26/09/2014

DR. MÚMIA, AS AÇORIANAS E O CHATO MAIS CHATO DE SEMPRE

Qual Marrocos qual quê.

Índia? Uns meninos.

No Egipto é que a sabem toda. Nunca vi touts mais insistentes, mais irritantes, "melgas", "colas" - mais chatos! -, e ao mesmo tempo tão criativos. Às vezes a um nível tão ridículo que chega a ser caricato - e, ironicamente, engraçado.

Voltemos por momentos a Luxor, neste post.

Quanto aos touts: já tínhamos experimentado uma amostra na visita às Pirâmides e às ruínas de Saqqara, mas foi em Luxor que o grau de melguice chegou a níveis absurdos.

Como já comentei noutro post, alugámos uma mota durante a nossa estadia em Luxor. Assim ficámos mais independentes e dispensámos drivers a chatear para irmos a determinada loja (para receber comissão), ou à agência do amigo, ou ao workshop do primo. Quando dependemos de um tout, há sempre um problema qualquer inesperado, algo que por muito básico que seja, requer uma solução - que, obviamente, o tout com muito esforço vai conseguir resolver. Porque é nosso amigo, porque somos especiais, gosta de nós, somos o primeiro cliente do dia, da semana, do mês, da vida; ou porque gosto muito de Portugal, e o Cristiano Ronaldo e sabe-se lá que mais tretas. E no fim: a gratificação, ó faz favor.

De mota, íamos para onde quiséssemos, quando nos apetecesse. Livres!

(Mas a mota não nos podia salvar dos touts durante as visitas aos templos.)

Começámos a nossa exploração de Luxor por Medinat Habu, o espectacular templo mortuário de Ramsés III que ficava mesmo ao pé da nossa guesthouse (outra boa escolha: em vez de ficarmos no centro de Luxor, optámos por dormir na margem poente do Nilo, muito mais tranquila).

O espectacular "Portão Sírio"

À entrada recusámos com um sorriso a proposta de um guia, explicámos que queríamos ver o lugar por nós proprios, com calma e sem pressão. Mas nem dois minutos tinham passado e já vinha um velhote à perna, a apontar para aqui-e-ali, a arranhar um inglês mais esburacado que o templo e o tempo - e nós sem paciência nenhuma. Tentámos fugir do velhote, acelerar e atrasar o passo, ir para a esquerda quando ele apontava para a direita, conversar um com o outro quando ele falava. Ignorámo-lo. Dissemos-lhe que não tínhamos dinheiro para lhe dar. Mandámo-lo embora. Vai dar uma volta. Não queremos. Não te vamos dar nada. E ele: a sorrir, a apontar, sempre a pisar a nossa sombra:

"Doctor Mummy."

Baza.

Aí vem ele...
 
Alguns baixos-relevos faziam-me lembrar Angkor Wat 

Provavelmente chamava-se Ahmed.

Éramos os únicos turistas no templo. No final vimos mais duas pessoas. Inacreditável - isto está mesmo "às moscas".

"Doctor Mummy," apontava o senhor para algum hieroglifo.

O Dr. Múmia era Anubis, o Deus egípcio com cara de chacal, que é o responsável pelo processo de mumificação.

"Doctor Mummy! Look!"

E nós olhámos. Depois continuámos a tentar fugir... mas o inglês dele era hilariante, com as suas tentativas de descrever os hieroglifos e as histórias - estávamos conquistados.

"Ouviste o que eu ouvi? Ele disse que o Ramsés lutava com as Açorianas?"

"E com as Lesbianas também."

Demorou um bocado até entendermos quem eram os inimigos de Ramsés III, e cujas batalhas o templo tão bem retrata, incluindo os troféus que os guerreiros traziam do campo de batalha: montanhas enormes de mãos, línguas... e pénis.

Pilhas de mãos e línguas, habituais troféus de guerra no tempo do senhor Ramsés III.

Quanto aos inimigos, que fique então esclarecido: eram Sírios. E eram Líbios. Mas até ao final do passeio, entre nós o Ramsés III lutava permanentemente com as Açorianas e as Lesbianas.








