03/09/2015

A IMPERDÍVEL ELIF SHAFAK

Várias vezes me perguntam se conheço autores turcos, se gosto do Pamuk, se tenho sugestões para quem quer "viajar" pela Turquia através das páginas de um livro.

Confesso que não conheço muito da literatura turca. Tentei ler vários do Nobel já mencionado e foi sempre a mesma coisa: começo muito entusiasmado, adoro os temas e a forma como escreve... mas há que admitir que o senhor depois começa ali às voltas e reviravoltas... não avança nem recua, e enrola, enrola, enrola... enfim, não sei se é dele ou se é de mim, ou se é das circunstâncias e fatalidades, da sorte e do azar - mas nunca consegui acabar nenhum dos seus livros. E no entanto ainda hei-de tentar mais umas vezes.

Mas há uma autora turca que me consegue agarrar da primeira à última página. Chama-se Elif Shafak e, para quem só lê em português, aviso já que este post não vai servir de muito. Pelo que sei, só um dos seus livros está traduzido.

Para quem está à vontade para ler em inglês, vão por mim: não percam nenhum dos seus livros. Acabei recentemente o "The Architect's Apprendice", um verdadeiro clássico que se desenrola na Istambul do século XVII, com um elefante indiano à mistura e muitas intrigas típicas de um bom romance histórico.


Contudo, a maior parte da sua obra nem passa por este registo.

O meu preferido de Elif Shafak é o "The Gaze", uma verdadeira viagem no tempo e por várias dimensões, com personagens fantásticas e um olhar sobre Istambul como ninguém tem.

E depois há o "The Bastard of Istanbul", o primeiro que li desta autora, e o tal que já está traduzido em português.

A senhora deve ter uns sete ou oito romances escritos, eu já li quatro e recomendo cada página. Fica a dica para quem já esteve em Istambul e quer revisitar a cidade, ou para quem está para vir e quer entrar no espírito, ou mesmo para quem não sabe sequer se há-de vir um dia, mas gosta de uma boa leitura.


02/09/2015

BEM-VINDO A ISTAMBUL?

Hoje recomeça a minha sétima temporada de viagens da Nomad. Já estou em Istambul, onde nos próximos dias vou dar os retoques finais à próxima edição da viagem "De Istambul ao Curdistão", que arranca já no domingo.

Saí ao final da manhã de Lisboa, num Boeing da Turkish Airlines, e aterrei em Istambul ao final da tarde. E como trazia alguma bagagem extra e não me apetecia ter de carregá-la, achei melhor "ir para casa" de táxi, em vez de apanhar o shuttle para Taksim e depois caminhar pouco mais de um quilómetro. Nada de novo, até aqui.

Só que desta vez apanhei um "daqueles" taxistas de aeroporto. Há muito tempo que não me acontecia tal coisa. Quando dei pela volta que ele estava a dar já era tarde demais para "sugestões". Estávamos quase em Sultanahmet, parados no trânsito, o Bósforo mesmo ao lado e eu com fumo a sair pelas narinas e ouvidos. Estava furioso. Não só porque me distraí, não só por estar a ser enganado, mas porque não havia muito a fazer naquele pára-arranca.

Não sei se por orgulho ou uma qualquer fé que de certa forma estaria a fazer justiça, decidi sair ali mesmo, naquela espécie de via rápida com duas faixas para cada lado. Disse ao taxista que não ia continuar, paguei-lhe a quantia que estava marcada no taxímetro (e que já igualava o que normalmente pago para ir para casa da minha amiga Bahar, onde fico até ao grupo chegar), e com o senhor a "mandar vir" em turco, disse-lhe qualquer coisa do género "não tivesses vindo dar esta volta toda, agora vais receber o mesmo que terias recebido se me tivesses levado a casa, mas em vez de um obrigado e um sorriso, ficas aqui preso mais meia hora, pelo menos".

Atravessei a via rápida para o outro lado, com duas mochilas e um saco de desporto - diz a tradição que sempre que venho de Portugal para casa da Bahar, levo comigo duas garrafas de vinho verde, farinheiras, chouriço e mais alguns petiscos.

Caminhei um pouco no sentido contrário e parei junto a um semáforo. Minutos depois, estava já noutro táxi, no sentido inverso ao trânsito.

Estou (finalmente!) em casa. Gastei quase o dobro do que seria normal, o que não deixa de ser frustrante. Mas cheguei. As malas estão pousadas à porta, eu estendido no sofá, conversa e azeitonas para relaxar, um copo de água fria, daqui a nada janta-se.

Bem-vindo a Istambul?

O arranque foi atribulado, mas já faz parte do Passado.

Já nem me lembro bem.

Já me esqueci!

ENCONTROS E DESPEDIDAS

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

- Maria Rita

28/08/2015

A BOA VIDA

Ando sossegado, por aqui.

Muito sossegado, mesmo.

Pudera: estou há uma semana de papo para o ar no Alentejo, numa casa que aluguei com alguns amigos. Boa vida. E sabe mesmo bem, para recuperar as energias necessárias para a nova temporada de grupos Nomad que se segue.

Em Setembro tenho a viagem à Turquia, em Outubro a da Birmânia e depois a Indochina em Novembro, antes de mais um regresso à Birmânia. Vai ser "sempre-a-abrir".

Mas enquanto não me vejo num aeroporto à espera de embarcar para Istambul... Alentejo, sabes-me tão bem!




17/08/2015

BANGKOK EM ESTADO DE CHOQUE

Num mundo em que assistimos diariamente a horrores de toda a espécie na televisão, é quase de admirar que alguém ainda se choque quando se insurgem novas paisagens entre os habituais headlines e breaking news.

Um atentado terrorista... em Bangkok?

Incrível.

Ainda não se apuraram responsabilidades, pseudo-motivações, slogans e desculpas. Mas a contabilidade (provisória) das vítimas aponta para vinte e sete mortos e oitenta feridos. Como é que é possível alguém fazer uma coisa destas. Será que esta gente dorme à noite? Não acredito, a sério. Alguém que faz uma coisa destas tem de ser assombrado por fantasmas e demónios até ao fim da sua existência, seja como foragido ou entre quatro paredes e uma janela de grades. Alguém que comete uma proeza desta natureza merece não ter descanso nunca mais, merece uma eternidade no Inferno por cada vida afectada, não só o que faleceram e os que estao fisicamente a sofrer, mas também pelos familiares e amigos, pelos universos à volta de cada vida despedaçada.

Vinte e sete pessoas perderam a vida, hoje, porque estavam no lugar errado, à hora errada. Alguns estariam a rezar (o ataque deu-se junto ao templo de Erawan, dedicado a Brahma - o deus Criador da trindade hindu); outros iam para as compras (a zona envolvente tem muitos centros comerciais); e outros estariam apenas de passagem, enfiados no trânsito do costume e nas preocupações do dia-a-dia, nas actualizações de perfil no facebook, a voltar para casa depois de um dia de trabalho, a pensar no que fazer para jantar, no que vestir na festa do próximo fim-de-semana... tão triste.

Conheço bem Bangkok, e talvez isso faça com que me sinta ainda mais revoltado. Mas mesmo que não conhecesse. Que nojo:




12/08/2015

UAU! É O TERREIRO DO PAÇO!

Depois de um dia intenso a passear pelo Chiado e pels Baixa, Cais do Sodré e Belém... nada como um espectáculo de coloridas projecções na fachada do Arco da Rua Augusta e nos edifícios em redor do Terreiro do Paço.

Diz quem sabe que já foi feito bem melhor, aqui. E eu acredito que sim, porque quem sabe-sabe, e eu não tenho termo de comparação. Mas adorei. Foi a primeira vez que assisti a tal espectáculo, infelizmente quase nunca estava por cá, das outras vezes.

Anyway!

Foi um belo espectáculo, não há como negar. Muita cor, boa música e Fernando Pessoa na receita, mais alguns uaus à mistura e muitas palmas no fim. Turistas e tugas igualmente satisfeitos, fui embora de sorriso bem vincado.

Sendo assim, hoje partilho alguns momentos desta noite de muita cor, no Terreiro do Paço:














11/08/2015

TURISTA EM LISBOA

Chegou hoje o Ahmed, um amigo egípcio que conheço de Kuala Lumpur, e que também tem um blog de viagens. Nos próximos três dias vamos andar a passear por Lisboa e Sintra, prometo partilhar algumas impressões aqui. E se alguém tiver alguma dica fantástica, faz favor de dizer.

Quanto à série de posts sobre o Património da Humanidade na Índia: é para continuar. Ainda tenho alguns para partilhar. Já conversamos.

