29/01/2019

EMOÇÕES FORTES NO THAIPUSAM

‘Satu! Dua! Tiga! Check!’, repete até à exaustão um grito entediado, nos altifalantes, ao ponto de eu já sentir falta da estridente chinfrineira que veio substituir, há uns cinco minutos.

Estou sentado num restaurante improvisado numa tenda, a comer arroz com algo que, quando fiz o pedido, achei que era galinha. Mas estamos num templo, ou mais ou menos, e aqui não se serve carne.

‘Somos mais de três mil, hoje, aqui nas Batu Caves’, diz-me o homem sentado ao meu lado, na mesa corrida em inox, ‘alguns estão fardados, mas muitos vieram como eu, à paisana. Para garantir a segurança dos peregrinos, mas sem impor demasiado a nossa presença’ – e, depois de uma pausa carregada de cumplicidade, ‘e para apanhar os bandidos, que assim não sabem quem nós somos’.

São onze e meia da manhã e já está um calor quase insuportável. Fiz bem em vir cedo, penso para mim próprio. E para a próxima vou experimentar vir também durante a noite, várias pessoas me disseram que é a melhor altura, o ambiente está um pouco mais calmo, o ar mais fresco, menos húmido.

Mas eu quero o caos.

Vim bem cedo, aos primeiros raios de sol, porque queria assistir ao Thaipusam no auge das emoções, rodeado de quase dois milhões de cotoveladas e se-faz-favores, apertado entre telefones a filmar, crianças a chorar, famílias inteiras a gritar ‘Vel! Vel! Murugan!’, bandas a tocar música e um frenesim colorido e electrizante.

Levanto-me, pago a conta, saio para a rua - que calor!

Vejo um kavadi a ser transportado, algures no meio da multidão. Aproximo-me, tiro três ou quatro fotografias, é impossível não ficar impressionado com esta atmosfera, a devoção, os rituais. Das cores com que se vestem ao facto de raparem os cabelos, mais os anzóis espetados nas costas, e as setas na língua. Mas uma coisa de cada vez. À minha frente, e na fotografia que mais tarde hei-de descarregar no computador, está um homem com uma espécie de andor aos ombros (o kavadi), decorado com penas de pavão, grinaldas de flores, berloques e rococós vários... e, claro está, a imagem de um deus hindu.

Mas vamos lá contextualizar isto, que descrever não basta.

Chama-se Thaipusam, este festival celebrado em homenagem ao deus hindu da guerra, Lorde Murugan, filho de Shiva e Parvati. Conta a lenda que a mãe lhe ofereceu uma seta mágica chamada “Vel”, com a qual derrotou um demónio chamado Surapadman, salvando assim a Humanidade.

Por uma série de razões que posso abordar outro dia, num post próprio, a comunidade tâmil da Malásia é especialmente devota a este deus. Durante todo o ano, pedem-lhe ajuda em vários aspectos mundanos – e prometem realizar uma peregrinação às Batu Caves durante o Thaipusam.



Um bocadinho como os portugueses com Fátima – mas em vez de queimarem velas em forma de pernas e braços e cabeças, e de irem de joelhos até à capelinha (por acaso alguns até vão de joelhos, e também vi quem fosse a rebolar), aqui os peregrinos cumprem a procissão descalços, carregando em cima da cabeça ofertas (tigelas de leite, imagens do deus ou os tais kavadis, que podem ter até cem quilos!). E em vez de três voltas finais à capelinha, sobem os 272 coloridos degraus que dão acesso ao templo principal, que fica numa gruta de calcário.

Além disso, muitos dos peregrinos realizam actos de auto-mutilação, perfurando as bochechas ou a língua com pequenos espetos de prata, que simbolizam o “Vel”; ou espetando nas costas, braços e peito pequenos ganchos e anzóis, onde penduram frutas ou cordas; ou caminhando sobre sapatos de madeira com pregos espetados. Estes rituais destinam-se a derrotar os demónios internos do peregrino, tal como aconteceu com Lorde Murugan, merecendo assim a sua bênção. Até há pouco tempo, alguns sacrifícios eram muito extremos, mas começaram a ser desencorajados (e proibidos, em algum caso) pelos líderes da comunidade hindu da Malásia.







O Thaipusam é um dos festivais mais coloridos e frenéticos a que já assisti – e é visitado por quase dois milhões de pessoas, ao longo de três dias, entre peregrinos locais e curiosos, devotos de todo o mundo... e turistas que, como eu, estão ali entre o choque e o absoluto deslumbre.





















QUANDO
O Thaipusam comemora-se na Lua Cheia do mês tâmil “Thai”, que normalmente calha em Janeiro ou Fevereiro. Em 2020, será no dia 8 de Fevereiro.

