08/05/2019

O MARAJÁ FAZ ANOS

Depois de dois meses a passear pela Índia, eis que o segundo volume da trilogia "Tudo é Possível!" está quase-quase terminado.

Já me falta pouco para acabar de escrever este que é, de certa forma, uma "prequela" do "De Vespa na Índia". Neste segundo volume, vou fazer uma viagem no tempo e recuar até 2003, quando me aventurei com três amigos, pela primeira vez, neste louco país em forma de diamante.

Neste novo livro, que está quase concluído, faço uma reflexão acerca do que mudou na Índia e na minha forma de viajar e de ver/viver/experienciar, através de uma espécie de "ping pong" entre essa primeira viagem, há dezasseis anos, e aquela que terminei há duas semanas.

Estou, literalmente, em contagem decrescente para o lançamento. Mas, antes de enviar o livro para a gráfica, preciso de:

- acabar de o escrever;
- enviar o texto para revisão;
- paginar o livro.

E para financiar isto tudo, pois vou continuar a fazer isto de forma independente, sem depender da máquina de uma editora, preciso de quem acredite num projecto desta natureza. Criei uma campanha de crowdfunding no PPL, e tenho até 31 de Maio para juntar dez mil euros.

Espreita o link e reserva o teu exemplar autografado, em primeira mão. Basta participar. Há vários tipos de recompensas, dependendo do donativo.

E, já agora, deixo-te com a capa do livro, mais uma vez desenhada pela mãozinha talentosa da one-and-only Vanessa Teodoro:



Participa aqui:

https://ppl.pt/marajafazanos

29/01/2019

EMOÇÕES FORTES NO THAIPUSAM

‘Satu! Dua! Tiga! Check!’, repete até à exaustão um grito entediado, nos altifalantes, ao ponto de eu já sentir falta da estridente chinfrineira que veio substituir, há uns cinco minutos.

Estou sentado num restaurante improvisado numa tenda, a comer arroz com algo que, quando fiz o pedido, achei que era galinha. Mas estamos num templo, ou mais ou menos, e aqui não se serve carne.

‘Somos mais de três mil, hoje, aqui nas Batu Caves’, diz-me o homem sentado ao meu lado, na mesa corrida em inox, ‘alguns estão fardados, mas muitos vieram como eu, à paisana. Para garantir a segurança dos peregrinos, mas sem impor demasiado a nossa presença’ – e, depois de uma pausa carregada de cumplicidade, ‘e para apanhar os bandidos, que assim não sabem quem nós somos’.

São onze e meia da manhã e já está um calor quase insuportável. Fiz bem em vir cedo, penso para mim próprio. E para a próxima vou experimentar vir também durante a noite, várias pessoas me disseram que é a melhor altura, o ambiente está um pouco mais calmo, o ar mais fresco, menos húmido.

Mas eu quero o caos.

Vim bem cedo, aos primeiros raios de sol, porque queria assistir ao Thaipusam no auge das emoções, rodeado de quase dois milhões de cotoveladas e se-faz-favores, apertado entre telefones a filmar, crianças a chorar, famílias inteiras a gritar ‘Vel! Vel! Murugan!’, bandas a tocar música e um frenesim colorido e electrizante.

Levanto-me, pago a conta, saio para a rua - que calor!

Vejo um kavadi a ser transportado, algures no meio da multidão. Aproximo-me, tiro três ou quatro fotografias, é impossível não ficar impressionado com esta atmosfera, a devoção, os rituais. Das cores com que se vestem ao facto de raparem os cabelos, mais os anzóis espetados nas costas, e as setas na língua. Mas uma coisa de cada vez. À minha frente, e na fotografia que mais tarde hei-de descarregar no computador, está um homem com uma espécie de andor aos ombros (o kavadi), decorado com penas de pavão, grinaldas de flores, berloques e rococós vários... e, claro está, a imagem de um deus hindu.

Mas vamos lá contextualizar isto, que descrever não basta.

Chama-se Thaipusam, este festival celebrado em homenagem ao deus hindu da guerra, Lorde Murugan, filho de Shiva e Parvati. Conta a lenda que a mãe lhe ofereceu uma seta mágica chamada “Vel”, com a qual derrotou um demónio chamado Surapadman, salvando assim a Humanidade.

Por uma série de razões que posso abordar outro dia, num post próprio, a comunidade tâmil da Malásia é especialmente devota a este deus. Durante todo o ano, pedem-lhe ajuda em vários aspectos mundanos – e prometem realizar uma peregrinação às Batu Caves durante o Thaipusam.



Um bocadinho como os portugueses com Fátima – mas em vez de queimarem velas em forma de pernas e braços e cabeças, e de irem de joelhos até à capelinha (por acaso alguns até vão de joelhos, e também vi quem fosse a rebolar), aqui os peregrinos cumprem a procissão descalços, carregando em cima da cabeça ofertas (tigelas de leite, imagens do deus ou os tais kavadis, que podem ter até cem quilos!). E em vez de três voltas finais à capelinha, sobem os 272 coloridos degraus que dão acesso ao templo principal, que fica numa gruta de calcário.

Além disso, muitos dos peregrinos realizam actos de auto-mutilação, perfurando as bochechas ou a língua com pequenos espetos de prata, que simbolizam o “Vel”; ou espetando nas costas, braços e peito pequenos ganchos e anzóis, onde penduram frutas ou cordas; ou caminhando sobre sapatos de madeira com pregos espetados. Estes rituais destinam-se a derrotar os demónios internos do peregrino, tal como aconteceu com Lorde Murugan, merecendo assim a sua bênção. Até há pouco tempo, alguns sacrifícios eram muito extremos, mas começaram a ser desencorajados (e proibidos, em algum caso) pelos líderes da comunidade hindu da Malásia.







O Thaipusam é um dos festivais mais coloridos e frenéticos a que já assisti – e é visitado por quase dois milhões de pessoas, ao longo de três dias, entre peregrinos locais e curiosos, devotos de todo o mundo... e turistas que, como eu, estão ali entre o choque e o absoluto deslumbre.





















QUANDO
O Thaipusam comemora-se na Lua Cheia do mês tâmil “Thai”, que normalmente calha em Janeiro ou Fevereiro. Em 2020, será no dia 8 de Fevereiro.

ONDE
Apesar da procissão ter início perto da Chinatown, no templo Mahamariamman (o mais antigo templo hindu da cidade), o epicentro da festa é nas Batu Caves, a 13km (norte) de Kuala Lumpur

COMO LÁ CHEGAR
Há quatro formas de lá chegar, durante o festival:

1)   O Comboio KTM Komuter, a partir de KL Sentral ou de outra estação (consultar as linhas de comboio de Kuala Lumpur aqui). Teoricamente, o primeiro comboio é às 06:56, mas nesta altura é costume haver muitos serviços extra. Este ano, estava a funcionar 24h/dia. A viagem demora 40min e há comboios de 50 em 50 minutos. O bilhete de ida e volta custa RM9 (2 euros).

2)   autocarros que partem da estação de LRT Pasar Seni (atrás do templo de Sri Mahamariamman, em Chinatown), estão bem sinalizados e um bilhete só de ida custa RM2 (menos de 50 cêntimos).

3)   Existe uma aplicação no sudeste asiático chamada GRAB, que é a Uber lá do sítio. Aliás: comprou a Uber. É descarregar e o resto já se sabe.

4)   Ou então, last but not leasta pé, com os peregrinos, desde Chinatown. Não é para todos... mas deve ser uma experiência única!