08/04/2020

[VM80] VARANASI

VOLTA AO MUNDO EM 80 VOLTAS

#01


Senhoras e senhores, apertem os cintos de segurança e segurem-se bem aos vossos lugares, porque esta Volta ao Mundo começa num lugar mirabolante, mais intenso que uma montanha russa, mais incrível que um número de acrobacia e malabarismo do Cirque du Soleil. Este lugar desafia todas as noções, ideias e conceitos. Este lugar não deixa ninguém indiferente.

Chama-se Varanasi mas já foi Kashi, Banaras e Benares - e, diz-quem-sabe, foi fundada por Shiva (o próprio!). É também o berço do Budismo, pois foi nesta zona que o Buda deu o seu primeiro sermão. Os hindus têm-na como a primeira de sete cidades sagradas na Índia (Sapta Puri), e acreditam que ao banharem-se aqui, nas águas do Ganges, se pode atingir o Moksha - a libertação do ciclo de morte e reencarnação.









Por conta de vários achados arqueológicos feitos na cidade e arredores, é historicamente aceite que Varanasi existe como aglomerado urbano há quase quatro mil anos. Durante o tempo em que aqui viveu Gautama, há quase dois mil e seiscentos anos, a cidade era conhecida por Kashi e há vários relatos a descrever aquilo que parece ser um importante centro industrial, religioso e artístico.

Na Idade Média, já com o nome de Benares, a cidade confirmou a sua importância ao ser elevada a segunda capital do Império Pala, que era budista e teve o seu auge nos séculos IX e X.

Mas os Impérios caem quando outros erguem-se, e os reis passam-ao-outro-e-não-ao-mesmo. Já Varanasi, essa resistiu sempre, independentemente de quem se sentava no trono ou para que lado rezavam, mantendo a sua reputação enquanto lugar de cultura, espiritualidade e pensamento. Ao ponto de, no séc. XVI, o Imperador Akbar (que era muçulmano), ter investido na construção de dois grandes templos dedicados a Vishnu e Shiva. Curioso, não? Foi também durante o Império Mugal que o Reino de Benares foi constituído. Varanasi ganhou uma importância tal, nos séculos seguintes, que vários marajás de outras paragens construíram aqui palácios e templos, à beira do Ganges, esse rio sagrado que sempre foi (e ainda é) o tesouro principal da cidade.



















Os primeiros turistas chegaram no séc. XVII e deixaram relatos que hoje nos ajudam a perceber ainda melhor a cidade. Um dos mais icónicos foi aquele que Mark Twain escreveu, em 1897, e que a dada altura diz: "Benares é mais velha que a História, mais velha que a Tradição, mais velha que as Lendas, e parece duas vezes mais velha que tudo isto junto".

Esta descrição ainda é válida, hoje - e eu pude constatá-lo, pela primeira vez, durante a minha primeira viagem à Índia, em 2003. Foi uma passagem rápida, de apenas dois dias, e confesso que vinha meio contrariado, pois nem sabia o que era Varanasi, além de uma breve descrição que lera num guia, e que insistia no cognome de "Cidade da Morte".

Surpresa a minha, portanto, quando descobri que a Cidade da Morte afinal era a Cidade da Luz, e que este era, acima de tudo, um lugar de celebração da Vida. Impressionante: ao fim de dois dias, quando nos fomos embora, saímos a fazer juras de amor eterno a este lugar, prometemos voltar, sentíamo-nos esmagados pela experiência. Depois fui assaltado, na viagem de comboio para Jaipur - mas essa história podes ler no meu livro "O Marajá faz anos", que não-é-para-aqui-chamada.






Varanasi estende-se ao longo de uma das margens do Ganges, entre dois pequenos rios: Varun e Assi. Daí o nome, portanto. Entre os imponentes palácios, os templos e o rio, há degraus onde os peregrinos e fiéis vêm tomar banho - chamam-se ghats. E há oitenta e tal ghats, ao todo, em Varanasi. A maior parte só para abluções, mas alguns para cremações. E a actividade que decorre aqui, do nascer ao pôr-do-sol, e mesmo à noite, é incrível. É a tal celebração da Vida.

