18 de Agosto de 2008
Para quem não tenha reparado
Se é que alguém ainda vem a este blog... tendo em conta que o Até onde vais com 1000 euros? está a bombar, claro. Mas pronto: para quem não tenha reparado, estou de volta. Já cheguei da viagem de Dakar há pouco mais de um m~es. Estou "retirado" em Sintra, a escrever o livro sobre esta aventura. Será que volto a pegar neste blog? Espero que sim, tenho aqui tantas boas memórias e histórias. Mas por enquanto está assim, muito caladinho, sem grandes novidades.
3 de Fevereiro de 2008
Countdown
Estou em contagem decrescente. Faltam alguns dias, não sei ao certo quantos, para partir em mais uma aventura. Desta vez, África. Assim que houver novidades, conto-as.
2 de Outubro de 2007
Há máquinas assim
Maravilhas dos tempos que correm! A modernidade é mesmo assim: máquinas fotográficas com efeitos especiais imediatos. Mas ainda mais louco que a máquina é o Homem, com uma capacidade criativa e de improvisação impossíveis de imitar. Portanto, toma lá alguns exemplos de como o génio humano consegue optimizar as coisas boas que a Ciência nos oferece.
E deu nisto...
Os longos meses* na Zambujeira acabaram num passeio de milhares de quilómetros** ao longo da costa portuguesa. Sendo que estávamos juntos há tanto tempo, não éramos, por esta altura, o que se pode considerar as pessoas mais sãs do mundo.
Foi complicado, o regresso. Mas foi bom.
E porque é mesmo assim que tem de ser, é mesmo assim que tem de ser. Eis algumas fotos.
* ok, estou a exagerar... ** ui!, estiquei-me outra vez um bocadinho...
Foi complicado, o regresso. Mas foi bom.
E porque é mesmo assim que tem de ser, é mesmo assim que tem de ser. Eis algumas fotos.
* ok, estou a exagerar... ** ui!, estiquei-me outra vez um bocadinho...
Zambujeira Blues
Memórias de um Verão muito Qi:
- os jantares no Cercal, a caminho da Zambujeira;
- o "nosso" 106;
- as obras na ruína;
- o caniçado;
- a courgette-gigante;
- o tecto-maravilha;
- a tenda "escuteiros-mirins" do Dias;
- as aranhas;
- as tostas mistas ao pé da praia;
- o meu vinho verde e as greens da Vera;
e claro...
Mayra Andrade!
- os jantares no Cercal, a caminho da Zambujeira;
- o "nosso" 106;
- as obras na ruína;
- o caniçado;
- a courgette-gigante;
- o tecto-maravilha;
- a tenda "escuteiros-mirins" do Dias;
- as aranhas;
- as tostas mistas ao pé da praia;
- o meu vinho verde e as greens da Vera;
e claro...
Mayra Andrade!
11 de Junho de 2007
SÓ ME FALTAVA MAIS ESTA
Melhor: só me faltavam mais estas.
Já andei de mota a três. Já vi muitos filmes em salas de cinema com ventoínhas a arrefecer o público, já viajei em comboios a abarrotar, já brinquei ao Holi e celebrei o Diwali. Já bebi bhang lassi, visitei mesquitas e templos, andei de camelo, conheci reis e marajás. Não tenho qualquer tipo de problema em comer com a mão direita e fazer o que tem de ser feito com a mão esquerda. Abano a cabeça de um lado para o outro quando quero concordar com qualquer coisa, digo Atcha em vez de Ok. Faço um Namaste quando quero cumprimetar alguém, toco no coração com a mão direita depois de apertar a mão a um muçulmano.
E quem diria que, depois de tanto tempo na Índia, depois de tantas descobertas e experiências novas... ainda há muito com que me surpreender.
A chamada Experiência Indiana tem muito que se lhe diga. Se perguntarmos a cada estrangeiro qual é a sua, provavelmente temos tantas respostas diferentes quanto os entrevistados. O facto deste ser um país tão rico culturalmente, tão diferente do nosso e ao mesmo tempo tão próximo, faz com que as possibilidades de novas experiências sejam imensas.
Eu já tinha experimentado muita coisa, e achava que o mais basico estava feito, e que pouco mais havia a descobrir sem ter de ir muito fundo. Por isso qual não foi a minha surpresa quando um amigo em Orchha me perguntou se eu alguma vez tinha voado um papagaio.
E não, eu nunca tinha experimentado.
Na Índia, miúdos e graúdos são doidos por papagaios. Flying kytes, é como se diz. Os papagaios de papel, sejam a voar ou pendurados em árvores e fios de electricidade, são uma das marcas mais recorrentes da paisagem indiana. Há torneios, até há um Dia do Papagaio, é normal ver pessoas em cima dos terraços a voa-los ao mesmo tempo que os vizinhos, para ver quem derruba quem. Há quem esmague vidro e cole o pó resultante no fio, para cortar os inimigos. Há quem faça pequenos nós para “agarrar” o outro.
E eu... todo cheio de mim mesmo porque já fiz isto e aquilo... eu nunca tinha feito uma coisa tao basica na cultura indiana. Eu nunca tinha voado um papagaio.
Só me faltava mais esta. Faltava. Não que tenha estado horas a aperfeiçoar técnicas e truques, mas experimentei. Por momentos peguei no fio e brinquei com o papagaio lá em cima, um quadrado verde sobre um fundo branco e cinzento, um céu carregado de nuvens, as monções quase a chegar.
Só me faltava mais esta, e também me faltava um ioga às cinco da manhã junto ao rio, com vista sobre templos e palácios. E faltava-me um banho matinal no rio, com direito a champô e sabão, à conversa com cinco ou seis amigos, um daqueles momentos que apetece eternizar.
Só me faltavam estas? Não, ainda há muito que experimentar. Mas de cada vez que se vive qualquer coisa de maravilhoso e novo, parece sempre que foi a derradeira experiência, que “agora é que estou completamente por dentro”.
Depois de Orchha e Jhansi vim para Sanchi, também no Madhya Pradesh. Já aqui tinha estado, foi só uma paragem rápida a caminho de Phardapur, onde me esperam amigos e despedidas. Esses momentos ficam para a próxima crónica.
Já andei de mota a três. Já vi muitos filmes em salas de cinema com ventoínhas a arrefecer o público, já viajei em comboios a abarrotar, já brinquei ao Holi e celebrei o Diwali. Já bebi bhang lassi, visitei mesquitas e templos, andei de camelo, conheci reis e marajás. Não tenho qualquer tipo de problema em comer com a mão direita e fazer o que tem de ser feito com a mão esquerda. Abano a cabeça de um lado para o outro quando quero concordar com qualquer coisa, digo Atcha em vez de Ok. Faço um Namaste quando quero cumprimetar alguém, toco no coração com a mão direita depois de apertar a mão a um muçulmano.
E quem diria que, depois de tanto tempo na Índia, depois de tantas descobertas e experiências novas... ainda há muito com que me surpreender.
A chamada Experiência Indiana tem muito que se lhe diga. Se perguntarmos a cada estrangeiro qual é a sua, provavelmente temos tantas respostas diferentes quanto os entrevistados. O facto deste ser um país tão rico culturalmente, tão diferente do nosso e ao mesmo tempo tão próximo, faz com que as possibilidades de novas experiências sejam imensas.
Eu já tinha experimentado muita coisa, e achava que o mais basico estava feito, e que pouco mais havia a descobrir sem ter de ir muito fundo. Por isso qual não foi a minha surpresa quando um amigo em Orchha me perguntou se eu alguma vez tinha voado um papagaio.
E não, eu nunca tinha experimentado.
Na Índia, miúdos e graúdos são doidos por papagaios. Flying kytes, é como se diz. Os papagaios de papel, sejam a voar ou pendurados em árvores e fios de electricidade, são uma das marcas mais recorrentes da paisagem indiana. Há torneios, até há um Dia do Papagaio, é normal ver pessoas em cima dos terraços a voa-los ao mesmo tempo que os vizinhos, para ver quem derruba quem. Há quem esmague vidro e cole o pó resultante no fio, para cortar os inimigos. Há quem faça pequenos nós para “agarrar” o outro.
E eu... todo cheio de mim mesmo porque já fiz isto e aquilo... eu nunca tinha feito uma coisa tao basica na cultura indiana. Eu nunca tinha voado um papagaio.
