07/12/2013

DRAMA EM LUANG PRABANG

Quando partilhei aqui a minha "volta" ao Hospital de Luang Prabang, concentrei-me unica-e-exclusivamente na amigdalite e nos contornos em redor desta pequena epopeia. O que não contei foi o facto de aquela ser, na verdade, a segunda vez que visitava o Hospital, em pouco mais de 48 horas.

Foram tantas coisas ao mesmo tempo: a aula de culinária, as aventuras com o grupo, o drama das amígdalas... que fui adiando, adiando - e só agora encontro oportunidade de voltar atrás, até ao dia em que fui com o grupo às Kuang Si Waterfalls.

Como de costume, fizemos um picnic nas mesas perto da água. Quase toda a gente tomou banho, alguns atreveram-se a saltar da corda pendurada na árvore. Foi uma tarde calma, muito bem passada, que terminou por volta das 16:00 quando nos enfiámos na minivan a caminho de Luang Prabang.

Até aqui: tudo bem. Tudo normal.

À nossa frente seguia uma carrinha de caixa aberta carregada de miúdos que vinham da escola. Tirei a máquina fotográfica para registar a curiosidade, eram tantos que quase não se via o veículo propriamente dito - mas de repente a carrinha parou. E nós parámos atrás. Os miúdos saltaram de imediato e sairam a correr pela estrada fora... percebi logo que algo se tinha passado, mais à frente. Este tipo de paragem a meio do caminho não era normal.

Saí do carro, juntamente com o condutor. Movido pela curiosidade, decidi ir ver o que se passava à frente, talvez um acidente, ou a estrada bloqueada, convinha saber para tomar uma decisão na gestão do tempo e das possíveis soluções, com o grupo. E qual não foi a surpresa quando encontrei um cenário de pânico, um espectáculo com dezenas de espectadores e uma mão-cheia de actores. A primeira coisa que me dei conta foi um estrangeiro completamente histérico, a correr e a gritar:

"Ela vai morrer! Ela vai morrer!"

E foi então que vi o tuktuk na ponte. Parado, a meio, todo desconjuntado. Disseram-me que uma carrinha tinha chocado de frente, quando os travões falharam. E o tuktuk estava no lugar errado, à hora errada.

Além do condutor estavam sete pessoas no tuktuk-carrinha: um casal de tailandeses, uma familia neo-zelandesa (pai, mãe e filho de oito anos) e um casal de míudos ingleses, ele com vinte e três anos, ela dezanove.

E ela: deitada na caixa do tuktuk, inconsciente. Tinha batido com a cabeça, com o impacto, e desmaiou imediatamente. Todos os outros estavam bem. Uns arranhões, umas queimaduras, nada de especial. Mas à miúda - chamava-se Sarah - calhou-lhe a fava.

Estavam a tentar tirá-la do tuktuk - erro grosseiro, pensei logo, e decidi intervir:

"Por favor não mexam nela! Tenho dois enfermeiros no carro, vou buscá-los, mas por favor não mexam nela!"

Corri lançado para a minha carrinha e pedi ajuda ao Timóteo e à Fernanda, um casal de enfermeiros de Setúbal que já tinham viajado comigo no Transiberiano, este ano. Foram incansáveis. O Timóteo tomou as rédeas desde o início, eu fui servindo de tradutor e ia acalmando os outros. Usámos o banco corrido em que estava deitada como maca e lá a conseguimos mudar para uma carrinha de caixa aberta. E fomos lá atrás, com ela, para o hospital. Durante todo o caminho, o namorado ia falando com ela. O Timóteo dizia-lhe para ele continuar a falar - ela parecia estar semi-consciente, mas não fazia ideia do que se tinha passado. Ele repetia que estava tudo bem, que íamos para o hospital, mas ao mesmo tempo chorava baixinho e olhava para nós como se tivéssemos guardadas respostas e soluções. O Timóteo ora via os olhos dela, ora ia dando instruções, e eu traduzia. Os outros olhavam para nós, todos em choque, mas fisicamente bem.

Chegámos ao hospital e levámo-la para as emergências. Expliquei ao médico, traduzindo as palavras do Timóteo, que a Sarah tinha traumatismo craneano com perda de memória e confusão. Não tinha vomitado, não tinha dores em mais lado nenhum do corpo. Foi-lhe posta uma "coleira" especial para não mexer o pescoço, ligaram-lhe uns bips ao corpo, o Timóteo lá me ia explicando que com a máquina dos bips estava tudo bem, oxigénio, ritmo cardíaco, etc. E eu traduzia ao Jamie, o namorado.

Os neozelandeses e tailandeses ficaram ai perto a ver. Entretanto começou a voltar a si e a entrar em pânico, queria mexer a cabeça mas não deixámos, fartou-se de chorar e o namorado com ela, fomos acalmando-os na medida do possível.

Marcaram raio X - mas ela precisava de um TAC. E não havia "máquina de TAC" no hospital. O médico explicou-me que ela ia ser transferida no dia seguinte para Vientiane, de avião. Falei com o Jamie, expliquei-lhe a situação, "aparentemente está tudo bem mas ela precisa de fazer um TAC, e eles querem levá-la para Vientiane. Devias falar com o teu seguro e com jeitinho perguntar se não a podem levar para Bangkok, sempre era melhor."

O médico, que tinha ouvido a conversa, interferiu logo:

"Temos uma enfermeira tailandesa e ela pode acompanhá-los para Bangkok amanhã, se preferirem."

Resumindo o drama: acabámos por deixá-los já noite cerrada. Trocámos alguns contactos e voltámos para o hotel, onde o grupo nos esperava. Jantámos e, ao final da noite, pedi ao meu amigo Xay para vir comigo ao hospital, e lá fomos de mota dar jantar aos miúdos. Ela estava acordada, mas obviamente não se lembrava de mim. Ele explicou-lhe que eu era um dos portugueses que tinha ajudado, agradeceu a comida, conversámos um bocado mas percebi que eles precisavam de descansar, acima de tudo. Já estava satisfeito só de vê-la consciente... o pior já tinha passado. O Jamie abraçou-me com a força de uma criança gigante, agradeceu a ajuda e despedimo-nos.

Nem dois dias depois... estava de volta ao hospital. Com uma amigdalite. Mas dessa missa já rezámos aqui ;)

3 comentários:

Lv disse...

Voltas e reviravoltas. Mas à noite quando te deitaste a sensação de ter ajudado alguém num momento tão dificil, é muito boa e dá-nos uma paz ..... Pior foi teres lá voltado com a tua amigdalite .... a vida prega-nos destas partidas ....

Claudia Frias disse...

e nos dias seguintes, chegaste a ter mais algum contacto com eles, se ela ficou bem? taditos, ficam logo com a experiencia cedo... dos contratempos em viagem

Clara Amorim disse...

Muito bem, Jorge Salvador! Perdão, Vassallo! ;)