Voltei em 2007 a Varanasi, mas novamente por dois dias. E só em 2019, quando fui para a Índia escrever o segundo volume da minha trilogia indiana, é que finalmente tive a disponibilidade que a cidade merecia. Fiquei aqui uma semana, só a caminhar e a familiarizar-me com os recantos e as rotinas, a escrever-escrever-escrever (o livro começa com Varanasi), e isto enquanto decorria o Khumb Mela em Allahabad, não muito longe dali. Ou seja: a cidade estava ao rubro, cheia de saddhus (homens santos) e peregrinos.

















Varanasi é espiritualidade. A cidade transpira misticismo e filosofia ao virar de cada esquina, atrás de cada porta, por baixo de cada árvore. Nos postes colados nas paredes, nas poças de lama no chão, no cheiro a incenso e a merda, nos sons de búzios a ser soprados em templos, mais os sininhos que alguém chocalha quando faz uma oração. Na música de Bollywood a tocar num rádio. Nas bostas de vaca ao longo do labirinto de ruelas. Nos pregões dos vendedores ambulantes. Na agitação dos fiéis junto ao Ganges, enquanto lavam os seus pecados nas águas sagradas do rio. No crepitar dos mortos a ser cremados à vista, mais o cheiro inconfundível da carne humana a arder. Nos clicks das máquinas fotográficas dos turistas. Hello, my friend, you first time in India?

A cidade tem alguns monumentos, e podia até dizer que determinado templo é mais importante que os outros - mas Varanasi é daqueles sítios que vale pelo todo. Visitá-la não implica saltitar de um lugar para o outro, cumprindo uma lista de must sees. Para realmente experienciar Varanasi, tens de te perder no emaranhado de ruas e becos que parecem medievais, caminhar junto ao rio e apreciar os rituais, as manias, as superstições e até as contradições da cidade. É obrigatório assistir a pelo menos um Ganga Aarti, a cerimónia dedicada ao Ganges que se realiza todas as noites, em vários ghats.

Varanasi é um lugar que desafia tudo, a começar pelas próprias noções de Espaço e Tempo.

E é mais do que obrigatória nesta minha Volta ao Mundo pelos lugares que já visitei: merece, sem qualquer dúvida ou hesitação, a honra de ser a primeira.












Se quiseres viajar mais um pouco por esta cidade e conhecer as cores, cheiros e emoções da Índia, entra em contacto comigo e encomenda já um dos meus livros sobre o país:

De Vespa na Índia
O Marajá faz anos

Podes contactar-me por Instagram, Facebook ou através do email fuidarumavolta@yahoo.com

07/04/2020

A VOLTA AO MUNDO EM 80 VOLTAS

Começo hoje uma nova série de posts que é uma celebração da curiosidade e da descoberta, dessa urgência em ir, essa fome de conhecer e coleccionar memórias. Ou, se quisermos resumir tudo numa só palavra: VIAJAR.

Estava eu a seleccionar umas fotos para os quizz de viagens que tenho feito no Instagram, quando reparei que havia tantos lugares onde estive e que nunca mereceram mais do que um par de partilhas nas redes sociais, já que nos últimos anos não tenho dado muita atenção ao blog.

Aproveitando o entusiasmo com que estou, aos poucos, a dar a este cantinho, decidi então fazer justiça a estes lugares e mostrá-los aqui. Contudo, à medida que viajava nas milhares de fotografias que tenho em arquivo, apercebi-me de que há muito mais para partilhar do que meia dúzia de sítios. E entre várias ideias que prometo explorar brevemente (algumas novas e outras que já faziam parte da rotina do blog), aquela que merece mais destaque é a que dá título a este post:

Vou dar uma volta ao mundo... em 80 voltas.

Ou seja: vou partilhar aqui 80 lugares que considero fora-de-série, dentro do mundo que já conheço. Obviamente que vai ficar muita coisa de fora, pois tenho ainda tanto para ver neste mundo. Mas é-o-que-temos. E prometo que vai ser uma viagem boa.


Não sei quanto tempo levarei a dar esta volta. Se publicar aqui um lugar por dia, esperam-me quase três meses. Mas pode demorar mais. Provavelmente acaba a quarentena e damos cabo do canastro ao covil, entretanto. Melhor ainda. Pode ser que ainda vá a tempo de acrescentar à lista algum sítio novo.

Pelo meio, vou continuar a contar outras histórias aqui. Quanto mais me volto a habituar ao blog, mais me apetece partilhar aqui. Por isso estejam atentos e passem por cá com regularidade. Há muito para ver.

