19/07/2012

ESTA CIDADE DE SURPRESAS


A 3ª cidade desta série de 11 que marcaram o meu 2011, foi também uma das mais agradáveis surpresas do ano.

Fui pela primeira vez à Índia em 2003, e voltei quase todos os anos desde então. Tive inúmeras oportunidades de ir a Calcutá - mas fosse porque as minhas voltas acabavam por se desviar desta parte da Índia, ou porque os meus amigos de Bombaim quase me proibiam de lá ir - a verdade é que fui adiando... adiando...

...e só em 2011, com o pretexto de ir dar uma volta no Nordeste da Índia e de ver o festival Durga Puja, é que fui finalmente à cidade a quem chamam de "capital cultural" da Índia.

A volta no Nordeste acabou por se resumir a uma breve estadia em Darjeeling, por causa de um violento sismo em Sikkim - e quase sem querer, acabei por ficar mais tempo que o esperado em Calcutá. Nesta cidade celebrei os meus anos - com direito a festa-surpresa e tudo! - e além das visitas-cliché ao Victoria Memorial e ao Museu de Não-Sei-o-Quê (não me lembro do nome, podia googlar mas não me apetece), o que mais me marcou aqui foi o ritmo, a comida, os mercados, as ruas com água quase até aos joelhos quando caía uma chuvada mais intensa... e claro: a Durga Puja.

A Durga Puja foi um dos momentos-altos das minhas voltas do ano passado. Mas deste festival falarei num futuro próximo. Ficam, por isso, algumas fotos da cidade-surpresa, para onde já tenho regresso marcado este ano :)











18/07/2012

HOJE EM MOSCOVO


Peço desculpa pela interrupção, mas já que estou em Moscovo: tenho de partilhar este momento que vivi hoje. Não é nada de extraordinário, mas tem algum simbolismo e quis partilhar.

Se qualquer forma: o blog é meu, por isso quem manda sou eu. ;)

Depois do  encontro com a reencarnação do António Variações nas profundezas do metro de Moscovo, subi as escadas rolantes e atravessei átrios decorados com candelabros dourados e madeira escura, estátuas de soldados e camponeses, a foice e o martelo por todo o lado, o alfabeto cirílico em avisos oficiais e proibições, capas de jornais, publicidade, sinalética.

E como se atravessasse um portal mágico para outra dimensão, quase tudo se desvaneceu assim que saí para a rua. Fui bombardeado com flyers e pregões, o sol fez-me baixar o olhar e dei de caras com um passeio alcatroado, como é costume em Moscovo, o chão pintado com publicidade a restaurantes indianos, empresas de mudanças, sex shops, programas de televisão - tudo se vende, em todo o lado.

Ainda atordoado com o choque entre o subterrâneo-soviético e o exterior-capitalista, quase fui albarroado por um casal de namorados florescentes em patins em linha, ela de mini-saia e um top com a foto da Lady Gaga, ele de jeans rasgados e uma t-shirt a dizer IBIZA.

No ar ouvia-se um som disco dos anos 70, debitado das colunas de som de um centro comercial com ecrãs LED a brilhar com publicidade a jóias e carros. Cruzei-me com um polícia vestido à teledisco do Nikita, do Elton John - mas a falar ao telemóvel. Parei no semáforo e passou uma limousine branca Hummer com música electrónica aos berros e um casal de noivos sorridentes, e atrás uma comitiva de convidados barulhentos e claramente bêbados.

E quando atravessei a estrada, a minha barriga lembrou-me a longa viagem de avião em que praticamente não comi, e a manhã toda em quase-jejum.

Precisava de comer.

Inicialmente apontara a minha atenção para a gastronomia russa, queria comer qualquer coisa local - mas tudo o que vi era caro, ou não captou a atenção do meu rabujento estômago. Rodeado de estímulos capitalistas, cedi - e decidi procurar um McDonald's. Quero lá saber. Quero lixo. Quero encher o bandulho. E três Starbucks depois... sai um Rus Burger?!


