22/05/2015

NÃO HÁ CONDIÇÕES

Peço desculpa mas não tenho condições para escrever seja o que for, neste momento. Queria pôr umas fotos com a tal "surpresa" de ontem... mas só ter acesso à net já é uma sorte.

Assim que houver condições, esclareço tudo: o post de ontem e as reviravoltas que isto deu hoje. Tenho que ir.

21/05/2015

O QUE FOMOS NÓS FAZER!

Esta viagem está a ter umas reviravoltas muito inesperadas. Muito mesmo!

Depois de quase setenta quilómetros de estrada, chegámos hoje ao princípio da tarde a Tirupathi, o ponto de acesso a Tirumala, um dos lugares de peregrinação mais sagrados da Índia. E, sem dúvida, do mundo. Diz quem sabe que o templo Venkateshwara ultrapassa, em número de visitantes, lugares como Roma, Jerusalém ou Mecca.

Mas números à parte... isto hoje deu uma volta muito inesperada.

E eu sei que é irritante estar aqui com este suspense todo sem revelar nada... mas é isso mesmo que vai acontecer. Sorry, mas neste momento não estou em condições de partilhar seja o que for. Conversamos amanhã.

Boa noite!

A DERRETER

O calor tem-nos acompanhado ao longo desta viagem - mas nada como nos últimos dias. Em Gingee foi-o-que-foi, ontem em Vellore dava a sensação que estávamos numa sauna ao ar livre... e, ao que parece, isto promete:




A REVIRAVOLTA DA REVIRAVOLTA

O dia de ontem é a prova-provada que esta viagem vive do Momento, da Sorte e dos Humores - os nossos e os das motas.

Estamos neste momento em Chittoor, uma terrinha no estado do Andhra Pradesh. Mas era suposto termos ficado em Vellore, uma cidade no Tamil Nadu. E, quando arrancámos de Gingee, ainda de manhãzinha, o objectivo era chegar à capital: Chennai.

Vamos a matemáticas e geografias:

Chennai fica a cerca de 150km a nordeste de Gingee.
Vellore, cento e pouco a noroeste.
Chittoor, a pouco mais de quarenta de Vellore, mas para norte.

Ou seja: que reviravoltas foram estas, as de ontem?

Para contextualizar o cenário, recuemos primeiro até à manhã em que arrancámos de Auroville. Que deve ter sido há dois ou três dias, apesar de termos a sensação que aconteceu há uma vida atrás.

Reféns dos capacetes que estavam guardados em Pondicherry, acabámos por passar uma noite em Auroville, na cabana simpática que vos mostrei há dois ou três posts. Aproveitámos o tempo livre para kitar um bocadinho as vespas - e, na manhã seguinte, preparámo-nos para finalmente arrancar. Estávamos "sedentos" de estrada, "esfomeados" por quilómetros. Queríamos viagem. Depois de dez dias em Bombaim, só apetecia era estrada. Mas a meio caminho entre a cabana e a casa onde estavam guardados os capacetes, a vespa do Luís começou a dar problemas. Parecia estar a afogar-se, cada vez que ele acelerava ela ia-se abaixo, e fazia mais fumo do que era costume. Passámos na oficina, "isto não é normal, esteve mais de uma semana a ser arranjada e não é suposto dar problemas destes agora."

Resumindo: só duas ou três horas depois é que finalmente deixámos Pondicherry para trás. Já com os capacetes postos, o pequeno-almoço tomado - e, teoricamente, com a mota a funcionar como deve ser.

Foram oitenta-e-tal quilómetros de viagem, nesse dia. Um regresso à estrada que nos deixou um sorriso enorme na cara - e um escaldão nos braços e no pescoço. Filmámos com a gopro, fizemos algumas fotos, mas acima de tudo foi um prazer enorme estar outra vez em cima das motas, com a Índia a rolar por baixo, a paisagem e os sons e os cheiros à nossa volta.

E, no entanto, os últimos dez quilómetros do dia mudaram o estado das coisas. A estrada estava péssima (tantos buracos, e poças de lama, e carros em todas as direcções)... e a vespa do Luís começou a engasgar-se outra vez. Quando chegámos a Gingee instalámo-nos num pequeno hotel junto à estrada e fomos imediatamente a uma oficina, para perceber o que realmente se passa com a mota - e eis que o veredicto era o menos animador possível:

"O motor está a agarrar. Não podemos fazer nada aqui. A peça que vocês precisam só existe em Pondicherry. Têm de voltar para trás. Se quiserem nós tratamos disso, mas são três dias no mínimo. Ou então ponham o dobro do óleo quando encherem o depósito e ainda dá para levarem a mota para Pondicherry."

Ao que parece, andamos a pôr pouco óleo na mistura com a gasolina.

Culpa minha, que devo ter interpretado mal a explicação que me deram ao início. Ou então foi realmente mal dada. Não posso garantir. Mas quando devíamos pôr 50ml de óleo por cada litro de gasolina, temos estado a pôr 20ml. E a vespa do Luís acusou isso mesmo, agora.

Enfim: era imperativo repensar a viagem. Ou, pelo menos, o ritmo da viagem.


Acabámos por ficar mais um dia em Gingee - por um lado, meio à nora sem sabermos o que fazer; por outro, porque depois de uma manhã toda a subir fortes e castelos, a visitar ruínas e a destilar litros e litros de suor, chegámos a meio da tarde tão cansados que não havia energias para ir para lado nenhum.

O objectivo inicial era irmos para Tiruvannamalai, quarenta quilómetros a oeste. Tínhamos enchido o depósito com o dobro do óleo necessário. O mecânico garantira-nos que isso era suficiente para voltar para Pondicherry. E nós pensámos: se dá para isso, dá para avançar de vagar, e depois logo se vê se a mota recupera ritmo ou se precisa mesmo de ir "à faca".

Enfim: o plano inicial era seguirmos para Tiruvannamalai, quarenta quilómetros a oeste. Mas como acabámos por ficar em Gingee mais uma noite, mudámos os planos e na reviravolta apontámos a agulha para Vellore, cento e pouco quilómetros a noroeste. Com o óleo reforçado, a mota ia ao lugar - pensámos.

Mas na manhã seguinte - ontem - a mota do Luís parecia estar igual, ou pior - e não tivemos hipóteses senão alterar os planos novamente. E se, como disse o mecânico, com o óleo reforçado dá para ir para Pondicherry, então vamos para Chennai, sempre é mais para Norte e avançamos um pouco. Além de que tínhamos perdido a confiança dos mecânicos de Pondy. Quer dizer: mais de uma semana com as motas e não deram por nada? Incrível.

Vamos para Chennai, então.

"Saquei" uns contactos na net, assim era só chegar lá e ir directos às melhores oficinas. Arrancámos de manhã cedo, foi provavelmente o dia em que saímos mais cedo. Pensámos na rota de maneira a viajarmos em estradas mais secundárias, com pouco trânsito, era mais do que suficiente aquele que iríamos encontrar à chegada a Cheennai. O dia estava ainda fresco, mas prometia muito calor. E os espíritos, apesar das contrariedades, estavam animados. As voltas que a viagem dá - são só voltas. Havemos sempre de tirar o melhor partido da aventura, seja por onde for, seja como for. E se temos de ir para Chennai... vamos para Chennai.

Tínhamos avançado uns trinta ou quarenta quilómetros - cerca de uma hora, pois íamos a poupar o motor - quando o Luís começou a fazer-me sinal para parar.

Imaginei logo o pior.

E. no entanto, a expressão dele apontava para o contrário. Ria como uma criança a quem foi oferecido um brinquedo novo.

"Estás a ouvir?"

Eu sorria, mais por solidariedade que outra coisa, porque não estava a perceber nada.

"Não vês, Jorge? Olha!"

E eu olhava. Mas não entendia.

"A mota! A Freen não se vai abaixo!"

Ah: a vespa do Luís tem nome. Chama-se Freen. Free + Green. Eu ainda não dei nome à minha, eu sei que é uma falha enorme mas... enfim. Hei-de dar. A seu tempo, hei-de dar-lhe um nome também.

Anyway: a mota não se ia abaixo. Parecia... solta?

