sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

POR FALAR EM ARTISTAS

Quem anda a pé pelo Porto já deve ter reparado que a cidade está mais Hazul.

E se escrevo com "H" não é gralha nem erro ortográfico. Não estou a falar da cor azul, nem do Fê-quê-pê - mas de um artista que assina com este nome. Pelo Porto fora, em prédios devolutos e paredes várias, lá aparecem uma espécie de Nossas Senhoras estilizadas, várias formas geométricas, animais e/ou referências a animais - muita criatividade.

Jorge gosta disto.

Procuro na net e descubro uma "guerra" com Rui Rio, perfis em redes sociais, guias da cidade que incluem as suas obras, instruções para descobrir-lo pela cidade.

Vou estar ainda mais atento, a partir de agora.

E por enquanto fica um primeiro olhar:






UM PASSATEMPO ORIGINAL

Sentado durante três horas no Alfa Pendular sem nada para fazer além de olhar pela janela ou cuscar no facebook? Enfiado num comboio da Linha de Sintra todos os dias, ida-e-volta, phones nos ouvidos com música para distrair?

O designer October Jones encontrou uma forma muito original de passar o tempo nas suas viagens diárias de comboio para o trabalho. E eu, que há dois dias vinha do Porto para Lisboa a fazer copy-pastes de posts antigos do blog para um projecto que ando a preparar, a certa altura distraí-me e dei por mim a navegar um pouco mais adiante... e descobri estas pérolas.

Ser original/criativo não escolhe momentos:












ONDE É QUE EU IA/VOU?

Onde é que eu ia?

Eu ia nas voltas do Cambodja, depois comecei a misturar fotos dos passeios em Sintra e Lisboa, meteu-se o assalto no Porto e o momento nostálgico de hoje, na Índia.

Que geográfica salganhada que aqui vai.

Onde é que eu vou?

Eu vou só ali consultar a almofada num instante, a ver se ponho em ordem ideias e o meu mapa de memórias e experiências. Amanhã de manhã conversamos.

Boa noite!

quinta-feira, 31 de Julho de 2014

MOMENTOS INTENSOS NA TERRA DO KAMASUTRA

Este assalto e perseguições no Porto - esta não foi a primeira vez que vivi emoções fortes, com polícia e ladrões ao barulho, com o Inácio e a Leninha.

Recuemos um bocadinho no tempo e no espaço:

Índia, Março de 2011

Ainda tinha no sorriso e no corpo as coloridas memórias do Holi, o Festival das Cores, que festejara com mais alguns estrangeiros e milhares de indianos nas ruas de Mathura, o lugar onde nasceu o Lord Krishna.

Viajei com uma holandesa para Agra, era a minha terceira vez na cidade do Taj Mahal por isso nem me dei ao trabalho de ficar (mais uma vez) boquiaberto perante aquele assombro de monumento. Fiquei um dia inteiro no hotel a ressacar a festa. E depois fomos para Khajuraho, a terra do Kamasutra, ou pelo menos assim gostam de nos convencer os indianos.

Tinha feito uns contactos no couchsurfing, depois de uma primeira experiência espectacular em Amritsar - e quando chegámos a Khajuraho, esperava-me um rapaz muito magro e um bocado eléctrico, sempre a rir e muito conversador, um bocado habituado demais a estrangeiros para o meu gosto. Acabei por ficar numa guesthouse, mas fiz algumas refeições com a família, deixei que o miúdo nos acompanhasse nos templos, e foi engraçado rever todas aquelas esculturas em posições de forte teor sexual - as tais posições que dizem ter inspirado o Kamasutra.

Até que chegou a Chamuça.

A Chamuça é uma mota com sidecar. Provavelmente já ouviram falar dela: é a mota em que o Inácio e a Leninha viajaram pela Índia durante já-nem-me-lembro-quantos meses.

Tínhamos combinado um encontro para pôr a conversa em dia - e ao meu segundo dia em Khajuraho chegou a Chamuça, o Inácio, a Leninha e a Kashi: sentámo-nos num terraço de um restaurante ao final da manhã... e só nos levantámos ao início da noite. Pequeno-almoço, almoço e jantar - três refeições à mesma mesa, horas a fio a trocar histórias e a partilhar emoções, que dia inesquecível. E depois do jantar: casa que se faz tarde. Estávamos todos no mesma guesthouse, fomos a pé pela estrada, incluindo o tal miúdo que me recebera pelo couchsurfing, que depois seguiria para casa dele.

Mas pouco depois de chegarmos à nossa guesthouse, estávamos a fumar um cigarro no alpendre virado para a estrada, quando de repente apareceu uma mota em alta velocidade, fez uma travagem brusca e veio estacionar mesmo à nossa frente. Os dois ocupantes, condutor e pendura, estavam visivelmente alcoolizados.

E agora, para contextualizar um bocadinho o drama que se vai desenrolar, penso que é importante dar conta de um pormenor relevante: eu já tinha estado em Khajuraho, dez anos antes, quando viajara pela primeira vez na Índia. Tínhamos conhecido um grupo de indianos que nos tentou vender nem-me-lembro-o-quê, mostraram-nos um orfanato que o irmão de um deles tinha, jantaram connosco uma vez. Cheguei a manter contacto com um deles, durante pouco mais de um ano, mas acabámos por nunca mais falar, e quando voltei a contactá-lo antes deste meu regresso a Khajuraho, tinha-se casado com uma espanhola e vivia em Bilbao. Assunto arrumado.

O rapaz do meio é o Charli, que agora vive em Bilbao. O dos óculos escuros é o mauzão da história que conto hoje. A foto tem uns doze ou treze anos.

No meu primeiro dia deste regresso a Khajuraho, ia a passar junto a umas lojas de souvenirs e pareceu-me reconhecer um dos tais "amigos" de há dez anos. Abordei-o e obviamente que ele não fazia ideia de quem eu era, mas eu lembrava-me da cara dele por causa das fotografias da viagem. Enfim: a conversa durou cinco minutos, não levou a conclusão alguma, acabei por voltar ao meu passeio.

Voltemos ao alpendre da guesthouse, à mota que aparece do nada e vem parar mesmo à nossa frente. O pendura que salta para junto de mim é o Pintu, o tal que eu abordei na rua e que não me reconheceu, um dos indianos de há dez anos. Está completamente bêbado, começa a falar numa mistura de hindi e inglês, a rir mas com qualquer coisa de provocador na postura. O amigo dele mete-se com a Kashi, que começa a ladrar. O miúdo magricelas que nos acompanhou pelos templos está com ar assustado. Eu tento dizer algo simpático e apaziguador, porque parece-me realmente haver algo de provocador no discurso do outro. E eis que entre outras palavras em hindi, dirige-se para mim e chama-me benshod.

Do pouco que sei de hindi, uma das palavras é benshod.

Não a vou traduzir aqui, mas acreditem quando vos digo. Não é uma palavra simpática.

Ao que lhe respondi qualquer coisa do género "what benshod, please watch your language" e a partir daqui não sei muito bem como é que as coisas se desenrolaram, foi uma confusão de gritos e empurrões, a Kashi a ladrar e o outro a tentar fazer-lhe sei lá o quê, a Leninha a gritar-lhe em português, o Inácio a tentar acalmar os ânimos, o Pintu a querer bater no miúdo, a dizer que ele lhe tinha roubado o turista dele - eu.

Tentei chamar-lo à razão: lembrei-o que ele nem sabia quem eu era, quando o abordei na rua; que tinham passados dez anos e não havia qualquer tipo de contrato ou obrigação; e que além disso, eu é que tinha entrado em contacto com o outro pelo couchsurfing... mas não havia volta a dar, nem razão nem lógica que o convencessem. Os olhos brilhavam de uma raiva que não encaixava com a situação, o bafo tresandava a whisky barato. A certa altura tentou bater no miúdo, eu tenteu agarrar nele, não-sei-quem disse que ia chamar a polícia, depois o miúdo fugiu e o mauzão libertou-se e foi atrás, apanhou-o na estrada e começou aos pontapés e socos, eu e o Inácio a tentar acabar com aquela anormalidade, a Kashi a ladrar... e de repente sirenes e desaparecem os mauzões e a mota, nós vamos para o hotel a pedido do dono, o miúdo esconde-se connosco e a coisa fica por ali.