Falta agora decidir qual o sítio que vai ter a honra de abrir esta série de oitenta.

Porque por muito que diga a mim mesmo que a ordem desta volta não obedece a nenhum ranking, não deixo de pensar que o primeiro na lista tem de ser um lugar especial. Mais especial que os outros. Tem de ser um sítio fora-de-série, que esteja a um nível tão alto ao ponto de ser quase uma passagem para outra dimensão.

Alguma ideia?

04/04/2020

FUI DAR UMA VOLTA (AO SUPERMERCADO)

Acordei com o coração aos pulos e uma excitação quase infantil, sensações que me fizeram recordar outra manhã, há mais de trinta anos - a do dia em que participei no Clube Amigos Disney, da RTP1, que era apresentado pelo Júlio Isidro. Lembro-me de estar nervoso porque íamos "à televisão". Lembro-me perfeitamente de ir a condizer com a minha irmã Joana, Cenoura dos pés à cabeça, a minha mãe tinha esta mania de nos vestir de igual. E lembro-me também da banda que tocou chamar-se GNR, achei estranho porque tinham o mesmo nome do jipe da polícia de Sintra, e o cantor era muito alto e excêntrico, nunca tinha visto ninguém assim.


Mas voltando ao primeiro de Abril do ano Vinte-Vinte: completei, finalmente!, os catorze dias de isolamento social, ou prisão domiciliária, ou castigo - chama-lhe o que quiseres - desde o meu dar-de-frosques da Índia. Parecia mentira, mas tinham passado duas semanas sem sair de casa (uma vez para pôr o lixo, à noite, mas fui a correr e voltei logo, prometo), sem ver ninguém a não ser uns amigos que no outro dia passaram para dizer olá, ao portão. De resto: casa. Casa. Casa. A namorá-la, a mimá-la e a pô-la (mais) bonita, a viajar em cada recanto e nas histórias que contam as coisas que a enchem. A ler e a escrever, a organizar os arquivos de fotos no computador, a cozinhar petiscos de vários países (como já deves ter reparado no Instagram), a pôr a conversa em dia com amigos, no WhatsApp; a aprender a saudar o sol, de manhã e a meditar - nem que seja cinco minutos. Só me faltou cravar riscos na parede, com o canivete.

Duas semanas, my friend. E apesar de saber que o cenário não vai mudar por-aí-além, nos próximos tempos, pois o planeta mantém-se em modo Apocalipse, já é um alívio poder ir à rua, nem que seja só para ir às compras, ou para passar nos Correios e enviar os livros que entretanto me vão encomendando.

Fora isso, e como diz o hashtag: stay the fuck home.


Acordei um bocado ansioso, portanto. E excitado, como já disse. Tinha planeado uma viagem cheia de perigos e emoções. Arrisquei a melhor fatiota de domingo, perfumei-me e meti os livros no carrinho das compras. Enfiei a máscara na cara, ou a cara na máscara. E fui dar uma volta.


Confesso que estava à espera de ver menos pessoas na rua. Muito menos, aliás. É verdade que a cidade está muito vazia. Tudo fechado. Poucos carros a circular. Ouvem-se os passarinhos e a poluição baixou. Certo. Mas vi muita gente. Parecia mais Agosto do que propriamente o Faroeste em dia de duelo. Mas o pior, além daqueles que estavam claramente a ir-às ou a voltar-das compras, ou a passear o cão, ou a ir para o trabalho, foi a quantidade de velhotes a passear, muitos sem máscara - e não sei se é por problemas de ordem técnica com os aparelhos de audição, Alzheimer ou só teimosia, mas ó velhinhos: a não ser que sejam adeptos de desportos radicais ou estejam a praticar algum tipo de eutanásia-free-style, não me parece que seja propriamente o momento para passeiozinhos. Além de ser uma atitude muito pouco solidária com todo o cenário actual: desde os profissionais de saúde que estão a "dar o litro" e muito mais, para tentar apaziguar o bicho; às pessoas que pura-e-simplesmente ficam em casa, com todo o transtorno que isso pode causar, para não fazerem parte da estatística e da cadeia de infeções e doentes.


