21/10/2014

57 HORAS E MEIA

Post escrito na passada sexta-feira, a bordo do barco Mandalay-Bagan

Depois de arrumar e organizar as fotos no computador; depois de editar as que tenciono partilhar aqui no blog; depois de identificar momentos altos e curiosidades... fui dar uma volta às experiências vividas nos últimos dois dias e três noites em Mandalay e confesso que está a ser complicado pôr tudo num só post, ou eventualmente dar uma ordem lógica, mesmo que dividida por partes, a tudo o que vimos, ouvimos, provámos e vivemos, eu e os oito viajantes da Nomad com quem estou a explorar a Birmânia.

Que cheias foram estas cinquenta e sete horas e meia em Mandalay.

E à falta de espaço e tempo (meu e provavelmente vosso), decidi resumir cronologicamente esta louca odisseia que agora deixo para trás, enquanto descemos de barco o rio Irrawaddy em direcção a Bagan.

Tudo começou na terça-feira às 21:00, quando chegámos no comboio vindo de Yangon, depois de quinze longas horas de solavancos e gargalhadas. Já na plataforma, ainda mareados da viagem, fomos abordados por um facilitador que garantiu-me ter transporte para o grupo. Fui atrás dele, mas chegando à rua dei de caras com dois carros normalíssimos - e eu queria um transporte local. Apontei para uma carrinha de caixa aberta com cobertura tipo-tenda e disse que queria qualquer coisa daquele género. O homem olhou para mim com cara de este-é-doido-ainda-por-cima-depois-da-mais-cansativa-viagem-de-comboio-do-universo... mas sorriu. Olhou para os outros birmaneses à nossa volta e eles também sorriram. E eu, pois claro. Eu também sorri. E olhei para o grupo de sete portuguesas e um português com quem estou a viajar - e eles sorriram connosco. Óptimo: todos a sorrir. Isto vai correr bem.

Cinco minutos depois estávamos a atravessar as ruas de Mandalay, sentados na parte de trás da carrinha que eu tinha apontado, com mais três-ou-quatro birmaneses que, como nós, levaram para casa uma história para contar.

Começa bem.

Check-in, duche rápido e jantar - e antes que a carruagem dourada se transformasse em abóbora voltei para o quarto, a ver se actualizava o blog e o facebook... mas os olhos teimavam em fechar-se, vá-se lá entender porquê.

Quarta-feira.

10:00

Apesar de ter acordado mais cedo para finalizar pormenores e adiantar-me noutros assuntos da viagem, encontrei-me às dez com o grupo. Tinhamos à espera sete bicicletas e dois trishaws - no post que publiquei antes deste resumo mais ou menos as voltas correspondentes.

14:00

Um pneu furado, uma queda que apesar de não ser grave ainda estava fresca... e o restaurante?, onde está o restaurante? Não encontrava o restaurante. Só pode ter fechado. Sabia bem onde era, não havia por onde me enganar. Um lugar castiço numa esquina junto à estrada, onde nem se falava inglês, onde tinham apenas um prato de arroz com carne mas que curiosamente no ano passado tinha sido considerada uma das melhores refeições da viagem. Acho que fechou.

Acabámos no Golden Duck, que como o nome sugere é restauranre chinês, com direito a mesa redonda com placa giratória e tudo - mas em boa verdade há que ser justo e dizer que comemos muito bem. Além de que tínhamos vista privilegiada sobre o canal da cidadela.

16:30

Chegámos aos dois gigantescos leões brancos no sopé do Monte Mandalay e subimos os mais de mil e setecentos degraus até ao templo no topo. Pelo meio: muitas lojinhas, pequenos templos e budas vários, adivinhos, superstições.

Assistimos ao pôr-do-sol do topo, metemos conversa com monges budistas, aprendemos um pouco sobre as suas vidas e os seus hábitos - e eles praticaram inglês e conheceram também outras culturas. Quando chegámos outra vez lá abaixo, era já noite cerrada. É hora de voltar para o hotel.