O tout conseguira o que queria. Anulando-se ao ponto de o aceitarmos - a verdade é que o senhor irritava tanto quanto nos entretia. Decidimos que não valia a pena nos chatearmos mais. Ele não ia largar. Mais valia aceitarmos esse facto, dar-lhe uma gorjeta qualquer e "gozar o prato". Não que tivéssemos grande alternativa, na verdade. Mas decidimos baixar a guarda e ao menos aproveitar o momento.

O templo era espectacular. A dimensão, os murais de baixos relevos, os hieroglifos. Por várias vezes vi-me transportado para Angkor, sendo essa a minha referência mais forte. Mas semelhanças e diferenças à parte, Medinat Habu foi uma estreia impressionante nos templos de Luxor.






"Doctor Mummy!"

Fomos atrás dele e olhamos para onde ele nos dizia para olhar. Fazíamos eco de algumas das suas palavras, como que a dizer "eu entendo". Alguns lugares tinham cordas a impedir a passagem mas o senhor insistia para atravessarmos. E fazia uma cara de malandro como que a dizer "isto é só entre nós, não contem a ninguém, eu sou o vosso melhor amigo e estou a fazer um grande favor só para vocês". Depois dava-nos autorização para tirar fotografias onde era proibido, mesmo se dizíamos que não - ele insistia que tirássemos esta e aquela foto. Só faltou arrancar um pedaço do templo para nos dar. Tudo para ganhar méritos - tudo pela gorjeta.

Mas, como disse:: decidimos jogar o jogo. E gratificar no fim, claro está. Pelo menos não nos chateávamos mais - e mais ninguém nos chateava.

Pensávamos nós.

A meio da visita apareceu, vindo sabe-se lá de onde, um segundo tout. Ao início, só a ver. A acompanhar. Depois abriu-nos uma porta e começou a fazer sinais com os dedos da mão. Dinheiro. Eu ajudei-te. Eu fiz-te um favor. Incrível. Nós a ficar irritados outra vez, a dizer ao tout original que só dávamos gorjeta a um, ele a rir e o outro também, como se não fosse um problema, como se estivessem ali por desporto. Dissemos-lhe que só havia gorjeta para um, e se o outro nos chateasse não havia para ninguém. Vincámos bem as nossas intenções. Ele pareceu retrair-se um pouco... mas veio à mesma.

Entretanto subimos não-sei-onde para ver o "panorama", sempre a insistirmos para o segundo tout ir embora... e qual não é a minha surpresa quando vejo um terceiro a correr na nossa direcção, como se estivesse prestes a perder o autocarro, e este já nem se deu a tabalhos nem nada, chegou ao pé de nós e estendeu a mão, também quero um qualquer coisinha.

Começámos a barafustar e a dizer que nos íamos embora, o tout número três a apontar para aqui-e-ali, vamos ver mais um panorama, não vamos nada, vamos mas é embora daqui, se não há regras então não há regras, acabou-se a papa doce.

Gorjeta para o primeiro.

"E eu?", pergunta o segundo com ar ofendido, como se o tivéssemos aldrabado. Como se fossemos os melhores amigos há longos anos e o tivéssemos atraiçoado.

Acabámos por lhes dar uns cigarros. Já irritados.

"E eu?", pergunta o terceiro.

"Epá, tu vai dar uma volta!", e decidimos ignorá-lo por completo. Não havia maneira de lidar com eles. Não havia fórmula. Enquanto nos vínhamos embora todos eles nos vieram pedir mais. Ignorámo-los.

E quando saímos para a rua, precisávamos urgentemente de um chá e água. Olha ali um café, parece simpático. Entrámos, estava vazio - como quase tudo aqui à volta, que impressão, somos praticamente os únicos turistas - e o senhor atendeu-nos sem qualquer pressão, muito descontraidamente.

Chamava-se Asab - e mais tarde havia de nos convidar para o casamento da irmã da sua esposa, na aldeia. Mas sobre este acontecimento já conversámos aqui no blog.

Fico-me por aqui. Mas não sem antes acrescentar que tentámos, nas visitas aos outros templos, várias estratégias para lidar com os touts. Nenhuma resultou. Mas já falamos sobre isso, que este post já vai longo.

3 comentários:

Jorge Lopes disse...

Com muito interesse!

Clara Amorim disse...

Um grandiosidade de um post, à altura das imagens!!!

Carimbo no Passaporte CP disse...

O Egipto tem dessas coisas, supera-se nos pormenores muitos deles rebuscados mas que o tornam não único. Post exclente