06/10/2015

A SENHORA DO LADO DIREITO E O RAPAZ DO LADO ESQUERDO

O voo de Kuala Lumpur para Yangon demora apenas duas horas e meia - nada de especial, comparado com as maratonas que às vezes faço entre Europa e Ásia.

Mas, curiosamente, a viagem de ontem à tarde provou-me que duas horas e meia podem custar muito mais a passar do que seis, sete ou vinte horas.

Tudo começou quando entrei no avião e reparei que o meu boarding pass indicava o lugar 16B, ou seja, ia ficar sentado no meio de uma fila. Nem à janela, nem à coxia. Estranhei, porque normalmente na AirAsia marco sempre o lugar quando compro o bilhete. Sendo uma lowcost, tem um custo acrescido - mas é tão barato que prefiro dar mais um bocadinho e garantir um lugar à janela, para assim encostar a cabeça e dormir um pouco. No entanto, fosse por erro da companhia ou por distracção minha, desta vez não tinha um lugar à janela. E como o voo vinha completamente cheio, decidi não chatear a hospedeira (e ainda bem, porque quando cheguei a casa fui confirmar na reserva e realmente o erro tinha sido meu).

Enfim: lugar ao meio.

Mas podia ser pior. Podia ser na Iberia, ou na Lufthansa - e então ter de me encaixar sabe-se lá com que ginásticas e malabarismos, passes de mágica e truques de contorcionistas. Na AirAsia costuma haver respeito pelas pernas dos passageiros.

Continuando: sentei-me.

Do meu lado esquerdo, junto à janela, vinha um rapaz de 26 anos chamado Chit Ko Ko, que depois de oito anos a trabalhar como chef num restaurante chinês na Malásia, voltava finalmente a Yangon, onde a família o esperava para uma nova vida. Queria casar-se com a namorada que não via desde miúdo, queria votar nas eleições que aí vêm e fazer parte da mudança que sonha para o seu país, queria vir à janela e pagou mais por isso, porque era a primeira vez que viajava de avião. Suponho que, na ida da Birmânia para a Malásia, há quase uma década, tenha ido por terra. Ilegal, claro.

"Não vais reconhecer o teu país", disse-lhe. "Está muito diferente, vai ser um choque."

E o sorriso dele aumentava, de cada vez que lhe falava das mudanças no "seu Myanmar".

Do lado direito, na coxia, vinha uma senhora dos seus sessenta. De boné branco, com o nome de uma marca de remédios, a condizer com um polo roxo com o mesmo logotipo e um saco dourado igual. Vinha de uma espécie de congresso, ela e mais umas cinquenta pessoas, tinham estado em KL para um encontro - estão a ver o cenário. Todos mais-ou-menos vestidos de igual, com os mesmos brindes e sempre a rir, espírito de grupo depois de uns dias de teambuilding. Provavelmente ficaram num daqueles hotéis gigantes para grupos, onde comeram e beberam e fizeram a festa; provavelmente houve discursos e cantoria, algumas bebedeiras, muitas histórias trocadas, um tour organizado de autocarro às Petronas e às Batu Caves. Bem pintada, a senhora: sempre impecável, com a carteira pousada no colo mal se sentou - e com uma espécie de inquietação que, apesar de relativamente discreta, tinha um potencial enorme de se tornar irritante.

Estávamos ainda na pista quando a Senhora do Lado Direito começou a conversar com o Rapaz do Lado Esquerdo. Claro que não entendi nada do que diziam, pois falavam em birmanês. Mas depressa me apercebi do conteúdo, quando a senhora começa a passar ao rapaz (ou seja, à minha frente) frascos de comprimidos e saquinhos com sei-lá-o-que lá dentro.

Não se calava.

Eu sorri com o insólito da coisa, os dois em amena cavaqueira e eu no meio, respirei fundo e contei até dez, "isto é só um bocadinho, eles já se calam."

Mas não.

O avião entrou na pista e não se calaram, eu peguei na revista e fingi estar a ler - e não se calaram. Comecei a abanar o passaporte, a segurar no banco à minha frente, a mexer-me e a "ocupar" o espaço entre eles para dar a sensação que estava nervoso... mas não se calaram. Prego a fundo, agora é que não consigo sair daqui, vou esperar por estarmos lá em cima e depois tenho de sair deste lugar, não posso viajar assim, com esta irritação em estéreo, são duas horas e meia, vou dar em maluco.

Não se calaram.

Ou seja: chegados a cinco mil metros, ou seja lá a que altitude estávamos, eu voltei-me para a senhora e, interrompendo o longo monólogo com um sorriso, perguntei-lhe se não queria trocar de lugar comigo.

"Não."

"Mas se calhar é mais prático trocarmos de lugar", insisti sempre a sorrir.

"Porquê?"

E aqui o sorriso diminuiu ligeiramente, mas juro que estava a achar piada à situação, por isso nunca fiz "cara feia":

"Porque estão os dois em alegre conversa, e sinceramente para mim é um bocado desconfortável estar no meio."

"Queres descansar?", perguntou o rapaz.

"Sim."

Ao que a senhora acrescentou:

"Mas uu não quero trocar de lugar."

