30/05/2015

KARMA?

Como já disse: foi uma tarde extenuante, aquela passada junto à cancela e no gabinete do comissário da polícia, rodeados de fábricas e poeira, camiões barulhentos e rostos tristes sujos de óleo. Mas estávamos finalmente entregues a nós próprios, às nossas vespas e à estrada a rolar debaixo delas  - e assim sim, devia ser a viagem. Agora só queríamos chegar à praia que definiramos como meta, encontrar um hotel com duche, comer e dormir.

O sol já ia baixo no horizonte poluído, parámos para consultar o GPS, "vamos por ali".

Enchemos os depósitos e arrancámos na direcção sugerida, mas na primeira vez que abrandámos por causa de uma lomba, a minha vespa foi-se abaixo. Que estranho... mas dei ao kick e continuámos. Pouco depois, num cruzamento, abrandei... e repetiu-se a brincadeira. Mas desta vez a mota não pegou logo. Tentei duas, três, quatro... só à quinta ou sexta vez ela voltou a arrancar.

Alguma coisa não está bem.

Avançámos por uma estradinha muito engraçada, que sepenteava entre campos de arroz e palmeiras, parecia o Kerala mas um bocadinho mais "deslavado" - muito giro, de qualquer forma. Algumas aldeias pelo meio, manadas de búfalos a partilhar a estrada com as motas, grandes fardos de palha e mulheres a carregar bilhas de água na cabeça. Alguns buracos mas em geral estava em boas condições, o piso.

O sol pôs-se, finalmente, e o céu assumiu cores dignas de se fotografar. Foi o que fiz: parei a mota e desliguei o motor, fiz algumas fotos ao recorte de palmeiras contra o céu azul, roxo e rosa... e depois voltei a montar-me e dei ao kick... mas nada. Outra vez. Nada. Três. Quatro. Só voltou a pegar à sétima tentativa. Que nervos. Isto nunca me aconteceu. O que será? Arranquei. Estava a escurecer por isso acendi as luzes... mas nada.

"Luís!," chamei enquanto buzinava. Ele parou e olhou para trás, eu fiz sinal a dizer que estava sem luz. Nem queria acreditar. Esta mota tem dado pouquíssimos problemas - e é logo hoje, logo agora!, que me vai deixar "agarrado"?

Resultado: os últimos vinte quilómetros do dia - ou melhor, da noite! - tive de os fazer às escuras, sempre atrás do Luís, com cuidado redobrado por causa dos buracos, lombas, pedras e tudo à nossa volta, incluindo pessoas, animais, carros e outras motas. Que stress.

Que karma!, pensei a certa altura. Cheguei a pensar em dar a desculpa das luzes aos seguranças da cancela. Não o fiz para não atrair más energias: não fosse depois ficar mesmo sem luzes. E não é que aconteceu mesmo?

Eu prefiro pensar que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas que é frustrante. Enfim.

Quando finalmente chegámos à praia (e que maravilha, sentir no rosto o fresco aroma da maresia!), estava tão tenso que quase me deixei cair na areia cheia de lixo. Encostei-me à mota e, desculpem-lá-eu-sei-que-não-devia-dizer-isto, mas acendi um cigarro e soube-me a um duche depois de vários dias sem tomar banho.

:)

Cinco minutos para recuperar.

Noite cerrada - agora temos de encontrar um quarto. No caminho para a praia não vimos nada; e às pessoas a quem perguntámos, todas nos apontaram o mesmo. Um resort do Estado mesmo em frente à praia. Ali ao lado, portanto. Era a única construção à vista.

Tentei ligar a mota - sem sorte. Cinco, seis, sete vezes. Oito. Nove. Nada. Nenhum dos dois tinha energias para fazer fosse o que fosse. E no meu caso: nem energias nem conhecimento. Empurrei a mota até ao portão do resort, entrei e estacionei à frente da recepção, ao lado da vespa do Luís.

Se durante o dia tínhamos sobrevivido a filme da saga Mad Max, agora estávamos prestes a entrar num episódio do Twin Peaks. Mas com vista para o mar.

Que lugar estranho. Primeiro não tinham quartos, "estamos cheios". Mas quando insistimos e explicámos da mota avariada, etc - de repente materializou-se um bungalow. Um bocado acima do budget - mas só de pensar que o próximo hotel ficava a mais de vinte quilómetros. Mais tarde percebemos que o lugar estava quase vazio. Que esquisito. Um dos empregados aparecia quando menos se esperava, para ficar a olhar para nós sem dizer nada; mas quando precisávamos dele, raramente o encontrávamos. E não só não se descalçava quando entrava no quarto (como é costume na Índia) como subiu várias vezes para cima da mesinha de cabeceira com os sapatos calçados, para ligar o ar condicionado. Mesmo depois de eu fazer sinal a desaprovar, ao que reagiu com uma expressão que dizia "vá lá, só desta vez". Quando pedimos toalhas trouxe umas imundas... e molhadas. Mandámo-las para trás e quando voltou com outras, "estas estão limpas", estavam secas mas cheias de manchas. Não vale a pena, a sério. E não é uma questão de ser esquisitinho ou de estarmos mais cansados e por isso com menos poder de encaixe.

Índia, tu és um desafio que, às vezes, não apetece nada confrontar.

E nem vou falar do restaurante. Os ritmos dos eventos, as lógicas dos acontecimentos, causas e consequências - todo o ambiente nos transportava para um filme do David Linch. Quando, por esta altura, só apetecia algo levezinho, quem sabe um filme da Disney - ou até, nem me importo se não houver mais nada para ver, uma comédia romântica "daquelas".

1 comentário:

Antonio Galrinho Simões disse...

Vida de aventureiro tem destas coisas, mas talvez seja bom para dar estaleca.