07/08/2015

AS LINHAS FÉRREAS DE MONTANHA

"São excelentes exemplos de soluções corajosas e engenhosas para o problema de estabelecimento de caminhos-de-ferro em terrenos montanhosos e tão acidentados", argumentou a UNESCO quando atribuiu o título de Património da Humanidade a três das cinco linhas férreas de montanha construídas na Índia no final do séc. XIX.

A primeira a merecer o reconhecimento da UNESCO foi a Darjeeling Himalayan Railway, em 1999. Construída entre 1879 e 1881, tem treze estações ao longo de setenta e oito quilómetros; e liga a estação de New Jalpaiguri (a 100m de altitude) à de Darjeeling (a 2.200m). Experimentei-a em 2011, mas apenas de Kurseong a Darjeeling, porque parte da linha estava fechada, devido a uma enchurrada.

Em 2005 a distinção de Património da Humanidade alargou-se também à Nilgiri Mountain Railway, inaugurada pelos britânicos em 1908 e que ainda opera locomotivas a vapor. A linha tem ao todo quarenta e dois quilómetros e faz cento e oito curvas, passando por dezasseis túneis e duzenas e cinquenta (!) pontes. É um passeio que recomendo vivamente a quem esteja por perto. A paisagem é deliciosa, o comboio muito giro, e concerteza que vão conhecer gente interessante. Eu fiz o percurso Ooty - Coonor em 2005 e fiquei rendido.






Finalmente, em 2008, a linha Kalka-Shimla teve também direito a ser Património Mundial: com quase cem quilómetros, liga Kalka (650m) a Shimla (2.075m), a antiga capital de Verão da Índia, durante a ocupação britânica. Tem 919 curvas, 102 túneis e 864 pontes. Foi inaugurada pelo vicerei da Índia Lord Curzon em 1891 e há uma história comovente relativa à sua construção:

O senhor engenheiro Barog, responsável pela construção do maior túnel desta linha, aparentemente fez mal as contas quando mandou escavar o túnel, primeiro de um lado da montanha, depois do outro... pois as duas metades não estavam alinhadas. Foi multado simbolicamente em apenas uma rupia, mas não conseguiu viver com a vergonha e acabou por se suicidar dentro do túnel. Mais tarde, o engenheiro Herlington acabou por concluir a obra, com a ajuda de um sadhu chamado Bhalku, e deu ao túnel o nome do seu antecessor.

Mas histórias à parte: a viagem é um espectáculo, e recomendo-a também. Viajei nesta linha em 2007, descendo de Shimla ao final da tarde, e foi um passeio inesquecível, serpenteado pelos Himalaias.




06/08/2015

GRUTAS DE AJANTA

Vinte e oito de abril de 1819.

Seguia o oficial britânico John Smith com um grupo numa expedição de caça, à procura de tigres, quando deram de caras com um grupo de ascetas acampados na floresta, em volta de uma fogueira. Junto a eles encontraram um trilho que seguia em direcção a uma gruta - e movido pela curiosidade, John Smith não resistiu a entrar lá dentro.

Aquilo que encontrou deixou-o sem palavras. Dentro da gruta havia um antigo templo budista com as paredes e pilares cobertos de pinturas com personagens da Jataka (a literatura que conta as vidas passadas do Buda, seja em forma humana ou animal).

Sem pensar duas vezes, John Smith agarrou uma faca e cravou o seu nome e a data numa das pinturas.

Este é um daqueles pormenores que os guias indicam aos turistas, na visita às grutas: a um canto num dos pilares... a assinatura de John Smith. Felizmente, o vandalismo do senhor não foi mais além da assinatura - pelo menos que se saiba - e agora é possível visitar em Ajanta três dezenas de grutas escavadas nas rochas, todas riquíssimas em esculturas e pinturas.





As grutas de Ajanta são um grupo de mosteiros, templos e colégios budistas, a cerca de cem quilómetros de Aurangabad, que foram construídos em duas fases: uns no século II AC; os outros, no século V... já depois de Cristo, portanto, durante o chamado "período Gupta". As pinturas e os frescos nas suas parede são hoje aclamados como o melhor exemplo de arte indiana ancestral, numa representação da arte religiosa budista que só encontra parecenças em Sigiriya, no Sri Lanka.

As grutas foram escavadas num penhasco que fica no lado sul de um desfiladeiro, ao longo de um rio chamado Waghur - e são Património da Humanidade desde 1983, tal como Ellora. Recebem quase meio milhão de turistas por ano.