Só me faltava mais esta. Faltava. Não que tenha estado horas a aperfeiçoar técnicas e truques, mas experimentei. Por momentos peguei no fio e brinquei com o papagaio lá em cima, um quadrado verde sobre um fundo branco e cinzento, um céu carregado de nuvens, as monções quase a chegar.
Só me faltava mais esta, e também me faltava um ioga às cinco da manhã junto ao rio, com vista sobre templos e palácios. E faltava-me um banho matinal no rio, com direito a champô e sabão, à conversa com cinco ou seis amigos, um daqueles momentos que apetece eternizar.
Só me faltavam estas? Não, ainda há muito que experimentar. Mas de cada vez que se vive qualquer coisa de maravilhoso e novo, parece sempre que foi a derradeira experiência, que “agora é que estou completamente por dentro”.
Depois de Orchha e Jhansi vim para Sanchi, também no Madhya Pradesh. Já aqui tinha estado, foi só uma paragem rápida a caminho de Phardapur, onde me esperam amigos e despedidas. Esses momentos ficam para a próxima crónica.
6 de Junho de 2007
O DALAI LAMA DENTRO DE UM CARRO, UMA TEMPESTADE DE NEVE A 3500M & UMA SALA DE CINEMA IMPROVISADA
É um título comprido, o desta crónica. O que não quer dizer que me vá demorar muito – até porque o tempo não está para isso. Aliás, com 47 graus à sombra, o tempo não está nem para isso nem para mais nada.
Depois do pesadelo da viagem de regresso à Índia, estive uma semana a fazer pouco mais que nada em Dharamsala. Quer dizer... em McLeod Ganj. Ou em Baghsu, para ser mais preciso. Não interessa: fiquei em Baghsu, que é na continuação de McLeod, que por sua vez faz parte de Dharamsala. Fui mais explícito?
Já lá tinha estado com a Joana. Já sabia que era uma terra com pinta, cheia de bandeirinhas tibetanas por todo o lado; sabia que havia Royal Enfields muita loucas a passar na estrada, monges tibetanos à conversa com turistas, cursos de tudo-e-mais-alguma-coisa, bares de israelitas – e um bolo típico, o Baghsu Cake, que é uma delícia mas que não dá para levar para lado nenhum, nem para Portugal nem sequer para Delhi, porque se estraga num instante.
O que eu não sabia é que ia acabar por fazer um trekking com dois indianos até quase 3500m, batendo o recorde alcançado com o André e a Inês duas semanas antes, em Poon Hill. Também não sabia que ia ter um brevíssimo encontro com o Dalai Lama, que ia a passar de carro, e durante uma breve paragem da comitiva ficou mesmo ao meu lado – arrepios!
E, quem diria, o mundo é mesmo pequeno, encontrei uma portuguesa*, amiga de um amigo**, que conhecera mesmo antes dela vir para a Índia, nem eu sonhava que pouco depois era eu quem me metia num avião a caminho de Bombaim! E porque isto de viajar tem muito de partilha de experiências novas, eis que fomos ver o Shrek 3 numa sala de cinema improvisada... numa cave de uma loja de legumes!
* Matilde
** Locas
Depois do pesadelo da viagem de regresso à Índia, estive uma semana a fazer pouco mais que nada em Dharamsala. Quer dizer... em McLeod Ganj. Ou em Baghsu, para ser mais preciso. Não interessa: fiquei em Baghsu, que é na continuação de McLeod, que por sua vez faz parte de Dharamsala. Fui mais explícito?
Já lá tinha estado com a Joana. Já sabia que era uma terra com pinta, cheia de bandeirinhas tibetanas por todo o lado; sabia que havia Royal Enfields muita loucas a passar na estrada, monges tibetanos à conversa com turistas, cursos de tudo-e-mais-alguma-coisa, bares de israelitas – e um bolo típico, o Baghsu Cake, que é uma delícia mas que não dá para levar para lado nenhum, nem para Portugal nem sequer para Delhi, porque se estraga num instante.
O que eu não sabia é que ia acabar por fazer um trekking com dois indianos até quase 3500m, batendo o recorde alcançado com o André e a Inês duas semanas antes, em Poon Hill. Também não sabia que ia ter um brevíssimo encontro com o Dalai Lama, que ia a passar de carro, e durante uma breve paragem da comitiva ficou mesmo ao meu lado – arrepios!
E, quem diria, o mundo é mesmo pequeno, encontrei uma portuguesa*, amiga de um amigo**, que conhecera mesmo antes dela vir para a Índia, nem eu sonhava que pouco depois era eu quem me metia num avião a caminho de Bombaim! E porque isto de viajar tem muito de partilha de experiências novas, eis que fomos ver o Shrek 3 numa sala de cinema improvisada... numa cave de uma loja de legumes!
* Matilde
** Locas
29 de Maio de 2007
WELCOME TO INDIA
Eu sei que não é costume choramingar no blog. Sei que normalmente tento dar ênfase aos muitos momentos bons de viajar, e se menciono algum episódio menos positivo, é ao-de-leve.
Eu sei... mas o regresso à Índia foi mau de mais para passar ao lado.
Aviso já que é uma história longa.
Tudo começou ainda em solo nepalês. Às seis da manhã estava a enfiar-me num autocarro, esperavam-me pouco mais de sete horas de viagem rumo à fronteira. Foi uma viagem puxada, no mínimo. Estradas de montanha – como já era de esperar – e uma condução sem adjectivos foram os ingredientes necessários para um constante sobressalto geral, tanto nos estrangeiros como nos locais. Só para dar uma ideia, duas francesas decidiram sair a meio do caminho, e foram de taxi as restantes três horas – tal era o medo. Ainda tentaram convencer mais alguns viajantes a partilharem o carro, mas ninguém se deu ao trabalho.
Mas não foram só os estrangeiros a ficar incomodados com a viagem: então não é que, a duas horas da fronteira, estava eu meio-a-dormir, quando sinto qualquer coisa molhada no meu braço... a menina do banco de trás resolvera vomitar, sem avisar nem nada, sem ter a decência de pôr a cabeça de fora... e quem é que levou com o dal bhat ainda quente? Exactamente.
O pesadelo só agora começara. Lavei-me assim que parámos para um chichi, e depois foi rezar para chegar depressa à Índia. E que bom que foi passar a fronteira! Que bom, a diferença do cheiro e dos sons, os meus sentidos já estavam meio adormecidos com o ar puro e o silêncio dos Himalaias, bem que precisavam de um abanão.
Durou pouco, o estado de graça.
Abreviando porque isto de escrever na net implica abreviar: fica aqui um histórico do que se passou nas seguintes vinte e sete horas. Sim, escrevi bem, e escrevi por extenso para não haver enganos. Vinte e sete horas – num autocarro local, sem bancos reclináveis nem outras mordomias. Isso é para meninos, bem-vindos à Índia.
14:00 Comprei o bilhete numa banca junto ao autocarro, segundo as instruções do pica, depois de escapar a trinta mil esquemas. Mesmo assim, fiquei com a sensação que estava a ser enganado.
14:30 O autocarro já devia ter saído há dez minutos. O pica anunciou em voz alta que havia chegado o momento de pagar os bilhetes, 490 rupias para Delhi. Eu tinha pago 670 e apesar de se confirmar o roubo, resolvi não dar muita importância.
15:00 Vamos sair (finalmente!), com uma hora de atraso e o suor e desconforto que isso implica, com este calor...
15:01 Entra um homem que nunca-vi-mais-gordo e vem ter directamente comigo. Pede-me o bilhete, mostro-lhe o talão das 670 rupias e ele diz que aquilo não serve para nada e que tenho de pagar mais 490. Os 670 são uma taxa de serviço, diz-me. Eu passo-me, digo que não pago nem mais um tostão, ele expulsa-me do autocarro e eu digo que vou chamar a polícia e que ele e o pica vêm comigo. Gritos, ameaça de porrada, vou apanhar, vou apanhar.
15:05 Mantive o sangue-frio, insisti que ia chamar a polícia, gritei quase tão alto quanto ele, e declarei que o autocarro não saía sem mim. E como magia aparece um bilhete vindo sei-lá-de-onde, alguém arrasta o outro gajo, que já espuma da boca, para a rua... e o autocarro parte. Comigo lá dentro.
