04/07/2015

NOSTALGIA DE FIM-DE-SEMANA

Estava aqui a fazer contas às voltas (as últimas desta aventura, que está quase a terminar) e dei por mim a viajar no tempo, quem diria.

É que, no regresso ao Orissa, passei por uma terrinha onde tinha estado há ano e meio: chama-se Bishnupur e é daqueles lugares meio-esquecidos no mapa, mas que merecem um desvio. Foi aqui que conheci o Kousik, e de onde partimos numa viagem de mota a três, até à sua aldeia, onde fiquei uns dias. A mesma aldeia onde regressei, agora.

Fica um click a celebrar esse encontro de há ano e meio, e os links para as crónicas dessa aventura. Dêem uma espreitadela:

http://fuidarumavolta.blogspot.in/2014/01/bishnupur-de-mota-tres.html

http://fuidarumavolta.blogspot.in/2014/01/mais-valia-estar-calado.html

http://fuidarumavolta.blogspot.in/2014/01/a-floresta-assombrada_22.html

Bom fim-de-semana!

03/07/2015

AI QUE DOOOOR!!!

Devo estar mesmo giro, hoje. Todos os insectos me querem beijar. ;)

Isto vinha eu a pensar, sorridente, na viagem de Balasore para Bhubaneswar. A última desta aventura de vespa pela Índia.

E um desses insectos, sei lá o que era porque não o vi, veio beijar-me na perna de tal forma apaixonado que até gritei de dor. Encostei a mota à berma de imediato, pus-me aos saltos e a respirar fundo durante meio minuto e depois deitei água sobre a picada. Esfreguei-a com uma pomada e procurei pelo bicho responsável por tamanha comoção, não fosse estar algures na roupa ou na mota. Não fosse atacar outra vez. Mas não vi nada.

Incrível... que horrendo monstro pode causar tanta dor, com uma picada apenas?

Viajei mais de uma hora com dores na perna. O inchaço aumentou e sentia a pele dura e quente, mais umas picadinhas na zona em redor. Que susto. Só ao fim de uma hora é que o inchaço começou a diminuir - e quando cheguei a Bhubaneswar, já estava praticamente bom. Fiquei com uma pequena marca, como uma queimadura, para recordar; e alguma impressão até ao final do dia. Mas só isso. Estou a salvo.

Mas foi um valente susto, confesso. Não sou de dramatizar (às vezes eheh), mas a dor e o inchaço eram de tal forma inesperados que me assustei. Eu sabia lá que rara fera me tinha mordido. Cheguei a equacionar telefonar ao Bunty, que estava à minha espera em Bhubaneswar, para marcar uma consulta no médico para o final do dia. Felizmente não foi preciso.

Já passou. E desculpem lá os pêlos e a intimidade da foto que se segue, mas não resisto a partilhar. :)


A MINHA VESPA #03

Durante quase toda a viagem pela Índia, a minha mota teve dois espelhos que fizeram algum furor, por serem meio retorcidos e muito originais. Acontece que em Bhubaneswar, há duas ou três semanas, a base de um dos espelhos partiu-se e o dito caiu - em andamento. Consegui apanhá-lo (nem sei como, mas consegui) e guardei-o muito bem guardadinho... tudo bem, consigo viver só com um espelho, pensei.

No dia seguinte troquei o do lado esquerdo para o lado direito... mas confesso que não conseguia ver nada, a emenda afinal não me resolvia o problema. O mecânico de Bhubaneswar garantiu-me que demorava quase um mês para encomendar um novo (que ideia tão ridícula, mas enfim), por isso esperei até chegar à aldeia do meu amigo Kousik e perguntei-lhe se sabia onde podíamos comprar um espelho.

Incrível. Custou-me um euro: o espelho, a base - e os dez minutos de mão-de-obra.

