com os amigos, refeições demoradas em família, sestas a meio da tarde e passeios de mota pelas aldeias à volta.
E de repente passou quase uma semana.
Ontem saí de manhã com o coração apertado, a família toda à porta de casa a dizer adeus. Acabei por nem avançar muito no mapa, fiz ao todo pouco mais de sessenta quilómetros e parei numa terra cujo nome não consigo pronunciar, porque começou a chover e não tive coragem de continuar.
Contudo, hoje quando acordei às seis da manhã tinha as energias todas recarregadas. Chovesse o que chovesse, eu ia andar de mota.
Tive sorte de não apanhar chuva durante a manhã. As nuvens bem que prometiam, e o verde-impossível dos campos à volta era a prova de que tem chovido bastante, ultimamente. Mas eu vesti o meu fato de Martin Luther King, enfeitei-o com uns acessórios à Dumbledore do Harry Potter, e enquanto atravessava aldeias com casas de colmo e telhados de palha, proferi um discurso em inglês para uma multidão imaginária, como que a convencer as nuvens a não descarregar enquanto eu não parasse. Doido? Talvez. Um pouco. Tantas horas em cima de uma mota nas estradas indianas... pode dar para muita coisa. ;)
"You shall not rain, clouds! Leave this road dry and safe! Leave this traveller dry and safe! Leave us and go drop your water somewhere else! Only after this traveller stops, and only then, rain shall fall. But never before that!"
Ok.
Mas resultou. A verdade é que resultou. Coincidência ou acaso, ou resultado do meu incrível poder de persuasão sobre fenómenos naturais: não choveu. Só a meio da manhã, quando parei para tomar um chai e duas samosas deliciosas, à beira da estrada, é que cairam os primeiros pingos. E eis que, finalmente, começou a chover.
Uns locals meteram conversa e acabei na loja de um deles a falar de Ronaldo e do Vasco da Gama, do Ramadão e de literatura indiana... e do Anil Kappoor, o actor que faz de apresentador no Slumdog Millionare, e que os indianos insistem, há anos, que é igual a mim. Enfim.
Mas como estava a dizer: passou-se uma hora de conversa - e quando a chuva virou singelo aguaceiro, voltei à estrada. Só que a partir daqui os meus discursos deixaram de fazer efeito. A chuva, uma vez libertada, não me deu mais ouvidos. E por isso o resto do caminho fiz numa espécie de pára-arranca mútuo, eu e a chuva. Quanto um parava o outro arrancava; quando um arrancava o outro parava.
Devo ter feito umas seis paragens, ao todo. Desde lugares isolados em que pude sentar-me e apreciar o universo à minha volta sem distúrbios, a outros mais "animados" onde respondi a duzentas e treze perguntas, tirei selfies, troquei números de whatsapp e contactos do facebook.
Ainda deu para assistir a um atropelamento, mesmo à minha frente: uma rapariga de treze ou catorze anos vestida com a farda da escola atravessou a estrada a correr... e uma mota não consegui desviar-se ou travar. Mota para um lado, miúda para o outro - a primeira, sabe-se lá como, conseguiu aguentar-se; mas a segunda teve direito a piruetas e acrobacias de circo, e aterrou no chão de uma forma que eu pensei ser a última. Mas levantou-se e a cambalear foi embora, para espanto de toda a gente em redor.
A mim calhou-me uma cobra. No que a atropelamentos diz respeito, note-se. Ia devagar numa recta a tirar notas no gravador do telefone, quando uma cobra pequena, de quarenta centímetros no máximo, atravessou-se à minha frente, ziguezagueando. Que susto. Mas confesso que, entre buracos na estrada, telefone na mão, autocarros com gente em cima do tejadilho, outras motas em sentido contrário e choviscos só para irritar... nem olhei para trás. Espero que tenha sobrevivido, tal como a rapariga, com piruetas e acrobacias de circo.
Cheguei ao meu destino a meio da tarde. Ensopado e cansado, mas com um sorriso de orelha a orelha. Foi um passeio bom, o de hoje.
E de repente passou quase uma semana.