"Epá, a mota descolou. Eu até senti. Vinha a guiar e ela sempre com aquela sensação de estar constipada, e de repente senti-a a soltar-se. Está arranjada!"

A sério?, pensei.

"Estas vespas são um espectáculo! Dá-lhes um remédio e elas curam-se, não precisam de ir ao médico."

Parecia estranho - mas a verdade é que a mota estava, aparentemente, a funcionar bem. E agora?, pensei. Fazemos o quê?

"Esquece Chennai, vamos para Vellore. Eu sei que já nos desviámos um bocado da rota, mas apanhamos a próxima terrinha e se até lá estiver tudo bem, viramos outra vez para oeste."

Yes, sir! Se ele tem confiança na mota, quem sou eu para insistir.

Assim aconteceu mais uma reviravolta - e que reviravolta! De repente já não estávamos a caminho da urbaníssima, suja e caótica Chennai, mas de uma terra chamada Vellore, sobre a qual pouco sabíamos além de que era muito famosa pelos seus hospitais, e que tinha um forte enorme rodeado de um canal sereno.

Seguimos mais uns vinte quilómetros até à próxima vila, só para ter a certeza que a mota estava boa. Confirmou-se: impecável. Vamos lá então!

Que manhã boa! As duas vespas a rolar no alcatrão, o calor a apertar mas nada de dramático, pelo menos enquanto estávamos em andamento. Estradas rurais em bom estado e em mau estado, aldeias e vilas, cidades até. Fomos parar a uma estrada nacional, com mais trânsito mas nada de outro mundo. E na recta final acabámos numa autoestrada de três faixas para cada lado. Quando chegámos a Vellore tínhamos cento e trinta quilómetros feitos, ao todo. Nada mau. E era ainda hora de almoço.

Calor. Fome. Sede. A gasolina estava na reserva. Precisávamos de ir a um ATM.

Pouco passava do meio-dia e o calor era insuportável: trinta e oito graus com sessenta por cento de humidade. Começámos à procura de um poiso, parecia haver muita oferta... mas entre hotéis cheios, outros que não recebiam estrangeiros, alguns que tinham quartos mas eram miseráveis... o tempo foi passando e o desconforto aumentando. Apesar de mais ou menos desesperados, não conseguíamos encontrar nada de jeito. Eu já ficava enjoado só de ver as manchas nos lençóis, só de pensar que a maioria dos hóspedes nesta cidade são doentes que vêm para ser tratados nos hospitais de Vellore. A cidade estava um forno. Os hotéis nojentos. Tanta gente. Muitos doentes, muitos acidentados, muitas caras tristes. Nas recepções dos hostéis, era quase sempre recebido com má cara, trombas e palavras pouco simpáticas. Eu próprio comecei a ceder. O Luís, que hoje ficava a guardar as motas enquanto eu ia ver os quartos, lá se aguentava emocionalmente - mas o calor estava a deixá-lo estafado.

Decidimos comer qualquer coisa - e depois logo se veria. Sentámo-nos numa espécie de garagem imunda e pedimos um biryani. Que bem que nos soube. A galinha estava tenra e saborosa, o arroz nada de especial mas o molho era bom. Quando saímos, as energias estavam novamente "em cima". O termómetro marcava quarenta e dois, feels like quarenta e oito.

Quarenta e oito!?

Não: aqui é que não ficamos. Vamos embora. Esta terra tem uma energia feia. Há qualquer coisa de pesado aqui, qualquer coisa de negativo, não sei se é dos hospitais ou do calor ou se é só o cansaço, sensação nossa. Não interessa: vamos embora. Avançamos mais um pouco e dormimos na próxima terrinha.

Arrancámos. Enchemos os depósitos e seguimos para Norte. Atravessámos a ponte e começámos à procura de algum sinal a dizer "lodge" ou  "guesthouse", mas o mapa mostrava que o Andhra Pradesh estava já tão perto... e...

"Olha lá, Luís... e se avançássemos mais um pouco e passássemos para outro estado?"

"Por mim óptimo, acho que o Tamil Nadu já nos deu o que tinha a dar. E ainda não é tarde, temos tempo para rolar mais um bocado, a minha mota está boa... 'bora!"