Não era nada de especial... mas era um espelho. E que falta me fazia. No entanto, ao fim de três dias a viajar nas estradas esburacadas do West Bengal, a base começou a "escorregar" e o espelho a inclinar-se, aos poucos, deitando-se ao ponto de estar já encostado às costas da minha mão. Coisa que não me dava jeito nenhum, como podem calcular. Preciso da mão para acelerar e travar. Manias.

Tentei arranjar por mim próprio e não consegui, por isso planeei ir a uma oficina e pedir uma ajudinha. Mas, curiosamente, numa segunda tentativa acabei por desenrascar uma solução... enfim, pouco ortodoxa, mas que na verdade me resolveu o problema.

E assim tenho andado nos últimos dias:


A MINHA VESPA #02

Os mais atentos já devem ter reparado que a minha mota tem, à frente, um adereço tipo "Rolls Royce". Pois: fui eu que o acrescentei. Para ficar mais chique. ;)

A pequena peça é um amuleto que comprei em Bangkok, no mercado que fica entre o Grande Palácio e o rio Chao Phraya. Colei-o ao farol com supercola e pintei-o de prateado. Dá estilo ou não dá?


O amuleto é um Garuda, uma figura mítica que é meio águia, meio homem. É ele quem leva Vishnu para todo o lado - e é um dos meus personagens preferidos da mitologia hindu.

02/07/2015

ANTES QUE CHOVA

Fugi da aldeia e o céu começou logo a escurecer. As nuvens quase-quase a rebentar, de vez em quando uns chuviscos mas nada que fizesse justiça ao céu por cima desta paisagem.

O caminho para Shanti Niketan era lindíssimo, serpenteando entre aldeias e arrozais, mulheres de saris coloridos, carros de bois e crianças sorridentes a dizer adeus. Infelizmente não deu para tirar muitas fotografias, por causa das condições climatéricas.

Mas fica um click:


(MAIS OU MENOS) RAPTADO!

Parte 2:
Tortura e fuga

Interessante reparar como certas palavras ganharam determinadas conotações, ao longo dos tempos. No início do último post juntei na mesma frase as palavras "muçulmano", "rapto" e "interrogatório"... e o que noutro contexto podia ser uma má notícia, afinal era uma história que fala de hospitalidadee sentimentos positivos.

Os nove muçulmanos que referi são todos membros da mesma família: dois irmãos e a mulher de um deles, mais o pai e a mãe, uma tia e o primo, o avô e a avó. Nove pessoas que me receberam com uma curiosidade enorme, um entusiasmo genuíno, uma entrega pura. E depois de vários interrogatórios acerca do meu percurso de vida, a minha família e a minha viagem... "raptaram-me", portanto. Fiquei a dormir em casa deles.

Jantámos - os homens num quarto, as mulheres e as crianças noutro - e depois ficámos a ver um jogo qualquer da Copa América, pois um dos miúdos adorava futebol e sabia tudo sobre as equipas espanholas, a Liga dos Campeões e as Selecções Nacionais. Impressionante.

Ainda houve tempo para brilhar com o Tiger Balm: a mãe tinha-se queixado de dores nos joelhos e eu dei-lhe a experimentar o bálsamo milagroso. Foi tal o entusiasmo que toda a família experimentou - e não resisti em oferecer-lhes aquilo.

Quando nos deitámos, três na mesma cama enorme, o quarto estava infestado de insectos. Tinham entrado pelas janelas abertas: mosquitos e pirilampos, pequenos escaravelhos e dezenas de outros bichos que não reconheço, não faço ideia o que eram - e não quero saber. Confesso que ao início estava sempre a sacudir-me com nojo, os bichos sempre a pousar, mas era impossível não me habituar. Ou seja: quando finalmente apagámos a luz, já estava um bocadinho mais à vontade. Com a ventoinha ligada chateavam menos... mas confesso que acabou por ser uma tortura, toda a noite a acordar e a adormecer, sentindo bichos por todo o lado, braços e pernas, pescoço e pés, até nos ouvidos e no nariz. Às vezes abria os olhos e via no escuro umas luzes, pareciam estrelas cadentes. Mas eram apenas os pirilampos que, ao ser empurrados pelo ar da ventoinha, eram projectados para os lados. E depois voltavam ao centro do quarto para repetir a brincadeira.

Muito bonito de descrever, aparentemente muito fotogénico, se fosse possível de fotografar... mas uma verdadeira tortura. Não tinha lençol nem cobertor, fui buscar uns longhis birmaneses à mochila para ver se me tapava um bocadinho. De manhã acordei com umas olheiras até aos pés, mas tive de fazer cara bonita e sorrir para toda a gente. O estrangeiro resistiu.

Depois do pequeno-almoço passaram a manhã a "empatar-me", basicamente. Prometiam vir comigo a Shanti Niketam, o lugar onde fica a universidade de Tagore. Aparentemente não estávamos assim tão longe, uns 30 ou 40 km. Mas iam sempre adiando a partida, havia sempre um programa mais urgente, algo de última hora que não interessava para nada... e à medida que o passeio era adiado para mais tarde, eu ficava mais impaciente. Já só pensava em prosseguir viagem. O tempo nem estava mau: ou seja, não estava a chover. E quando de repente começaram a falar de uns problemas e umas situações, mais vale irmos só amanhã, hoje ficamos por aqui que é melhor...

...eu já sei onde Isto vai parar.

E meus senhores: Isto não vai acontecer.

Comecei a inventar umas desculpas, que tinha de estar não-sei-onde, não-sei-quando. Mais problemas da mota e a chuva que vai-e-vem. A sério: gostei da experiência, da partilha de histórias e das gargalhadas com os amigos que fiz, da família que foi muito hospitaleira, da comida. Comi que nem um príncipe. Mas não me estava nada a apetecer repetir a ronda de visitas e fretes sociais, e vá-se lá perceber porquê mas muito sinceramente não tinha especial vontade de passar mais a noite com os insectos.

Almoçámos. E fui-me embora.

A bem da preocupação deles, disse-lhes que ia para Kharagpur (a sul). Mas, na verdade, dez quilómetros depois de seguir na estrada principal, meti-me por um caminho secundário para leste e segui o plano que tinha traçado ao início, no mapa: ia para Shanti Niketan.

(MAIS OU MENOS) RAPTADO!

Nove muçulmanos, vários interrogatórios, uma tortura com insectos e uma fuga ao fim de vinte e quatro horas. A crónica que se segue contém descrições que podem chocar os leitores mais impressionáveis.

Parte 1:
Interrogatório e rapto

Depois da Agradável Surpresa que foi Murshidabad, comecei a voltar "para baixo" no mapa. O objectivo final era chegar a Bhubaneswar - onde a minha mota ficará guardada para uma segunda volta, em 2016 -, mas como isso implicava alguns dias de estrada, em vez de regressar pelo mesmo caminho fiz um desvio, de maneira a visitar Shanti Niketan (onde fica a icónica universidade fundada pelo Nobel da Literatura indiano, Rabindranath Tagore).

Apesar de nem estar muito mau tempo no momento em que saí de Murshidabad, ao longo do da manhã as condições foram piorando. Primeiro vento e muito pó, depois aguaceiros daqueles que não chegam a ser chuva, mas que deixam a mota, o piso e eu próprio encharcados - e isto por estradas nem sempre fantásticas, algumas recheadas de buracos e trânsito, outras com obras e lama. De vez em quando uma ou outra mais pitoresca... mas admito que foi uma manhã complicada de gerir. Encostei várias vezes para me abrigar da chuva, avancei sempre devagar por questões de segurança - e quando perto da hora de almoço fiz nova paragem para me abrigar, parecia que estava em cima da mota há trezentas e quarenta e uma horas sem parar. Sentei-me num banco corrido de madeira e pedi um chai ao velhote sentado a amassar o pão. Ele sugeriu-me umas chamuças, eu aceitei - estavam deliciosas. E enquanto esperava que a chuva passasse, reuniu-se a multidão do costume à minha volta. Sorri, estafado, não estava para grandes conversas mas quem sou eu para estar ou não estar para grandes conversas:

Coming from? Your good name? Job? How old? Are you married? Why? First time in India? Are you like India? Your country money is? Are you Islam (por causa da tatuagem)? Hindu? Christian? Iphone cost price in your country? Indian visa how much cost? How many rupees monthy income?

E a chuva, que não há meio de parar.

Findo o primeiro interrogatório, dois rapazes insistiram que os acompanhasse até à loja do outro lado do cruzamento. A mota ficou parada à frente do boteco, eu atravessei e fui apresentado ao tio e ao irmão do avô, ao cunhado da vizinha da prima em segundo grau, mais ao sobrinho-neto da sogra do irmão do melhor amigo.

A sensação não me é nova, é verdade. Mas não deixa de ser caricata. E tem tanto de cansativa como de cómica, admito que é preciso algum poder de encaixe e muita paciência. E, no entanto, é uma porta aberta a vários filmes - ou pelo menos tem sido, pela minha experiência.

E desta vez não foi excepção.

Estava há mais de uma hora em conversa com este-e-aquele, a responder aos mesmos interrogatórios com algumas variáveis, conforme os interesses e o inglês de cada um. Ah, pois: o inglês. Não me posso esquecer de sublinhar este facto: nesta aldeia à volta de um cruzamento, como nas outras aldeias ao longo da estrada e da história desta viagem, inglês é coisa rara de se falar. E, no entanto, lá nos entendemos. Mas, como dizia: mais de uma hora a ser passeado, apresentado e entrevistado, e eis que a chuva parecia estar finalmente a acalmar. Na verdade não me apetecia nada mandar-me à estrada outra vez, estava estafado - mas tinha de ser. E relembrei os meus novos amigos que estava ali só de passagem, e que daqui a pouco tinha de me ir embora.

Nada disso!, anunciaram enquanto me agarravam pelo braço. Ficas aqui connosco, há um lodge a três quilómetros, precisas de descansar.

Não resisti muito a este rapto, confesso. Fui uma vítima fácil. Mas a ideia de um quarto e cama... não, desculpem-me!, estou a trocar a ordem das coisas: a ideia de um duche. Um duche! Só a ideia de um duche era suficiente para me convencer.

O mais curioso é que a partir do momento em que aceitei a ideia do "rapto", de ficar ali em vez de continuar, fiquei logo muito mais relaxado. Só de saber que não tinha de levar outra vez com buracos e lama e tubos de escape. E o duche! Daqui a nada ia tomar banho!

Mais um chá com este, um cigarro com aquele, já almoçaste? Não?, então vens comer a nossa casa. Lembrei-lhes que estava a precisar desesperadamente de um banho, sugeri irmos ao lodge primeiro e depois a casa deles, mas quem sou eu para sugerir seja o que for. Afinal: é um rapto ou não é um rapto?

Fomos para casa de um deles, portanto, onde por milagre sabe-se lá de que santo já me esperavam a mulher, a mãe e a avó. Fui levado para o jardim, onde havia um poço - e enquanto uma delas dava "à bomba" eu lavei rosto, pescoço, braços e mãos. Depois descalcei-me e entrei, instalaram-me num dos quartos e acenderam a televisão. Eu fiquei sentado na borda da cama, descalço e a olhar para o infinito, ora sorrindo, ora fingindo que estava interessado nos telediscos que passavam, enquanto durante cinco minutos ficou tudo em silêncio a olhar para mim. A ver o estrangeiro. Trocaram algumas impressões, não faço ideia nem nunca saberei o que disseram.