Ontem saí de manhã com o coração apertado, a família toda à porta de casa a dizer adeus. Acabei por nem avançar muito no mapa, fiz ao todo pouco mais de sessenta quilómetros e parei numa terra cujo nome não consigo pronunciar, porque começou a chover e não tive coragem de continuar.
Contudo, hoje quando acordei às seis da manhã tinha as energias todas recarregadas. Chovesse o que chovesse, eu ia andar de mota.
Tive sorte de não apanhar chuva durante a manhã. As nuvens bem que prometiam, e o verde-impossível dos campos à volta era a prova de que tem chovido bastante, ultimamente. Mas eu vesti o meu fato de Martin Luther King, enfeitei-o com uns acessórios à Dumbledore do Harry Potter, e enquanto atravessava aldeias com casas de colmo e telhados de palha, proferi um discurso em inglês para uma multidão imaginária, como que a convencer as nuvens a não descarregar enquanto eu não parasse. Doido? Talvez. Um pouco. Tantas horas em cima de uma mota nas estradas indianas... pode dar para muita coisa. ;)
"You shall not rain, clouds! Leave this road dry and safe! Leave this traveller dry and safe! Leave us and go drop your water somewhere else! Only after this traveller stops, and only then, rain shall fall. But never before that!"
Ok.
Mas resultou. A verdade é que resultou. Coincidência ou acaso, ou resultado do meu incrível poder de persuasão sobre fenómenos naturais: não choveu. Só a meio da manhã, quando parei para tomar um chai e duas samosas deliciosas, à beira da estrada, é que cairam os primeiros pingos. E eis que, finalmente, começou a chover.
Uns locals meteram conversa e acabei na loja de um deles a falar de Ronaldo e do Vasco da Gama, do Ramadão e de literatura indiana... e do Anil Kappoor, o actor que faz de apresentador no Slumdog Millionare, e que os indianos insistem, há anos, que é igual a mim. Enfim.
Mas como estava a dizer: passou-se uma hora de conversa - e quando a chuva virou singelo aguaceiro, voltei à estrada. Só que a partir daqui os meus discursos deixaram de fazer efeito. A chuva, uma vez libertada, não me deu mais ouvidos. E por isso o resto do caminho fiz numa espécie de pára-arranca mútuo, eu e a chuva. Quanto um parava o outro arrancava; quando um arrancava o outro parava.
Devo ter feito umas seis paragens, ao todo. Desde lugares isolados em que pude sentar-me e apreciar o universo à minha volta sem distúrbios, a outros mais "animados" onde respondi a duzentas e treze perguntas, tirei selfies, troquei números de whatsapp e contactos do facebook.
Ainda deu para assistir a um atropelamento, mesmo à minha frente: uma rapariga de treze ou catorze anos vestida com a farda da escola atravessou a estrada a correr... e uma mota não consegui desviar-se ou travar. Mota para um lado, miúda para o outro - a primeira, sabe-se lá como, conseguiu aguentar-se; mas a segunda teve direito a piruetas e acrobacias de circo, e aterrou no chão de uma forma que eu pensei ser a última. Mas levantou-se e a cambalear foi embora, para espanto de toda a gente em redor.
A mim calhou-me uma cobra. No que a atropelamentos diz respeito, note-se. Ia devagar numa recta a tirar notas no gravador do telefone, quando uma cobra pequena, de quarenta centímetros no máximo, atravessou-se à minha frente, ziguezagueando. Que susto. Mas confesso que, entre buracos na estrada, telefone na mão, autocarros com gente em cima do tejadilho, outras motas em sentido contrário e choviscos só para irritar... nem olhei para trás. Espero que tenha sobrevivido, tal como a rapariga, com piruetas e acrobacias de circo.
Cheguei ao meu destino a meio da tarde. Ensopado e cansado, mas com um sorriso de orelha a orelha. Foi um passeio bom, o de hoje.
17/06/2015
PELOS CAMINHOS... DO WEST BENGAL
Já estou noutro estado da Índia - entrei finalmente no West Bengal, que vai ser o último desta viagem. Depois das voltas aqui regresso ao Orissa, para deixar a vespa em casa do Bunty. Quem me dera ter mais tempo.
