08/04/2020

[VM80] VARANASI

VOLTA AO MUNDO EM 80 VOLTAS

#01


Senhoras e senhores, apertem os cintos de segurança e segurem-se bem aos vossos lugares, porque esta Volta ao Mundo começa num lugar mirabolante, mais intenso que uma montanha russa, mais incrível que um número de acrobacia e malabarismo do Cirque du Soleil. Este lugar desafia todas as noções, ideias e conceitos. Este lugar não deixa ninguém indiferente.

Chama-se Varanasi mas já foi Kashi, Banaras e Benares - e, diz-quem-sabe, foi fundada por Shiva (o próprio!). É também o berço do Budismo, pois foi nesta zona que o Buda deu o seu primeiro sermão. Os hindus têm-na como a primeira de sete cidades sagradas na Índia (Sapta Puri), e acreditam que ao banharem-se aqui, nas águas do Ganges, se pode atingir o Moksha - a libertação do ciclo de morte e reencarnação.









Por conta de vários achados arqueológicos feitos na cidade e arredores, é historicamente aceite que Varanasi existe como aglomerado urbano há quase quatro mil anos. Durante o tempo em que aqui viveu Gautama, há quase dois mil e seiscentos anos, a cidade era conhecida por Kashi e há vários relatos a descrever aquilo que parece ser um importante centro industrial, religioso e artístico.

Na Idade Média, já com o nome de Benares, a cidade confirmou a sua importância ao ser elevada a segunda capital do Império Pala, que era budista e teve o seu auge nos séculos IX e X.

Mas os Impérios caem quando outros erguem-se, e os reis passam-ao-outro-e-não-ao-mesmo. Já Varanasi, essa resistiu sempre, independentemente de quem se sentava no trono ou para que lado rezavam, mantendo a sua reputação enquanto lugar de cultura, espiritualidade e pensamento. Ao ponto de, no séc. XVI, o Imperador Akbar (que era muçulmano), ter investido na construção de dois grandes templos dedicados a Vishnu e Shiva. Curioso, não? Foi também durante o Império Mugal que o Reino de Benares foi constituído. Varanasi ganhou uma importância tal, nos séculos seguintes, que vários marajás de outras paragens construíram aqui palácios e templos, à beira do Ganges, esse rio sagrado que sempre foi (e ainda é) o tesouro principal da cidade.



















Os primeiros turistas chegaram no séc. XVII e deixaram relatos que hoje nos ajudam a perceber ainda melhor a cidade. Um dos mais icónicos foi aquele que Mark Twain escreveu, em 1897, e que a dada altura diz: "Benares é mais velha que a História, mais velha que a Tradição, mais velha que as Lendas, e parece duas vezes mais velha que tudo isto junto".

Esta descrição ainda é válida, hoje - e eu pude constatá-lo, pela primeira vez, durante a minha primeira viagem à Índia, em 2003. Foi uma passagem rápida, de apenas dois dias, e confesso que vinha meio contrariado, pois nem sabia o que era Varanasi, além de uma breve descrição que lera num guia, e que insistia no cognome de "Cidade da Morte".

Surpresa a minha, portanto, quando descobri que a Cidade da Morte afinal era a Cidade da Luz, e que este era, acima de tudo, um lugar de celebração da Vida. Impressionante: ao fim de dois dias, quando nos fomos embora, saímos a fazer juras de amor eterno a este lugar, prometemos voltar, sentíamo-nos esmagados pela experiência. Depois fui assaltado, na viagem de comboio para Jaipur - mas essa história podes ler no meu livro "O Marajá faz anos", que não-é-para-aqui-chamada.






Varanasi estende-se ao longo de uma das margens do Ganges, entre dois pequenos rios: Varun e Assi. Daí o nome, portanto. Entre os imponentes palácios, os templos e o rio, há degraus onde os peregrinos e fiéis vêm tomar banho - chamam-se ghats. E há oitenta e tal ghats, ao todo, em Varanasi. A maior parte só para abluções, mas alguns para cremações. E a actividade que decorre aqui, do nascer ao pôr-do-sol, e mesmo à noite, é incrível. É a tal celebração da Vida.

Voltei em 2007 a Varanasi, mas novamente por dois dias. E só em 2019, quando fui para a Índia escrever o segundo volume da minha trilogia indiana, é que finalmente tive a disponibilidade que a cidade merecia. Fiquei aqui uma semana, só a caminhar e a familiarizar-me com os recantos e as rotinas, a escrever-escrever-escrever (o livro começa com Varanasi), e isto enquanto decorria o Khumb Mela em Allahabad, não muito longe dali. Ou seja: a cidade estava ao rubro, cheia de saddhus (homens santos) e peregrinos.

