Mas na manhã seguinte repetiu-se a dose, apareceu o miúdo e pouco depois o mauzão, e depois o tio do miúdo e os amigos do mauzão, e a certa altura havia cadeiras a voar na estrada, sangue a salpicar o chão, gritaria e insultos e nós a ver, porque agora alguém nos explicara que aquela era uma guerra antiga, qualquer coisa de terrenos e castas, e que nós tínhamos sido só o último pretexto.

Acabou tudo na esquadra, fizemos questão de apresentar queixa mas no final a polícia não aceitou os nossos depoimentos, por muito que insistissemos - tanto drama para nada. Fomos parar à mesma esplanada do dia anterior, agora a tentar perceber o que se tinha passado, também a rir do caricato da situação

E três anos e meio depois: esta noite louca no Porto.

A Leninha acha que temos uma energia qualquer que atrai peripécias destas. Não me parece que seja tanto assim. Mas estou curioso para ver o que vai acontecer daqui a outros três anos e meio. ;)

Olha nós e a Chamuça! :)

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

ALFA PENDULARANDO

Lá vou eu outra vez, agora para baixo, depois de quarenta e oito intensas horas no Porto.

O Alfa desce no mapa como um fecho-eclair, Portugal dos dois lados dos carris, Lisboa à minha espera.

Quero partilhar uma história que aconteceu há uns anos, na Índia, com a Leninha e o Inácio. Outros momentos de intensidade como os de há duas noites atrás, com heróis e maus-da-fita, gritaria e tinónis, um filme de acção e drama à Bollywood style, só faltou as cantorias pelo meio. Houve até sangue.

Mas confesso que estou com poucas energias, hoje. Deve ser do embalo dos carris. Já dormi um bocadinho. Já escrevi um bocadinho. Já fiquei só a olhar pela janela, ora perdido em pensamentos e ideias, ora atento à conversa das pessoas sentadas atrás de mim.

Amanhã - prometo! - partilho então essa aventura em Khajuraho, o lugar que teoricamente inspirou o Kamasutra, ou que se inspirou no Kamasutra, nem eles sabem muito bem.

E agora pouca-terra, pouca-terra, não tarda passaram três horas e trezentos quilómetros - e cheguei a Lisboa.

ALTO E PÁRA O BAILE!

Estava a meio de um post a relembrar outras peripécias vividas com o Inácio e a Leninha na Índia, quando a barriga começou a "dar horas", no relógio passava da uma da tarde, uma mensagem dizia-me "já cheguei". Pára tudo, vamos almoçar.

E porquê um post sobre a interrupção de um post por causa de um almoço?

Porque depois de mais um belo repasto fomos à Padaria Ribeiro, onde eu tomo o pequeno almoço todos os dias, quando estou no Porto, e deram-me a provar uma daquelas coisas que apetece dizer "mas só agora?".

Venho ao Porto há não-sei-quantos anos... e só agora?

Enfim: mais vale tarde que nunca, lá diz o ditado. E a boas horas provei a fresquíssima e deliciosa Tarte de Maracujá da Padaria Ribeiro. :)

Retomamos com as aventuras e as voltas já de seguida.

BOM DIA, PORTO!

Hoje já não é ontem, muito menos anteontem. Hoje é hoje. É um novo dia. É um novo começo. É o dia antes de amanhã.

Bom dia, Porto!

Bom dia, com todas as cores e a Torre dos Clérigos a rasgar o azul do céu. Bom dia, ao som do "sole mio" tocado a trompete pelo rapaz que pede esmola à frente da Lello. Bom dia, olha as cuecas estendidas à janela, numa casa do Passeio das Virtudes.


METE-NOJO :(

Mais do que o ladrão, mete-nojo a atitude assumida pelo senhor do café Gabero, em todo este filme.

Porque o ladrão fez o que faz o ladrão: rouba, resiste, foge. Não foi detido, é pena. Mas mais cedo ou mais tarde, assim espero.

Porque a polícia fez o que faz a polícia: veio ao nosso auxílio, procurou pelo criminoso, questionou um suspeito, tentou desatar o nó, tentou que o filme acabasse bem. Felizes para sempre?

