26/08/2011

ÉS HIPPIE?







Tinha acabado de voltar de Suzdal e estava sentado num banco da plataforma 2, na estação de Vladimir, a jogar sudoku no telemóvel. Esperava o comboio 26 para Nizhni Novgorod, a próxima etapa nesta aventura - quando ouvi a pergunta.

O homem sentado ao meu lado estava a apontar para o meu pulso. Para as minhas pulseiras. Hippie?! Expliquei-lhe que eram recordações de viagem.

"Ah! Souvenirs!"

Ok. Mais ou menos isso.

Ficámos algum tempo à conversa, mas as nossas vidas seguiram caminhos diferentes mal o comboio chegou. Ele foi na carruagem 5, eu na 7. Nunca mais o vi.



Entrei na composição e sentei-me onde era suposto, fui recebido pelos meus companheiros das próximas 3 horas como se fosse invisível. À falta de conhecimentos de russo (eis uma falha que tenho de corrigir), tentei um "hello" - mas nada. Absolutamente ignorado.

Só depois do comboio arrancar - um bom bocado depois, é que um deles me dirigiu palavra. E, surpresa das surpresas: num inglês perfeito, com sotaque british e tudo. Explicou-me que trabalhava numa petrolífera inglesa e que se fartava de viajar pelo mundo, para acompanhar o processo de instalação de novas refinarias. Estivera 6 meses no Gujarat, pelo que se gerou logo uma empatia engraçada, os dois a trocar ideias sobre a Índia - o que suscitou a curiosidade e a participação (em russo) dos outros dois companheiros: um homem de meia idade e uma senhora mais velha. Ela só dizia que sim, mesmo quando não percebia nada; e o outro também arranhava qualquer coisas de inglês, pelo que começou a entrar na conversa, muito a medo, mas a dada altura perguntou-me se falava espanhol.

"Sim, um pouco. Sou português."

Fogo-de-artifício. Alguém tem fogo-de-artifício à mão? Não? Senão voltava já atrás no tempo e dava algum ao senhor, porque só faltou mesmo lançar umas canas ao ar.

Gargalhadas, apertos de mão, abraços e... pois claro, vodka! O homem trabalhara "nos barcos" durante 27 anos - grande parte do tempo em Vigo e Portugal. Arranhava português, apesar disto já se ter passado há mais de uma década. O resto da viagem foi passado a recordar histórias e os bons velhos tempos do Eugénio, em Portugal. Materializou-se uma garrafa de vodka e copos, fatias de pão, chouriço e fruta - só rir. O gajo-das-refinarias e a senhora-que-só-dizia-sim passaram a meros espectadores, eu bem que tentei mudar o sentido da conversa, mas nenhum truque resultou, e levámos com o senhor Eugénio a lembrar-se de palavras em português, a confirmá-las comigo, a repeti-las mais uma vez, a explicar o seu significado aos outros. E depois a repeti-las até à exaustão, suando cada vez mais à medida que o vodka descia. No seu copo. No meu copo. No seu copo. No meu copo. E eis que chegámos a Nizhni Novgorod.

4 comentários:

LV disse...

Chegaram a Nizhni Novgorod ... e depois conseguiram sair so comboio ou foram aé à próxima paragem ????

Jorge disse...

Daqui a bocado já tem a resposta ;)

Joao disse...

Granda Jorge, estou a adorar esta fase do blogue (não que não gostasse antes), não sei se por ser alguma maneira mais ocidental ou simplesmente pelo local da acção, remete-me sempre para interrails passados.

Grande Abraço,
Junior

Jorge disse...

Bem-vindo, Júnior!
Concerteza que remete, nem que seja por ser uma viagem de comboio. Saudades dessas outras aventuras, hem... no outro dia pus-me a fazer contas ao tempo passado e assusta, eheh :)))