ONDE
Apesar da procissão ter início perto da Chinatown, no templo Mahamariamman (o mais antigo templo hindu da cidade), o epicentro da festa é nas Batu Caves, a 13km (norte) de Kuala Lumpur

COMO LÁ CHEGAR
Há quatro formas de lá chegar, durante o festival:

1)   O Comboio KTM Komuter, a partir de KL Sentral ou de outra estação (consultar as linhas de comboio de Kuala Lumpur aqui). Teoricamente, o primeiro comboio é às 06:56, mas nesta altura é costume haver muitos serviços extra. Este ano, estava a funcionar 24h/dia. A viagem demora 40min e há comboios de 50 em 50 minutos. O bilhete de ida e volta custa RM9 (2 euros).

2)   autocarros que partem da estação de LRT Pasar Seni (atrás do templo de Sri Mahamariamman, em Chinatown), estão bem sinalizados e um bilhete só de ida custa RM2 (menos de 50 cêntimos).

3)   Existe uma aplicação no sudeste asiático chamada GRAB, que é a Uber lá do sítio. Aliás: comprou a Uber. É descarregar e o resto já se sabe.

4)   Ou então, last but not leasta pé, com os peregrinos, desde Chinatown. Não é para todos... mas deve ser uma experiência única!

28/11/2018

ACABOU

Que sensação estranha, a de estar aqui sentado, em frente a um teclado e um ecrã, neste contexto. Um quarto de hotel em Kuala Lumpur, no rescaldo da trigésima segunda - e última - edição da "Indochina com Jorge Vassallo".

Não sei por onde começar. Não sei que palavras usar, que sequência dar ao turbilhão de ideias que sacode e varre o mundo em meu redor.

Por um lado: nostalgia.

Revisito sorrisos e lugares, nove anos de peripécias e partilha; desta colorida, atribulada, inesquecível viagem que é Viver. Acabou a Indochina.

Por outro: alegria.

Das mil e uma aventuras, guardo no coração as melhores e levo na bagagem algumas menos agradáveis. Faz parte. Fez de mim quem sou, também. E os próximos passos são a consequência inesperada e ao mesmo tempo óbvia daqueles que dei ao longo destes nove anos.

Acabou a Indochina.

Não sei se já interiorizei por completo, em toda a sua dimensão, em todo o seu peso, esta frase.


Tenho tempo. Não é num só post que vou arrumar a questão. Tenho tempo, eu sei. E tenho tanto para arrumar, ainda, neste arquivo louco e caótico de personagens e paisagens, de histórias contadas e outras ouvidas; de sabores, contrastes, texturas e aromas; de princípios e meios e fins; de temperaturas e velocidades várias, dimensões que desconhecia existirem, luzes e sombras, altos e baixos, amargos e doces... e picantes.

Nove anos. Trinta e duas edições da Indochina, onze da Birmânia, seis da Turquia, cinco Transiberianos e quatro viagens especiais de fim-de-ano. Not bad.

Mas é altura de abrandar. Já o é, há algum tempo - daí ter vindo a fazer, a cada ano, nas últimas três temporadas, menos viagens com grupos. Faz parte. Afinal, quando finalmente voltei a alugar casa em Portugal, no ano passado, ao fim de quase quinze anos sem poiso, já a balança começava a pesar um bocadinho mais para "o outro lado".

E quando larguei a editora e arrisquei-me numa edição de autor... algo já tinha mudado.

Não vou parar de viajar. Não vou parar de escrever. Mas vou mudar um bocadinho a dinâmica. É como aqueles anúncios a shampoos que mudam de embalagem: novo rótulo, a qualidade de sempre. O mesmo conteúdo. Eu continuo Eu.

Um post não chega, realmente. Que sensação estranha. Tanto que apetece escrever. E, ao mesmo tempo, não apetece nada.

Escrever no blog... há tanto tempo que não o fazia. Sem ensaios nem textos trabalhados: só eu e o teclado debaixo dos meus dedos. Já tinha saudades disto. Há dois anos que praticamente não "passo aqui". Isto tem de mudar. Tem de mudar. Isto vai mudar.

E por falar em mudar: a paisagem à minha volta, a paisagem por dentro, os olhos que apreciam uma e outra. Tanto mudou.

Nove anos.


21/04/2018

ONDE COMPRAR O LIVRO "DE VESPA NA ÍNDIA"

Uma vez que esta obra prima ;) é uma produção "independente", ou seja, uma edição de autor; não tenho uma vasta rede de distribuição organizada, tal como quando publicava com uma editora "a sério".

Assim sendo, se quiser comprar online pode:

1) fazê-lo a partir deste link do Manifesto (portes de envio são mais baratos)

2) encomendar directamente comigo, enviando-me uma mensagem no instagram ou no facebook

Ou então, procurar numa destas lojas:

- Livraria Palavra de Viajante, em Lisboa

- Galeria Manifesto, em Matosinhos

- Livraria Déjà Lu, em Cascais

16/04/2018

LANÇAMENTO DO LIVRO EM LISBOA

O primeiro evento de lançamento do meu novo livro, "De Vespa na Índia", aconteceu em Lisboa na passada sexta-feira.

O Salão Nobre da Junta de Freguesia do Lumiar estava "a rebentar pelas costuras", com cerca de 120 pessoas a assistir à apresentação.