Todos cumpriram os seus papéis. Todos? Todos-não. Todos menos o senhor do café. Enquanto cidadão, enquanto pai de família que deve ser, irmão, vizinho, amigo. Enquanto homem. Este senhor falhou redondamente. E chamá-lo de "senhor" é um insulto aos verdadeiros. Este animal.

Eu até consigo "encaixar" a ideia de que passa e desvia o olhar, de quem finge que não viu, finge que não ouviu, não-tenho-nada-a-ver-com-isso. Mas assim: cara-a-cara, olhos-nos-olhos, nós a pedir ajuda e ele a dizer que não, nós a suplicar por uma mão - nem tanto!, por um simples telefonema! - e ele a negar, a insultar-nos, a ameaçar.

A não ser que estivesse envolvido no esquema - e ainda não pus de parte essa hipótese, confesso -, não consigo entender a atitude deste animal. Custa-me acreditar que valores tão básicos quanto a fraternidade e a solidariedade sejam tão descaradamente substituídos pelo mais cruel egoísmo e soberba. Que triste.

terça-feira, 29 de Julho de 2014

AGARRA QUE É LADRÃO! (parte 3)

"Já o apanhámos!", disse a voz no rádio.

Lá avançámos Porto-fora, agora com o Marquês na mira. Mas não puseram as luzes azuis-e-vermelhas a funcionar. Eu queria era as luzes. E enquanto na minha cabeça tocava what u gonna do, when they come for you, bad boys bad boys... eu queria era as luzes.

Curiosamente, no meio de todas estas emoções todas: nem uma foto.

Não nos lembrámos de tirar uma fotografia ao marroquino, enquanto o tínhamos sob controlo. Realmente, que amadorismo. Ainda pensei em tirar uma selfie a entrar no carro da polícia, mas achei que à minha mãe ia dar-lhe um chilique, quando visse a foto. Deixei para daqui-a-bocado. Mas o daqui-a-bocado nunca mais apareceu.

Chegámos ao Marquês e deparámos com mais um carro da polícia, outros agentes, o grupo à paisana que estava com o Tiago - e alguns mirones do outro lado da rua. Sentado no banco de uma paragem de autocarro, rodeado pelo aparato referido: o Hassan.

"Mas este gajo não é o assaltante! Este é o cúmplice, ou o suspeito-de-cúmplice."

Inocente até prova em contrário.

E assim foi. A polícia teve uma postura muito sóbria com o suspeito. Interrogou-o acerca do assaltante, insistiu em algumas contradições, explicou-lhe que não ia ser detido nem era propriamente suspeito, mas que precisavam de o identificar e de ter uma declaração dele. O marroquino quase que chorava, ainda por cima é o fim do Ramadão, a minha mulher está à minha espera.

E se ele estava mesmo no lugar errado à hora errada: coitado.

Enfim: as emoções fortes estavam finalmente na recta final. Voltámos a descrever o suspeito, a explicar os acontecimentos, a enumerar tudo o que tinha sido perdido, tudo o que tinha sido recuperado. Os polícias à paisana deram-nos boleia até ao lugar do crime, mas pedimos para sair antes do carro e refizemos todo o trajecto inicial, abrindo caixotes do lixo e espreitando para debaixo dos carros e para os recantos mais escuros, na esperança de encontrar alguma coisa:

"Provavelmente ele atirou a mala fora, ficou apenas com as coisas de valor...", mas não encontrámos nada.

Ao pé do Santiago, onde tudo começara, encontrámos a Leninha e a Ângela. E a Alice, na barriga da Leninha. Tínhamos mantido contacto ao longo de todas estas motivações, mas isso não impediu que voltássemos a descrever cada passo, uma e mais uma vez, e mais outra. Sentámo-nos a beber uma cerveja junto à Tendinha dos Poveiros, a curar a adrenalina, a ressacar as emoções.

Que noite esta!

AGARRA QUE É LADRÃO! (parte 2)

"O gajo tem qualquer coisa no bolso!"

Afastei-me imediatamente e o marroquino libertou-se de nós dois. Desatou a correr pela rua abaixo, já não o conseguimos apanhar. Vamos atrás dele? Vamos atrás do Inácio? A polícia, onde está a polícia? Na altura, a quente, era difícil avaliar, reagir, resolver. Tantas coisas nos passaram pela cabeça, mas numa primeira instância foi a fraternidade quem se fez valer. A solidariedade entre irmãos, uma espécie de espírito de matilha:

"O Inácio? Ele foi sozinho ter com o outro matulão... vamos atrás dele!"