E dito isto, o meu sorriso esmoreceu e então deixei bem claro:

"Okay, então por favor deixem-me descansar agora."

Note-se ainda que tinha passado a noite a acompanhar as eleições e o futebol, ou seja, não tinha muitas horas de sono. Estava realmente cansado.

Fechei os olhos e deixei-me relaxar. A situação tinha tanto de cómico como de trágico. Não estava especialmente irritado, apesar de ter motivos para isso. Mas estava, como se diz no Norte e como diria o Almodovar, "à beira".

Nem dois minutos passaram, quando a senhora voltou ao ataque. Primeiro a falar baixinho, o que (agora admito) começou a irritar-me. Mas não abri os olhos. Pode ser que não seja nada, pensei. Mas não era. E muito rapidamente o murmúrio deixou de ser murmúrio e lá estava ela a vender a merda dos comprimidos, desculpem-me o francês mas era assim mesmo. O rapaz praticamente nem respondia, e quando abri os olhos sorriu timidamente como que a dizer "eu não tenho culpa".

Virei para a senhora um olhar cheio de facas apontadas - e ela calou-se e fingiu que não era com ela.

Fechei os olhos - e recomeçou imediatamente a falar.

"Really?", disse eu em voz alta, já a passar-me.

"Mas porque é que não trocas com ele?", respondeu-me a Senhora do Lado Direito a apontar para o Rapaz do Lado Esquerdo.

"Eu quero ir à janela, é a primeira vez que voo, quero ver o meu Myanmar."

E eu no meio.

"A senhora é que está a falar com ele, troque comigo se quiser continuar. Senão, por favor respeite o meu espaço. Tenho duas pessoas a falar aos meus ouvidos, uma de cada lado."

E apesar de poder dar a sensação de estar irritado - e estava - a verdade é que consegui dizer isto tudo a sorrir, mais pelo insólito da conversa do que propriamente pelo espírito da coisa.

Entretanto apareceu a comida. Acabámos por conversar um bocadinho os três, enquanto comíamos. O Rapaz do Lado Esquerdo não tinha encomendado nada (paga-se à parte, claro) por isso tanto eu como a Senhora do Lado Direito partilhámos as nossas refeições com ele.

Ela até era simpática, muito educada e visivelmente feliz e apaixonada pelo que fazia. Mas vender o produto, em birmanês, aos meus ouvidos - há limites.

Finda a refeição, deixei claro que "agora quero descansar" e fechei os olhos. Calaram-se os dois, finalmente, adormeci e até sonhei, passou-se uma hora até que começo a ouvir uma música rock. Abro os olhos: tenho um telemóvel à frente da cara. É a Senhora do Lado Direito que o segura, mostrando ao Rapaz do Lado Esquerdo o filme que fez da banda rock birmanesa a actuar no jantar da empresa.

A sério?!

Devo ter-lhe feito uma cara de tal forma ameaçadora que a Senhora do Lado Direito se levantou sem dizer mais nada - e foi ter com os outros do boné branco com o logotipo. o Rapaz do Lado Esquerdo sorriu e encostou a cabeça ao banco da frente, eu fechei os olhos outra vez e deixei-me adormecer... mas por pouco tempo.

De repente, senti o ar aquecer do Lado Esquerdo, primeiro no braço e depois no pescoço. O que é isto? Abri os olhos e inspirei ao mesmo tempo, imediatamente o meu corpo sofreu uma convulsão e virei a cabeça para o Lado Direito. Oh não.

O gajo tinha-se peidado.

Mais uma vez: desculpem lá qualquer coisinha, eu nem sou de descrever nestes termos as coisas à minha volta, quem me acompanha sabe disso. Mas hoje não estava para grandes floreados.

A sério?!

E não foi uma, nem duas, nem três. Felizmente a Senhora do Lado Direito tinha ido embora e eu já tinha o corpo todo inclinado para o lugar dela, cheio de nojo do cheiro mas principalmente de sentir aquele ar quente a tocar-me.

Mas este avião nunca mais chega ao seu destino?!

Quantas horas passaram desde que saímos de Kuala Lumpur? Uma e meia? Sete? Oito? Duzentas?!

Deixem-me sair daqui. E entretanto a Senhora do Lado Direito voltou e tive de corrigir a postura, mas felizmente o ar tinha arrefecido e assim permaneceu. Pouco depois o Rapaz do Lado Esquerdo pediu desculpa, deixem-me passar, preciso de ir à casa-de-banho.

Ai precisas, precisas.

E pouco mais aconteceu. Mal voltou da casa-de-banho anunciaram que estávamos a chegar a Yangon, não-sei-quê dos cintos, não-sei-quê dos aparelhos electrónicos, não-sei-quê dos tabuleiros, o costume.

Isto do tempo é uma coisa muito relativa. Às vezes duas horas custam muito mais a passar do que seis. Vá-se lá entender ;)

Ou como me disseram no outro dia:

"Os anos passam a correr. O pior são os dias."

2 comentários:

Clara Amorim disse...

desculpa, Jorge, mas esta história fez-me dar umas valentes gargalhadas!!! ;)

Maria Fernanda Vassalo disse...

só o Jorge para descrever tão pitorescamente a situação. Fartei-me de rir.
Bj
Tia M