Isso mesmo. Rus Burger. O Hamburger russo. Querias local, não querias?
Eu não comi um hamburger gigante com queijo e salada ao almoço. Não comi batatas fritas cheias de sal e óleo. Eu comi um simbolo. Hoje, almocei numa cadeia de hamburguers russa. E viva o capitalismo! ;)

Antes que me esqueça: estou orgulhoso de mim mesmo. Este ano gravei o mapa do Metro no iphone. De telefone em punho e atenção redobrada, consegui safar-me... sem me perder. Não que tivesse vacilado aqui e ali - e houve momentos em que acreditei, embora que muito brevemente, que me tinha perdido - mas o que fica para a História é: não me perdi. É a minha pequenina vitória do dia.

ESTA CIDADE DE SUPERLATIVOS


Eu vi o António Variações, hoje de manhã. Estava a subir as intermináveis escadas rolantes do metro... não estou a brincar: vi-o mesmo. Eu sei que o senhor já morreu. Mas vi-o. A barba, o olhar - até a roupa. Era ele.

Eu vi o António Variações, ou a sua reencarnação, um moscovita de 30 anos com ar de desportista de anúncio vintage.

E o que tem o António Variações russo a ver com as minhas 11 cidades de 2011? Nada.

Mas Moscovo (onde cheguei hoje - e onde o vi) tem. A cidade onde acabo de aterrar é uma das 11 que mais me marcou no ano passado. Foi daqui que parti na louca aventura do Transiberiano, sem dúvida um dos momentos altos de 2011 - e que vou repetir agora, com um grupo da nomad.

Moscovo é uma cidade de superlativos. Ruas, edifícios, portas e sinos de igrejas - tudo aqui é XL. A capital da Mãe Rússia tem quase tantos habitantes quanto Portugal inteiro. Fundada em 1147, tem hoje cerca de 40 por 30km. Diz quem cá vive, que é a 5ª maior cidade do Mundo. Tem 5 aeroportos, 9 estações de comboio, 2 portos fluviais - e 160 estações de metro (!), num total de 260km de linhas subterrâneas. Tem mais de 60 museus, 200 igrejas e inúmeras galerias, salas de teatro, circo e concertos... uma oferta cultural de fazer inveja!

E por muito cosmopolita que seja, por muito "pra frentex" que pareça, Moscovo ainda tem tiques dos "velhos tempos". A foice e o martelo estão por todo o lado, o património arquitectónico, os semblantes carregados e duros, as garrafas de vodka nas mãos de quem passa na rua.

Ficam algumas fotos - vou dar uma volta até ao Kremlin, faz um ano que cá estive e quero tirar umas fotografias à Catedral de São Basílio. A ver se não me perco no metro ;) 













17/07/2012

ESTA CIDADE QUE NÃO CONSEGUE ESTAR SOSSEGADA




Amo esta cidade que não consegue estar sossegada. Tem múltiplas personalidades, é hedonista e esquizofrénica, orgulhosa e ao mesmo tempo tímida; fértil em fantasias e tradições, tão desejosa de as realizar e perverter, adaptar e impôr - de viver.

Amo esta cidade que é um encontro, é um beijo entre dois continentes, uma celebração dos abraços e das cotoveladas do tempo, de contradições e confirmações. Esta cidade onde um motoqueiro vestido de cabedal e caveiras pára a sua Harley Davidson numa ponte do Corno Dourado, saca de uma cana de pesca e fica duas horas a fitar a água, partilhando o espaço e o ritual com velhotes solitários, barrigudos desdentados acompanhados da aborrecida esposa que trata de todos os preparos, trintões betinhos acabados de vir do escritório, equipados dos pés à cabeça com o kit-decathlon mais profissional.

Esta cidade que não tem definição, que não cabe em dicionários, que não tem lugar no tempo. Esta cidade com vários nomes, de alcunhas e fama, de gente na rua e rua na gente, de abraços quentes e frios sorrisos. Amo esta cidade de gatos gordos e gordos grafittis, de 7 colinas que não são 7, provavelmente são 77, que mais parecem 777. E todas tão inclinadas quanto a “perninha” deste 7.