15:06 Sou um herói para os nepaleses que viajam comigo no autocarro. O episódio da quase-porrada vai ser conversa recorrente nas próximas vinte e sete horas.
15:10 Avançámos cinquenta metros, se tanto. Temos um furo.
16:15 O furo foi arranjado, o autocarro volta a arrancar. Estou prestes a afogar-me no meu próprio suor.
16:45 Somos parados pela polícia. Entram dois agentes que fingem revistar alguns sacos e caixas, mas estão claramente à procura de sacar alguma coisa. Tentam mexer na minha mochila (que tem o computador lá dentro) mas eu não deixo, pedem-me o passaporte e fingem que estão a le-lo. De pernas para o ar! Safo-me, não me chateiam mais.
17:00 Depois de chatearem quase toda a gente no autocarro, os policias deixam-nos partir. Mas não sem antes ficarem com uma das cinco caixas de maçãs que um miúdo levava para vender no mercado da terrinha. O puto está quase a chorar, era o ganha-pão dele. Apetece-me largar uma bomba atomica neste pais.
Este foi apenas o início de um longo pesadelo, e se me vou poupar a muito mais descrições não é por falta de histórias. Desde darmos meia-volta e fazer dez quilómetros para trás porque o pica deixou o telemóvel num restaurante onde parámos para jantar; a termos trinta e tal pessoas a mais, crianças de colo incluídas, a dormir nos corredores; passando pela decisão do pica de expulsar três pessoas dos seus lugares para ele dormir confortavelmente (sob ameaça de que se não fossem para o corredor, iam para a rua), e dos inúmeros quase-choques-frontais e outros dramas... esta viagem foi qualquer coisa.
Cheguei a Delhi mais morto que vivo, praticamente sem ter dormido porque não havia posição possível... e fui recusado em três hoteis, sem razão aparente, até finalmente encontrar um poiso para o resto do dia.
Bem-vindo à Índia... e que bom que vai ser quando finalmente chegar a Dharamsala!
Eu sei... mas o regresso à Índia foi mau de mais para passar ao lado.
Aviso já que é uma história longa.
Tudo começou ainda em solo nepalês. Às seis da manhã estava a enfiar-me num autocarro, esperavam-me pouco mais de sete horas de viagem rumo à fronteira. Foi uma viagem puxada, no mínimo. Estradas de montanha – como já era de esperar – e uma condução sem adjectivos foram os ingredientes necessários para um constante sobressalto geral, tanto nos estrangeiros como nos locais. Só para dar uma ideia, duas francesas decidiram sair a meio do caminho, e foram de taxi as restantes três horas – tal era o medo. Ainda tentaram convencer mais alguns viajantes a partilharem o carro, mas ninguém se deu ao trabalho.
Mas não foram só os estrangeiros a ficar incomodados com a viagem: então não é que, a duas horas da fronteira, estava eu meio-a-dormir, quando sinto qualquer coisa molhada no meu braço... a menina do banco de trás resolvera vomitar, sem avisar nem nada, sem ter a decência de pôr a cabeça de fora... e quem é que levou com o dal bhat ainda quente? Exactamente.
O pesadelo só agora começara. Lavei-me assim que parámos para um chichi, e depois foi rezar para chegar depressa à Índia. E que bom que foi passar a fronteira! Que bom, a diferença do cheiro e dos sons, os meus sentidos já estavam meio adormecidos com o ar puro e o silêncio dos Himalaias, bem que precisavam de um abanão.
Durou pouco, o estado de graça.
Abreviando porque isto de escrever na net implica abreviar: fica aqui um histórico do que se passou nas seguintes vinte e sete horas. Sim, escrevi bem, e escrevi por extenso para não haver enganos. Vinte e sete horas – num autocarro local, sem bancos reclináveis nem outras mordomias. Isso é para meninos, bem-vindos à Índia.
14:00 Comprei o bilhete numa banca junto ao autocarro, segundo as instruções do pica, depois de escapar a trinta mil esquemas. Mesmo assim, fiquei com a sensação que estava a ser enganado.
14:30 O autocarro já devia ter saído há dez minutos. O pica anunciou em voz alta que havia chegado o momento de pagar os bilhetes, 490 rupias para Delhi. Eu tinha pago 670 e apesar de se confirmar o roubo, resolvi não dar muita importância.
15:00 Vamos sair (finalmente!), com uma hora de atraso e o suor e desconforto que isso implica, com este calor...
15:01 Entra um homem que nunca-vi-mais-gordo e vem ter directamente comigo. Pede-me o bilhete, mostro-lhe o talão das 670 rupias e ele diz que aquilo não serve para nada e que tenho de pagar mais 490. Os 670 são uma taxa de serviço, diz-me. Eu passo-me, digo que não pago nem mais um tostão, ele expulsa-me do autocarro e eu digo que vou chamar a polícia e que ele e o pica vêm comigo. Gritos, ameaça de porrada, vou apanhar, vou apanhar.
15:05 Mantive o sangue-frio, insisti que ia chamar a polícia, gritei quase tão alto quanto ele, e declarei que o autocarro não saía sem mim. E como magia aparece um bilhete vindo sei-lá-de-onde, alguém arrasta o outro gajo, que já espuma da boca, para a rua... e o autocarro parte. Comigo lá dentro.
15:06 Sou um herói para os nepaleses que viajam comigo no autocarro. O episódio da quase-porrada vai ser conversa recorrente nas próximas vinte e sete horas.
15:10 Avançámos cinquenta metros, se tanto. Temos um furo.
16:15 O furo foi arranjado, o autocarro volta a arrancar. Estou prestes a afogar-me no meu próprio suor.
16:45 Somos parados pela polícia. Entram dois agentes que fingem revistar alguns sacos e caixas, mas estão claramente à procura de sacar alguma coisa. Tentam mexer na minha mochila (que tem o computador lá dentro) mas eu não deixo, pedem-me o passaporte e fingem que estão a le-lo. De pernas para o ar! Safo-me, não me chateiam mais.
17:00 Depois de chatearem quase toda a gente no autocarro, os policias deixam-nos partir. Mas não sem antes ficarem com uma das cinco caixas de maçãs que um miúdo levava para vender no mercado da terrinha. O puto está quase a chorar, era o ganha-pão dele. Apetece-me largar uma bomba atomica neste pais.
Este foi apenas o início de um longo pesadelo, e se me vou poupar a muito mais descrições não é por falta de histórias. Desde darmos meia-volta e fazer dez quilómetros para trás porque o pica deixou o telemóvel num restaurante onde parámos para jantar; a termos trinta e tal pessoas a mais, crianças de colo incluídas, a dormir nos corredores; passando pela decisão do pica de expulsar três pessoas dos seus lugares para ele dormir confortavelmente (sob ameaça de que se não fossem para o corredor, iam para a rua), e dos inúmeros quase-choques-frontais e outros dramas... esta viagem foi qualquer coisa.
Cheguei a Delhi mais morto que vivo, praticamente sem ter dormido porque não havia posição possível... e fui recusado em três hoteis, sem razão aparente, até finalmente encontrar um poiso para o resto do dia.
Bem-vindo à Índia... e que bom que vai ser quando finalmente chegar a Dharamsala!
18 de Maio de 2007
Começou ontem à tarde. Estava em Pashupati, uma zona sagrada de Kathmandu que é uma espécie de aldeia dentro da cidade, cheia de templos e sadhus a meditar, e um rio onde os nepaleses lavam os pés dos mortos antes de os cremarem.
Eu estava sentado numa espécie de varanda sobre o rio, no topo de uma colina com vista sobre toda a área. Eu e dezenas de nepaleses, e lá em baixo outras tantas centenas, ao longo das margens, nas pontes, espalhados pelos templos.
O fumo das cremações enchia o ar com um cheiro que me é difícil descrever. O cheiro a carne queimada – carne humana.
E de repente a chuva. Grossos pingos de água quente manchando a pedra do chão, primeiro timidos e ganhando confiança aos poucos. Abriguei-me debaixo de uma árvore, junto a vários nepaleses, à espera que acalmasse. Passaram cinco minutos, e outros cinco, nos degraus junto ao rio já corria uma cascata castanha. A árvore deixou de ser abrigo, chovia copiosamente sobre quem se juntara debaixo dela.