Ao cruzar-me com outras pessoas na rua, notei que a maior parte baixava os olhos. Eu fiz o mesmo a maior parte das vezes, admito. Como se estivesse envergonhado por estar fora de casa. Como num sonho em que de repente percebes que estás nu, numa situação qualquer que não-tem-nada-a-ver. A sério: sentia-me um transgressor, observado, culpado de alguma coisa - e acredita que fiz-o-que-tinha-a-fazer o mais depressa que pude, correios, supermercado e olhar-à-volta-e-respirar-fundo, e ala pra casa, triste e revoltado porque faz-me falta o mundo e as suas paisagens, as pessoas e as sensações; mas mais-ou-menos conformado com o facto de saber que não estou sozinho nesta tempestade. E não: não acho que estamos todos no mesmo barco - mas estamos claramente a atravessar o mesmo mar. Com tudo o que isso implica para o Indivíduo, que é ao mesmo tempo membro de uma Família, parte de uma Comunidade, membro da Sociedade.

Que grande cambalhota esta, hem?

Com duplo mortal encarpado e pirueta invertida. Pontuação máxima, sim senhor, recorde olímpico, leva lá a bicicleta e vai-te embora, ó Covid.

Como tu, espero que passe depressa, a Tempestade. Vai passar, não tenho dúvidas. Não sei - ninguém sabe! - o que vem a seguir, mas acredito na sabedoria popular e essa diz-me que a Bonança há de vir.


Já convoquei meia dúzia de deuses hindus, tive uma conversa de homem para homens com o Gautama e o JC, rezei virado pra Meca, fiz oferendas a Yemanjá, Rainha do Mar, Princesa de Aiocá, bati três vezes na madeira, atirei sal por trás do ombro esquerdo, queimei velinhas e incenso, pendurei um daqueles olhos turco atrás da porta. Algum há de funcionar.

E como diz outro hashtag, vamos todos ficar bem.

26/03/2020

ABRACEMOS O NAMASTÉ

Desde que cheguei da Índia que estou em casa de quarentena, sozinho – e se, ao princípio, o que mais me fez confusão foi o facto de estar confinado a quatro paredes e um pátio; confesso que ao fim de uma semana de cativeiro, mais do que das paisagens, sinto falta das pessoas. De um sorriso. Um abraço. Um beijo. Sinto falta do calor de outro ser humano.

Já estou mesmo a ver: no dia em que terminar esta pandemia, saio à rua e num impulso abraço o primeiro vizinho que me aparecer à frente, e entusiasmado desato a beijar a senhora do cabeleireiro à frente, mais o senhor do café, a rapariga do 3º esquerdo e o namorado, a avó e o cachorrinho, mais o periquito e basicamente todos os que tiverem o azar (ou sorte) de se cruzar comigo nesse dia.

E se mais pessoas estiverem no-estado-em-que-eu-estou, vai ser bonito.

Ou não. Porque choraminguices e lambuzices à parte, o mais provável é que o regresso à “normalidade”, se é que isso existe, com ou sem aspas – mas esse regresso há de ser gradual, meio-a-medo, baby-steps, como aquele indiano no comboio que se sentou no meu lugar, junto a meus pés, enquanto eu dormia, e aos poucos foi reclamando espaço enquanto eu ficava mais apertado, todo encolhido.

Adiante. Eu e as historinhas.

Numa fase em que tanto se fala de “distância social”, “achatar a curva” e “isolamento”, lembrei-me de um programa em que participei como convidado, há uns anos, na SIC. Não me recordo do nome, era um daqueles que passa à tarde, apresentado pelo João Baião. O tema da intervenção, em que fui acompanhado por uma psicóloga que ia contextualizando alguns dos exemplos que eu apresentava, era “cumprimentos pelo mundo”.

Nem de propósito.

Porque estava aqui eu a aterrar desta fantasia pós-isolamento, quando comecei a considerar se, entre alguns hábitos que provavelmente vão mudar a seguir à pandemia, não deveríamos (pelo menos nos primeiros tempos) reservar a beijoca e o esfreganço só para os mais íntimos, e talvez adoptar outras formas de nos cumprimentarmos uns aos outros.

E note-se que já estou a considerar um “desconto” para os mais chegados, pois imagino que muitas pessoas já sonhem com a avalanche de beijos das nossas avós. Eu falo por mim: já sonho com o aroma doce do baton de uma, vermelho e vincado nas minhas bochechas e testa; e com o abraço e a ternura da outra, a dizer-me que estou feio porque a barba está comprida, a perguntar-me quando sai o meu próximo livro.

Entretanto, alguém me disse que as tias de Cascais só têm 50% de probabilidade de ser contagiadas com corona, porque só dão um beijinho em vez de dois. Mas por muito encorajadora que seja a estatística, eu procuro uma solução que seja 100% eficaz. Assim, parece-me pertinente lembrar que há cumprimentos por esse mundo fora que não implicam contacto físico – e que, enquanto o bicho não tiver desaparecido de cena, podem ser interessantes de adoptar/adaptar. E não: não estou a falar de fenómenos como o Wuhan Shake, que sinceramente me parece meio infantil; ou o Elbow Shake, que além de um pouco pateta, acaba por não ser muito eficaz, já que os especialistas nos dizem que devemos espirrar e tossir para os braços.


A saudação que me parece mais óbvia, seja pela minha proximidade emocional com o país, como pelo facto de ter acabado de voltar de lá, é o Namasté. Suponho que saibas do que estou a falar – mas se não sabes, passas a saber.

O Namasté é um gesto com milhares de anos que se faz juntando as palmas das mãos, ao nível do peito, com os dedos juntos e a apontar para cima, ao mesmo tempo que se baixa ligeiramente a cabeça. Representa gratidão, respeito e humildade – e significa algo do género “o Divino em mim faz uma vénia ao Divino em ti”. Bonito, hem?

Curiosamente, alguns textos antigos hindus falam do facto deste mudra (gesto) proteger e conter a energia de uma pessoa, em vez de absorver a da outra. Ao contrário (digo eu), e só a título de exemplo, de um aperto de mão. Isto parece-me interessante. Porque se, por um lado, é fácil perceber o lado prático que isto tem na realidade scifi que estamos a viver; por outro, talvez contenha a explicação da própria origem do gesto, que provavelmente surgiu para proteger as pessoas de contágios, numa sociedade que era mais vulnerável contra todo o tipo de doenças. Ou seja: vai-na-volta e o Namasté nasceu num pós-pandemia, há 4 ou 5 mil anos.


O Wai tailandês é uma clara evidência da influência indiana no país. Este é um dos pormenores/curiosidades que normalmente abordo, quando acompanho grupos no Sudeste Asiático: o facto de na Tailândia (como no Myanmar, Camboja e Laos, já agora) a cultura ser tão influenciada pela Índia. Isso vê-se na comida, no vestuário tradicional e até no alfabeto, entre tantas outras manifestações. Se, por um lado, a religião dominante nestes países é o budismo; por outro, divindades como Brama, Ganesha ou Garuda são amplamente reverenciados. Só a título de exemplo: o rei da Tailândia tem o cognome de Rama X, porque acredita-se que a família real tailandesa é descendente de Rama, o príncipe de Ayodhya que é o personagem principal do épico hindu Ramayana. Nas fotografias oficiais do rei, as molduras têm sempre um Garuda em baixo, sendo que este homem-águia é o veículo de Vishnu (o deus de quem Rama é uma das encarnações). E esta, hem?

Anyway... tal, como o Namasté, o Wai também se faz juntando as mãos e baixando a cabeça. A diferença é que, no Wai, a altura a que as mãos se juntam depende do respeito que uma pessoa “deve” à outra. Entre conhecidos e amigos: começa-se com as mãos em frente ao peito e diz-se sawadee krab (se for um homem a fazer) ou sawadee kah (se for mulher) ao mesmo tempo que se elevam até quase tocar com a ponta do indicador no queixo, e enquanto se faz a vénia. Para os irmãos mais velhos e outros familiares, os dedos quase tocam o nariz. Para os pais, os polegares ficam à altura do nariz. Para os avós e outros velhotes, bem como aos monges, são os polegares que tocam na testa. E ao rei, nem pensar em estar de pé, só de joelhos, e as mãos quase que vão atrás da cabeça. O último nível é reservado ao próprio Buda, pelo que algumas pessoas chegam a deitar-se no chão, com os braços estendidos para a frente.

Noutros tempos, no Camboja e na India também era assim que se saudava os deuses. Há muitas referências gráficas (em pinturas, baixos relevos e esculturas) de pessoas deitadas no chão em adoração máxima. Nem há um mês, em Hampi, encontrei algumas esculpidas no chão.