Atravessámos a fronteira de um estado para o outro, com direito a paragem para xixi e fotos. E só parámos em Chittoor, uma terrinha pequena e bem mais calma, onde encontrámos um quarto simpático - o mesmo de onde escrevo agora. A noite correu sem precalços, estávamos estafados depois de quase cento e oitenta quilómetros na estrada, caímos redondos na cama, a seguir ao jantar.

E agora ala que se faz tarde, hoje a etapa é mais curta mas o calor aperta e quanto mais depressa partirmos, melhor.

Fui! Ou melhor: fomos!


20/05/2015

34 CLICKS

Estamos há dois dias com acesso muito lento à net, o que não me permitiu actualizar o blog. Assim sendo, estou a preparar um texto com as mais recentes peripécias on the road - e enquanto não o termino deixo-vos um post-homenagem ao Benfica, campeão nacional de futebol 2014/15.

São trinta e quatro, os clicks de hoje - e de certa forma resumem a primeira etapa desta aventura na Índia, até a termos "interrompido" para uns dias em Bombaim. De Vennikulam (uma aldeia no Kerala) a Pondicherry (a antiga colónia francesa na Índia), foram quase mil quilómetros de emoções e sensações.

Espero que gostem:

Primeira foto da minha Bajaj, ainda no terreno do antigo proprietário.

Assinatura do contrato.

Benção à frente de "nossa" casa, no dia em que fui buscar a mota. Era noite de S. Jorge.

A delinear rotas possíveis, pontos de interesse, etc.

Durante os dias passados em Vennikulam, fomos constantemente "entretidos". Havia sempre alguma coisa para fazer (o chamado full program). Neste caso em concreto, o Binu levou-nos a tomar banho a uma pedreira abandonada.

Logo na primeira volta que demos na minha vespa, conhecemos uns putos que saltaram para a mota e levaram-nos a explorar a zona em redor.
Um pôr-do-sol único, a la Kerala style.

O nosso anfitrião e meu grande amigo, George Kurian, na partida para esta viagem.

O festival Thrissurpooram marcou o arranque desta viagem. Foi, sem dúvida, um dos eventos mais emocionantes a que já assisti.

Que vista maravilhosa, esta das cataratas de Athirapilly, no Kerala. Este foi um dia inesquecível, sempre rodeados de verde, luz e sombras.

Selfie!

Bem-vindos ao Tamil Nadu!

Plantações de chá.

Uma grande noite em Valparai, em que o jantar foi bacalhau em lata, pois a cidade fechou muito cedo e ficámos sem hipóteses de comer fosse-o-que-fosse.


Luís a jogar carrom board com os novos amigos de Dharapuram.

Um dia... rústico! ;)

Uma subida longa e dura, mas com uma vista inacreditável - no forte de Trichy.

Uma surpresa pouco agradável, no parque do hotel em que ficámos em Trichy.

Vrrruuuummmm!

Regressei a Tanjore, 10 anos depois.


"Apanhámos" dez minutos de chuva, até agora. 


Bom diaaaa!

Ossos do ofício ;)

18/05/2015

UM PASSO AO LADO

Costumo dizer que não há passos atrás - há passos ao lado. Há que encarar contrariedades como desafios, ver as possibilidades que se abrem quando parece que todas as portas se fecham. Enfim: ser positivo.

O que não quer dizer que de vez em quando não se mande este-e-aquele a sítios bem conhecidos de todos.

Enfim: tudo isto para dizer que, depois de percebermos que não tínhamos outra hipótese senão ficar mais uma noite em Pondicherry - por causa dos capacetes e alguns sacos que estavam dentro de um armário que só podia ser aberto hoje -, acabámos por dar a volta à reviravolta e fomos para Auroville, a oito quilómetros de Pondicherry.

Auroville?

Deixem-me explicar isto num parágrafo ou dois.