Corremos à procura de um lugar mais abrigado. Corremos devagar, porque a corrente da água no chão era tão forte que corríamos o risco de escorregar. Antes molhado que partido.
Apesar de quase cheio, ainda havia espaço num dos templos. Encharcado, sentei-me no muro a fumar um cigarro. Ao meu lado, um sadhu com rastas até à cintura e o corpo coberto de cinzas, a cara pintada de amarelo e encarnado, ouvia música através de uns headphones cor-de-laranja. Um sadhu com um MP3 novinho em folha!
Num pequeno templo mesmo ao nosso lado, um grupo de rapazes nepaleses tinha-se sentado à conversa com um sadhu, a fumar uma ganza. E mesmo à nossa frente, do outro lado do rio, começava mais uma cremação. O barulho da chuva a cair na pedra e da água a correr nos degraus abafava o choro das mulheres. Três homens faziam companhia a um cadáver cujos pés estavam mergulhados no rio. Levantaram-no devagar e levaram-no para junto da multidão. Seis fogueiras continuavam a arder, apesar da chuva. O fumo misturava-se com os pingos, o ar continuava impregnado daquele cheiro, o mesmo de Varanasi.
Ainda não parou de chover em Kathmandu. Ontem à tarde, ontem à noite, hoje de manhã e parece-me que vai ser assim o resto do dia. Troveja, de vez em quando o flash de um relâmpago ilumina o ar húmido da cidade. A electricidade é desligada entre as quatro da tarde e as oito e meia da noite. Chove, e eu vou-me embora. Daqui a dois ou três dias volto a atravessar a fronteira, de regresso à Índia.
Eu estava sentado numa espécie de varanda sobre o rio, no topo de uma colina com vista sobre toda a área. Eu e dezenas de nepaleses, e lá em baixo outras tantas centenas, ao longo das margens, nas pontes, espalhados pelos templos.
O fumo das cremações enchia o ar com um cheiro que me é difícil descrever. O cheiro a carne queimada – carne humana.
E de repente a chuva. Grossos pingos de água quente manchando a pedra do chão, primeiro timidos e ganhando confiança aos poucos. Abriguei-me debaixo de uma árvore, junto a vários nepaleses, à espera que acalmasse. Passaram cinco minutos, e outros cinco, nos degraus junto ao rio já corria uma cascata castanha. A árvore deixou de ser abrigo, chovia copiosamente sobre quem se juntara debaixo dela.
Corremos à procura de um lugar mais abrigado. Corremos devagar, porque a corrente da água no chão era tão forte que corríamos o risco de escorregar. Antes molhado que partido.
Apesar de quase cheio, ainda havia espaço num dos templos. Encharcado, sentei-me no muro a fumar um cigarro. Ao meu lado, um sadhu com rastas até à cintura e o corpo coberto de cinzas, a cara pintada de amarelo e encarnado, ouvia música através de uns headphones cor-de-laranja. Um sadhu com um MP3 novinho em folha!
Num pequeno templo mesmo ao nosso lado, um grupo de rapazes nepaleses tinha-se sentado à conversa com um sadhu, a fumar uma ganza. E mesmo à nossa frente, do outro lado do rio, começava mais uma cremação. O barulho da chuva a cair na pedra e da água a correr nos degraus abafava o choro das mulheres. Três homens faziam companhia a um cadáver cujos pés estavam mergulhados no rio. Levantaram-no devagar e levaram-no para junto da multidão. Seis fogueiras continuavam a arder, apesar da chuva. O fumo misturava-se com os pingos, o ar continuava impregnado daquele cheiro, o mesmo de Varanasi.
Ainda não parou de chover em Kathmandu. Ontem à tarde, ontem à noite, hoje de manhã e parece-me que vai ser assim o resto do dia. Troveja, de vez em quando o flash de um relâmpago ilumina o ar húmido da cidade. A electricidade é desligada entre as quatro da tarde e as oito e meia da noite. Chove, e eu vou-me embora. Daqui a dois ou três dias volto a atravessar a fronteira, de regresso à Índia.
17 de Maio de 2007
16 de Maio de 2007
WHY LIKE THIS?
O André e a Inês foram embora hoje de madrugada. Vieram despedir-se ao meu quarto, mas eu estava ferrado e não me lembro de quase nada. Eram cinco da manhã, acho. Voaram para Delhi, daqui a dois dias voltam para Portugal. Eu por cá fico, mais algum tempo, até novo reencontro em Lisboa.
Então poderemos lembrar, mais uma vez, os dias loucos desta aventura a três. O fim de tarde no Nine Bar, o nosso amigo canibal, as conversas em Português nas ruas de Panjim, as corridas do André até ao mar por razoes que não é preciso descrever. A noite ao relento em Palolem, de fato-de-banho, deitados na canga até às tantas a rir de tudo e mais alguma coisa. Vingativo como um caranguejo!
Depois de Goa, Bombaim. O Abbey e a Louisa, a night que era só para ser um copo e acabou num after-hours com tudo bêbado. O passeio de carro, com motorista, da ponta sul ao extremo norte da cidade, com passagem em Juhu Beach e no pani puri de Lokhanwala.
Aurangabad, as grutas de Ellora, as grutas de Ajanta – e Fardapur. Eu e o André a fazer a barba e hair massage, o jantar em casa do Shoo Shoo e do Ashroft, a henna da Inês que teima em nao sair. A minha visão do Inferno, numa estação de comboios cujo nome nem me vou dar ao trabalho de tentar lembrar. E depois a viagem de 28 horas até Varanasi, a chegada à noite, o riquexó que obviamente nos queria levar a todo o lado menos ao nosso hotel. A caminhada pelas ruas, de mochila às costas, às escuras. O passeio de barco ao nascer-do-sol, o passeio de barco ao pôr-do-sol, e a cerimónia inesquecivel junto ao rio a que tivémos o privilégio de assistir.
E finalmente o Nepal! Os três dias de trekking, o sol a nascer no Annapurna, os 3280 degraus de uma assentada só, o ataque das sanguessugas, os cães que nos fizeram companhia, o passeio à noite em Gandruk, a chuvada a caminho de Birethandi. As pessoas sempre a sorrir e a dizer Namaste. Os Himalaias, os Himalaias, os Himalaias! E Kathmandu, provavelmente uma das surpresas mais agradáveis dos últimos tempos, quem diria que a cidade é-o-que-é.
Eles foram embora – eu fico mais uns dias e depois volto à estrada. Quero perceber melhor Kathmandu, quero aventurar-me nas ruas cheias de templos e gente. Há qualquer coisa de estranho e maravilhoso no ritmo desta cidade, ainda não sei muito bem o quê mas vou tentar descobrir.
Eles foram embora, e como diz aqui o ditado:
What to do? Back to Kathmandu!
Então poderemos lembrar, mais uma vez, os dias loucos desta aventura a três. O fim de tarde no Nine Bar, o nosso amigo canibal, as conversas em Português nas ruas de Panjim, as corridas do André até ao mar por razoes que não é preciso descrever. A noite ao relento em Palolem, de fato-de-banho, deitados na canga até às tantas a rir de tudo e mais alguma coisa. Vingativo como um caranguejo!
Depois de Goa, Bombaim. O Abbey e a Louisa, a night que era só para ser um copo e acabou num after-hours com tudo bêbado. O passeio de carro, com motorista, da ponta sul ao extremo norte da cidade, com passagem em Juhu Beach e no pani puri de Lokhanwala.
Aurangabad, as grutas de Ellora, as grutas de Ajanta – e Fardapur. Eu e o André a fazer a barba e hair massage, o jantar em casa do Shoo Shoo e do Ashroft, a henna da Inês que teima em nao sair. A minha visão do Inferno, numa estação de comboios cujo nome nem me vou dar ao trabalho de tentar lembrar. E depois a viagem de 28 horas até Varanasi, a chegada à noite, o riquexó que obviamente nos queria levar a todo o lado menos ao nosso hotel. A caminhada pelas ruas, de mochila às costas, às escuras. O passeio de barco ao nascer-do-sol, o passeio de barco ao pôr-do-sol, e a cerimónia inesquecivel junto ao rio a que tivémos o privilégio de assistir.