O rabo estava menos dorido do que imaginara. Mas as pernas já se queixavam.

De qualquer forma: foi um dia bom, que encheu as medidas - mas que ainda não acabou. Como que para compensar do almoço em sítio chique, levei o grupo a jantar no lugar mais down-to-earth que conhecia. Para quem não sabe, down-to-earth em birmanês significa uma espelunca onde os cotovelos ficam pretos quando os encostamos ao plástico que cobre a mesa; onde o calor suporta-se a custo, com uma ventoinha enorme que serve para toda a sala; os empregados andam de um lado para o outro... descalços; a clientela é toda, ou aparentemente toda, do sexo masculino (fora o nosso grupo, que em nove pessoas tem sete mulheres). Enfim: coisa fina. Mas o mais importante: a comida era boa. E a cerveja gelada.

23:00

Cama.

E eis que chega quinta-feira.

05:00

Partimos, ainda noite cerrada, em nove motas com driver. Mesmo a tempo de assistirmos ao nascer-do-sol em frente à maior ponte de teca do mundo - dentro de dois barcos a remos. Que calma. Que paisagem! Que paisagem!

08:00

Depois de uma volta pela ponte U Bein, tomámos o pequeno-almoço... e surpresa!, um dos nossos drivers convidou-nos a assistir ao casamento da irmã de uma aluna sua. Nem pestanejámos.

09:00

Casório numa aldeia, com direito a sessão de fotos com os noivos, mesas cheias de comida e até uns abanicos de presente. Éramos, claro está, o centro das atenções. Toda a gente a rir e a tirar-nos fotografias, cheios de cuidados para que estivéssemos sempre bem.

A vida é boa. E é preciso saber dizer sim às oportunidades que surgem. Nenhum de nós vai esquecer este momento tão depressa.

10:00

De volta à estrada. Atravessámos o Irrawaddy para visitar a zona monástica de Sagaing, com monges e templos a dominar toda a paisagem.

12:00

Almoço num restaurante local muito castiço, onde as raparigas do nosso grupo foram desafiadas pelas drivers femininas a aplicar o tanakha no rosto. Quase todas alinharam - e proporcionou-se aqui, de uma forma completamente espontânea, mais um momento alto de um dia fértil em pequenos pormenores.

14:00

Atravessámos de novo o Irrawaddy, em direcção a Inwa, uma antiga capital do reino onde hoje em dia se visitam inúmeras ruínas e templos.

Das motas passámos para umas carroças muito engraçadas, mas logo na primeira ruína começou a chover. E na segunda: que carga de água! Mandei as carruagens seguirem para perto do rio - na margem oposta esperavam-nos as motas -, para atravessarmos no ferry. Mas não havia ferry enquanto chovesse daquela maneira.

16:00

Que seca.

Que molha!

17:00

Depois de mais de uma hora à espera, atravessámos finalmente no ferry para o outro lado. Tomámos um chá quente e envolvemos as mochilas com sacos de plástico, pois ainda tínhamos uma hora de viagem até ao hotel. Deixámos o Mahamuni Pagoda para o regresso a Mandalay, no final da viagem - e voltámos para "casa", onde chegámos: ensopados.

20:00

Jantar mesmo ao lado do hotel. Estávamos estafados - mas felizes. Que dia! Que dia!

Sexta (hoje):

Saímos pouco depois das cinco e meia da manhã. Dez minutos de carro e chegámos ao cais, onde embarcámos no N Mai Kha, o barco que nos leva, enquanto escrevo estas linhas, em direcção a Bagan.

Novos lugares e novas voltas nos esperam nesta aventura - mas que novas histórias, que outros acontecimentos, que experiências?

Descubram o programa possível ;) dentro dos imprevistos e surpresas normais de uma viagem desta natureza, neste link:

SÓ NA BIRMÂNIA #02

Enquanto finalizo o relato dos dias de Mandalay, fica aqui um apontamento... hmmm... especial.