Almocei com o primo do dono da casa, que era o único que comia - todos os outros estavam em jejum, por causa do Ramadão. As mulheres nem entraram no quarto, enquanto comíamos. Depois fumámos um cigarro no terraço, trocámos histórias, pediram para ver as fotografias da minha família. Mostrei e entretanto voltaram a aparecer as mulheres da casa, que ficaram deliciadas.

Resumindo as voltas e as conversas: pouco depois estava a ser convidado para ficar. Nem foi bem convidado, foi mais: telefonámos para o lodge e disseram-nos que estão cheios, todos os quartos reservados. Por isso ficas aqui. E fiquei, que remédio. Estacionei a mota no jardim e levei a mochila para o quarto, tomei um banho de balde (lá se foi o tão sonhado duche quente) e fiz uma sesta com os homens da casa. A meio da tarde fomos passear com os amigos, fui apresentado à metade da aldeia que faltava conhecer, bebi mais uns chais, vimos o pôr-do-sol. Depois começou a escurecer e voltámos para casa, subimos ao terraço e estenderam uma esteira no chão, onde nos deitámo-nos à conversa, com a lua a testemunhar. Um enorme halo à volta, mais Júpiter e Vénus em sensual aproximação. O céu estava carregado de estrelas. E à nossa volta voavam dezenas de pirilampos. Parecia uma cena de um filme de Bollywood, mas sem o drama e as coreografias do costume.

A segunda parte vem já a seguir.

01/07/2015

UPDATE E REFRESH

Estou há uma semana sem acesso à internet. A verdade é que os clicks publicados no fim-de-semana estavam agendados - por isso não contam. E agora que estou finalmente online, tenho tanto para partilhar. Agora é urgente filtrar temas e contar as histórias, seleccionar fotos, pôr tudo em condições para publicar aqui neste cantinho virtual do Universo.

Fui raptado. Duas vezes.

Primeiro quando voltava de Murshidabad, ainda no West Bengal - mas ao fim de vinte e quatro horas de cativeiro, vários interrogatórios e até uma tortura, consegui fugir. Depois de algumas paragens cheguei finalmente a Bhubaneswar, no estado do Orissa - fica aqui a casa do meu amigo Bunty, e aqui ficará a minha mota, até que eu volte outra vez à Índia. E, quem diria, nem tinha ainda pousado a mochila no chão e fui raptado segunda vez.

Que dias difíceis.

Como disse logo ao início deste post, estou ainda a preparar fotos e textos, mas não tarda nada começo a publicar histórias. Isto promete. Para começar, fica um rápido refresh do blog, com uma nova imagem de capa.

Já conversamos, portanto. Por enquanto fica o click do dia, feito ontem durante o meu segundo cativeiro desta semana. Volto já! :)



28/06/2015

LÁ EM CIMA DÁ DESCONTO

O rapaz da t-shirt preta entrou com o autocarro em andamento e calmamente subiu para o tejadilho, onde se sentou e prosseguiu viagem.

O da t-shirt branca é o pica.

A vida segue normalmente, sobre rodas, no West Bengal. :)

26/06/2015

BOM DIA, WEST BENGAL

Pelos caminhos do West Bengal
Eu vi tanta coisa linda
Vi um mundo sem igual


25/06/2015

FOI POR POUCO

Quando saí da estrada de alcatrão para ir à procura da "Mesquita com um Buraco", meti-me num caminho... ia a dez à hora, se tanto. Senti o pneu de trás a escorregar. Parei, mas o chão estava tão escorregadio que lá fui a deslizar.

Felizmente aguentei-me. Mas foi por pouco.

24/06/2015

A MESQUITA COM UM BURACO

Durante as voltas de ontem por Murshidabad, dei por mim parado numa cancela fechada, à espera que um comboio passasse, quando reparei numas cúpulas de tijolo no meio da floresta, com um ar abandonado e antigo.

Fui espreitar.