Esta cidade que não consegue estar calada. De música a vir de dentro de casa, quando estamos na rua; e música a vir da rua, quando estamos dentro de casa. De sirenes de navios e o choro das gaivotas, a fazer serenatas ao Bósforo; de gritos de contestação na Istiklal Caddesi; de chamamentos à oração a ecoar nas esplanadas; de vendedores ambulantes a apregoar qualidades e preços.

Esta cidade que desabafa e “manda vir”, contesta ódios e confessa amores, conta segredos e dá opiniões – que gosta de conversar através de mensagens escritas nas paredes, capas de jornais, slogans de publicidade, frases estampadas em t-shirts, refrões cantados em troco de umas moedas. Esta cidade em que sentar-se à mesa para comer é só uma desculpa para beber, que é só uma desculpa para estar com os amigos. Nesta ordem.



Da janela do meu quarto, vejo a Torre de Galata. Durante o dia: um ponto de exclamação no desarrumado horizonte de prédios, terraços e minaretes, nesta cidade de convictas dúvidas e certezas efémeras. De noite: uma lótus dourada a crescer num pântano de trevas, que brilha e contagia tudo o que se aproxima. A sério: as gaivotas que à noite voam à volta da Torre de Galata, são de ouro.

Da janela do meu quarto, oiço uma carrinha a parar na rua em frente, oiço um altifalante a debitar palavras que não entendo. Espreito, só para assitir ao espectáculo. Noutras janelas de outras casas, aparecem donas-de-casa a fazer pedidos, lá-de-cima cá-para-baixo, é meio quilo disto e mais duas embalagens daquilo, litro e meio e não-sei-quantas gramas, e atiram baldes e pequenos alguidares amarrados a cordas, que descem depressa e vazios e sobem devagar – cheios.

Da janela do meu quarto vejo os cruzeiros ancorados em Karakoy, a vomitar turistas de pele e roupa clara, desorientados, curiosos, excitados, amedrontados. Máquina fotográfica em riste, autocolantes coloridos na lapela, para não se perderem uns dos outros, follow me, diz o guia de chapéu de chuva em riste, venham ver a Santa Sofia, venham ver a Mesquita Azul, e entre esquemas para vender tapetes, postais vendidos a preço de enciclopécia… isto é muito mais moderno do que eu pensava, é muito mais europeu.

Da janela do meu quarto, eu vejo Istambul.

















Istambul é só a primeira de 11 cidades que marcaram o meu ano passado. Nos próximos dias, vou publicar as outras.

16/07/2012

11 CIDADES

Neste tardio balanço de 2011, seleccionei as 11 cidades que mais me marcaram ao longo do ano - e vou finalmente partilhar, ao longo desta semana, algumas fotografias e impressões sobre cada uma, sem nenhuma ordem ou lógica de publicação. A não ser a primeira.

A cidade que mais me marcou, aquela que mais memórias deixou - e onde, curiosamente, passei mais tempo - é a primeira das 11 cidades a ser "revelada". Amanhã.



Adoro esta cidade que não consegue estar quieta.

15/07/2012

ISTO É



Isto é o que acontece quando se desenham linhas num mapa-mundo, cada linha é um voo - todos os voos de 2011.

E depois: apaga-se o mapa-mundo.

13/07/2012

6ª, 13


Superstições à parte: hoje, mais do que sorte ou azar, sinto que é um dia de números.

Depois de ter escrito o post de ontem, decidi fazer contas às voltas do ano passado. Soma distâncias e tempos, multiplica por emoções, divide aqui e subtrai ali - e com a matemática dos dias, veio uma vontade enorme de rever fotografias e lembrar pessoas e histórias.

A meio dessa viagem por paisagens e sorrisos registados, encontrei um álbum perdido. Um álbum inacabado: uma colecção de fotografias que era para ter publicado no facebook, no início de 2012, e que - lá está - por causa das correrias e (in)disponibilidades, acabou por ficar esquecido. Um dia destes.