Guardar palitos dos dentes... no cabelo?! Esta nunca tinha visto. Esta: só mesmo na Birmânia.


DUAS RODAS (E PEDAIS)

O passeio por Mandalay fez-se a pedais. Aluguei sete bicicletas e dois trishaws (o típico riquexó birmanês, em que o passageiro viaja numa espécie de side-car montado ao lado da bicicleta do driver), e assim se fez a descoberta da Cidadela e do Palácio de Mandalay, do Palácio Dourado que tem muito pouco de dourado (é, na verdade, um palácio todo em teca que já foi dourado mas que já não é), e também dos dois templos que albergam aquele que é denominado "o maior livro do mundo".

Tira sapatos, põe sapatos, volta e tirar e volta a pôr. Mais os toalhetes para limpar os pézinhos, a conversa e a galhofa in betweens, os sorrisos que nos prendem e o abrandamento de cada vez que há qualquer coisa à venda - qualquer coisa para comprar ;)

Foi um dia em cheio, sempre sobre duas rodas, que culminou com a subida dos mil-setecentos-e-tal degraus do Monte Mandalay - de cujo topo assistimos ao pôr-do-sol.

Mas ficamos com as fotos das bikes, por enquanto - e já conversamos mais.





E AGORA ESTÁ A CHOVER

O dia de hoje começou assim:

Assistimos ao nascer-do-sol do topo de um dos milhares de templos da planície de Bagan - e que nascer-do-sol! Não consigo encontrar adjectivos à altura.

Depois do pequeno-almoço despedimo-nos de Bagan e lançámo-nos à estrada para um dia inteiro de viagem. Chegámos a Nyaung Shwe há uma hora, como mencionei no post anterior. E está a chover. Que grande "galo"!

Ao que parece, a net é lenta mas consigo publicar fotos. Ou seja: preparem-se para o que aí vem, pois tenho muita coisa acumulada destes últimos dias em Mandalay e Bagan.

E para quem tiver curiosidade em conhecer melhor o programa desta viagem Nomad à Birmânia, pode sempre clicar aqui.

SERÁ DESTA?

Depois de Yangon e da Rocha Dourada. Depois de Mandalay e das antigas capitais em redor. Depois de Bagan e da "peregrinação" ao Monte Popa. Estamos finalmente em Nyaung Shwe, mesmo à beirinha do lago Inle... e parece-me que a internet está melhorzinha. Pelo menos tenho acesso com o computador, o que já é menos mau.

Vou tentar publicar algumas fotos e já se vê.

20/10/2014

'TÁ DIFÍCIL

Entre casamentos e longos passeios de mota, chuvadas inesperadas e templos dourados, ruínas, monges, boa paparoca, tira-sapato, põe-sapato, nasceres-e-pores-do-sol, viagens de barco... uff!, entre tanta correria e intensa actividade, tem sobrado muito pouco tempo para vir aqui ao blog. E nesse pouco tempo: a net é tão fraquinha, tão fraquinha, mesmo mirradinha e lenta... que 'tá difícil.

Assim que conseguir partilhar fotos, partilho. Assim que tiver oportunidade de publicar o que tenho escrito no computador, publico.

Porque assim, a meio-gás, a escrever no teclado do telefone... 'tá difícil.

18/10/2014

BOM DIA, BOM DIA

Bom dia duas vezes, porque os dois dias inteiros passados em Mandalay foram isso mesmo. dias bons.

Hoje estamos a caminho de Bagan, eu e o grupo da Nomad, num barco a descer o Irrawady. Vai ser bom, também. Mas ainda a "ressacar" as experiências das últimas quarenta e oito horas.

Fica um click, para começar:


17/10/2014

SOBRE RODAS EM MANDALAY

Neste dia passado sobre duas rodas, explorando as capitais ancestrais dos arredores de Mandalay, cruzei-me várias vezes com situações que se encaixam na perfeição no espírito do álbum "Sobre Rodas".

Ficam três:



Para dezenas de outros insólitos e curiosidades sobre rodas, espreitem aqui o álbum que tenho no facebook com este tema.

HOJE (UM DIA ÉPICO)

Estava aqui a debater-me se deveria usar o adjectivo "épico" ou uma palavra um bocadinho menos pesada. Mas a verdade é que a maior parte das alternativas que me ocorrem não fazem justiça ao dia que termina agora, aqui.

Um dia inteiro sobre duas rodas, a passear de mota pelos arredores de Mandalay.

Hoje vimos o nascer-do-sol num barco a remos - enquanto mesmo à nossa frente, na maior ponte de teca do mundo, passeavam monges budistas; fomos convidados para o casamento da irmã da aluna de um dos nossos drivers; almoçámos num velhote restaurante familiar onde as senhoras do grupo acabaram por experimentar aplicar o thanaka no rosto; passeámos de carroça por entre ruínas de templos antigos; e levámos com uma chuvada no final, mesmo antes do regresso ao hotel. Chegámos ensopados, por fora e por dentro, até a alma pingava, de tanto se encharcar em novas experiências. E tão intensas.

A ver se ponho ideias em ordem. E as fotos.

Já conversamos :)


16/10/2014

MAIS UM PRINCIPEZINHO

A colecção de Principezinhos ganhou uma nova cor esta semana, quando encontrei numa velha livraria do centro de Yangon esta velhota edição em birmanês, em relativo mau estado, mas muito especial.

É uma cópia com algumas notas escritas à mão no texto, e é do tempo em que o país ainda se chamava Birmânia. Trazia uma capa de plástico muito feia, que felizmente consegui tirar sem deixar vestígios para além dos estragos que já tinha.

Ainda passei algum tempo de livraria em livraria, à procura de uma edição em Shan, uma minoria étnica que, diz-me um feeling, é muito bem capaz de ter um edição própria. Infelizmente não tive sucesso... mas vou continuar a procurar.

BOM (E ABENÇOADO) DIA!

Um dia de visita à Rocha Dourada é, automaticamente, um dia abençoado. Seja pelo passeio de carro até chegar à base da montanha, seja pela louca viagem na caixa aberta de um camião, para subir até ao topo... isto dá com uma pessoa em santa :)

E depois esta imagem única da rocha meio pendurada, sabe-se lá como é que se aguentou este tempo todo naquela posição. Diz quem acredita que é um cabelo do Buda que permite o equilíbrio. E à falta de outra explicação, não vejo o que mais poderá ser.

Os peregrinos que aqui vêm têm por hábito tornar ainda mais dourada a rocha, aplicando-lhe folhas de ouro enquanto fazem promessas, pedem favores e rezam. Diz que funciona.


BANANAS!

Quem quer bananas?

Frescas e saborosas! Bananas!



Ou então um cesto. Para quem não gosta de bananas.


15/10/2014

ONTEM, HOJE... E AMANHÃ?

Começou a viagem com o grupo Nomad e já se sabe: o ritmo intenso, as atenções mais concentradas no terreno, o blog a meio-gás. Não que me falte assunto - muito pelo contrário. Tenho sempre tanto para partilhar. Mas chego tão cansado ao quarto que, confesso, acabo por despachar um bocado aqui.

É a vida ;)

Assim sendo, vamos a um resumo.

Ontem: passeio de carro até ao espectacular Kyaiktiyo Pagoda, o templo budista mundialmente conhecido por "Rocha Dourada" - e um dos lugares mais venerados pelos birmaneses. O acesso é feito num camião de caixa aberta, e a viagem é tão emocionante quanto o templo propriamente dito. No regresso a Yangon ainda visitámos o gigantesco Buda Deitado, em Bago.