Auroville é, em poucas (e muito secas) palavras, o que sobrevive de uma utopia que nunca se concretizou em pleno. Segundo os próprios, "pretende ser uma vila experimental onde homens e mulheres de todos os países possam viver em paz e harmonia progressiva, acima de todos os credos, de todas as políticas e de todas as nacionalidades. O objectivo de Auroville é realizar a unidade humana". Podem conhecer melhor o projecto aqui e aqui.

Auroville foi fundada em 1968 por Mirra Alfassa (a quem os habitantes chamam carinhosamente "a Mãe") e, em vez dos cinquenta mil habitantes que se propunham ter em 2014, tem cerca de 2.500. A sensação que dá quando se visita este lugar é a de uma boa intenção que nunca passou muito disso.

Há, no centro de uma área vastíssima, um monumento que parece uma gigante bola de golfe dourada, chamado Matrimandir. À volta, pelo que se aprende no centro de visitas, há projectos para zonas industriais, residenciais, etc. Um enorme empreendimento urbano, aparentemente bem desenhado, com nomes bonitos como "Courage", "Grace", "Transformation", "Horizon", etc - mas que nunca foi plenamente realizado.

Apresentações à parte: fomos então para Auroville. Há, na estrada que vai dar ao centro de visitas, algumas guesthouses e restaurantes, um bocadinho ao género de Goa, meio hippies, meio locals. Pareceu-nos uma boa mudança de ares, não apetecia nada voltar para o "buraco" em que ficáramos na noite anterior, em frente à estação de autocarros.

Parecia tudo fechado - talvez por ser domingo, ou será porque a época alta já lá vai - mas não demorou muito até encontrarmos uma seta a dizer "Tenderness", que apontava para uma estrada de terra batida no meio da floresta e prometia acomodação a trezentos metros. Decidimos explorar. Apetecia-nos um sítio calmo, queríamos parar as motas e "dar-lhes uns toques", apetecia-me escrever. Este ambiente rural calhava mesmo bem. Avançámos, portanto. Entre árvores e poças de lama, até chegarmos a um portão.

Entrámos.

E, vejam lá como o mundo é pequeno, encontrámos o António Guterres.

Assim, no meio do nada, no meio de uma utopia não-realizada, um comício do António Guterres, a entrar em apoteose com a máquina de marketing bem oleada, a banda sonora do Vangelis, o público em êxta...

Alto e pára o baile!

Mas o Guterres, que eu saiba, não usa túnica branca e cabelos compridos. Ah, ok: não é o senhor. É um guru qualquer a falar de Deus e energias aos membros de uma seita local, afinal.

Mas a música é a mesma.

Ficámos na dúvida se devíamos ficar ali. Tanto que começámos a dar a volta às motas. Apetecia-nos paz e serenidade - não um culto qualquer a ouvir Vangelis, a discutir energias aos altos berros, quem sabe que transformações poderiam ter à noite, e se estaríamos a salvo de ser sacrificados na fogueira. Nunca se sabe.

Mas quando estávamos a dar a volta apareceu um indiano muito alto, com falinhas mansas a perguntar se queríamos ver os quartos, quantas noites ficávamos, de onde éramos, etc... e pelo meio lá nos assegurou que "estes vão embora hoje à tarde".

Fomos ver os quartos, portanto. E logo à primeira vista: foi amor. Uma cabana com um sótão maravilhoso, algumas aranhas só para irritar, rodeada de árvores de caju, manga e jaca, coqueiros e o som do vento nas copas.

Resumindo, porque o post vai longo e a pressa de me lançar à estrada é muita: conseguimos um bom desconto e acabámos por ficar aqui. A seita foi embora, como prometido, a meio da tarde. Não fomos atacados. Não nos tentaram converter, também. Não vimos a luz, mas passeámos um pouco por Auroville, e boa parte da tarde passámo-la a "dar uns toques" às motas. Queremos "indianizá-las".



Dormimos que nem anjos, esta noite. Ainda acompanhámos a primeira parte do jogo do Benfica, mas o sono foi mais forte e acordámos bem cedo, hoje, para ler as boas notícias ;)

As malas estão prontas, o Luís à minha espera - acaba aqui a conversa, por agora, porque vamos lançar-nos à estrada. Se tudo correr bem, daqui a nada recuperamos os capacetes e lá vamos nós! Vrrrruuuummmmm!