O ladrão desaparecera de vista, entretanto. Saímos da direcção contrária e fomos encontrar, pouco mais à frente, o Inácio a discutir com o outro marroquino. Chamava-se Hassan, soubemos depois. O Hassan insistia que não tinha nada a ver com aquilo, que estava no café, ou a ir para o café, ou a voltar do café, já nem sei bem, e que fora abordado pelo outro.

"Eu sou casado com uma portuguesa, eu não quero problemas", eu-isto-e-aquilo, tinha ar de ser inocente, de estar no lugar errado à hora errada, mas que era suspeito: era. O Inácio pedia-lhe apenas que nos ajudasse, que viesse falar com a polícia para ver se identificávamos o outro. Tudo na boa, sem acusações - mas o outro recusava-se, jogava à defesa, estava visivelmente assustado, começou a tirar a carteira e o telefone e tudo o que tinha nos bolsos, a pô-los nas mãos do Inácio, "eu sou inocente, eu só queria sair dali porque não tinha nada a ver".

Que confusão.

E no meio disto tudo eu comecei a afastar-me, porque continuava convencido que o dono do café estava envolvido no esquema e não queria deixar de ter a montra e a porta ao alcance do olhar. Mas de repente um carro parou ao meu lado! Era o mesmo carro que estava parado no jardim desde o início, agora com dois homens lá dentro, com ar rufião, aqui no Porto chamam-lhe "gunas", penso que é assim.

"Agora vou ser eu assaltado", pensei.

Nada disso.

"Olha, o gajo que vos assaltou já está ali a rondar o café outra vez."

E arrancaram.

Largámos o suspeito-de-cúmplice e largámos a correr para junto do café. As portas estavam fechadas, as luzes apagadas, mas lá dentro o dono espreitava na nossa direcção. Ficámos arados do outro lado da rua, ele a olhar para nós, nós a olhar para ele, a polícia deve estar quase a chegar.

E assim foi.

Pouco depois estava um carro da polícia a estacionar junto a nós. O Tiago e o Inácio explicaram a situação, enquanto eu mantinha a porta debaixo de olho. Depois fiquei com o Tiago a meia-distância, para não atrapalharmos a acção dos agentes, e estes dirigiram-se com o Inácio até à porta do Gabero - nunca me esquecerei deste nome. Pediram ao dono que a abrisse. E não sei o que ele respondeu, mas foi preciso eles insistirem várias vezes, com um ar indignado que já roçava a ameaça, "mas você está a dizer que se recusa a abrir a porta à polícia?!".

A porta abriu-se.

Trocaram-se versões e acusações, o senhor ao ataque e só a custo deixou que lhe revistassem o café. Não estava mais ninguém lá dentro. E por muito que a própria polícia o acusasse de ter sido um mau cidadão e de não ter qualquer espírito de civismo e solidariedade, o facto é que ele não cedia. O Inácio, que já frequentara o café com amigos, lá tentava reavivar a memória ao senhor, "o senhor conhece-me, ainda por cima", mas muito sinceramente acho que a questão aqui nem era o conhecer ou não conhecer. A mim custa-me conceber que - a não ser que estivesse envolvido com o ladrão -, o homem tenha reagido daquela forma. Não só recusou ajudar-nos, apesar das súplicas e de o confrontarmos com as consequências dessa recusa, como nos atacou verbalmente e ameaçou chamar a polícia... para nos prender a nós!

Enfim, continuando: o senhor levou com uma reprimenda muito bem argumentada pelos agentes, e visto que não havia muito mais a fazer, saímos dali. Tínhamos recuperado as duas carteiras e o telefone - menos mal. Faltava a mala propriamente dita, as chaves de casa, as chaves do carro, remédios e papelada menor. E faltava apanhar o ladrão.

Entretanto tinha aparecido mais uma viatura à paisana, com dois agentes vestidos à civil. E sem que sugeríssemos fosse-o-que-fosse, demos por nós a entrar nos carros para ir fazer umas rondas e tentar identificar o marroquino. Eu e o Inácio no carro da polícia, o Tiago com o outro à paisana.