Era uma mesquita... ou melhor, uma tentativa de mesquita. Conta a lenda que um nawab ordenara aos seus homens que construissem esta mesquita até ao nascer do sol de um determinado dia. Como na data "combinada" a mesquita não estava pronta (faltava completar duas cúpulas), os senhores foram executados e a obra nunca chegou a cumprir a sua função.

De qualquer forma, ganhou o nome de Footi Masjid, ou seja: a Mesquita com um Buraco.

Lenda ou realidade, o facto é que o lugar foi sempre negligenciado. Hoje, enquanto ruína, tem um ambiente fantástico porque não tem ninguém e não há nada à volta a não ser floresta, hortas e umas cabanas. Que paz de espírito. Mas não tenho dúvidas que tem os seus dias contados. :(

Curiosamente, os buracos gigantes que se vêm no click de hoje não têm nada a ver com esta história. Estas três cúpulas estavam completas, mas caíram no grande terramoto que abalou esta região no final do século XIX.

23/06/2015

NADA DE ESPECIAL?!

Há dias em que não acontece nada de especial - e que, mesmo assim, são dias Especiais.

Hoje foi um dia desses.

Não tenho aventuras fantásticas nem bollywoodescas peripécias para partilhar, hoje: não fui perseguido por uma matilha de cães raivosos, não fui convidado para o casamento de um marajá com uma actriz de cinema indiano, não fui raptado por bailarinas exóticas na sua limousine côr-de-rosa, não salvei nenhuma criança de ser pisada por um elefante descontrolado. E, no entanto, foi um dia Bom. Fartei-me de passear: ora de mota, ora a pé, sempre com uma ameaça de chuva em cima, cinzenta e pesada - mas incapaz de me roubar o sorriso que, sabe-se lá porquê, teimou em acompanhar-me o dia todo. Que coisa chata, esta. ;)






Não fiz nada de especial? Claro que fiz. Só depende da perspectiva. Hoje assumi a minha condição de turista e visitei um palácio que é um museu, que tem mil portas e um candelabro gigante oferecido pela rainha Vitória, estátuas egípcias e quadros otomanos, tronos de marfim e prata, armas que não lembram nem ao diabo, espelhos mágicos, porcelanas raras, relógios europeus e manuscritos árabes, carruagens puxadas por camelos - estes nawab (os marajás cá das redondezas) viviam bem, sem dúvida. Pena não se poder tirar fotos lá dentro, tive de deixar máquia e telefone à entrada. Mas fica na memória. Da mesma forma como não esquecerei a curiosidade e preocupação de três indianos, que depois de algumas abordagens mais tímidas não resistiram a acompanhar-me na visita ao gigantesco edifício - apesar de não falarem mais que meia dúzia de palavras em inglês. Mas lá nos compreendemos. É que se há coisa que custa a muitos indianos compreender, é uma pessoa sozinha a viajar. Alguns ficam mesmo com pena, acham-se na "obrigação" de nos entreter. Ou seja: ao fim de quinze minutos no Hazardwari, passei a ter uma escolta de três. E, claro está, no final houve sessão de selfies e trocas de contactos.


Diz o Lonely Planet que em Murshidabad, antiga capital do Bengal nas margens do rio Bhagirathi, mistura-se a vida rural com a arquitectura do século XVIII - e diz muito bem. Aqui reside a verdadeira surpresa deste lugar: no meio do "nada", entre casas de colmo com bosta aplicada nas paredes, vaquinhas a pastar em campos de erva, pequenas florestas cheias de esquilos... de repente aparecem palácios e grandiosos portões.