Quanto a hoje: dia inteiro sobre carris, aos solavancos e sacudidelas no comboio para Mandalay, quinze longas horas de uma experiência inacreditável, atravessando paisagens de perder a vista, trocando sorrisos com os locais, experimentando petiscos e muita conversa, várias sestas e sonecas, o país a passar lá fora.


E amanhã: espera-nos um emoionante passeio de bicicleta por Mandalay.

Estes dias bons, estes dias que apetece sempre repetir, estes dias que são sempre uma aprendizagem, uma fonte de energia positiva e crescimento - que saudades, acho que nem tinha noção de quanto sentia falta disto.

Se quiser conhecer mais pormenores sobre o programa da viagem que organizo com a Nomad à Birmânia, clique aqui.

14/10/2014

CI RONALDO :)

Quando nos perguntam na Birmânia de que país somos, convém dar uma volta ao nome do nosso rectângulo e apresentá-lo como "Pótugui". É assim que se diz "Portugal", aqui - e respeitar a fonética local ajuda a ser melhor compreendido.

Até aqui, pouco de novo.

E também não é surpresa o facto de, ao mencionarmos Portugal, a primeira referência ser, em regra, o melhor futebolista do Mundo.

Mas atenção, não se confudam: a maioria das pessoas vai chamá-lo de "Ci Ronaldo". Como este rapaz, que ficou surpreendido quando lhe perguntei se podia tirar-lhe o retrato. E quando percebeu que eu era português, foi só sorrisos:


E já que o tema é futebol e a selecção nacional joga hoje com a Dinamarca (é hoje, não é?), passo a partilhar as capas de dois dos principais jornais desportivos birmaneses, esta semana:


Uma das publicações chama-se "Special One"?! Nada mau ;)

13/10/2014

UM DIA BOM

Que dia intenso, este primeiro com o grupo da Nomad na Birmânia.

Explorámos Yangon a pé, de manhã ao final da tarde, visitando pagodas budistas e igrejas católicas, passando por mesquitas e sinagogas, templos hindus e sikhs - e obviamente rodeados de muita arquitectura colonial britânica em avançado estado de decomposição. Experimentámos especialidades locais, descobrimos sorrisos e pormenores, negociámos a estrada com o trânsito, pusemos os cinco sentidos à prova.

Chegámos ao hotel estafados - mas com a sensação de missão cumprida.

De papo cheio.

Uma hora a recuperar energias e ao início da noite, antes de jantar, deixámo-nos deslumbrar pelo imponente, maravilhoso, inigualável (e muito dourado) Shwedagon Pagoda.

Que espanto de lugar. Que energia.

E porque os grandes heróis do dia foram os pés de cada um de nós, o click de hoje é uma foto bem fresquinha tirada antes de almoço, aqui em Yangon. A cada um dos oito viajantes que me acompanham nas próximas duas semanas eu dedico este post.

Força, companheiros! :)

Se quiser conhecer em pormenor a viagem que faço com a Nomad à Birmânia, clique no link:

http://www.nomad.pt/birmania-com-jorge-vassallo

12/10/2014

SABIA QUE... #30

...os birmaneses acreditam que uma mulher nunca deve despir o longyi pela cabeça, pois o seu anjo da guarda não vai gostar.

Como qualquer povo asiático "que se preze", o Birmanês é bastante supersticioso. Fórmulas de sorte e azar, coisas proibidas e outras obrigatórias, combinações mortíferas e milagrosas, espíritos à mistura e muitos retoques, adaptações e inovações - tudo é possível neste país entalado entre a Índia, China, Tailândia, Laos e Bangladesh.

Consultei algumas publicações, falei com pessoas na rua e pesquisei na internet - e das inúmeras superstições que registei, seleccionei dez. A primeira já a partilhei, venham de lá as outras.


Arruma a vassoura de cabeça para baixo, à noite,
para que os ladrões não te venham roubar.

Para que um pesadelo não se concretize,
conta-o a alguém... enquanto comes.

Se morderes a língua, se ficares de repente com sono
ou se deres um pontapé a alguma coisa enquanto andas,
 é porque alguém está a falar (mal) de ti.