E finalmente o Nepal! Os três dias de trekking, o sol a nascer no Annapurna, os 3280 degraus de uma assentada só, o ataque das sanguessugas, os cães que nos fizeram companhia, o passeio à noite em Gandruk, a chuvada a caminho de Birethandi. As pessoas sempre a sorrir e a dizer Namaste. Os Himalaias, os Himalaias, os Himalaias! E Kathmandu, provavelmente uma das surpresas mais agradáveis dos últimos tempos, quem diria que a cidade é-o-que-é.
Eles foram embora – eu fico mais uns dias e depois volto à estrada. Quero perceber melhor Kathmandu, quero aventurar-me nas ruas cheias de templos e gente. Há qualquer coisa de estranho e maravilhoso no ritmo desta cidade, ainda não sei muito bem o quê mas vou tentar descobrir.
Eles foram embora, e como diz aqui o ditado:
What to do? Back to Kathmandu!
8 de Maio de 2007
VICISSITUDES... :)
Um mês em Goa de papo para o ar. Três semanas por conta própria e uma com o André e a Inês, que já chegaram. Depois Bombaim - os comboios suburbanos, driver para nos levar a casa, Juhu Beach e uma noitada de copos. Aurangabad, as grutas de Ellora e Ajanta, e como ja é costume Phardapur.
Estamos em Varanasi, depois de 28h num comboio, e tanto ou tão pouco temos feito que não tem havido tempo nem muita paciência, confesso, para escrever no blog.
Estou em falta com a descrição do Gary, com um resumo do mês passado em Goa e tudo o resto que se seguiu. Assim que puder, venho cá publicar qualquer coisa, prometo que pelo menos umas fotos deixo aqui até ao fim da semana.
Próxima Paragem... Nepal?
Estamos em Varanasi, depois de 28h num comboio, e tanto ou tão pouco temos feito que não tem havido tempo nem muita paciência, confesso, para escrever no blog.
Estou em falta com a descrição do Gary, com um resumo do mês passado em Goa e tudo o resto que se seguiu. Assim que puder, venho cá publicar qualquer coisa, prometo que pelo menos umas fotos deixo aqui até ao fim da semana.
Próxima Paragem... Nepal?
22 de Abril de 2007
BREVEMENTE
(ler este texto em voz alta, como se fosse o trailer de um filme de cinema)
Ele parecia apenas mais um hóspede num hotel pacato de Goa...
Mas às vezes, as aparencias iludem...
(visualizar uma sequencia acelerada de explosões, perseguições de mota na praia, tiros e sangues e mulheres lindas a gritar)
As tatuagens e as cicatrizes contam a história de uma vida intensa... ele percorreu meio-mundo, experimentou de tudo, viveu as emoções mais radicais... mas ainda não está satisfeito...
fuidarumavolta filmes apresenta...
Gary Stevenson em...
Um Canibal Hawaiano em Goa
Uma comédia romântica com sabor a caril de peixe. Estreia quarta ou quinta neste blog.
Ele parecia apenas mais um hóspede num hotel pacato de Goa...
Mas às vezes, as aparencias iludem...
(visualizar uma sequencia acelerada de explosões, perseguições de mota na praia, tiros e sangues e mulheres lindas a gritar)
As tatuagens e as cicatrizes contam a história de uma vida intensa... ele percorreu meio-mundo, experimentou de tudo, viveu as emoções mais radicais... mas ainda não está satisfeito...
fuidarumavolta filmes apresenta...
Gary Stevenson em...
Um Canibal Hawaiano em Goa
Uma comédia romântica com sabor a caril de peixe. Estreia quarta ou quinta neste blog.
7 de Abril de 2007
A CAMINHO DE GOA
Regresso a Bombaim, mas para uma passagem muito rápida. O Abbey e a Louisa foram passar a semana da Páscoa ao Dubai, mas insistiram para eu ficar lá em casa à mesma.
Na Sexta-Feira Santa fui a uma missa campal em Bombaim, com a mãe do Abbey, e sábado ao fim do dia metemo-nos os dois num autocarro para Goa. É muito engraçado passear com ela – primeiro porque é completamente louca, depois porque toda a gente fica a olhar para nós, sem perceber muito bem qual a nossa relação ou parentesco.
Mas o melhor de tudo é a reacção das pessoas, quando a senhora lhes diz, com o ar mais sério do mundo, que sou filho dela.
Na Sexta-Feira Santa fui a uma missa campal em Bombaim, com a mãe do Abbey, e sábado ao fim do dia metemo-nos os dois num autocarro para Goa. É muito engraçado passear com ela – primeiro porque é completamente louca, depois porque toda a gente fica a olhar para nós, sem perceber muito bem qual a nossa relação ou parentesco.
Mas o melhor de tudo é a reacção das pessoas, quando a senhora lhes diz, com o ar mais sério do mundo, que sou filho dela.
5 de Abril de 2007
UMA DESILUSÃO, UMA SURPRESA E O INDIANO MAIS ROMÂNTICO DE SEMPRE
Uma desilusão: ainda não é desta que vou a Diu, estou muito perto mas não tenho tempo, se quero estar em Bombaim para o fim-de-semana de Páscoa.
Uma surpresa: fiquei em Junagadh, supostamente um ponto de paragem a caminho de Diu, mas o Destino quis que ficasse aqui dia e meio, antes de me meter na estrada novamente. Quem diria... um forte engraçado com dois poços gigantes a fazer lembrar os filmes do Indiana Jones, ruas cheias de edifícios antigos, templos hindus novinhos em folha, monumentos que podiam ser o ex-libris de qualquer cidade. E para rematar, quase todos os muros da cidade estão pintados com citações de personalidades históricas como Napoleão Bonaparte, Júlio César ou Gorbatchev.
O indiano mais romântico de sempre: conheci-o no forte, junto aos canhões que testemunharam a derrota do exército turco contra as forças portuguesas. Veio fazer conversa comigo, quando lhe perguntei o que estava ali a fazer disse-me “I’m waiting for my lover.”
Acabámos por passar a tarde juntos, primeiro a passear enquanto esperávamos pela amada/amante, que ele insistia em apresentar-me... mas ela não telefonou, e não apareceu, e o rapaz começou a ficar deprimido. Levou-me a uns templos, passeámos na cidade velha, ele sempre agarrado ao telefone porque tinha de ser ela a ligar-lhe, ele tinha telefonado na noite anterior e o pai dela atendeu o telefone... dramas amorosos, típicos na Índia.
A tarde passou sem que ela ligasse, eu já não sabia o que dizer porque o rapaz estava cada vez pior, a dada altura mostrou-me umas cicatrizes no braço onde tinha escrito, com uma lâmina, o nome dela, antes de lhe escrever uma carta com o próprio sangue. Arrepio! Quando já ao cair da noite ela finalmente ligou, o indiano mais romântico de sempre mudou radicalmente de personalidade. Só faltava cantar e dançar: ria às gargalhadas, levou-me a um barbeiro e cortou o cabelo, fez novo penteado e uma massagem capilar... tudo porque havia uma breve hipótese de a encontrar. Mas ela ligou outra vez - e nada feito.
Jorge, foge enquanto podes – bebemos um sumo de cana de açúcar e cada um seguiu com a sua vida.
Uma surpresa: fiquei em Junagadh, supostamente um ponto de paragem a caminho de Diu, mas o Destino quis que ficasse aqui dia e meio, antes de me meter na estrada novamente. Quem diria... um forte engraçado com dois poços gigantes a fazer lembrar os filmes do Indiana Jones, ruas cheias de edifícios antigos, templos hindus novinhos em folha, monumentos que podiam ser o ex-libris de qualquer cidade. E para rematar, quase todos os muros da cidade estão pintados com citações de personalidades históricas como Napoleão Bonaparte, Júlio César ou Gorbatchev.
O indiano mais romântico de sempre: conheci-o no forte, junto aos canhões que testemunharam a derrota do exército turco contra as forças portuguesas. Veio fazer conversa comigo, quando lhe perguntei o que estava ali a fazer disse-me “I’m waiting for my lover.”
Acabámos por passar a tarde juntos, primeiro a passear enquanto esperávamos pela amada/amante, que ele insistia em apresentar-me... mas ela não telefonou, e não apareceu, e o rapaz começou a ficar deprimido. Levou-me a uns templos, passeámos na cidade velha, ele sempre agarrado ao telefone porque tinha de ser ela a ligar-lhe, ele tinha telefonado na noite anterior e o pai dela atendeu o telefone... dramas amorosos, típicos na Índia.
A tarde passou sem que ela ligasse, eu já não sabia o que dizer porque o rapaz estava cada vez pior, a dada altura mostrou-me umas cicatrizes no braço onde tinha escrito, com uma lâmina, o nome dela, antes de lhe escrever uma carta com o próprio sangue. Arrepio! Quando já ao cair da noite ela finalmente ligou, o indiano mais romântico de sempre mudou radicalmente de personalidade. Só faltava cantar e dançar: ria às gargalhadas, levou-me a um barbeiro e cortou o cabelo, fez novo penteado e uma massagem capilar... tudo porque havia uma breve hipótese de a encontrar. Mas ela ligou outra vez - e nada feito.
Jorge, foge enquanto podes – bebemos um sumo de cana de açúcar e cada um seguiu com a sua vida.
?!
É uma mota?
É um tractor?
É uma carroça?
Não... é um meio de transporte como outro qualquer, não sei o nome mas parece-me uma mistura dos três anteriores. Não tem superpoderes, mas é uma loucura.
É um tractor?
É uma carroça?
Não... é um meio de transporte como outro qualquer, não sei o nome mas parece-me uma mistura dos três anteriores. Não tem superpoderes, mas é uma loucura.
4 de Abril de 2007
SUA ALTEZA
Quatro anos depois, a história repete-se. Mais ou menos.
Depois da praia voltei ao palácio, para comprar uma garrafa de água. Sentia-me a desidratar, tonto de tanta beleza natural, precisava de me sentar um bocado à sombra, descansar, descer à terra por um bocado.
Fiquei à conversa com o rapaz que vendia água de côco, a tarde passou depressa e fui convidado para jantar com a família dele. E quando o palácio fechou e os últimos turistas saíram, eis que um dos velhotes jardineiros vem ter connosco e começa a dizer-me qualquer coisa sobre passear no jardim e o rei não-sei-quê... eu não percebia nada do que ele estava a dizer, pensava que ele me queria mostrar o jardim onde os reis antes passeavam... mas eis que o rapaz dos côcos me explica que o rei ainda vive no palácio, que está neste momento a dar uma volta no jardim... e que o velhote me está a perguntar se quero conhecer Sua Majestade.
Começa a tornar-se um hábito. Há uns anos foi o Marajá de Jaipur, desta vez o Rei de Kutch. Estivemos um bocadinho à conversa, disse-me que já tinha estado em Espanha mas infelizmente nunca em Portugal, onde tem um amigo de longa data, onde sempre quis ir... mas está muito velho, já não pode viajar. E em tom de remate, mesmo antes de me ir embora (sem tirar fotografias, por muita pena minha, confesso que me senti um bocado constrangido), Sua Alteza dá-me mais um aperto de mão e diz:
“Uma vez disseram-me que Portugal é lindo na Primavera. Tenho tanta pena de nunca ter ido a Portugal na Primavera.”
Talvez um dia.
Antes que me esqueça e porque não quero ser acusado de ser mal-educado: o jantar foi óptimo. E é sempre impressionante constatar que é nestes lugares teoricamente mais simples que a qualidade de vida é melhor. O rapaz que vende côcos à porta do palácio vive com a família numa quinta com plantações de arroz, tudo propriedade deles! Gente humilde, é verdade, mas com uma casa enorme e limpa, tudo impecável, animais e terreno. Quem dera a tantos...
Depois da praia voltei ao palácio, para comprar uma garrafa de água. Sentia-me a desidratar, tonto de tanta beleza natural, precisava de me sentar um bocado à sombra, descansar, descer à terra por um bocado.
Fiquei à conversa com o rapaz que vendia água de côco, a tarde passou depressa e fui convidado para jantar com a família dele. E quando o palácio fechou e os últimos turistas saíram, eis que um dos velhotes jardineiros vem ter connosco e começa a dizer-me qualquer coisa sobre passear no jardim e o rei não-sei-quê... eu não percebia nada do que ele estava a dizer, pensava que ele me queria mostrar o jardim onde os reis antes passeavam... mas eis que o rapaz dos côcos me explica que o rei ainda vive no palácio, que está neste momento a dar uma volta no jardim... e que o velhote me está a perguntar se quero conhecer Sua Majestade.
Começa a tornar-se um hábito. Há uns anos foi o Marajá de Jaipur, desta vez o Rei de Kutch. Estivemos um bocadinho à conversa, disse-me que já tinha estado em Espanha mas infelizmente nunca em Portugal, onde tem um amigo de longa data, onde sempre quis ir... mas está muito velho, já não pode viajar. E em tom de remate, mesmo antes de me ir embora (sem tirar fotografias, por muita pena minha, confesso que me senti um bocado constrangido), Sua Alteza dá-me mais um aperto de mão e diz:
“Uma vez disseram-me que Portugal é lindo na Primavera. Tenho tanta pena de nunca ter ido a Portugal na Primavera.”
Talvez um dia.
Antes que me esqueça e porque não quero ser acusado de ser mal-educado: o jantar foi óptimo. E é sempre impressionante constatar que é nestes lugares teoricamente mais simples que a qualidade de vida é melhor. O rapaz que vende côcos à porta do palácio vive com a família numa quinta com plantações de arroz, tudo propriedade deles! Gente humilde, é verdade, mas com uma casa enorme e limpa, tudo impecável, animais e terreno. Quem dera a tantos...
ESTOU SEM PALAVRAS
Chama-se Vijay Vilas Palace e fica a 9km de Mandvi. Era a residência de Verão dos Reis de Kutch. É um palácio que mistura arquitectura colonial britânica com algumas influências indianas, fica no meio do nada – e mesmo ao pé do mar.
Depois de visitar o palácio – que calor! – decidi aventurar-me com a minha bicicleta nas estradas de terra batida entre o mato, sempre em direcção ao mar. E qual não foi o espanto quando cheguei a um ponto em que já não dava para pedalar na areia – estava a chegar a uma praia.
E que praia! Quilómetros e quilómetros de areia branca. Ninguém à volta. Não tenho palavras. Uma cabana abandonada, troncos de coqueiros caídos na praia, o mar a chamar o meu nome – senhores e senhoras, cheguei ao Paraíso!
E ficam aqui umas fotos para os mais invejosos.
Depois de visitar o palácio – que calor! – decidi aventurar-me com a minha bicicleta nas estradas de terra batida entre o mato, sempre em direcção ao mar. E qual não foi o espanto quando cheguei a um ponto em que já não dava para pedalar na areia – estava a chegar a uma praia.
E que praia! Quilómetros e quilómetros de areia branca. Ninguém à volta. Não tenho palavras. Uma cabana abandonada, troncos de coqueiros caídos na praia, o mar a chamar o meu nome – senhores e senhoras, cheguei ao Paraíso!
E ficam aqui umas fotos para os mais invejosos.
MAU MARIA
Começa a tornar-se regra: sempre que faço uma viagem mais complicada, espera-me um destino especialmente simpático.
Mandvi, por exemplo: uma vila de pescadores junto ao mar, com um rio meio-seco onde se constroem dezenas de barcos à maneira antiga, ruas apertadas entre edifícios de tempos perdidos, gente sorridente e praias desertas à volta – boas energias!
Mandvi, por exemplo: uma vila de pescadores junto ao mar, com um rio meio-seco onde se constroem dezenas de barcos à maneira antiga, ruas apertadas entre edifícios de tempos perdidos, gente sorridente e praias desertas à volta – boas energias!
2 de Abril de 2007
O PIOR AUTOCARRO DE LUXO DO MUNDO
“É aquele?”, pergunto inocentemente ao velhote que decidiu ser o meu “protector” enquanto espero pelo autocarro para Mandvi.
Ele ri-se com condescendência e responde-me num tom paternal:
“Não... claro que não... o teu autocarro é um autocarro de luxo. Prateado, com DVD e assentos reclináveis e air suspension. O teu autocarro é o próximo a chegar, já te aviso.”
Espero mais cinco minutos e eis que entra na estação um autocarro que talvez já tenha sido prateado, quem sabe de luxo – há muito tempo atrás.
O pior autocarro de luxo do mundo está no Gujarat e faz a viagem nocturna de Ahmedabad para Mandvi. E eu estou prestes a embarcar.
Como já disse: em tempos este foi concerteza um autocarro de luxo, com televisão e DVD, som surround, assentos reclináveis, ar condicionado, air suspension e ABS brakes. Em tempos, concerteza.
Hoje, tem cordas a segurar as costas dos bancos ao tecto, porque de tanto reclinar, os assentos reclináveis deixaram de se aguentar na posição original. O ar condicionado não funciona, nem as pequenas luzes instaladas no tecto. As poucas cortinas ainda existentes estão imundas – a condizer com os bancos. Air suspension? Duvido. E quanto ao DVD e som surround, é das poucas coisas que ainda funciona (ou não estaríamos num autocarro indiano); mas como já é de esperar, a qualidade da imagem é fraquinha e o som vai sempre no máximo.
No pior autocarro de luxo do mundo convém viajar o mais quieto possível, sem mexer em muitas coisas. O movimento, neste cantinho ambulante do Universo, implica destruição e caos. Tocar no banco à nossa frente pode significar muito mais que um simples toque – pode ser que se fique com as costas do banco na mão. Pôr a bagagem nas “prateleiras” implica ficar com as ultimas nos braços, quem sabe.
Por isso o melhor é viajar quietinho, se possivel quase sem respirar, ligar o ipod e abstrair-me de tudo o que acontece – de estranho – à minha volta.
Ele ri-se com condescendência e responde-me num tom paternal:
“Não... claro que não... o teu autocarro é um autocarro de luxo. Prateado, com DVD e assentos reclináveis e air suspension. O teu autocarro é o próximo a chegar, já te aviso.”
Espero mais cinco minutos e eis que entra na estação um autocarro que talvez já tenha sido prateado, quem sabe de luxo – há muito tempo atrás.
O pior autocarro de luxo do mundo está no Gujarat e faz a viagem nocturna de Ahmedabad para Mandvi. E eu estou prestes a embarcar.
Como já disse: em tempos este foi concerteza um autocarro de luxo, com televisão e DVD, som surround, assentos reclináveis, ar condicionado, air suspension e ABS brakes. Em tempos, concerteza.
Hoje, tem cordas a segurar as costas dos bancos ao tecto, porque de tanto reclinar, os assentos reclináveis deixaram de se aguentar na posição original. O ar condicionado não funciona, nem as pequenas luzes instaladas no tecto. As poucas cortinas ainda existentes estão imundas – a condizer com os bancos. Air suspension? Duvido. E quanto ao DVD e som surround, é das poucas coisas que ainda funciona (ou não estaríamos num autocarro indiano); mas como já é de esperar, a qualidade da imagem é fraquinha e o som vai sempre no máximo.
No pior autocarro de luxo do mundo convém viajar o mais quieto possível, sem mexer em muitas coisas. O movimento, neste cantinho ambulante do Universo, implica destruição e caos. Tocar no banco à nossa frente pode significar muito mais que um simples toque – pode ser que se fique com as costas do banco na mão. Pôr a bagagem nas “prateleiras” implica ficar com as ultimas nos braços, quem sabe.
Por isso o melhor é viajar quietinho, se possivel quase sem respirar, ligar o ipod e abstrair-me de tudo o que acontece – de estranho – à minha volta.
PASSA A OUTRO E NÃO AO MESMO
Quanto a Ahmedabad: nada de especial a acrescentar.
Cidade gira, a zona velha é muito louca, come-se bem e há muitas ruínas por causa de um terramoto há dez anos atrás.
Next!
Cidade gira, a zona velha é muito louca, come-se bem e há muitas ruínas por causa de um terramoto há dez anos atrás.
Next!
31 de Março de 2007
POIS É!
Rapidamente porque não estou com muita paciência: a viagem de comboio de Shimla para Kalka é um espectáculo; a de Kalka para Delhi é igual a tantas outras. Adorei, tirei muitas fotografias, repetia e recomendo, está dito.
Quanto a Delhi: continuo fascinado com a cidade, é uma das grandes surpresas desta terceira vinda ao subcontinente. Das outras vezes evitei sempre vir a Delhi, contentava-me com Bombaim e umas quantas cidades menores, ainda bem que desta vez tive de cá vir – a primeira vez por uma boa razão (encontrar o Hamid e a Joana), e agora porque a Joana se vai embora.
Depois de duas semanas full speed, a Janota volta para casa – e eu fico outra vez entregue a mim mesmo e aos trinta e três milhões de deuses que por aqui andam. E às vacas.
Quanto a Delhi: continuo fascinado com a cidade, é uma das grandes surpresas desta terceira vinda ao subcontinente. Das outras vezes evitei sempre vir a Delhi, contentava-me com Bombaim e umas quantas cidades menores, ainda bem que desta vez tive de cá vir – a primeira vez por uma boa razão (encontrar o Hamid e a Joana), e agora porque a Joana se vai embora.
Depois de duas semanas full speed, a Janota volta para casa – e eu fico outra vez entregue a mim mesmo e aos trinta e três milhões de deuses que por aqui andam. E às vacas.
29 de Março de 2007
DÁ QUE PENSAR
Desta vez, no hotel de Shimla.
Um poster na parede com uma paisagem paradisíaca, num canto a seguinte questão:
“If there were dreams to sell,
what would you buy?”
Um poster na parede com uma paisagem paradisíaca, num canto a seguinte questão:
“If there were dreams to sell,
what would you buy?”
28 de Março de 2007
SHIMLA À MODA DA CASA
Junte num tacho cheio de Himalaias duas colheres de sopa de Alpes Suíços, uma pitada de Escócia e uma boa mão cheia de mansões coloniais a cair de podres, e igrejas católicas pintadas de fresco.
Prepare um recheio de lojas e restaurantes indianos. Misture bem todos os ingredientes com caril e picante, deixe marinar durante alguns anos, acrescente macacos e vacas sagradas, e mesmo antes de servir prepare um acompanhamento de turistas indianos.
Primeiro estranha-se, depois entranha-se. É mais ou menos asim, o ditado, não é? Shimla é ao mesmo tempo estranha e deliciosa. Passear na rua principal de Shimla – The Mall – é como entrar noutra dimensão: fora deste tempo, num mundo muito longe do nosso.
Na principal cidade do estado de Himashal Pradesh, a antiga “Capital de Verão” nos tempos do domínio britânico, nada é “suficientemente indiano” para nos sentirmos na Índia; e no entanto nada é “suficientemente não-indiano” para nos situarmos noutra zona do globo, sejam os Alpes ou as Terras Altas da Escócia.
Prepare um recheio de lojas e restaurantes indianos. Misture bem todos os ingredientes com caril e picante, deixe marinar durante alguns anos, acrescente macacos e vacas sagradas, e mesmo antes de servir prepare um acompanhamento de turistas indianos.
Primeiro estranha-se, depois entranha-se. É mais ou menos asim, o ditado, não é? Shimla é ao mesmo tempo estranha e deliciosa. Passear na rua principal de Shimla – The Mall – é como entrar noutra dimensão: fora deste tempo, num mundo muito longe do nosso.
Na principal cidade do estado de Himashal Pradesh, a antiga “Capital de Verão” nos tempos do domínio britânico, nada é “suficientemente indiano” para nos sentirmos na Índia; e no entanto nada é “suficientemente não-indiano” para nos situarmos noutra zona do globo, sejam os Alpes ou as Terras Altas da Escócia.
POESIA NA ESTRADA
Os senhores da Junta Autónoma das Estradas cá do sítio são uns verdadeiros poetas.
Não é de agora, até tenho guardado alguns exemplos para mais tarde recordar, mas hoje deixo aqui um dos avisos que estava na estrada de Dhramsala para Shimla:
DON’T DIE LIKE FOOLS
OBBEY THE TRAFFIC RULES
27 de Março de 2007
DESPORTOS RADICAIS NOS HIMALAIAS
Se és jovem, tens espírito aventureiro e gostas de emoções fortes, experimenta fazer o caminho que desce de McLeod Ganj para Dhramsala num riquexó, a travar só com o motor! Radicaaal!
