12/05/2015

"QUAL É O PROBLEMA?"

"Os indianos são uns hipócritas. De dia afugentam-nos como se fôssemos uns monstros, mas à noite vêm todos carinhosos pedir beijinhos e colo", diz uma das hijras enquanto aplica maquilhagem no rosto. Estamos os três - eu, o Luís e o Inácio - dentro do quarto dela. Quer dizer: delas. São duas, as hijras que estamos a "entrevistar".

Nós três e elas duas: matemáticas à parte, somos demasiados para um espaço tão pequeno, tão quente e tão sujo.

Mas como é que chegámos aqui?

Entrámos no prédio, portanto. Com um plano de última hora, somos estudantes de arte e mais-isto-e-aquilo. E eis que demos de caras com uma hijra.

"Qual é o problema?"

Não foi fácil, ao princípio. Ninguém falava mais do que duas ou três palavras de inglês - e para ser sincero não pareciam muito interessadas em ajudar. Depois da primeira apareceram três ou quatro, iam e vinham naquela varanda que parecia que ia cair a qualquer momento. Tentámos explicar que queríamos falar com alguém, mas ninguém entendia nem se esforçava para entender. A mais velha aproximou-se e tocou com a mão direita na testa de cada um, para nos abençoar. A mais nova parecia irritada e mandou-a voltar para dentro - mas ela só se afastou depois de lhe passarmos para a mão um "donativo".

E depois ficámos ali a olhar para elas, e elas a olhar para nós, e nós a sorrir, e pouco mais.

"Art students", repetiu o Inácio.

Nada.

Finalmente tentei um bocadinho do meu hindi. Disse que procurávamos alguém que falasse inglês, que eramos estudantes de arte e tínhamos um projecto. Fomos levados para o segundo andar e então encontrámos uma senhora mais velha, parecia que tinha saído do banho, a família toda à volta:

"Qual é o problema?"

"Não há problema, somos estudantes de arte e blá, blá, blá."

Mal percebeu o que queríamos, a senhora começou a gritar ordens a este-e-aquele, depois mandou-nos seguir um rapaz. Corredor e escadas, escadas e corredor, sai do prédio, entra no prédio, escadas e corredor, corredor e prédio.

Bate a uma porta.

Estamos num dos sítios mais repugnantes onde já pousámos os pés. O cheiro e a humidade, o calor e todos os ruídos, os olhos das pessoas por quem passamos, a seguir-nos em silêncio. É uma espécie de pântano, este pequeno universo. E, no entanto, ouvem-se crianças a rir, algures ao longe. E o som de uma televisão, parece-me um reality show, o apresentador aos gritos e o público a aplaudir.

Sai um homem do quarto. Parece desconfiado. Começa a falar connosco: parece uma mulher.

"Qual é o problema?"

Porque será que toda a gente acha que temos um problema? Explicámos a ladainha toda outra vez. Ele/ela pediu-nos para esperar uma hora, porque estava a preparar-se para sair. Era prostituta.

Silêncio - mas apenas por um instante:

"Desculpe...", arriscou o Luís, "mas seria possível acompanharmos esse processo?", e num movimento que parecia ensaiado, sacou do caderno de desenhos. "Eu sou artista e acho que poderia ser interessante desenhar-vos enquanto se pintam e vestem. Prometo não incomodar."

Com algum drama, a hijra fez sinal de que estava a considerar e a avaliar a nossa proposta. Perguntou quantos éramos: respondemos "três". Mandou-nos entrar.

Nós três e elas duas. Cinco pessoas. Que calor.

3 comentários:

Antonio Galrinho Simões disse...

O caminho faz-se andando o conhecimento obtêm-se vivendo.

Alma de Viajante disse...

Jorge,
Parabéns pela crónica, muito, muito bom! Abrçao.

Clara Amorim disse...

A coisa promete...! ;)