12/09/2014

A LENDA DE SHAHMARAN, A RAINHA DAS SERPENTES

Quem já foi a Mardin, no sudeste da Turquia, no coração da Mesopotâmia e com vista sobre a Síria; deve ter reparado na quantidade de souvenirs à venda com a imagem de uma espécie de sereia.

Pois saibam que contam as avózinhas da Pérsia e do Curdistão que em tempos viveu, numa aldeia turca perto do Mediterrâneo, uma criatura chamada Shahmaran, meio-mulher-meio-serpente, que era sábia e bondosa, e que diziam ser a rainha das cobras.

Dizem que quando Shahraman morre, o seu espirito passa para uma das suas filhas, assim se perpetuando no tempo e nas histórias, acumulando conhecimento e experiência.

Conta a lenda que há muito, muito tempo, quando os animais falavam, vivia em Tarsus um homem chamado Cemshab (ou Tasmasp, depende de quem conta a história), que vivia de vender lenha e mel. Um certo dia Cemshab/Tasmasp descobriu uma gruta cheia de colmeias com mel de alta qualidade, e convidou os amigos a explorá-la; mas esses "amigos" estavam mais interessados no dinheiro que poderiam ganhar e, movidos pela ganância, acabaram por encarcerar o protagonista desta história no fundo da gruta. Cemshab/Tasmasp ficou encurralado no escuro, desesperado com a sua (má) sorte - e quando estava prestes a conformar-se com a fatalidade do que lhe sucedera, reparou que havia um pequeno buraco, algures no escuro, de onde vinha um fio de luz. Começou a escavar à volta do buraco até conseguir atravessá-lo, e eis que descobriu um jardim maravilhoso, cheio de flores e cascatas ao fundo, nuvens e arco-íris e passarinhos a chilrear - estão a imaginar o cenário, certo?

Tipo "my little pony".

Neste éden imaginado pelas avós persas e curdas, vivia uma criatura que era mulher da cintura para cima, cobra da cintura para baixo. Era bonita e jovem como as sereias de outras lendas, frágil como as flores do jardim onde nascera, a pele da cor do leite que corre nos rios míticos de outras histórias.

Cemshab/Tasmasp conquistou a confiança de Shahmaran e acabou por se apaixonar por ela, passando dias e noites a ouvir as histórias que ela tinha para lhe contar, como que hipnotizado por todo aquele conhecimento, pela extrema bondade dela, pela beleza que o rodeava.

Passaram-se anos e um belo dia Shahmaran esgotou as histórias que conhecia - e o seu amado começou a ficar nostálgico, com saudades da família e da vida que vivera até a conhecer. Partilhou esta sua ansiedade e pouco tempo depois acabou por decidir regressar à sua terra. Shahmaran aceitou a decisão, apesar de ter o coração partido, e pediu-lhe que voltasse um dia, se assim o entendesse:

"Mas por favor nunca contes a ninguém o paradeiro deste jardim. Não reveles onde vivo, porque temo que um dia alguém me queira matar."

Cemshab/Tasmasp regressou a casa, e apesar da felicidade de reencontrar a família ao fim de tanto tempo, nunca esqueceu Shahmaran. Manteve a promessa durante anos, até que um dia o sultão adoeceu e o vizier, que era "mau como as cobras", decidiu usar a oportunidade em seu proveito e anunciou ao povo que a única cura para a doença era comer a carne de Shahmaran. Todos os homens do reino foram recrutados para descobrir o paradeiro da rainha das cobras, incluindo o herói desta lenda - e levaram-nos, um a um, para o hammam, para ver se tinham "escamas" de cobra no corpo. Claro que, ao descobrirem que Cemshab/Tasmasp tinha estado com Shahmaran, forçaram-no a revelar a localização do jardim onde vivia a sua amada.

Ao ser apanhada pelos homens do vizier, Shahmaran declarou:

"Saibam que quem comer da parte do meu corpo que é cobra, ganhará acesso a todos os segredos do mundo. Mas aquele que comer da minha cabeça, morrerá instantaneamente."

O vizier atirou-se imediatamente a Shahmaran, não pensando mais na alegada cura do sultão. Mordeu-lhe a cauda e começou a comer a carne de cobra. Cemshab/Tasmasp, que não aguentou assistir ao sofrimento da amada, decidiu então o sacrifício final. Comeu-lhe a cabeça, matando-a, e sabendo que também ia morrer.

Uma espécie de Romeu e Julieta, mas um bocadinho mais "twisted", portanto.

Mas calma: não se vão embora já. Esta história ainda não acabou.

Shahmaran tinha mentido nos efeitos de quem come o quê. Na verdade, quem comesse a sua cauda morria, e quem comesse a cabeça viveria. Ou seja: o vizier começou a engasgar-se com a carne de cobra, sufocando imediatamente, rebolando no chão e maldizendo este e aquele, até morrer. Já o herói desta história viu-se iluminado... mas depois de matar a mulher que amava.

Viveu para sempre com essa culpa, e foi um grande vizier do sultão, nos anos que se seguiram.

Já Shahmaran passou, em espírito, para outra cobra; e apesar de viver amargurada com os homens a partir desse dia, nunca revelou às outras cobras o que lhe tinha sucedido. Diz-se na Pérsia e no Curdistão que o dia em que as cobras souberem o que aconteceu naquele dia, vingar-se-ão dos homens e conquistarão o mundo.


1 comentário:

Clara Amorim disse...

És um grande contador de lendas...!
E esse teu humorzinho... Maravilhoso! :)