E foi isso mesmo que mais gostei no dia de hoje: o ambiente. É verdade que andei de ruína em ruína, visitando antigas mesquitas e palácios delapidados - mas confesso que os must-sees foram principalmente uma desculpa para passear. Chamemos-lhe referências - apenas isso. Porque pelo meio passei por aldeias e ruas-fantasma, fiz a barba numa barbearia muito castiça, cruzei-me com sorrisos por todo o lado, olhos esbugalhados de surpresa, "um turista aqui!", e fui abordado por pessoas genuinamente curiosas com a novidade. Estes entretantos, entre uma mesquita e um palácio, entre um cemitério e uma muralha - estes entretantos é que fizeram o dia. Felizmente apanhei muito pouca chuva - quase nenhuma -, as nuvens bem que ameaçaram, a trovoada ao longe fazia prever o pior. Mas fora um pingo aqui e outros ali, nada de especial. Tive mais cuidado em ter a máquina guardada, e por isso tenho menos fotos do que gostaria. Mas mesmo assim. :)

Não aconteceu nada de especial? Aconteceu, sim. Existiu, este dia.









AONDE É QUE EU VIM PARAR

Este bocadinho do Universo é Qualquer Coisa.

Que Surpresa Agradável, o dia de hoje - às voltas por Murshidabad. Cheguei agora mesmo ao quarto e depois de tomar um duche vou arrumar as ideias, organizar fotos, escrever um ou dois posts.

Até já!


MURSHIDA-QUÊ?

Murshidabad.

Assim se chama esta terrinha onde estou agora, no estado do West Bengal, junto às margens do Ganges (que aqui tem outro nome), e a muito poucos quilómetros da fronteira com o Bangladesh.

A quem possa interessar, fica o mapa actualizado do percurso feito até agora, nesta viagem:

Nada mau, hem?

Já são quase quatro mil quilómetros.

Tivesse eu tempo e os bolsos cheios... há ainda tanto mapa para desbravar. Mas posso desde já confirmar que não vou mais longe que Murshidabad. O próximo passo é "virar à esquerda", para oeste, e começar a descer em direcção a Bhubaneswar, onde vou deixar a mota até ao meu regresso.

EM RITMO DE PASSEIO

Bom dia, alegria! O dia está cinzento mas felizmente não chove. Rebolo na cama e levanto-me, estico-me todo e penso que um dia destes tenho de começar a fazer um yoga matinal... mas não há-de ser hoje.

Tomo um duche e peço o pequeno-almoço, que demora meia hora a chegar. Não faz mal, dá tempo de ler notícias e pôr em dia as mensagens do whatsapp.

Pequeno-almoço no bucho, deixa-me só publicar o click do dia, a foto já está pronta e tudo. E eis que de repente (ou seja, agora mesmo enquanto teclo estas letras) cai uma carga-de-água... Nossa Senhora!

Anyway... hoje não é dia de grandes viagens e indomáveis travessias. Hoje fico aqui por Murshidabad. Há um palácio-museu que dizem que é do melhor que há, mais umas ruínas impressionantes, isto-e-aquilo. O suficiente para me manter entretido uma boa parte do dia. Se a estes must-sees do guia juntarmos conversa e selfies com este-e-aquele, está o dia feito. ;)

Assim sendo: hoje estou em passeata mood. Em ritmo de contemplação, quase como no yoga.

E o click do dia, que foi feito numa das paragens que fiz ontem para me abrigar da chuva, expressa bem o feeling de hoje: com calma, sorrindo e gozando cada momento:


22/06/2015

MAIS UM DIA NA ESTRADA (À CHUVA)

Passaram a correr, os dias na aldeia do meu amigo Kousik. Acabei por nem publicar muita coisa aqui, pois confesso que os dias foram vividos quase sempre num dolce fare niente que me soube às mil maravilhas. Era mesmo o que estava a precisar. Longas conversas com os amigos, refeições demoradas em família, sestas a meio da tarde e passeios de mota pelas aldeias à volta.

E de repente passou quase uma semana.

Ontem saí de manhã com o coração apertado, a família toda à porta de casa a dizer adeus. Acabei por nem avançar muito no mapa, fiz ao todo pouco mais de sessenta quilómetros e parei numa terra cujo nome não consigo pronunciar, porque começou a chover e não tive coragem de continuar.

Contudo, hoje quando acordei às seis da manhã tinha as energias todas recarregadas. Chovesse o que chovesse, eu ia andar de mota.