À apresentação feita pelo presidente da Junta de Freguesia do Lumiar, Pedro Delgado Alves, seguiu-se um emocionado e muito humano discurso da Embaixadora da Índia em Portugal, Mrs. K. Nandini Singla, que deixou a audiência com um sorriso enorme. Um arranque perfeito para a apresentação do projecto "Tudo é Possível!" e do primeiro volume, que agora lancei.

Partilhei algumas histórias, curiosidades e ideias durante quase uma hora e meia... e depois respondi a algumas dúvidas e questões colocadas pelo público.

Foi uma noite muito gira, modéstia à parte. Adorei - e mal posso esperar pelo evento da próxima quarta-feira, em Matosinhos.

Ficam alguns registos, feitos pela minha amiga e fotógrafa Mariana Motta Veiga, a quem agradeço desde já a disponibilidade:






















12/04/2018

DE VESPA NA ÍNDIA

Está finalmente pronto, o meu novo livro!

Deu-me imenso trabalho (bem mais do que estava à espera, eheh), mas muito mais prazer também. Tem sido uma intensa, genuína descoberta, todo este processo... e ainda a procissão vai no adro!

Assim sendo, e a quem possa interessar ;) fica um update:

O livro está impresso, portanto - são mil exemplares! A capa desenhada pela Vanessa Teodoro ficou incrível, é impossível não gostar. Vou ter duas sessões de lançamento - uma em Lisboa (amanhã), outra no Porto (na próxima quarta) - e depois conto ir dar umas voltas por Portugal, ao longo dos próximos meses, para promover o projecto em sessões de apresentação, conversas, etc.

É nesta fase que me lanço agora: encontrar pontos de venda, trabalhar a distribuição e a promoção do livro. Gosto disto! E se tiverem dicas de lugares interessantes, livrarias independentes, moto clubes que queiram dinamizar com uma conversa sobre a viagem, concentrações de vespas, feiras do livro, eventos que tenham a ver com viagens, motas ou a Índia... enquanto tiver disponibilidade, vou a todas! :)

Fica uma foto feita pela própria Vanessa Teodoro, a artista responsável pela capa espectacular do "De Vespa na Índia", e deixo-vos dois convites:

1. Passem pela Junta de Freguesia do Lumiar, amanhã às 21:00; ou na galeria Manifesto, em Matosinhos, na próxima quarta, para ouvir algumas histórias acerca deste projecto;

2. Espreitem a página do livro aqui e, se estiverem interessados, façam as vossas encomendas :)




15/01/2018

NEVOU NO DESERTO

Já viste as fotografias que estão a "circular" na internet da neve no Deserto do Sahara?

Apesar de serem mais um reflexo das alterações climatéricas que o planeta está a sofrer, é impossível não ficar de boca aberta ao vê-las. Que espanto, o insólito do contraste das cores.

Para quem não está a par do sucedido: na semana passada nevou num dos lugares mais secos do Mundo. Aconteceu na aldeia argelina de Ain Sefra, conhecida por ser uma das "Portas do Sahara" - e foi só a terceira vez em quarenta anos (as outras duas foram em 2016 e 1979).

A neve chegou a atingir, em alguns lugares, mais de trinta centímetros, mas derreteu ao fim de apenas um dia, por isso escusa o estimado leitor de fazer as malas e meter-se num taxi a caminho do aeroporto. Já não chegas a tempo, amigo.

Ficam as fotos, portanto. "Saquei" algumas da net, por isso os créditos a quem as tirou: Zineddine Hashas, Geoff Robinson e Hamouda Ben Jerad.







02/01/2018

O MELHOR DE 2017 - ESPANHA E FRANÇA

A convite de um amigo de Singapura, em Julho alugámos um carro e partimos para uma pequena roadtrip a Paris e Barcelona.

Foi uma viagem intensa e muito cansativa, pois apenas eu conduzi.

Mas valeu a pena: por um lado, revisitei Paris e Barcelona, que já conhecia de outras aventuras; por outro, tive a liberdade de fazer os desvios que quis - e por isso aproveitei para explorar alguns lugares novos. Em França, conheci finalmente o Mont Saint-Michel, atravessei o viaduto Millau e comprei queijo na aldeia pitoresca de Roquefort. Em Espanha, descobri a mais antiga praça de touros do país, (em Bejar, uma aldeia não muito longe de Salamanca), explorei caminhos inóspitos em Castela e realizei um sonho antigo: fui a Segóvia.

É curioso que, apesar de uma espécie de pacto que fiz comigo próprio, em que decidira não viajar na Europa nos próximos dez anos, a não ser que fosse alguma viagem inesperada ou com um motivo especial - e, logo este ano, revisitei três grandes cidades europeias: Paris e Barcelona, nesta roadtrip em Julho; e Londres, onde passei um dia inteiro quando estava a caminho da Islândia, em Setembro.

Promessas, curiosidades e conclusões à parte ;) ficam algumas fotos: