07/10/2014

O PIOR TIMING POSSÍVEL

PARTE 1: A ESPERA

"Muitas vezes ao partilhar algumas das peripécias por que passo, faço um esforço para lhes emprestar algum humor, ironia e emoção, quando no próprio momento em que aconteceram só queria estar bem longe dali."

"Sim, eu sei o que é isso: olhar para trás e revisitar alguns desafios mais complicados, ou processos mais chatos, seja em viagem como na vida em geral, é um exercício de criatividade interessante... de preferência, com a distância necessária para podermos rir de nós próprios e do instante."

"O mais difícil, mas também o mais importante, é termos consciência disso no momento e tirarmos partido da experiência."

Estávamos há duas horas sentados no muro de um viaduto, à espera de um autocarro que nunca mais chegava, a filosofar sobre viagens e a vida - eu, o Ahmed e o Omar, dois egípcios que acabara de conhecer e que também iam para as ilhas Perhentian.

"Temos de conseguir ver o lado positivo deste atraso," continuou o Ahmed, que vive em Kuala Lumpur e também tem um blog de viagens, "por um lado, se não fosse esta confusão toda não nos teríamos conhecido; por outro, se o autocarro saísse a horas chegávamos ao nosso destino às cinco da manhã, e quase de certeza teríamos de ficar à espera duas horas pelo primeiro barco."

As coisas que uma pessoa diz.

Nem sonhávamos a epopeia que nos esperava.

Mas voltemos um pouco atrás no tempo, para dar um contexto mais completo ao drama.

Comprara, a meio da tarde, o bilhete de autocarro para Kuala Bhesut, a terrinha de onde parte o barco para as ilhas Perhentian, onde planeara ir passar o fim-de-semana.

Entretanto também combinara ir jantar com um amigo ao KLCC, o centro comercial que fica por baixo das Torres Petronas, mas como estava um trânsito infernal (por causa da chuvada típica das quatro e meia e porque metade da cidade estava de partida para o fim-de-semana grande com a família), alterámos os planos e combinámos jantar perto da estação de autocarros, assim eu não corria o risco de chegar atrasado.

Sete da tarde: a chuva tinha parado de cair há meia hora. Saí do hotel, depois de duas corridas à casa-de-banho. Sim: estava de caganeira (desculpem-me o francês mas não tem outro nome) e tendo em conta que ia passar oito horas num autocarro, o cenário não me parecia nada favorável. Engoli um Imodium, paguei o quarto e deixei a mochila grande na recepção. Vou estar fora quatro dias, não há necessidade de levar tudo comigo.

Respira fundo, Jorge. Vai correr tudo bem.

Ai vai, vai.

Fui a pé até à estação de Masjid Jamek e de metro até ao Putra World Trade Center, que é um pulinho até à Putra Station. O bilhete que tinha no bolso dizia que o autocarro partia às dez da noite, mas o rapaz que mo vendeu pediu-me para vir antes das nove e meia, por segurança. Apesar de que "hoje deve sair um bocadinho atrasado, por causa do trânsito".

Stuck in jam, I will be late.

dizia o SMS que recebi quando cheguei à estação. Eram oito horas. O meu amigo chegou às oito e meia, jantámos meio-a-correr e pouco depois das nove estávamos na estação.

Caos.


Nas estrada do lado fora da estação: dezenas de autocarros em fila, segunda fila, terceira fila. Milhares de pessoas a chegar, a entrar e a sair, a depedir-se, à espera, à procura, a tirar selfies, a enviar mensagens.

Vai ser uma noite longa, pensei.

Mal imaginava quanto.

Lá dentro: era tanta a confusão que os autocarros nem entravam. À medida que as pessoas se "apresentavam" ao balcão da respectiva agência com o bilhete, mandavam-nos esperar em determinado espaço da estação, e quando se reunia um grupo considerável, aparecia alguém para os levar para algum lado.

Assim foi comigo. Juntei-me a um grupo e quando apareceu o tal facilitador, despedi-me do meu amigo, que com uma paciência santa aguentara comigo aqueles primeiros minutos. Segui a camisa às riscas azuis e amarelas pela estação, subi vários lances de escadas e atravessei corredores, parques de estacionamento, uma estrada, mais uns degraus - a estação estava já longe, ou assim dava a sensação - e chegámos à parte de cima de um viaduto.

Que confusão.

Por baixo passava uma autoestrada - cheia de carros num lento pára-arranca de faróis e farolins, acende-apaga, é preciso paciência, é preciso saudades. Tanto caos por um fim-de-semana de três dias.

Mesmo à nossa frente, o prédio do partido do Governo, um edifício todo coberto de LEDs onde passavam mensagens patrióticas, a bandeira nacional da Malásia, propaganda política e até publicidade a uma estação de rádio.

Mostrei o meu bilhete a um homem que andava de um lado para o outro, aparentemente a coordenar autocarros, passageiros, tensões e expectativas - disse-me para esperar. E no meio de todo este caos, reparei em dois rapazes de mochilas às costas, que claramente não eram locais, a perguntar (em inglês) pelo autocarro deles. Fui tentar ajudar, pareciam-me um bocado atrapalhados, mas afinal um deles até estava a viver em KL e sabia falar a língua local. Iam, como eu, para a Perhentian, mas o bilhete deles só os levava até Kota Bharu, que fica a uma hora de Kuala Bhesut, onde se apanha o barco para as ilhas - e para onde eu ia, teoricamente. Tinham comprado o bilhete há quinze dias, já estava tudo esgotado nessa altura - eu conseguira, por sorte, vaga num suposto autocarro extra. Eles estavam a tentar trocar os bilhetes deles por dois lugares no meu autocarro.

Começámos a falar, disseram-me que eram do Egipto.

"Egypt, really? I was there just a few days ago!"

E assim se iniciou uma conversa de mais de duas horas, enquanto esperávamos pelos respectivos autocarros. De vez em quando levantávamo-nos para ir pressionar o homem que coordenava as operações, mas só para "marcar presença", sem stress porque cedo percebemos que não ia resolver nada stressar. A situação estava absolutamente caótica, aos poucos as pessoas iam sendo encaminhadas para diferentes autocarros, que paravam na estrada e deixavam ocupar as vagas que tinham. Aos poucos.

Já agora, passo a apresentar os meus futuros companheiros de viagem:

Um chama-se Ahmed (o que só confirma a minha teoria de que 50% dos egípcios responde por este nome), vive na Malásia há sete anos, desenvolve aplicações para telefones e escreve um blog de viagens. O outro chama-se Omar, é primo do primeiro, vive no Cairo mas está a viajar na Malásia.

Rapidamente começámos a partilhar ideias e histórias; falámos sobre a Nomad e sobre uma agência que está a tentar fazer algo parecido no Egipto; ele contou-me ainda sobre uma portuguesa que esteve a viver em KL e que agora voltou para Portugal, onde lançou uma startup de turismo com uma vertente social e ambiental. Falámos sobre o Egipto, claro. Sobre Portugal, a Malásia, a Índia e meio-mundo. Inglês fluente, interesses em comum: isto só podia dar bom resultado. E eu ainda a "ressacar" a viagem ao Egipto.

O destino tem umas voltas engraçadas, hem?

Mas voltemos às peripécias da noite.

Depois de algumas falsas partidas, depois de mudarmos de posto de espera duas ou três vezes, e de várias mensagens trocadas com os meus amigos de KL a partilhar a minha frustração com a demora... finalmente o homem gritou sabe-se lá de onde e quando o vimos ao fundo do viaduto fez-nos sinal para que o seguíssemos.

Faltavam dez minutos para a meia-noite. Tinham passado cinco horas desde que saíra do hotel. Duas horas e meia desde que nos tinham levado para o viaduto.

"Finalmente!", disse o Ahmed.

"Finalmente!", disse o Omar ao mesmo tempo que o primo.

"Finalmente!", repeti eu baixinho sem saber se este era também o meu autocarro, pois teoricamente não iamos no mesmo. Mas segui-os. Não me apetece nada ficar aqui sozinho mais duas horas e meia.

Acabara a espera - finalmente!

Mas o verdadeiro drama estava só a começar.

3 comentários:

Francisco Telles disse...

Uau, essa estação Putra onde estavas é exactamente ao lado do prédio onde vivi em KL, mesmo ao lado de um gigante centro comercial em obras, right? E lembro-me bem desses engarrafamentos de pessoas e buses todos os dias!ahah Curioso que tenhas visto o mesmo ponto de fuga em forma de caracol na passagem por cima da linha de comboio, tenho uma foto igual! Grande abraço e fico à espera da segunda parte da aventura!

Minan disse...

estou à espera da continuação!!!
Beijinho
tia Minan

Clara Amorim disse...

Atentos? Claro!!! Acho que pelo andar dos autocarros vamos ter ainda pano para mais 3 ou 4 partes! ;)