Tanto o Namasté como o Wai são muito fluídos, e adaptam-se a variadíssimas situações, para além do cumprimento: tanto servem para agradecer como para pedir desculpa, concordar, apaziguar ânimos ou até para suplicar.

Mas há mais: 

O japoneses, por exemplo, fazem o Ojihi, uma vénia que envolve toda uma complexa etiqueta, que vai desde o ângulo de inclinação até à duração, entre outros factores mais ou menos esotéricos. Confesso que, quando estive no Japão em 2018, não cheguei a viver nenhum episódio tão caricato como o Bill Murray no Lost in Translation.

Em alguns países islâmicos, o salam aleikum é acompanhado da mão direita a tocar no coração, enquanto se faz uma pequena vénia com a cabeça.

Em algumas zonas do Tibete, põe-se a língua de fora – mas só um bocadinho, para mostrar ao outro que não somos a reincarnação de um rei malvado do século IX, que tinha a língua preta.

Nas Ilhas Marshall, franze-se as sobrancelhas, enquanto que em algumas tribos da Zâmbia, as pessoas batem palmas com as mãos em concha, duas vezes, de uma forma muito particular, enquanto dizem “mulibwanji”. E os Masai, no Quénia, saltam! Okay, não é bem um cumprimento, é mais para dar as boas-vindas. Mas podia ser interessante, já estou a ver o Marcelo a cumprimentar o povo, tudo aos saltos.

Seja como for: alternativas não faltam. Nem que seja a saudação Vulcan, popularizada pelo Mr. Spock do Star Trek, e que era acompanhada pela frase “vida longa e próspera” – que, tendo em conta o cenário mundial, nem é assim tão despropositado. Aliás: a adoptar esta opção, sugiro também que se passe a usar o mesmo tipo de indumentária dos personagens da famosa série.

Enfim: acho que já deu para perceber que por um tempo, da mesma forma que os Esquimós vão ter de deixar de tocar com as suas pestanas nas pestanas dos outros, os Maoris e os Beduínos de roçar os narizes, e os Kunik de cheirarem as bochechas – a nós talvez convenha baixar o tom da beijoca e do xi-coração, pelo menos em grande parte das situações. É um tema, definitivamente, a debater.

20/03/2020

QUARENTENA... OU PRISÃO DOMICILIÁRIA?

Hoje, para celebrar a entrada na Primavera, fiz um boneco de neve.

A sério: fiz mesmo. Com ervilhas a fazer de olhos e uma malagueta pequenina, que trouxe do Laos, em vez de nariz. Podes espreitar no fim deste post, vou partilhar uma foto.

E não: não estou a dar em doido. Ainda. Acho eu. Espero.

Estou só há sessenta e sete horas e quarenta e dois minutos em quarentena - mais minuto, menos minuto. Não que esteja muito obcecado com o tempo. Nada disso. Não estou propriamente a cravar riscos na parede, com um canivete, por cada hora que passa. Mas queres o quê? Eu sei que ainda agora começou, e falta-me ainda uma longa caminhada... mas não consigo deixar de pensar que estes dias fechado em casa têm um travozinho a prisão domiciliária. E logo eu, que até estou habituado a estar sozinho. Moro sozinho, viajo sozinho - mas é por opção.

Enfim: se tem de ser, tem de ser. É pelo bem de todos - assim acredito, assim espero que seja.

Três dias em quarentena, portanto. Os primeiros dois foram passados a arrumar as malas e as ideias, a combater o jet lag, a fazer contas à comida que tinha em casa, à comida que a minha prima Joana me veio cá deixar antes de eu chegar, à comida que trouxe da Índia.

Trouxe comida da Índia, sim. Tinha direito a 30kg de bagagem e a mochila pesava dez. E porque não? Trouxe comida e trouxe máscaras, gel desinfectante, luvas, todo um kit apropriado ao momento. Só não trouxe papel higiénico, não me faz falta, uso chuveirinho. Mas tendo em conta o panorama, podia ter planeado melhor. Papel higiénico é leve... dez quilos dá quantos rolos? Ainda fazia negócio.

Devaneios à parte: hoje consegui finalmente sair desse meio-termo entre o enjoadinho e o tem-a-mania, e dediquei parte do dia a limpar a casa. Ainda não foi a limpeza que quero, longe disso - mas é um princípio. Depois de limpar o pó aqui-e-ali (a sério, estamos mesmo a falar disto?!), decidi aventurar-me no frigorífico e dei conta que ainda não tinha espreitado o congelador. A porta estava colada, a custo consegui abri-la... e surpresa: passei os vinte minutos seguintes a raspar gelo e a limpar toda uma Antártida de desleixo doméstico.