A entrada neste novo estado ficou marcada pela chuva. Não que tenha apanhado grande molha, longe disso - mas durante todo o caminho, desde que atravessei a fronteira, fui sempre presenteado com céus carregados e a estrada molhada, poças de lama onde antes havia buracos, e o som de trovoada ao longe.
De momento confesso que me faltam energias para muita conversa... por isso ficam alguns registos das estradas por onde passei ontem, já no West Bengal - a maior parte caminhos secundários, com pouco trânsito e muita vida:
A entrada neste novo estado ficou marcada pela chuva. Não que tenha apanhado grande molha, longe disso - mas durante todo o caminho, desde que atravessei a fronteira, fui sempre presenteado com céus carregados e a estrada molhada, poças de lama onde antes havia buracos, e o som de trovoada ao longe.
10/06/2015
A MINHA VESPA #01
Estava a falar com o Luís acerca das crónicas e posts no fuidarumavolta e identificámos aquilo que consideramos uma falha na dinâmica com que temos comunicado esta aventura. Falo muito das nossas experiências e das peripécias que nos surpreendem pelo caminho, partilho fotos disto-e-daquilo, curiosidades e insólitos... mas as vespas estão sempre em segundo plano.
Devíamos dar mais destaque às motas - afinal, são elas que nos levam de um lado para o outro. Com as motas tivemos muitas alegrias... e algumas chatices também. São uma parte muito importante desta aventura, pois claro.
Assim sendo, este post marca o arranque de uma série dedicada aos pequenos pormenores com que temos personalizado as nossas vespas. Na foto que se segue destacam-se dois:
a) o símbolo do AUM em dourado, colado no porta-luvas
b) um tapete colorido para ficar com o chão da mota mais fofinho ;)
É gira ou não é, a minha Vespa?
Devíamos dar mais destaque às motas - afinal, são elas que nos levam de um lado para o outro. Com as motas tivemos muitas alegrias... e algumas chatices também. São uma parte muito importante desta aventura, pois claro.
Assim sendo, este post marca o arranque de uma série dedicada aos pequenos pormenores com que temos personalizado as nossas vespas. Na foto que se segue destacam-se dois:
a) o símbolo do AUM em dourado, colado no porta-luvas
b) um tapete colorido para ficar com o chão da mota mais fofinho ;)
É gira ou não é, a minha Vespa?
08/06/2015
AI JESUS, MAIS UM LAGARTO!
Este post fala de lagartos que se metem no caminho, que pregam sustos, que de repente passam de um lado para o outro da estrada - mas enganem-se se pensam que vou falar da Segunda Circular e de futebol.
Estou a falar de lagartos a sério. De pequenas lagartixas a gigantes dinossauros, passando por coloridos camaliões, iguanas e dragões de komodo. Estou a falar dos lagartos que se atravessam na estrada, mesmo à nossa frente, enquanto passeamos sorridentes por esta Índia fora.
Não sei se é do calor ou se simplesmente é a época dos lagartos, ou se estamos a passar por uma zona especialmente dada a este bicho. Mas a verdade é que nos últimos dias tem acontecido bastante. E ai Jesus!, que susto que me pregam às vezes. Quando são maiorzinhos então...
A propósito de lagartos, partilho então meia dúzia de exemplares - não aqueles que se cruzaram comigo na estrada, pois obviamente não tenho tempo de os fotografar, mas outros que encontrei em viagem, seja agora pela Índia como no Sri Lanka e no Myanmar:
Estou a falar de lagartos a sério. De pequenas lagartixas a gigantes dinossauros, passando por coloridos camaliões, iguanas e dragões de komodo. Estou a falar dos lagartos que se atravessam na estrada, mesmo à nossa frente, enquanto passeamos sorridentes por esta Índia fora.
Não sei se é do calor ou se simplesmente é a época dos lagartos, ou se estamos a passar por uma zona especialmente dada a este bicho. Mas a verdade é que nos últimos dias tem acontecido bastante. E ai Jesus!, que susto que me pregam às vezes. Quando são maiorzinhos então...
A propósito de lagartos, partilho então meia dúzia de exemplares - não aqueles que se cruzaram comigo na estrada, pois obviamente não tenho tempo de os fotografar, mas outros que encontrei em viagem, seja agora pela Índia como no Sri Lanka e no Myanmar:
21/05/2015
A REVIRAVOLTA DA REVIRAVOLTA
Estamos neste momento em Chittoor, uma terrinha no estado do Andhra Pradesh. Mas era
suposto termos ficado em Vellore, uma cidade no Tamil Nadu. E, quando arrancámos de Gingee, ainda de
manhãzinha, o objectivo era chegar à capital:
Chennai.
Vamos a matemáticas e geografias:
Chennai fica a cerca de 150km a nordeste de Gingee.
Vellore, cento e pouco a noroeste.
Chittoor, a pouco mais de quarenta de Vellore, mas para norte.
Vellore, cento e pouco a noroeste.
Chittoor, a pouco mais de quarenta de Vellore, mas para norte.
Ou seja: que reviravoltas foram estas, as de ontem?
Para contextualizar o cenário, recuemos primeiro até à manhã em que arrancámos de Auroville. Que
deve ter sido há dois ou três dias, apesar de termos a sensação que aconteceu há
uma vida atrás.
Reféns dos capacetes que estavam guardados em Pondicherry, acabámos por passar uma noite em
Auroville, na cabana simpática que vos mostrei há dois ou três posts. Aproveitámos o tempo
livre para kitar um bocadinho as vespas - e, na manhã seguinte, preparámo-nos
para finalmente arrancar. Estávamos "sedentos" de estrada, "esfomeados" por quilómetros. Queríamos viagem. Depois de dez dias em Bombaim, só apetecia era estrada. Mas a meio caminho entre a cabana e a casa onde estavam guardados os
capacetes, a vespa do Luís começou a dar problemas. Parecia estar a afogar-se,
cada vez que ele acelerava ela ia-se abaixo, e fazia mais fumo do que era costume.
Passámos na oficina, "isto não é normal, esteve mais de uma semana a ser arranjada
e não é suposto dar problemas destes agora."
Resumindo: só duas ou três horas depois é que finalmente deixámos Pondicherry para trás. Já com os capacetes postos, o pequeno-almoço tomado - e,
teoricamente, com a mota a funcionar como deve ser.
Foram oitenta-e-tal quilómetros de viagem, nesse dia. Um regresso à
estrada que nos deixou um sorriso enorme na cara - e um escaldão nos braços e
no pescoço. Filmámos com a gopro, fizemos algumas fotos, mas acima de tudo foi
um prazer enorme estar outra vez em cima das motas, com a Índia a rolar por
baixo, a paisagem e os sons e os cheiros à nossa volta.
E, no entanto, os últimos dez quilómetros do dia mudaram o estado das
coisas. A estrada estava péssima (tantos buracos, e poças de lama, e carros em todas as direcções)... e a vespa do Luís começou a engasgar-se outra
vez. Quando chegámos a Gingee instalámo-nos num pequeno hotel junto à estrada e
fomos imediatamente a uma oficina, para perceber o que realmente se passa com a mota - e eis que o veredicto era o menos animador possível:
"O motor está a agarrar. Não podemos fazer nada aqui. A peça
que vocês precisam só existe em Pondicherry. Têm de voltar para trás. Se quiserem
nós tratamos disso, mas são três dias no mínimo. Ou então ponham o dobro do
óleo quando encherem o depósito e ainda dá para levarem a mota para
Pondicherry."
Ao que parece, andamos a pôr pouco óleo na mistura com a
gasolina.
Culpa minha, que devo ter interpretado mal a explicação que me deram
ao início. Ou então foi realmente mal dada. Não posso garantir. Mas quando devíamos pôr 50ml de óleo por cada litro de gasolina,
temos estado a pôr 20ml. E a vespa do Luís acusou isso mesmo, agora.
Enfim: era imperativo repensar a viagem. Ou, pelo menos, o ritmo da viagem.
Acabámos
por ficar mais um dia em Gingee - por um lado, meio à nora sem sabermos o que fazer; por
outro, porque depois de uma manhã toda a subir fortes e castelos, a visitar
ruínas e a destilar litros e litros de suor, chegámos a meio da tarde tão
cansados que não havia energias para ir para lado nenhum.