E se aguentaste sem borrar as calças nem ter um ataque cardíaco, enfia-te logo a seguir num autocarro, durante sete horas, e atravessa os Himalaias até Shimla.
É do best, chaval! Paisagem fixe, precipícios a dar com um pau, razias brutais a camiões e muitas travagens de fazer um gajo tremer. Com sorte a menina ao teu lado enjoa e tens de a levar ao colo enquanto ela vomita pela janela... mas só por meia hora, porque depois a mãe lembra-se que também não gosta de montanhas e toca a trocar de lugar antes que vomite para cima de ti.
Chegas a Shimla e o Mundo é um lugar diferente, acredita.
E se aguentaste sem borrar as calças nem ter um ataque cardíaco, enfia-te logo a seguir num autocarro, durante sete horas, e atravessa os Himalaias até Shimla.
É do best, chaval! Paisagem fixe, precipícios a dar com um pau, razias brutais a camiões e muitas travagens de fazer um gajo tremer. Com sorte a menina ao teu lado enjoa e tens de a levar ao colo enquanto ela vomita pela janela... mas só por meia hora, porque depois a mãe lembra-se que também não gosta de montanhas e toca a trocar de lugar antes que vomite para cima de ti.
Chegas a Shimla e o Mundo é um lugar diferente, acredita.
26 de Março de 2007
SHIVA CAFE
Ontem de manhã fomos dar um passeio, o Hamid tinha-nos recomendado umas cascatas e uns cafés lá ao pé. Só o caminho foi um espectáculo, fizemos uma espécie de trekking pela montanha e no fim uma escalada que ia dar à parte de cima da cascata... onde havia um café... meus amigos... não digo mais nada.
25 de Março de 2007
O MERECIDO DESCANSO
Depois da tempestade, a bonança.
O ritmo de viagem finalmente acalmou. A correria pelo Rajastão e Punjab deixaram-nos de rastos, Dhramsala era mesmo o que estávamos a precisar.
Dhramsala está dividida em duas secções, com 500m de diferença entre as duas – o resultado de um terramoto em 1905, que matou cerca de 900 pessoas e destruiu TODOS os edifícios da cidade. Os britânicos, então no poder, mandaram construir Dhramsala-de-Baixo (traduzido é o que dá!), que é onde estão todos os edifícios administrativos – enfim, a parte com menos piada.
Dhramsala-de-Cima, ou como é conhecida por todos, McLeod Ganj, é o lugar onde os tibetanos se instalaram depois da ocupação do Tibete pela China, em 1959. A Índia deu asilo ao Dalai Lama, e assim o budismo regressou à sua origem.
McLeod Ganj é um dos lugares mais mágicos da Índia, um bocadinho do Tibete aqui misturado com as vacas sagradas e outros indianismos. É um espectáculo, transpira energia positiva, tem os Himalaias mesmo ali ao lado, neve no topo das montanhas, rios a correr, ar puro... sabe bem, sabe muito bem depois de toda a correria.
O ritmo de viagem finalmente acalmou. A correria pelo Rajastão e Punjab deixaram-nos de rastos, Dhramsala era mesmo o que estávamos a precisar.
Dhramsala está dividida em duas secções, com 500m de diferença entre as duas – o resultado de um terramoto em 1905, que matou cerca de 900 pessoas e destruiu TODOS os edifícios da cidade. Os britânicos, então no poder, mandaram construir Dhramsala-de-Baixo (traduzido é o que dá!), que é onde estão todos os edifícios administrativos – enfim, a parte com menos piada.
Dhramsala-de-Cima, ou como é conhecida por todos, McLeod Ganj, é o lugar onde os tibetanos se instalaram depois da ocupação do Tibete pela China, em 1959. A Índia deu asilo ao Dalai Lama, e assim o budismo regressou à sua origem.
McLeod Ganj é um dos lugares mais mágicos da Índia, um bocadinho do Tibete aqui misturado com as vacas sagradas e outros indianismos. É um espectáculo, transpira energia positiva, tem os Himalaias mesmo ali ao lado, neve no topo das montanhas, rios a correr, ar puro... sabe bem, sabe muito bem depois de toda a correria.
24 de Março de 2007
CRICKET NEWS
A Índia voltou a perder, está praticamente eliminada do Mundial. Ainda há uma hipótese, muito remota... matemáticas!, nós portugueses conhecemos bem o esquema.
Quanto a outros dramas, confirmam-se os piores prognósticos: o Bob Woolmer (seleccionador do Paquistão) foi mesmo assassinado. Há várias teorias, ainda está tudo em aberto, não acredito que tenha sido alguém da selecção. Estou mais inclinado para alguém envolvido nas apostas ilegais.
More news coming soon...
Quanto a outros dramas, confirmam-se os piores prognósticos: o Bob Woolmer (seleccionador do Paquistão) foi mesmo assassinado. Há várias teorias, ainda está tudo em aberto, não acredito que tenha sido alguém da selecção. Estou mais inclinado para alguém envolvido nas apostas ilegais.
More news coming soon...
GOLDEN AMRITSAR!
A passagem por Amritsar foi rápida, o suficiente para nos deslumbrarmos com o Templo Dourado, mais um “daqueles” lugares.
Não conseguimos ir ao Paquistão, porque é preciso um visto que demora muito tempo, custa muito dinheiro, e só se consegue em Delhi. Fica para a próxima!, por isso amanhã de manhã apanhamos um autocarro e lá para meio da tarde chegamos a Dhramsala.
O Hamid não faz ideia que vamos ter com ele.
Não conseguimos ir ao Paquistão, porque é preciso um visto que demora muito tempo, custa muito dinheiro, e só se consegue em Delhi. Fica para a próxima!, por isso amanhã de manhã apanhamos um autocarro e lá para meio da tarde chegamos a Dhramsala.
O Hamid não faz ideia que vamos ter com ele.
23 de Março de 2007
ALGUMAS EXCEPÇÕES À REGRA
Só na viagem para Amritsar é que ficámos a dormir no comboio – mas era uma viagem longa. De resto foi quase sempre o mesmo esquema, o tal das Horas Parvas, mas com algumas variantes, como por exemplo:
1. Ir para Fathepur Sikri num autocarro a abarrotar, sentado de costas para o condutor, com uma coluna a debitar decibeis, aos berros, de música indiana. A brincadeira só acalmou quando um velhote teve pena de mim e pediu ao condutor para baixar o volume.
2. Apanhar um riquexó (dos antigos, a pedais) para a estação de comboios de Agra, e ter de sair para ajudar o rapaz a empurrar o veículo, uma vez que Eu+Joana+Bagagens éramos um bocadinho para o pesados... Mas foi ele que insistiu!, nós dissemos sempre que era peso a mais, o miúdo era maluco – porreiro, mas maluco. E ao chegarmos à estação, começou a trovejar, relâmpagos ao longe... e chuva!
3. Viajar no comboio para Jaipur com uma família muito simpática, de uma casta cujo nome não me lembro mas que tem a ver com guerreiros, quase todos os homens da família estavam no Exército. A mãe fez logo amizade com a Joana, o filho de dez anos estava vidrado em mim, sempre a perguntar-me coisas (depois de pedir autorização aos pais, claro) e imitava todos os meus gestos. Spooooky...
1. Ir para Fathepur Sikri num autocarro a abarrotar, sentado de costas para o condutor, com uma coluna a debitar decibeis, aos berros, de música indiana. A brincadeira só acalmou quando um velhote teve pena de mim e pediu ao condutor para baixar o volume.
2. Apanhar um riquexó (dos antigos, a pedais) para a estação de comboios de Agra, e ter de sair para ajudar o rapaz a empurrar o veículo, uma vez que Eu+Joana+Bagagens éramos um bocadinho para o pesados... Mas foi ele que insistiu!, nós dissemos sempre que era peso a mais, o miúdo era maluco – porreiro, mas maluco. E ao chegarmos à estação, começou a trovejar, relâmpagos ao longe... e chuva!
3. Viajar no comboio para Jaipur com uma família muito simpática, de uma casta cujo nome não me lembro mas que tem a ver com guerreiros, quase todos os homens da família estavam no Exército. A mãe fez logo amizade com a Joana, o filho de dez anos estava vidrado em mim, sempre a perguntar-me coisas (depois de pedir autorização aos pais, claro) e imitava todos os meus gestos. Spooooky...
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