07/10/2015

SÃO REFUGIADOS

Imagina que...

...rebentava uma guerra no teu país, uma guerra sem bons-da-fita, se é que há guerras com bons-da-fita. Uma guerra sem hipótese de heróis nem santos e muito menos milagres, só destruição e morte e terror à tua volta. Tentavas viver no meio do caos e dos destroços, do sangue e das lágrimas, das noites passadas sem dormir, das refeições em família onde não se troca uma palavra, e o coração em sobressalto por-tudo-e-por-nada. As pessoas à tua volta, amigos e vizinhos, familiares, professores, o condutor do autocarro que te leva para o trabalho - as pessoas começavam a desaparecer, meros perfis no facebook que aos poucos deixam de ser actualizados.

Todos os dias choras por alguém, rezas pelos que ficam, sonhas que o pesadelo acabe.

E se essa guerra se prolongasse até à eternidade, ou o que parece uma eternidade, e a Paz não passasse de um eco longínquo, uma utopia, um sonho interrompido vezes sem conta. E apesar de tudo resistiass, não me vou embora, é a minha terra, é a minha casa e dos meus antepassados, tenho as minhas raízes aqui, isto há-de passar. Um dia isto há-de passar.

Acreditas sinceramente que não pode piorar mais, olhas pela janela e não vês um único edifício em pé, a tua rua pinta-se de tons de Cinzento, como as outras ruas, como o céu por cima delas, como as lágrimas que são paisagem no teu rosto postal-ilustrado. Isto não pode piorar. Isto há-de passar.

:(

Mas de repente aparecem novos actores neste filme, e são ainda piores do que os maus da fita, e agora já não é só um pesadelo, isto é o Inferno como nunca o imaginaste. Esperaste por um Bruce Willis ou um James Bond, sonhaste com super-heróis de capa e poderes sobrenaturais. Em vão.

Decides ir embora.

Por muito que te custe deixar o lar, a tua zona de conforto... na verdade, pouco sobra do teu lar - e que conforto há numa casa destruída, a vizinhança, o horizonte. Queres fugir. Qualquer lugar é melhor que este. Qualquer lugar é melhor que o teu lar, qualquer lugar é melhor que a tua zona de conforto.

Deixas para trás o teu Passado, os teus Antepassados. Desistes daquele que era para ser o teu Futuro.

Não há Futuro. Não assim.

Qualquer Coisa é melhor que Isto.

E levas o quê, contigo? Umas mudas de roupa, de certeza. Comida e dinheiro, o que ainda sobrar. E mais? Entre o pouco que sobra e o que é prático levar. Provavelmente nunca mais vais ver a tua casa, não sabes se alguma vez voltarás a ver as pessoas que costumavas ver todos os dias. Levas o quê?

Levas fotografias.

Levas as histórias que guardas na tua cabeça e no teu coração - muitas delas começam com uma fotografia. A festa de anos do teu irmão, o casamento da prima, as férias em família, primeiros passos, almoçaradas em família, os colegas da escola, sorrisos sinceros e sorrisos ensaiados, momentos que por qualquer razão pediram para ser eternizados no papel. Instantes congelados numa imagem... que conta muito mais que a própria imagem, que é só o ponto de partida para mil histórias, e lembra pessoas queridas, momentos especiais, atitudes, sentimentos, sensações.

:(

Agora a sério:

O momento que mais me marcou na semana passada em Assos, cuja publicação - peço desculpa - tive de suspender por uns dias, resulta mais ou menos de um exercício como este que te propús fazer.

Passo a explicar o que aconteceu, então.

Estava na tal plataforma sobre o mar quando reparei no que parecia lixo a boiar. A água aqui é limpíssima e muito transparente, por isso aquela concentração de papéis pareceu-me muito invulgar. E porque o mindset já estava muito virado para esta questão, lembrei-me logo dos refugiados.

"O que será aquilo?", perguntei à Bahar.

"Espero que não sejam fotografias", foi a resposta.

Na água estavam duas miúdas a fazer snorkeling, a Bahar chamou-as e pediu que fossem ver o que era aquela papelada toda que a corrente trazia. Pouco depois, com alguns dos papéis nas mãos, as miúdas gritaram:

"São fotografias!"

Trouxeram-nas para a plataforma, juntaram-se outros turcos à nossa volta, todos de férias como nós, e imediatamente perceberam que as pessoas nas fotos não eram seus conterrâneos:

"São sírios", explicou-me a Bahar apontando para pormenores como a roupa, a decoração das casas, etc. Tínhamos quatro ou cinco fotos à nossa frente, numa apareciam uns vinte miúdos a posar com a professora, outra era de uma miúda toda arranjada a posar no jardim, e noutra um pai com uma criança ao colo. Alguém perdeu estas suas memórias, com a pressa de agarrar um futuro incerto. Terão caído por acidente, terão sido atiradas por alguém?

Seja como for, alguém perdera esta ligação com o Passado.

Atirei-me à água e consegui recuperar mais umas trinta. Um turco fez o mesmo e trouxe vinte-e-pouco. Deixámo-las a secar ao sol, e ao longo da tarde foram aparecendo mais - apanhámos as que conseguimos.

Juntámos ao todo oitenta e duas fotos.

Que sensação: tentar descortinar as histórias por trás de cada uma. De repente, todos os que estávamos naquela plataforma partilhámos a mesma tristeza, a mesma solidariedade. Praticamente sem trocar uma palavra, todos percebemos que este Passado perdido, esta última lembrança...

...estas fotos têm de voltar à pessoa que as trazia.

Passei o resto da tarde a olhar para o mar, não sei se à procura de mais alguma foto, ou se simplesmente a tentar imaginar o que será perder a única ligação física com o passado, depois de largar tudo e ir atrás de uma vida nova, de uma segunda oportunidade.




Decidimos guardar num lote único, para não ficarem divididas entre vários. Oitenta e duas fotos. A Bahar trouxe-as para casa, digitalizou-as e conseguiu que o Hurriyet, um dos principais jornais turcos, as publicasse numa reportagem de capa no passado Domingo. E na quinta-feira (amanhã) sai uma reportagem em Portugal, na revista Sábado.

Queremos encontrar forma de tornar isto viral, de fazer chegar esta boa notícia a quem provavelmente chorou pela sua perda. Um dia destes, pode ser p'rá semana ou daqui a dois meses ou daqui a três anos - mas um dia, estas fotos vão encontrar o "caminho de volta". E hão-de voltar a provocar um sorriso, uma lágrima, uma gargalhada. Saudade.

3 comentários:

Clara Amorim disse...

Incrível, este teu testemunho!!! Mais um... :)

Joaninha disse...

tou com um aperto no coração...
nem consigo imaginar

Maria Fernanda Vassalo disse...

muito triste mas ao mesmo tempo bonito.
Tia M