O objectivo inicial era irmos para Tiruvannamalai, quarenta
quilómetros a oeste. Tínhamos enchido o depósito com o dobro do óleo necessário. O mecânico garantira-nos que isso era suficiente para voltar para Pondicherry. E nós pensámos: se dá para isso, dá para avançar de vagar, e depois logo se vê se a mota recupera ritmo ou se precisa mesmo de ir "à faca".
Enfim: o plano inicial era seguirmos para Tiruvannamalai, quarenta quilómetros a oeste. Mas como acabámos por ficar em Gingee mais uma noite, mudámos
os planos e na reviravolta apontámos a agulha para Vellore, cento e pouco quilómetros a
noroeste. Com o óleo reforçado, a mota ia ao lugar - pensámos.
Mas na manhã seguinte - ontem - a mota do Luís parecia estar igual, ou pior - e não tivemos hipóteses senão alterar os planos novamente. E se, como disse
o mecânico, com o óleo reforçado dá para ir para Pondicherry, então vamos
para Chennai, sempre é mais para Norte e avançamos um pouco. Além de que
tínhamos perdido a confiança dos mecânicos de Pondy. Quer dizer: mais de uma
semana com as motas e não deram por nada? Incrível.
Vamos para Chennai, então.
"Saquei" uns contactos
na net, assim era só chegar lá e ir directos às melhores oficinas. Arrancámos de manhã
cedo, foi provavelmente o dia em que saímos mais cedo. Pensámos na rota de
maneira a viajarmos em estradas mais secundárias, com pouco trânsito, era mais do que suficiente aquele que iríamos encontrar à chegada a Cheennai. O dia estava ainda fresco,
mas prometia muito calor. E os espíritos, apesar das contrariedades, estavam
animados. As voltas que a viagem dá - são só voltas. Havemos sempre de tirar o
melhor partido da aventura, seja por onde for, seja como for. E se temos de ir para Chennai... vamos para Chennai.
Tínhamos avançado uns trinta ou quarenta quilómetros - cerca de uma hora, pois íamos a
poupar o motor - quando o Luís começou a fazer-me sinal para parar.
Imaginei logo o pior.
E. no entanto, a expressão dele apontava para o contrário.
Ria como uma criança a quem foi oferecido um brinquedo novo.
"Estás a ouvir?"
Eu sorria, mais por solidariedade que outra coisa, porque
não estava a perceber nada.
"Não vês, Jorge? Olha!"
E eu olhava. Mas não entendia.
"A mota! A Freen não se vai abaixo!"
Ah: a vespa do Luís tem nome. Chama-se Freen. Free + Green. Eu ainda não
dei nome à minha, eu sei que é uma falha enorme mas... enfim. Hei-de dar. A seu tempo, hei-de dar-lhe um nome também.
Anyway: a mota não se ia abaixo. Parecia... solta?
"Epá, a mota descolou. Eu até senti. Vinha a guiar e
ela sempre com aquela sensação de estar constipada, e de repente senti-a a
soltar-se. Está arranjada!"
A sério?, pensei.
"Estas vespas são um espectáculo! Dá-lhes um remédio e
elas curam-se, não precisam de ir ao médico."
Parecia estranho - mas a verdade é que a mota estava,
aparentemente, a funcionar bem. E agora?, pensei. Fazemos o quê?
"Esquece Chennai, vamos para Vellore. Eu sei que já nos
desviámos um bocado da rota, mas apanhamos a próxima terrinha e se até lá estiver tudo bem, viramos outra
vez para oeste."
Yes, sir! Se ele tem confiança na mota, quem sou eu para
insistir.
Assim aconteceu mais uma reviravolta - e que reviravolta! De repente
já não estávamos a caminho da urbaníssima, suja e caótica Chennai, mas de uma
terra chamada Vellore, sobre a qual pouco sabíamos além de que era muito famosa
pelos seus hospitais, e que tinha um forte enorme rodeado de um canal sereno.
Seguimos mais uns vinte quilómetros até à próxima vila, só
para ter a certeza que a mota estava boa. Confirmou-se: impecável. Vamos lá
então!
Que manhã boa! As duas vespas a rolar no alcatrão, o calor
a apertar mas nada de dramático, pelo menos enquanto estávamos em andamento. Estradas rurais em bom estado e em mau
estado, aldeias e vilas, cidades até. Fomos parar a uma estrada nacional, com
mais trânsito mas nada de outro mundo. E na recta final acabámos numa autoestrada de três
faixas para cada lado. Quando chegámos a Vellore tínhamos cento e trinta
quilómetros feitos, ao todo. Nada mau. E era ainda hora de almoço.
Calor. Fome. Sede. A gasolina estava na reserva. Precisávamos de ir a um ATM.
Pouco passava do meio-dia e o calor era insuportável: trinta
e oito graus com sessenta por cento de humidade. Começámos à procura de um
poiso, parecia haver muita oferta... mas entre hotéis cheios, outros que não
recebiam estrangeiros, alguns que tinham quartos mas eram miseráveis... o tempo
foi passando e o desconforto aumentando. Apesar de mais ou menos desesperados, não conseguíamos encontrar nada de jeito. Eu já ficava
enjoado só de ver as manchas nos lençóis,
só de pensar que a maioria dos hóspedes nesta cidade são doentes que vêm para ser tratados
nos hospitais de Vellore. A cidade estava um forno. Os hotéis nojentos. Tanta gente. Muitos
doentes, muitos acidentados, muitas caras tristes. Nas recepções dos hostéis,
era quase sempre recebido com má cara, trombas e palavras pouco simpáticas. Eu
próprio comecei a ceder. O Luís, que hoje ficava a guardar as motas enquanto eu ia
ver os quartos, lá se aguentava emocionalmente - mas o calor estava a deixá-lo
estafado.
Decidimos comer qualquer coisa - e depois logo se veria.
Sentámo-nos numa espécie de garagem imunda e pedimos um biryani. Que bem que
nos soube. A galinha estava tenra e saborosa, o arroz nada de especial mas o
molho era bom. Quando saímos, as energias estavam novamente "em cima". O
termómetro marcava quarenta e dois, feels like quarenta e oito.
Quarenta e oito!?
Não: aqui é que não ficamos. Vamos embora. Esta terra tem uma energia
feia. Há qualquer coisa de pesado aqui, qualquer coisa de negativo, não sei se
é dos hospitais ou do calor ou se é só o cansaço, sensação nossa. Não interessa: vamos
embora. Avançamos mais um pouco e dormimos na próxima terrinha.
Arrancámos. Enchemos os depósitos e seguimos para Norte. Atravessámos
a ponte e começámos à procura de algum sinal a dizer "lodge" ou "guesthouse", mas o mapa
mostrava que o Andhra Pradesh estava já tão perto... e...
"Olha lá, Luís... e se avançássemos mais um pouco e
passássemos para outro estado?"
"Por mim óptimo, acho que o Tamil Nadu já nos deu o que
tinha a dar. E ainda não é tarde, temos tempo para rolar mais um bocado, a
minha mota está boa... 'bora!"
Atravessámos a fronteira de um estado para o outro,
com direito a paragem para xixi e fotos. E só parámos em Chittoor, uma terrinha
pequena e bem mais calma, onde encontrámos um quarto simpático - o mesmo de
onde escrevo agora. A noite correu sem precalços, estávamos estafados depois de
quase cento e oitenta quilómetros na estrada, caímos redondos na cama, a seguir
ao jantar.
E agora ala que se faz tarde, hoje a etapa é mais curta mas
o calor aperta e quanto mais depressa partirmos, melhor.
Fui! Ou melhor: fomos!
20/05/2015
34 CLICKS
Estamos há dois dias com acesso muito lento à net, o que não me permitiu actualizar o blog. Assim sendo, estou a preparar um texto com as mais recentes peripécias on the road - e enquanto não o termino deixo-vos um post-homenagem ao Benfica, campeão nacional de futebol 2014/15.
São trinta e quatro, os clicks de hoje - e de certa forma resumem a primeira etapa desta aventura na Índia, até a termos "interrompido" para uns dias em Bombaim. De Vennikulam (uma aldeia no Kerala) a Pondicherry (a antiga colónia francesa na Índia), foram quase mil quilómetros de emoções e sensações.
Espero que gostem:
Primeira foto da minha Bajaj, ainda no terreno do antigo proprietário.
Assinatura do contrato.
Benção à frente de "nossa" casa, no dia em que fui buscar a mota. Era noite de S. Jorge.
A delinear rotas possíveis, pontos de interesse, etc.
Durante os dias passados em Vennikulam, fomos constantemente "entretidos". Havia sempre alguma coisa para fazer (o chamado full program). Neste caso em concreto, o Binu levou-nos a tomar banho a uma pedreira abandonada.
Logo na primeira volta que demos na minha vespa, conhecemos uns putos que saltaram para a mota e levaram-nos a explorar a zona em redor.
Um pôr-do-sol único, a la Kerala style.
O nosso anfitrião e meu grande amigo, George Kurian, na partida para esta viagem.
O festival Thrissurpooram marcou o arranque desta viagem. Foi, sem dúvida, um dos eventos mais emocionantes a que já assisti.
Que vista maravilhosa, esta das cataratas de Athirapilly, no Kerala. Este foi um dia inesquecível, sempre rodeados de verde, luz e sombras.
Selfie!
Bem-vindos ao Tamil Nadu!
Plantações de chá.
Uma grande noite em Valparai, em que o jantar foi bacalhau em lata, pois a cidade fechou muito cedo e ficámos sem hipóteses de comer fosse-o-que-fosse.
Luís a jogar carrom board com os novos amigos de Dharapuram.
Um dia... rústico! ;)
Uma subida longa e dura, mas com uma vista inacreditável - no forte de Trichy.
Uma surpresa pouco agradável, no parque do hotel em que ficámos em Trichy.
Vrrruuuummmm!
Regressei a Tanjore, 10 anos depois.
"Apanhámos" dez minutos de chuva, até agora.
Bom diaaaa!
Ossos do ofício ;)
São trinta e quatro, os clicks de hoje - e de certa forma resumem a primeira etapa desta aventura na Índia, até a termos "interrompido" para uns dias em Bombaim. De Vennikulam (uma aldeia no Kerala) a Pondicherry (a antiga colónia francesa na Índia), foram quase mil quilómetros de emoções e sensações.
Espero que gostem:
Primeira foto da minha Bajaj, ainda no terreno do antigo proprietário.
Assinatura do contrato.
Benção à frente de "nossa" casa, no dia em que fui buscar a mota. Era noite de S. Jorge.
A delinear rotas possíveis, pontos de interesse, etc.
Durante os dias passados em Vennikulam, fomos constantemente "entretidos". Havia sempre alguma coisa para fazer (o chamado full program). Neste caso em concreto, o Binu levou-nos a tomar banho a uma pedreira abandonada.
Logo na primeira volta que demos na minha vespa, conhecemos uns putos que saltaram para a mota e levaram-nos a explorar a zona em redor.
Um pôr-do-sol único, a la Kerala style.
O nosso anfitrião e meu grande amigo, George Kurian, na partida para esta viagem.
O festival Thrissurpooram marcou o arranque desta viagem. Foi, sem dúvida, um dos eventos mais emocionantes a que já assisti.
Que vista maravilhosa, esta das cataratas de Athirapilly, no Kerala. Este foi um dia inesquecível, sempre rodeados de verde, luz e sombras.
Selfie!
Bem-vindos ao Tamil Nadu!
Plantações de chá.
Uma grande noite em Valparai, em que o jantar foi bacalhau em lata, pois a cidade fechou muito cedo e ficámos sem hipóteses de comer fosse-o-que-fosse.
Luís a jogar carrom board com os novos amigos de Dharapuram.
Um dia... rústico! ;)
Uma subida longa e dura, mas com uma vista inacreditável - no forte de Trichy.
Uma surpresa pouco agradável, no parque do hotel em que ficámos em Trichy.
Vrrruuuummmm!
Regressei a Tanjore, 10 anos depois.
"Apanhámos" dez minutos de chuva, até agora.
Bom diaaaa!
Ossos do ofício ;)
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