Separámo-nos.

Durante a viagem descrevemos o homem fisicamente. Feições, altura, como estava vestido. Os agentes transmitiram a informação por rádio. Nesta altura começávamos a pôr algumas ideias em ordem. Os agentes disseram-nos que "deviam ter tirado o indivíduo cá para fora, metiam-lhe uns socos de maneira a deixá-lo no chão que a gente depois tratava do assunto". Mas na altura não nos passou isso pela cabeça. Só queríamos segurar nele até à polícia chegar. A polícia resolve, é o que estamos sempre a ouvir. Não faças justiça com as tuas mãos.

E depois apercebemo-nos de outro pormenor, no mínimo, caricato:

No meio do stress todo de agarrar o ladrão, tirar-lhe o iphone do Inácio, a carteira da Leninha, etc e tudo o mais... tínhamos agarrado na carteira dele, e no telefone dele... e devolvemos-lhe!

Rimos com a situação, que estupidez, fomos uns meninos, os polícias a dar dicas... e de repente uma voz no rádio diz "já o apanhámos!"

O quê?!

"Já o apanhámos. Venham ter connosco ao Marquês."

A terceira e última parte desta odisseia vem já a seguir, tenho de descansar os dedos de tanto teclar ;)

AGARRA QUE É LADRÃO!

O Inácio costuma dizer que correr não é natural, que não gosta de o fazer por desporto, que só corre se for para perseguir alguém - ou se for para fugir.

Ontem foi dia de perseguir. E com uma francesinha "no bucho".

Ontem à noite viu-se bem quem é que faz as mini-maratonas, os corta-matos, as corridas - e quem é que corre só por necessidade. O Tiago: lançado Porto afora, a gritar "Rua da Alegria, o gajo está na Rua da Alegria!". O Inácio: uns passos atrás, motivado pela possível recuperação dos seus valores, a adrenalina ao máximo, alguma raiva. E eu: mais alguns passos atrás, já com dores no pé e na perna e no ego, a não querer perdê-los de vista porque além de não fazer ideia onde estava, também não tinha bateria no telefone e não apetecia muito perder-me e complicar uma situação já de si complicada.

Corri, portanto.

Quando eles abrandavam para ganhar fôlego eu mantinha o passo apressado, para recuperar a distância perdida. Se aceleravam, eu tentava acompanhar. Pelo meio o Tiago tentava ligar para o 112 - mas ninguém atendia. E ao chegarmos à Rua da Alegria dividimo-nos, cada um pelo seu lado numa espécie de táctica de guerra inspirada nas batalhas antigas de há quase mil anos.

Chegámos ao lugar onde o "find my phone" dizia que o telefone estava.

Juntámo-nos os três tipo baratas tontas, a olhar à volta, a olhar para o mapa do telefone do Tiago, a correr daqui-para-ali a ver se havia alguém suspeito, alguma coisa largada no jardim. Nada. Um carro parado com um homem lá dentro, sozinho, a janela aberta e a fumar um cigarro - suspeito. Outro homem à porta de um café, a olhar com ar desinteressado - suspeito. Uma pessoa a passar mais em baixo - suspeito. Mas tudo ali era suspeito. O silêncio preenchido pelas batidas dos nossos corações, boom-boom, boom-boom, respira fundo, olha à volta, onde estará o telefone, a carteira, o ladrão.

"Põe o telefone a tocar", lembrou o Inácio.

E assim que o Tiago activou o "alarme", lançámo-nos na direcção de onde vinha o som. O telefone estava ali perto! Ali, na direcção do café Gabero! Ali, aquele gajo encostado à porta! Agarra-o, não o deixes fugir, apanhámo-lo, o cabrão, onde é que está o telefone, onde é que está a carteira, eu não tenho nada a ver com isso, eu não sei do que estão a falar, onde é que está o telefone, seu filho da puta, e o alarme a tocar, junto a nós, junto às nossas mãos, ali mesmo, filho da puta, filho da puta, tira-lhe o telefone do bolso, e de repente estão as nossas mãos nos bolsos dele, os bolsos dele nas nossas mãos...

"Esta carteira! Esta carteira é da Leninha!"

O homem tremia por todo o lado e fingia que não era nada com ele, mas tentava resistir aos nossos avanços e fugir. Estava encurralado entre os nossos insultos e as nossas mãos e a nossa raiva e a porta do café. Lá dentro, o dono do estabelecimento começou aos gritos a dizer para sairmos dali. Pedimos-lhe que chamasse a polícia - ele recusou!

"Está aqui o meu telefone!", grita o Inácio.

"Eu não sei que telefone é esse", defende-se o ladrão, como se por magia tudo aquilo lhe tivesse ido parar aos bolsos. Não me lembro como, acho que vinha um cliente a entrar, qualquer coisa do género - mas conseguimos forçar a nossa entrada no café. O dono do café recusava-se a ligar à polícia, nós aos gritos a explicar que o outro era um ladrão e que tinha as nossas coisas com ele, o outro a tentar fugir, nós a segura-lo, por várias vezes a situação quase descambou para o pugilato - se calhar até tinha sido melhor assim. Mas não foi.

Segurámos no ladrão enquanto este se debatia, ninguém atendia do 112 e o dono do café começou a ameaçar que ia telefonar à polícia, mas a queixar-se de nós. Eu estava, a esta altura, convencido que este senhor também estava envolvido no assalto. A atitude dele foi, no mínimo, nojenta. Para os leitores do blog que sejam do Porto, guardem este nome e risquem-no das vossas voltas: Café Gabero. Por muito que suplicássemos por ajuda, por muito que explicássemos o sucedido, por mais que tentássemos chamar o senhor à razão: não só recusou ajuda, como nos atacou verbalmente e ameaçou.

No meio desta confusão, o 112 atendeu. O Tiago passou-me o telefone e tentei explicar o que se estava a passar. Perguntaram-me a morada e disse "Rua da Alegria", perguntaram-me o número da porta e eu dei o número da porta e o nome do café.

"E a Freguesia, qual é a Freguesia?"

"Eu sei lá a Freguesia, senhor, isto é na Rua da Alegria, número não-sei-que, é o Café Gabero mesmo ao pé do jardim!"

O Tiago e o Inácio aos gritos com o outro a debater-se, onde é que estão as outras coisas, onde é que estão as outras coisas, o dono do cafe aos gritos a mandar-nos sair, eu não tenho nada a ver com isto, o 112 a insistir com a freguesia:

"Tiago, qual é a freguesia?"

"Eu sei lá da freguesia, carago, a polícia que se despache!"

E do outro lado uma voz calma pediu-me para aguardar porque iam enviar alguém. E desligaram. Entretanto o Inácio saiu lançado, atrás de outro homem que tinha saído do café no meio da confusão e que, como o ladrão, era marroquino. Suspeito.

Suspeito: não o facto de ser marroquino. Mas se o ladrão era marroquino, a presença de outro cheirava a esturro.

Como estava a dizer, o Inácio foi atrás do outro. Eu e o Tiago continuávamos a debater-nos com o ladrão, que no meio destas entradas e saídas tinha conseguido vir para a porta do café Gabero. O dono trancou-se lá dentro e continuou a recusar-se a ajudar, por muito que suplicássemos, por muito que explicássemos que a polícia vinha a caminho e que precisávamos que nos ajudasse para o ladrão não fugir. Atacou-nos o tempo todo, como se tivéssemos sido nós a causar a situação, como se os maus da fita fôssemos nós. Como se tivesse algo a esconder. Quem sabe: a carteira da Leninha com as coisas que faltavam.

E eis que no meio daquela confusão, nós ainda a segurar no marroquino quando de repente este vai com a mão ao bolso.

"Cuidado, Jorge!", gritou o Tiago enquanto saltava para trás, "o gajo tem qualquer coisa no bolso!"

Já continuo...

UMA FRANCESINHA

Tudo começou com uma Francesinha que nem era para ter acontecido.

O plano original era jantar num restaurante caboverdiano de uns amigos do Inácio e da Leninha - mas quando lá chegámos estava fechado, por isso subimos na direcção da Batalha e fomos comer uma Francesinha ao Santiago.

Eu tinha acabado de chegar ao Porto - vou ficar aqui uns dias em modo Conspiração, a preparar o ano que vem - e vir ao Porto sem comer Francesinha é como aquela de Roma e do Papa. Tem de ser. Ou seja: à falta de caboverdiano, vai uma francesa.