Varanasi é espiritualidade. A cidade transpira misticismo e filosofia ao virar de cada esquina, atrás de cada porta, por baixo de cada árvore. Nos postes colados nas paredes, nas poças de lama no chão, no cheiro a incenso e a merda, nos sons de búzios a ser soprados em templos, mais os sininhos que alguém chocalha quando faz uma oração. Na música de Bollywood a tocar num rádio. Nas bostas de vaca ao longo do labirinto de ruelas. Nos pregões dos vendedores ambulantes. Na agitação dos fiéis junto ao Ganges, enquanto lavam os seus pecados nas águas sagradas do rio. No crepitar dos mortos a ser cremados à vista, mais o cheiro inconfundível da carne humana a arder. Nos clicks das máquinas fotográficas dos turistas. Hello, my friend, you first time in India?

A cidade tem alguns monumentos, e podia até dizer que determinado templo é mais importante que os outros - mas Varanasi é daqueles sítios que vale pelo todo. Visitá-la não implica saltitar de um lugar para o outro, cumprindo uma lista de must sees. Para realmente experienciar Varanasi, tens de te perder no emaranhado de ruas e becos que parecem medievais, caminhar junto ao rio e apreciar os rituais, as manias, as superstições e até as contradições da cidade. É obrigatório assistir a pelo menos um Ganga Aarti, a cerimónia dedicada ao Ganges que se realiza todas as noites, em vários ghats.

Varanasi é um lugar que desafia tudo, a começar pelas próprias noções de Espaço e Tempo.

E é mais do que obrigatória nesta minha Volta ao Mundo pelos lugares que já visitei: merece, sem qualquer dúvida ou hesitação, a honra de ser a primeira.












Se quiseres viajar mais um pouco por esta cidade e conhecer as cores, cheiros e emoções da Índia, entra em contacto comigo e encomenda já um dos meus livros sobre o país:

De Vespa na Índia
O Marajá faz anos

Podes contactar-me por Instagram, Facebook ou através do email fuidarumavolta@yahoo.com

07/04/2020

A VOLTA AO MUNDO EM 80 VOLTAS

Começo hoje uma nova série de posts que é uma celebração da curiosidade e da descoberta, dessa urgência em ir, essa fome de conhecer e coleccionar memórias. Ou, se quisermos resumir tudo numa só palavra: VIAJAR.

Estava eu a seleccionar umas fotos para os quizz de viagens que tenho feito no Instagram, quando reparei que havia tantos lugares onde estive e que nunca mereceram mais do que um par de partilhas nas redes sociais, já que nos últimos anos não tenho dado muita atenção ao blog.

Aproveitando o entusiasmo com que estou, aos poucos, a dar a este cantinho, decidi então fazer justiça a estes lugares e mostrá-los aqui. Contudo, à medida que viajava nas milhares de fotografias que tenho em arquivo, apercebi-me de que há muito mais para partilhar do que meia dúzia de sítios. E entre várias ideias que prometo explorar brevemente (algumas novas e outras que já faziam parte da rotina do blog), aquela que merece mais destaque é a que dá título a este post:

Vou dar uma volta ao mundo... em 80 voltas.

Ou seja: vou partilhar aqui 80 lugares que considero fora-de-série, dentro do mundo que já conheço. Obviamente que vai ficar muita coisa de fora, pois tenho ainda tanto para ver neste mundo. Mas é-o-que-temos. E prometo que vai ser uma viagem boa.


Não sei quanto tempo levarei a dar esta volta. Se publicar aqui um lugar por dia, esperam-me quase três meses. Mas pode demorar mais. Provavelmente acaba a quarentena e damos cabo do canastro ao covil, entretanto. Melhor ainda. Pode ser que ainda vá a tempo de acrescentar à lista algum sítio novo.

Pelo meio, vou continuar a contar outras histórias aqui. Quanto mais me volto a habituar ao blog, mais me apetece partilhar aqui. Por isso estejam atentos e passem por cá com regularidade. Há muito para ver.

Falta agora decidir qual o sítio que vai ter a honra de abrir esta série de oitenta.

Porque por muito que diga a mim mesmo que a ordem desta volta não obedece a nenhum ranking, não deixo de pensar que o primeiro na lista tem de ser um lugar especial. Mais especial que os outros. Tem de ser um sítio fora-de-série, que esteja a um nível tão alto ao ponto de ser quase uma passagem para outra dimensão.

Alguma ideia?

04/04/2020

FUI DAR UMA VOLTA (AO SUPERMERCADO)

Acordei com o coração aos pulos e uma excitação quase infantil, sensações que me fizeram recordar outra manhã, há mais de trinta anos - a do dia em que participei no Clube Amigos Disney, da RTP1, que era apresentado pelo Júlio Isidro. Lembro-me de estar nervoso porque íamos "à televisão". Lembro-me perfeitamente de ir a condizer com a minha irmã Joana, Cenoura dos pés à cabeça, a minha mãe tinha esta mania de nos vestir de igual. E lembro-me também da banda que tocou chamar-se GNR, achei estranho porque tinham o mesmo nome do jipe da polícia de Sintra, e o cantor era muito alto e excêntrico, nunca tinha visto ninguém assim.