Um dia destes - é hoje. Sexta-feira, treze. Nem sorte nem azar.














(capa do álbum eleven, que ficou por publicar)

Assim sendo, enquanto dou alguns retoques finais e ponho em ordem as fotografias - que vou publicar aqui no blog - partilho hoje algumas conclusões da matemática feita às voltas, reviravoltas e correrias do costume.

Catch me if you can! ;)

Em 2011 passei por 13 países, incluindo o "nosso" Portugal.
Ou como eu gosto de lhe chamar: o Rectângulo.

Voei um total de 162 horas (sem contar com tempos de espera no aeroporto), o que, noves-fora-nada: dá uma semana inteira no ar.
Foram 39 voos.

O país onde passei mais tempo foi a Índia.
Aquele onde estive menos tempo foi a Ucrânia.

A Malásia foi o país onde fui mais vezes - 6 vezes. O que é normal, visto que Kuala Lumpur é a minha base nas voltas do Sudeste Asiático.

Em 2011, fui a 4 países onde nunca tinha ido antes: Geórgia, Ucrânia, Mongólia e China.

Fica então uma lista dos 13 países visitados, ordenados pelo tempo passado em cada um.




















Nota: Os 5 dias que faltam para completar 365 (um ano) foram passados "em trânsito".

12/07/2012

FUI DAR UMA VOLTA... E OUTRA... E OUTRA...


...e por aí fora - tem sido uma correria, ultimamente. Voltas e reviravoltas, contravoltas e abracavoltas. Uma montanha russa de partidas e regressos, de sensações a mil, de mil emoções.

Não me estou a queixar - nem pensar nisso. Mas o blog, sim. O blog tem aparecido nos meus sonhos ultimamente, sob a forma de uma sereia ruiva que me fala em línguas várias, eu não entendo nada do que diz mas felizmente estes sonhos são legendados - os meus sonhos são assim.

A sereia-blog diz-me coisas do género "tu já não me ligas nenhuma", "andas aí nas tuas voltas e já não queres saber de mim", "se calhar até já tens outro blog, provavelmente andas-me a enganar" - e depois faz beicinho e juro que apesar dos cabelos ruivos, faz-me lembrar uma actriz de Bollywood... como é que ela se chama... Bipasha Basu.

Eu não resisto.

A Bipasha Basu de cabelos ao vento, a fazer beicinho.

E depois acordo a suar, tem sido assim este mês e o outro antes, a pensar que tenho de dar mais outra reviravolta, mas uma reviravolta diferente - tenho de continuar a escrever no blog, ser mais disciplinado. Lá porque não paro quieto, não quer dizer que não possa dedicar todos os dias alguns minutos à minha sereia indiana de cabelos ruivos. Hmmm. Ao meu blog.

Assim seja: onde é que nós íamos?

Saigão.

Íamos no relato de mais uma aventura pela Indochina com um grupo nomad. A viagem entretanto acabou. Acabou no Laos, depois de passar no Vietname, Cambodja e Tailândia. O grupo voltou para Portugal e eu fiquei para o Ano Novo Lao, em Luang Prabang. Viajei mais quinze dias neste país de sorrisos e sticky rice, depois fui dar uma volta à Indonésia e outra à Malásia. A caminho de Portugal fiz uma paragem de 4 dias em Paris. Um mês em "casa" e lá voltei à aventura dos grupos, mas desta vez na Turquia - e aqui estou, em Istambul, quase-quase de regresso a Lisboa. Mas por pouco tempo, porque a meio da próxima semana sigo para Moscovo, onde vou receber o primeiro grupo nomad da viagem "Transiberiano". Uff!

Este jovem (eu) não pára.

E o blog, esta bonita sereia com sorriso de actriz de Bollywood, também não. O fuidarumavolta pode às vezes fazer umas pausas, pode às vezes perder-me o rasto... mas está sempre aqui.

Amanhã conversamos mais. ;)