Ao descalçar-te, nunca deixes um sapato virado ao contrário,
ou os teus pais divorciam-se.

Não assobies à noite,
pois é um convite para os fantasmas.

Cortar as unhas a noite dá azar.
E lavar roupa também.

Se tens comichão na palma da mão,
é porque vais receber dinheiro brevemente.
Se tens comichão na palma do pé,
é porque vai ter de viajar inesperadamente.

Se um primeiro filho nascer a um sábado,
o pai deve passar por cima do bebé três vezes com uma faca no ombro,
para evitar a má influência que se acredita que trazem os primogénitos nascidos a um sábado.

E por falar em pessoas nascidas a um sábado:
nunca três pessoas nascidas a um sábado devem viver sob o mesmo tecto.

A lista é longa e podíamos ficar aqui horas a explorar isto. Mas por enquanto estas bastam. E muito provavelmente voltamos a "pegar" neste assunto outra vez, um dia destes.

SÓ NA BIRMÂNIA #01

Em tempos partilhei aqui uma série de posts com o mesmo espírito que este - mas eram passados na Índia. Aliás, ficaram alguns por publicar, entre pressas e preguiças... um dia espero voltar ao ataque ;) mas, por agora... Birmânia.

Este país é lindo.

Em todos os sentidos.

Vejam primeiro esta fotografia e já conversamos:

Ok. A rapariga que trabalha no hotel tem um saco de plástico na mão. Alguém se atreve a encontrar uma explicação? Ninguém? Ok: eu explico.

Para isso vamos recuar a Outubro de 2013, precisamente um ano antes deste domingo ora solarengo, ora chuvoso. Estava em Bagan com dois amigos, a ultimar detalhes para a primeira edição da viagem à Birmânia com a Nomad. Estávamos sentados a tomar o pequeno-almoço quando reparámos que um dos empregados andava sempre a rondar as mesas com ar "suspeito". Olhando com mais atenção, eis que percebemos que o senhor tem um elástico na mão, esticado entre dois dedos, e que de vez em quando o puxa e... zás, dá uma trolitada nas moscas poisadas nas mesas. Estava a afugentá-las!

Estão a ver onde quero chegar?

Se eu mostrar mais uma foto, agora talvez percebam melhor o que se está a passar:

A rapariga estava a apanhar moscas. Exactamente: com o saquinho.

Sorrateiramente aproximava-se da vítima e com um golpe rápido mas muito delicado, encurralava-a dentro do saco. Não estou a brincar. Estou a rir-me, mas não estou a brincar. E depois de capturada a mosca, a rapariga ia até à rua e soltava-a novamente.

Estes budistas! :)

Ora vejam só a prova do "crime":

É caso para dizer: só na Birmânia! :)

BOOOOOM DIA, BIRMÂNIA!

No filme o Robin Williams gritava pelo Vietname - mas na vida real, hoje há oito pessoas a dar os bons dias à Birmânia - ou, como se diz nos dias que correm, Myanmar.

Já começaram a chegar os viajantes da Nomad que me vão acompanhar, ao longo de duas semanas, na viagem à Birmânia. Hoje é dia de fazer "piscinas" entre o hotel e o aeroporto, felizmente não são muitas :)

Já a cidade, por sua vez, continua com os seus ritmos normais. Os mercados cheios de gente, os cheiros intensos, os sorrisos ainda mais. Já choveu um bocado, é uma espécie de pára-arranca meteorológico, é suposto melhor nos próximos dias, inshallah.

;)

Fica o click de hoje, já conversamos mais. Agora vou ali dar uma volta ao aeroporto.


11/10/2014

SALTA À VISTA

Estava aqui a preparar este post quando me deu a sensação que já tinha escrito qualquer coisa parecida, antes. Fui à procura no arquivo do blog... e não é que encontrei mesmo? Um post sobre as algumas das características mais marcantes da Birmânia. Podem espreitar aqui.

