12/05/2020

PEÇA A PEÇA, ENCHE O VIAJANTE O OLHO

Este fim-de-semana recuperei um passatempo de adolescente, quando ainda vivia com os meus avós: fiz um puzzle.

Já o tinha comprado há quase três anos, quando me mudei para esta casa, mas ficou guardado à espera de "um dia destes" e acabei por nunca mais tocar na caixa. Até à semana passada.


Mais uma consequência da pandemia, diga-se de boa justiça. Há duas semanas, a minha prima Mafalda partilhou no grupo da família uma foto de um puzzle meio-feito, e desencadeou entre primos e tios uma onda de nostalgia, pois a minha avó sempre foi uma muito-entusiasmada fã de puzzles. Lembro-me, desde pequeno, de haver sempre algum a meio, as peças espalhadas num tabuleiro enorme que ficava pousado na mesa de jantar. Eu ia lá às escondidas, quando a Nana não estava a ver (pensava eu) e tentava encaixar o máximo de peças possíveis, antes que fosse "apanhado".

Uma semana depois da partilha da minha prima, a minha amiga Alexandra desabafou, no grupo da última viagem à Índia, que precisava de acabar depressa o puzzle que tinha começado há uns dias, para desimpedir uma mesa que precisava para já-não-me-lembro-o-quê.

A verdade é que estes dois episódios despoletaram em mim uma vontade enorme de voltar a fazer um puzzle - e do estímulo à acção foi um instante. Que bem que me soube desligar do mundo, aliás: porque é isso mesmo que acontece quando se faz um puzzle, desliga-se do mundo, das preocupações e pseudo-urgências... e é como meditar. É uma viagem.

Este puzzle, por exemplo: uma mulher indiana sentada no chão, de costas para o fotógrafo, a olhar para uma manada de camelos. Durante o tempo dedicado a reconstruir a imagem, viajei nos detalhes da fotografia de Jonathan Kingston, fui buscar referências das minhas viagens à Índia, lembrei-me de aventuras várias (alguns que estão nos livros, outras nem por isso).


Mas mais interessante do que reconhecer esta viagem de agora, foi aperceber-me que até os puzzles que completei, em casa da minha avó, fizeram parte da minha construção enquanto viajante. Porque, agora sei, antes de me ter aventurado por esse mundo fora, eu já tinha visitado a Mesquita Azul, em Istambul; a Praça de Espanha, em Roma; o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro; e a Djemaa El Fna, em Marraquexe. Eu construí o Taj Mahal e a Muralha da China, peça a peça. Explorei o Grand Canyon, a Capadócia e o Evereste. Viajei de long tail boat tailandês, fiz safaris em África e mergulhei no Mar Vermelho.

Não tenho dúvidas que todas estes cenários e monumentos, revelados à medida que encaixava as peças umas nas outras, estimularam a minha curiosidade por este colorido e mágico mundo que agora nos parece tão longínquo. Mas que há de voltar a estar ao nosso alcance.


07/05/2020

[VM80] ANGKOR

VOLTA AO MUNDO EM 80 VOLTAS

#2

Para surpresa de maior parte das pessoas que visitam pela primeira vez o Camboja, Angkor não é só um templo muito bonito que aparece em tudo-o-que-é-postais, canecas, t-shirts e souvenirs.

Esse dos postais chama-se Angkor Wat e é, merecidamente, a "estrela da companhia": um templo com quase mil anos que dizem ser o maior monumento religioso do mundo - e que é tão unanimemente espectacular que tanto consegue arrancar "uaus" a historiadores, filósofos e curiosos como à mais culturalmente insensível das Kardashians.









Mas Angkor - ou, para ser mais exacto, o Parque Arqueológico de Angkor -, é muito mais do que só Angkor Wat. É um dos maiores e mais importantes lugares arqueológicos do mundo, com cerca de mil templos (de quase-banais montes de pedras a estruturas incríveis como o tal dos postais) espalhados por 400 quilómetros quadrados, onde há mais de mil anos nasceu o Império Khmer, um dos mais importantes, evoluídos e complexos que a História teve a sorte de testemunhar.

Ao longo dos séculos, passaram por Angkor dinastias e invasores vários, religiões e tradições, grandes eventos e negligência. Desde que foi "redescoberta", primeiro por arqueólogos europeus e depois por turistas de todo o mundo, a mesma área que foi o centro de um vasto Império é agora a maior atração de um país pobre e sofrido, mas sorridente como poucos.

E se há mil anos viviam aqui quase um milhão de pessoas, hoje em dia Angkor é visitado por mais de dois milhões de turistas, anualmente.










Mais do que pela dimensão e números, o valor deste lugar reside na importância arqueológica das ruínas de templos, pontes, palácios, universidades, hospitais e hospedarias; no detalhe absurdo, que roça a perfeição, da arquitectura e da arte khmer, especialmente nos templos; e na complexidade do planeamento urbano, com destaque para as estruturas hidráulicas como canais e barragens, principalmente considerando o contexto geográfico, histórico e social em que foram construídos.

Angkor desperta o Indiana Jones que temos dentro de cada um de nós. E se cada pedra conta uma história, cada raiz é uma provocação da natureza ao homem, a reclamar o que é seu de direito, a mostrar quem na verdade manda, no longo prazo.









O Parque Arqueológico fica perto de Siem Reap, a cidade que serve de base aos milhões de turistas que visitam Angkor todos os anos; e as ruínas espalham-se numa área que vai desde o Grande Lago (Tonle Sap) até às Kullen Hills.

Além do one-of-a-kind Angkor Wat, destacam-se os portões monumentais de Angkor Thom, a "grande cidade" onde se pode visitar o Bayon e o Baphuon, o Terraço dos Elefantes, o Trono do Rei Leproso e as ruínas do Palácio Real, entre outros. Mais adiante, o Preah Khan é um dos meus templos preferidos, diz-se que foi também uma universidade; e o Ta Prohm é um dos que melhor preserva o delicado equilíbrio entre raízes e pedra, natureza e homem... foi, inclusive, cenário do filme "Tomb Raider", com a Angelina Jolie a fazer de Lara Croft.














Mas há mais: há muito, muito mais.

E se nesta fase me posso dar ao luxo de te dar um conselho, então ouve com atenção, que só vou dizer isto uma vez: vai a Angkor, assim que puderes. Reserva pelo menos três dias, leva um guia pelo menos num - e deixa que as pedras se transformem em História e em histórias. Acredita, porque já lá fui umas cinquenta vezes, entre grupos da Nomad e visitas particulares, e de cada vez que lá volto descubro novos cantos e recantos, segredos e curiosidades.

E se quiseres o tuktuk mais cool do Universo, liga ao Batman e diz que vens da minha parte ;)

Whatsapp: +855963271890
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09/04/2020

VARANASI, SÉC. XIX

A propósito da frase de Mark Twain que mencionei no post de ontem, e que considero perfeitamente actual, resolvi fazer uma pesquisa no google e seleccionar algumas fotos antigas de Varanasi.

Assim, e sem muito mais conversa, deixo-te quinze fotos tiradas em Varanasi há mais de cem anos. Fora duas ou três que são do início do séc. XX, todas as outras foram tiradas ao longo da segunda metade do séc. XIX.

Deixa-me que te diga: fora a quantidade de plástico e o inevitável telemóvel, não há assim tantas diferenças entre essa Varanasi e aquela que eu conheço: