11/03/2013

DAR A VOLTA (EM SÃO PAULO)


"Você conhece Paris?"

"Há uma ruazinha, em Paris, chamada Rua dos Passarinhos Pequenos. É uma rua com muita prostituição. E aí, todas as prostitutas se chamam Michel."

O Michel é um velhote que estava sentado na Avenida São João, numa cadeira encostada à parede, e que meteu conversa com o Inácio, segundos antes de cair uma chuvada monumental.

Como eu e a Leninha estávamos mais à frente, nem demos por nada. Mas assim que começou a chover, fomos ter com eles - e enquanto bebíamos um "suco" de laranja, passámos uma meia hora deliciosa à conversa com este carioca que depois de viver 49 anos no Rio e viajar por 18 países, agora vive em São Paulo.

"Aqui se mata para ver de que lado cai," e conta-nos como já assistiu a 17 homicídios, "aqui, à luz do dia," na Avenida de São João. A mesma cantada com tanto carinho por Caetano Veloso.

Aliás: só estamos nesta avenida porque eu insisti em tirar uma foto do cruzamento com a Ipiranga. Não que tivesse especial curiosidade em conhecer o lugar - sinceramente não criei muitas fantasias sobre este cruzamento - mas queria fazer a foto.


Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Não sei se hoje o Caetano ia sentir a mesma coisa ao cruzar este lugar. Sex shops em cada esquina, fachadas todas grafitadas, gente com ar de quem nem sabe que está ali... é um lugar muito pouco poético.

Mas deixem-me enquadrar melhor esta situação: um dia depois de eu aterrar em São Paulo, chegou o Inácio e a Leninha. Eles também vão arrancar para uma aventura na América do S... não, espera lá, Jorge. Diz as coisas como devem ser ditas: eles vão arrancar para "a" aventura na América do Sul. Um ano numa pão-de-forma... que inveja! E eu aqui todo vaidoso com os meus três meses de transportes.

Mas invejas à parte:

Combinámos passar um ou dois dias juntos na cidade, no arranque de ambas as viagens, enquanto eles procuravam a pão-de-forma e eu esperava pelo meu amigo Bunty, que continua retido em Delhi, à espera que lhe entreguem o passaporte.

Lembro-me da primeira vez que nos encontrámos no estrangeiro: foi em Khajuraho, na Índia - e passámos uma tarde inteira à conversa, sentados à mesa do almoço... até à noite.

Desta vez foi mais ou menos a mesma coisa. Um dia inteiro à conversa - mas em movimento. E não foi pouco. Contando com o que fiz a pé, de casa ao ponto de encontro, fiz neste 4º dia de viagem mais de 20km a pé.



Tinhamos combinado encontrar-nos na esquina da Avenida Paulista com a Consolação, dar uma volta até ao centro - o objectivo principal era almoçar no Mercadão.

E assim foi.

Como dois dias antes, fui a pé do Itaím até à Paulista. Tomámos o pequeno-almoço juntos e descemos a Consolação, depois a Ipiranga, tirámos a foto no cruzamento com a São João, conhecemos o velhote Michel enquanto o céu desabava sobre a cidade. E quando começou a melhorar, retomámos caminho por entre prédios altos e grafittis gordos, até ao centro velho - e chegar aqui foi como entrar noutra cidade. Noutro país. Ruas mais apertadas e coloridas, o skyline mais baixo, prédios mais antigos - e gente. Tanta gente na rua.

Assim que avistámos o Mercadão, seguimos directos para a banca do Mané. O grande objectivo deste passeio fora, desde o início, provar a famosa sanduíche de mortadela do Mercadão. Aliás: a fome já era tanta, que nem vimos mais nada, nem os vitrais nem as outras lojas, até comermos a sanduíche.


E que sanduíche!


Que exagero. É que aquilo não era bem um pão com mortadela: aquilo era mais mortadela com pão. Como em tanta coisa em São Paulo: uma sanduíche show-off. Porque ninguém consegue comer uma inteira - a sério, impossível.

Mas a verdade é que era deliciosa. Pedimos a vesão que leva queijo em cima das vinte fatias de mortadela, acompanhámos com um chopp.... e quando saímos finalmente do mercado, íamos de barriga cheia e sorriso de orelha a orelha.



Depois de meia hora à espera que a chuva passasse, lá seguimos pela cidade fora. Visitámos a Praça da Sé, um dos lugares mais estranhos que já conheci, com uma arquitectura bonita, mas uma paisagem humana degradante, cheia de mendigos e bêbados e toxico-dependentes. Atravessámos a praça num instante, vimos a igreja a correr, saímos dali para fora sem vontade nenhuma de voltar... e voltámos, sempre a pé e sempre à conversa, até à Avenida Paulista.



Quando nos separámos, voltei para casa - a pé - e da cabeça não me saíam as histórias contadas pelo velhote Michel. De como foi atacado por "quatro caras" na São João. Da arquitectura dos prédios em frente da lanchonete onde estávamos. Do Niemeyer. Da Leninha, que ele conseguia divinhar que tinha uma "integridade exagerada". Dos dias passados em Lisboa, onde era proibido fumar.

"E sabe aquela ilha... vocês têm uma ilha no Atlântico... qual é o nome... é uma ilha toda feita de madeira..."

"Madeira?"

"Isso! Madeira! Toooodos preguiçosos, lá! É muito bonito, mas todo o mundo é preguiçoso."

Querem saber mais sobre este passeio de conversas e encontros? A Leninha também partilhou a história, num post gémeo deste. A versão dela, que inclui uma foto do velhote Michel, está aqui, em www.daravolta.com

5 comentários:

kyta disse...

Aperta aí o osso a esse "careca"!!!
Se o tornares a ver, é claro!
Cuidado que eles andam por aí......

Anónimo disse...

Mesmo sem ter grande vontade de conhecer o Rio ou São Paulo estou a adorar viajar com as crónicas. São tão reais que me fazem sentir estar perto.
Confesso que a sandwich de mortadela não me convenceu .... Mas deve ter sabido bem depois de um passeio de quase 20kms.
Obrigada pelos passeios que fazemos sem sair de casa ....

Clara Amorim disse...

Isto é que foi uma graaaaaaaaaaande volta!!!
Gostei muito de ler sobre as vossas peripécias paulistas!
Continuem assim...!

Fernando Martinho disse...

Quando chegares ao Chile é que eu me vou roer de inveja.....
Até lá adoro ler e reler e ver e olhar e delirar com as tuas crónicas.
Obrigado por este fantástico blog.
Bem haja

lu*a disse...

Ilha feita de madeira!? Madeirenses preguiçosos!?!? hahahaha muito bom :D adoro o estereotipo!
(claro.. sou madeirense!)
grande velhote Michel!!
boas viagens!