Mas voltando ao primeiro de Abril do ano Vinte-Vinte: completei, finalmente!, os catorze dias de isolamento social, ou prisão domiciliária, ou castigo - chama-lhe o que quiseres - desde o meu dar-de-frosques da Índia. Parecia mentira, mas tinham passado duas semanas sem sair de casa (uma vez para pôr o lixo, à noite, mas fui a correr e voltei logo, prometo), sem ver ninguém a não ser uns amigos que no outro dia passaram para dizer olá, ao portão. De resto: casa. Casa. Casa. A namorá-la, a mimá-la e a pô-la (mais) bonita, a viajar em cada recanto e nas histórias que contam as coisas que a enchem. A ler e a escrever, a organizar os arquivos de fotos no computador, a cozinhar petiscos de vários países (como já deves ter reparado no Instagram), a pôr a conversa em dia com amigos, no WhatsApp; a aprender a saudar o sol, de manhã e a meditar - nem que seja cinco minutos. Só me faltou cravar riscos na parede, com o canivete.

Duas semanas, my friend. E apesar de saber que o cenário não vai mudar por-aí-além, nos próximos tempos, pois o planeta mantém-se em modo Apocalipse, já é um alívio poder ir à rua, nem que seja só para ir às compras, ou para passar nos Correios e enviar os livros que entretanto me vão encomendando.

Fora isso, e como diz o hashtag: stay the fuck home.


Acordei um bocado ansioso, portanto. E excitado, como já disse. Tinha planeado uma viagem cheia de perigos e emoções. Arrisquei a melhor fatiota de domingo, perfumei-me e meti os livros no carrinho das compras. Enfiei a máscara na cara, ou a cara na máscara. E fui dar uma volta.


Confesso que estava à espera de ver menos pessoas na rua. Muito menos, aliás. É verdade que a cidade está muito vazia. Tudo fechado. Poucos carros a circular. Ouvem-se os passarinhos e a poluição baixou. Certo. Mas vi muita gente. Parecia mais Agosto do que propriamente o Faroeste em dia de duelo. Mas o pior, além daqueles que estavam claramente a ir-às ou a voltar-das compras, ou a passear o cão, ou a ir para o trabalho, foi a quantidade de velhotes a passear, muitos sem máscara - e não sei se é por problemas de ordem técnica com os aparelhos de audição, Alzheimer ou só teimosia, mas ó velhinhos: a não ser que sejam adeptos de desportos radicais ou estejam a praticar algum tipo de eutanásia-free-style, não me parece que seja propriamente o momento para passeiozinhos. Além de ser uma atitude muito pouco solidária com todo o cenário actual: desde os profissionais de saúde que estão a "dar o litro" e muito mais, para tentar apaziguar o bicho; às pessoas que pura-e-simplesmente ficam em casa, com todo o transtorno que isso pode causar, para não fazerem parte da estatística e da cadeia de infeções e doentes.


Ao cruzar-me com outras pessoas na rua, notei que a maior parte baixava os olhos. Eu fiz o mesmo a maior parte das vezes, admito. Como se estivesse envergonhado por estar fora de casa. Como num sonho em que de repente percebes que estás nu, numa situação qualquer que não-tem-nada-a-ver. A sério: sentia-me um transgressor, observado, culpado de alguma coisa - e acredita que fiz-o-que-tinha-a-fazer o mais depressa que pude, correios, supermercado e olhar-à-volta-e-respirar-fundo, e ala pra casa, triste e revoltado porque faz-me falta o mundo e as suas paisagens, as pessoas e as sensações; mas mais-ou-menos conformado com o facto de saber que não estou sozinho nesta tempestade. E não: não acho que estamos todos no mesmo barco - mas estamos claramente a atravessar o mesmo mar. Com tudo o que isso implica para o Indivíduo, que é ao mesmo tempo membro de uma Família, parte de uma Comunidade, membro da Sociedade.

Que grande cambalhota esta, hem?

Com duplo mortal encarpado e pirueta invertida. Pontuação máxima, sim senhor, recorde olímpico, leva lá a bicicleta e vai-te embora, ó Covid.

Como tu, espero que passe depressa, a Tempestade. Vai passar, não tenho dúvidas. Não sei - ninguém sabe! - o que vem a seguir, mas acredito na sabedoria popular e essa diz-me que a Bonança há de vir.


Já convoquei meia dúzia de deuses hindus, tive uma conversa de homem para homens com o Gautama e o JC, rezei virado pra Meca, fiz oferendas a Yemanjá, Rainha do Mar, Princesa de Aiocá, bati três vezes na madeira, atirei sal por trás do ombro esquerdo, queimei velinhas e incenso, pendurei um daqueles olhos turco atrás da porta. Algum há de funcionar.

E como diz outro hashtag, vamos todos ficar bem.