Ou seja: no fim, tinha no chão gelo suficiente para um boneco.

E porque não? Já vi bem pior, nas redes sociais.

Fica então o boneco prometido - e um pedido de desculpas pelo post tão pouco construtivo. Hoje à noite vou dar uma volta a algumas pastas de fotos, organizar ficheiros... deixa lá ver se encontro alguma coisa de interessante ;)


19/03/2020

DAR DE FROSQUES, CORONA STYLE

Estás a ver aquela sensação que fica quando o frigorífico deixa de fazer barulho e parece que, de repente, estás rodeado por uma bolha de um morno, mole silêncio?

Foi exactamente o que senti ontem, no meu primeiro dia de quarentena, depois de mais de vinte e quatro horas às voltas em aeroportos-às-moscas e aviões cheios de gente assustada, deito bola de pinball, de rosto enfiado na máscara, ou de máscara enfiada no rosto, luvas à CSI Miami e a respirar à Darth Vader. A dar de frosques, corona style, de uma Índia em pânico para uma Lisboa que não está melhor, mas sempre é a minha casa.

Tive sorte. Considerando o panorama kafkiano de cancelamentos de voos, fronteiras fechadas e países em lockdown, tive muita sorte.


Mas voltando à bolha: nem sequer é uma sensação nova, esta. Sempre que volto da Índia, tudo me parece meio-sem-cor, meio-sem-som, meio-sem-sabor. Sinto sempre falta daquela exagerada intensidade sensorial, que tem tanto de ingénuo como de histérico, infantil, rocambolesco ou kitsch.

Só que, desta vez, o silêncio que envolve a minha casa, a minha rua, a minha cidade, o meu país - este silêncio não tem nada a ver com choques culturais, referências cromáticas ou nostalgias sensoriais. Desta vez é diferente: este silêncio é o véu transparente que cobre uma comunidade assustada, ansiosa, meio perdida, a tentar decifrar e reagir a um pesadelo twilightzoniano, que "mais parece um filme de ficção científica". Já ouvi tantas pessoas dizer isto - e sinto o mesmo.

Expressões como "distância social" ou "achatar a curva" entraram de rompante no léxico do dia-a-dia. Sem um com-licença nem um faz-favor, sem um pingo de cerimónia, foi só chegar e esparramar-se de perna estendida, a coçar os tomates e a mandar vir.


Estou de quarentena, portanto: catorze dias, pelo menos. Não apetece nada, claro. Não apetece a ninguém. Estou em Portugal e só quero matar saudades e abraçar/beijar família e amigos. Faz falta este combustível chamado Amor. Mas tem de ser: assim exige o bom senso, depois de tanto tempo em trânsito. E assim exige a lei - ou, se não exige, devia.

Com tanto tempo em casa, decidi voltar a dedicar-me ao blog. Ando há três-quatro anos neste vai-não-vai, sem muita paciência, entre o desta-é-que-é e o fica-pr'amanhã, pois a minha disponibilidade foi sendo transferida aos poucos para as redes sociais e para os livros.

Ou seja: desta-é-que-é. Mesmo. A ver vamos.

Dito isto: entre recordações de viagens passadas, partilha de curiosidades e histórias, e quem sabe alguns planos para o futuro, vou escrever aqui uma espécie de diário da minha quarentena. É o que dá ter tempo. Por isso, convido-te a passar por aqui todos os dias, a partilhar também os teus pontos de vista e experiências, no comentários - e, já agora, a dar uma vista de olhos ao meu instagram, que também está animado, como sempre.


19/10/2019

ONDE COMPRAR "O MARAJÁ FAZ ANOS" e "DE VESPA NA ÍNDIA"

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Rua de S. Bento, 34
Lisboa

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Rua de Clemente Meneres, 65
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Av. D. Carlos I
Cascais

Arquivo
Av. Combatentes da Grande Guerra, 53
Leiria

Santiago
Largo de São Tiago do Castelo
Óbidos

Rimas e Tabuadas
Rua Dr. Avelino Germano, 24-54
Guimarães

100ª Página
Av. Central, 118
Braga