De qualquer forma, fica o apontamento: logo à saída do aeroporto em Yangon, é impossível não deixar de reparar em alguns pormenores/características dos birmaneses:

Por um lado o alfabeto, todo redondinho, algures entre o tamil e o khmer. O que tem a sua lógica, porque as três línguas são todas da mesma família.

Por outro, as pessoas. O thanaka aplicado nos rostos, principalmente de mulheres e crianças; e o longyi usado tanto por mulheres e homens, só muda a forma como se prende à cintura. As tradições ainda estão muito presentes na paisagem birmanesa. E apesar de se verem cada vez mais rapazes de calções e calças, continua a predominar o longyi.


E há qualquer coisa de Índia, nesta paisagem. O que também se percebe pela proximidade geográfica, pela partilha do Tempo e dos Acontecimentos, chama-se História. Vê-se muitas manchas côr-de-laranja no chão, e bocas com os dentes sujos da mesma cor - é do bétel que eles mastigam.

MAS QUE BELA RECEPÇÃO

Que eu gosto da Birmânia, não é novidade nenhuma. Já confessei várias vezes, aqui no blog como em conversas várias e no facebook, aquilo que sinto por este país de sorrisos brancos e pagodas dourados.

Mas que a Birmânia gostava de mim.

A sério? Ora vejamos.

Aterrei e saí num instante, não havia fila na Imigração e a mochila foi das primeiras a aparecer no tapete. Apanhei um taxi, não me tentaram enganar, coisa rara num taxista de aeroporto, desculpem-me os meus leitores taxistas, eu sei que são muitos mas há que admitir. Adiante: cheguei ao centro da cidade num instante, não havia trânsito, isto parece bom demais para ser verdade, e no hotel era só sorrisos e boas-vindas. Até aqui tudo bem, tive sorte, é a Birmânia a sorrir. A Birmânia é mesmo assim. Mas depois anunciam-me na recepção que vou ter um quarto especial, levam-me à porta e quando entro é tipo suite familiar, com quarto e uma sala, mais casa de banho e varanda, um pequeno apartamento que é enorme para o que preciso, isto para uma pessoa é um exagero.

Sendo assim, estão todos convidados para vir cá tomar um cházinho.

E como se não bastasse o hotel, é a cidade toda em festa. Na rua em frente e na avenida que passa na esquina há uma feira popular improvisada, barraquinhas a vender comida, carrocéis e rodas gigantes, bancas com jogos vários, encantadores de cobras, algodão doce, baratas fritas, sticky rice em canas de bambu. A avenida está cortada ao trânsito, as ruas cheias de gente, famílias inteiras a passear, grupos de amigos a rir, rapazes a meter-se com as raparigas, miúdos a tirar selfies, crianças aos saltos num castelo insuflável - e depois há as bancas de marcas a promover os seus produtos, experimenta lá que é bom, e se comprares até tens desconto. Há música pop e o cheiro a fritos no ar. Heeeeeey, sexy lady... e há um palco montado ao fim da rua, cantores a cantar, pessoas a bater palmas, que energia boa.

"Tudo isto para si, Jorge. Estamos felizes de o ter de volta. Bem-vindo."

"Desculpe?"

Desperto desta espécie de sonho, o recepcionista está ao meu lado enquanto eu me perco nas emoções que acontecem à minha frente.

"Hoje é a lua cheia de Outubro, que marca o fim da "quaresma" budista. Bem-vindo a Yangon."

Arrumei as mochilas no quarto, tomei um banho e saí para a rua cheia de gente. Fui dar uma volta e aqui ficam algumas fotos:



Sim: baratas fritas. Não me enganei, não é gralha, apesar do "r" e do "t" estarem mesmo ao lado um do outro, no teclado. Era mesmo "baratas" que eu queria escrever. Baratas, grilos e gafanhotos. Fritos, que delícia.

Para quem gosta.