Tive sorte de não apanhar chuva durante a manhã. As nuvens bem que prometiam, e o verde-impossível dos campos à volta era a prova de que tem chovido bastante, ultimamente. Mas eu vesti o meu fato de Martin Luther King, enfeitei-o com uns acessórios à Dumbledore do Harry Potter, e enquanto atravessava aldeias com casas de colmo e telhados de palha, proferi um discurso em inglês para uma multidão imaginária, como que a convencer as nuvens a não descarregar enquanto eu não parasse. Doido? Talvez. Um pouco. Tantas horas em cima de uma mota nas estradas indianas... pode dar para muita coisa. ;)

"You shall not rain, clouds! Leave this road dry and safe! Leave this traveller dry and safe! Leave us and go drop your water somewhere else! Only after this traveller stops, and only then, rain shall fall. But never before that!"

Ok.

Mas resultou. A verdade é que resultou. Coincidência ou acaso, ou resultado do meu incrível poder de persuasão sobre fenómenos naturais: não choveu. Só a meio da manhã, quando parei para tomar um chai e duas samosas deliciosas, à beira da estrada, é que cairam os primeiros pingos. E eis que, finalmente, começou a chover.

Uns locals meteram conversa e acabei na loja de um deles a falar de Ronaldo e do Vasco da Gama, do Ramadão e de literatura indiana... e do Anil Kappoor, o actor que faz de apresentador no Slumdog Millionare, e que os indianos insistem, há anos, que é igual a mim. Enfim.

Mas como estava a dizer: passou-se uma hora de conversa - e quando a chuva virou singelo aguaceiro, voltei à estrada. Só que a partir daqui os meus discursos deixaram de fazer efeito. A chuva, uma vez libertada, não me deu mais ouvidos. E por isso o resto do caminho fiz numa espécie de pára-arranca mútuo, eu e a chuva. Quanto um parava o outro arrancava; quando um arrancava o outro parava.



Devo ter feito umas seis paragens, ao todo. Desde lugares isolados em que pude sentar-me e apreciar o universo à minha volta sem distúrbios, a outros mais "animados" onde respondi a duzentas e treze perguntas, tirei selfies, troquei números de whatsapp e contactos do facebook.

Ainda deu para assistir a um atropelamento, mesmo à minha frente: uma rapariga de treze ou catorze anos vestida com a farda da escola atravessou a estrada a correr... e uma mota não consegui desviar-se ou travar. Mota para um lado, miúda para o outro - a primeira, sabe-se lá como, conseguiu aguentar-se; mas a segunda teve direito a piruetas e acrobacias de circo, e aterrou no chão de uma forma que eu pensei ser a última. Mas levantou-se e a cambalear foi embora, para espanto de toda a gente em redor.

A mim calhou-me uma cobra. No que a atropelamentos diz respeito, note-se. Ia devagar numa recta a tirar notas no gravador do telefone, quando uma cobra pequena, de quarenta centímetros no máximo, atravessou-se à minha frente, ziguezagueando. Que susto. Mas confesso que, entre buracos na estrada, telefone na mão, autocarros com gente em cima do tejadilho, outras motas em sentido contrário e choviscos só para irritar... nem olhei para trás. Espero que tenha sobrevivido, tal como a rapariga, com piruetas e acrobacias de circo.

Cheguei ao meu destino a meio da tarde. Ensopado e cansado, mas com um sorriso de orelha a orelha. Foi um passeio bom, o de hoje.


VERDE-IMPOSSÍVEL

Hoje de manhã a Índia estava desta cor:

Sem filtro!

QUE BOOOOOMMM...

Depois de um dia inteiro a levar com chuva, buracos e lama, nada como encontrar (à primeira!) um quarto limpo, com muita luz e um chuveiro com a pressão do Iguaçu. Ah: e barato.

Vou só ali tomar um duche de três horas e já conversamos. ;)