Sentámo-nos os cinco, quase-seis, à mesa:

eu,
o Tiago (meu boss e líder de viagens da Nomad),
a Angela (designer residente e cúmplice de viagens),
o Inácio e a Leninha (mentores dos projecto Dar a Volta)
e a Alice (ainda na barriga da Leninha, mas não por muito mais tempo).

A Francesinha foi só um acompanhamento, ou um pretexto, ou uma desculpa - porque na verdade o prato principal foram mesmo as viagens. As histórias antigas, as peripécias partilhadas, as últimas novidades... e quem diria que, com um tema tão doce em cima da mesa, a sobremesa ia ser tão amarga.

Estávamos sentados na esplanada, os pratos já vazios e as barrigas cheias, quando a meio de uma discussão qualquer sobre sabe-se lá o quê ou onde...

"Onde é que está a minha carteira?", pergunta a Leninha já com cara de fui-assaltada.

Levantámo-nos em pânico, alguns a olhar à volta e outros a ver se está por baixo da mesa, por detrás do vaso, em cima da cadeira - mas nada. A carteira tinha desaparecido. E lá dentro: iphone, porta-moedas, documentos e cartões, chaves de casa, chaves do carro e outros etcs.

Na mesa ao lado as senhoras agarraram-se às suas carteiras, alguns olhares viraram-se na nossa direcção como que a dizer "coitados"... e eis senão quando o Tiago vira-se para o Inácio e pede-lhe o username da Apple:

"Podemos localizar o telefone, se o ladrão ainda não o tiver desligado!"

Dito e feito. O Inácio transmitiu os seus dados ao Tiago e depois de alguns segundos de suspense:

"Está na Rua de Alegria! Vamos!"

E saímos - eu, o Inácio e o Tiago - a correr pelas ruas do Porto.

Bad boys, bad boys, what u gonna do
What u gonna do when they come for you

COPS (PORTO STYLE)

Bad boys, bad boys, what u gonna do
What u gonna do when they come for you

Estou só a pôr algumas ideias em ordem, a dar uma lógica às emoções fortes vividas ontem à noite aqui no Porto - mas preparem-se, porque daqui a pouco temos um post explosivo.

Ontem o Inácio e a Leninha foram assaltados. Perseguimos e capturámos um ladrão. Andámos às voltas com a polícia pelas ruas do Porto - porque, infelizmente, no meio de todo este filme fomos confrontados com uma faceta muito triste da natureza humana: o fim da solidariedade e entre-ajuda.

Mas como disse: ainda estou a dar lógica aos acontecimentos, a confrontar-me com as nossas reacções, a tentar entender os "ses" e os "porquês".

Já conversamos.

BOM DIA, NOSTALGIA

Este fim-de-semana deu-me uma nostalgia do Sri Lanka... que saudades! Já foi há mais de dois anos que passei aqui duas semanas, com o meu amigo Bunty - e que vontade de voltar.

A culpa é da Nomad, que lançou uma nova viagem com o Eduardo Madeira. Acho que vou tirar umas férias em Março e infiltrar-me no grupo ;)

Fica um click, espreitem o álbum de fotografias que estreei hoje no facebook, a lembrar esta colorida volta que dei em 2012:


segunda-feira, 28 de Julho de 2014

PRÓXIMA PARAGEM: PUUUUUORTO!

Vai sair da linha número um o Alfa Pendular com destino a Porto Campanhã, diz a menina com voz de robot ao altifalante.

Vou para a linha número um.

Vou dar uma volta ao Porto, são apenas 48 horas, o suficiente para pôr as conspirações em dia com a Nomad, matar saudades de alguns amigos, comer uma francesinha ou uma sandes de pernil com queijo da serra... hmmmm...

domingo, 27 de Julho de 2014

BOM DIA, ALFACINHAS

Domingo solarengo é dia de praia ou de ressaca, de almoçarada ou de estar estendido no sofá, de horas numa esplanada, conversa e dolce fare niente.

Domingo é dia de preguiça.

Mas como eu sou muito dedicado, investi horas preciosas do meu tempo no click que se segue ;)


sábado, 26 de Julho de 2014

sexta-feira, 25 de Julho de 2014