17/05/2015

FALSA PARTIDA

Está difícil de arrancar. Ai está, está.

Hoje de manhã já tínhamos as motas prontas, com as mochilas em cima e tudo muito bem coberto com os plásticos, porque ameaçava chover. Fomos tomar o pequeno-almoço junto ao mar, entre domingueiros e outros turistas; e mesmo antes de ir embora passámos na casa onde ficámos na semana passada, para ir buscar os capacetes e uns sacos que pedimos para nos guardarem.

Resumindo porque isto ainda demorou algum tempo e implicou discussões várias: o senhor que aluga a casa estava de folga (por ser domingo) e recusou-se a devolver-nos as coisas. E até estavam outros hóspedes em casa, que nos deixaram entrar e tudo - mas ao que parece o nosso tesouro está trancado a sete chaves num armário/cofre de alta segurança. Sugerimos soluções alternativas, disponibilizámo-nos para ir buscar as chaves do armário, estivessem onde estivessem. Mas contra a má vontade há muito pouco a fazer. O senhor pura e simplesmente não nos queria ajudar.

Amaldiçoámos e chamámos nomes ao senhor, à mãe do senhor, ao piriquito e à vizinha sem dentes. E depois de respirar fundo lá sorrimos um para o outro, "esta cidade não nos quer deixar ir embora."

Ironicamente, estávamos reféns... dos capacetes. Não fazia sentido seguir viagem sem eles, seja por motivos óbvios de segurança, seja pelo valor sentimental e a trabalheira que nos deram, até os encontrarmos. O meu, por exemplo: comprado na Tailândia e passou por mais dois ou três países. Não o podia abandonar assim, sem mais nem menos, sem um adeus. Enfim.

Ou seja: ainda não foi hoje que partimos para a segunda fase desta aventura.

O que não quer dizer que tenha sido um dia "perdido". Afinal, como eu costumo dizer desde os tempos do "Até onde vais com 1000 euros?", a viagem que fiz de bicicleta com o Carlos Carneiro:

Não há passos atrás.
Há passos ao lado.

Mas sobre isso conversamos no próximo post.

16/05/2015

ONDE É QUE NÓS ÍAMOS?

Estamos de volta a Pondicherry.

Depois de uma semana e pouco em Bombaim, já estamos em pulgas para voltar à estrada. E a partir de agora não há mais interrupções destas. Pelo menos voluntárias.

Hoje passámos o dia dentro de carros, aeroportos, aviões, táxis, autocarros, riquexós. Chegámos estafados. Mas já fomos buscar as motas ao mecânico e, apesar de não estar tudo como queríamos, a verdade é que estão melhor do que estavam antes. E já só queremos é voltar à estrada amanhã.

Assim sendo, hoje deixo aqui um mapa onde está marcado o percurso já feito - só para nos podermos situar. O plano é ir para norte, a partir de agora. Mas só amanhã é que sabemos ao certo por onde.

Tenham um bom fim-de-semana... "diz" que está bom tempo por aí, não é? Amanhã conversamos!

14/05/2015

A PRIMEIRA VEZ

Ontem a minha amiga Poonam fez anos e reuniram-se cá em casa alguns amigos e familiares. Para minha surpresa, a certa altura apareceram dois miúdos cujas caras não me eram estranhas - depressa percebi que eram os sobrinhos dela - e pouco depois estávamos todos à volta do meu computador, a rir com fotos que tirei há mais de uma década, quando os putos tinham três e quatro anos.
Esta viagem no tempo despertou uma certa nostalgia - e hoje, quando acordei, não resisti a revisitar algumas das fotografias que tirei na primeira vez que vim a Bombaim.

Foi há tanto tempo, há uma eternidade, noutra encarnação - pelo menos é o que parece, quando começo a fazer contas ao calendário. Tantas voltas entretanto.

Assim sendo, e porque nunca é demais recordar, este post celebra a viagem que tem sido os últimos treze anos. Uma aventura de encontros, desencontros e reencontros.

Ficam dezassete fotografias tiradas nos primeiros dias que passei na Índia. Na primeira vez que vim a Bombaim: