23/08/2011

AI MINHA NOSSA SENHORA!

Que eu ainda apanho um torcicolo!

Passámos a manhã a ver igrejas - e há muitas, em Suzdal. Diz o guia que são, ao todo, 3 mosteiros, 2 conventos e 30 igrejas - sendo que pelo menos 3 são consideradas catedrais... e Património da Humanidade. Embrulha.

Não vou encher este post com fotografias de todas as igrejas de Suzdal. Não vou. Vou enchê-lo com fotografias de igrejas - mas só duas. Duas singelas, modestas, humildes igrejas.

Assim sendo, começo pela Catedral da Natividade da Virgem, que segundo o guia foi fundada em 1220, mas a placa no local diz 1225. Um erro gravíssimo, que vou ter de tirar a limpo da próxima vez que encontrar o Papa. Quando for a Roma, portanto. Ou então quando for para o Céu e encontrar o Nosso Senhor (eu não vou para o Inferno - apesar de tudo). Dou-lhe um valente bacalhau e "olha lá, ó Deus, lembras-te daquela igreja lá em Suzdal... aquilo era de 1220 ou 1225?"

E Ele ri-se com a pergunta, ri-se muito, ri-se às gargalhadas e olha para os lados a ver se vê alguém, e começa a tossir, e a desviar o assunto, e a disfarçar porque na verdade nem se lembra de que igreja estou a falar. Tantas igrejas pelo mundo fora, Ele vai-se lá lembrar daquela.

Datas e devaneios à parte, agradeçam-me as fotografias, porque visto ao vivo dá cá umas dores no pescoço...

























Continuámos as nossas voltas por Suzdal. É mesmo gira, o raio da terra. Como é que um sítio tão pequenino consegue reunir tanta coisa... dezenas de igrejas, arquitectura medieval russa, um rio onde apetece mergulhar, artistas, casórios, turistas.

Estou a escrever esta crónica no comboio, já a caminho de-não-sei-onde, mas se pudesse puxava o travão de mão, fazia uma derrapagem e lá ia o comboio de volta para Suzdal.

E se não acreditam em mim, vejam lá a Catedral da Transfiguração do Salvador, a ver se não é razão suficiente para telefonar para a CP russa a fazer uma ameaça de bomba, só para o comboio voltar para trás.













Preguei-vos uma partida - maroto. Disse que era a Catedral mas não era. Estas eram só da capelinha mesmo à entrada. As fotos-a-sério-a-sério são as que se seguem. Espero que gostem, deu uma trabalheira.






















PEQUENO-ALMOÇO EM SUZDAL

Acordei às sete da manhã com os tugas a sair - o suficiente para dizer adeus, foi bom ver-vos nem que seja a correr, boa viagem... e rebolar para o outro lado.

Levantei-me uma hora depois. Tinha combinado ir tomar o pequeno-almoço com o Chun, parece que a senhora do hostel recomendara um lugar qualquer. Saímos para a rua às oito e meia, o céu estava azul, praticamente sem nuvens - foramos poupados às intempéries. E quando chegámos ao tal restaurante, encontrámos a porta aberta.

Entrámos, pois claro.

As duas princesas ao balcão ficaram a olhar para nós como se estivéssemos a assaltar o castelo.

Silêncio.

O Chun ousou um bom-dia em inglês, enquanto eu dava um passo atrás, para confirmar que estávamos no sítio certo. Elas começaram então a acenar e a cuspir insultos em russo, eventualmente misturados com a palavra mágica "closed".

Mensagem recebida.

Saímos, desapontados, sem saber muito bem para onde ir, e eis que uma das donzelas - a que tinha cara de granda-frete-que-estou-a-fazer-por-vocês... ou será que era a outra, com ar de vocês-são-uns-anormais-e-eu-não-tenho-paciência-para-isto - vem ter connosco e aponta para uma pequena placa na porta. Dizia assim:

9-23

Só abre às nove, portanto.

Eram 08:53.

Ainda nos rimos da situação, enquanto procurávamos outro lugar para comer. Mas ao fim de dez minutos sem encontrar nada, resolvemos ceder e regressar - afinal das contas, era recomendado. E quando voltámos a entrar no restaurante, às 09:11, fomos recebidos por dois maravilhosos e brilhantes sorrisos. Incrível.

E: que estranho.

Tomámos o pequeno-almoço - muito simples, mas nada mau - ao som de Tony Carreira... em russo.






22/08/2011

SUZDAL A PRETO E BRANCO

Já em Suzdal, fomos ter ao Godzilla's, o hostel onde tinha combinado encontrar-me com três amigos de Lisboa - tinham reservado uma cama em meu nome. À noite fomos todos jantar: os quatro portugueses, o Chun e ainda um cazaque, que tão depressa se juntou à nossa mesa quanto a abandonou, eheh, para ir beber medovukha com uns moscovitas. Eu ainda experimentei a bebida, o sabor não me era estranho, acho que já bebi aquilo algures... mas não me lembro onde. É uma bebida alcoólica, feita à base de mel.

Comi uma das especialidades da casa, "carne debaixo de um casaco de peles", partilhámos cervejas e trocámos histórias de viagem - eles do passeio pela Rússia (que estava na recta final), eu da minha viagem (ainda na fase de arranque) e o taiwanês da sua épica travessia, que tem a namorada como meta. ;)



Lá fora, enquanto anoitecia, as cores de Suzdal tinham dado lugar a um preto e branco assustador. Quando finalmente nos fomos deitar, chovia e relampejava. Como não conseguia adormecer, comecei a contar... ovelhas? Não - não eram ovelhas que eu via a saltar a cerca... eram nuvens. Pequenas nuvens com olhos e boca e qualquer coisa de maléico na forma como sorriam, e todas me diziam com voz fininha e sotaque brasileiro:

"Log-si-vê, log-si-vê. Log-si-vê si amanhã vai chovê."

SUZDAL A CORES

PARTE 1: OS CINZENTOS DO COSTUME

Estes russos são mesmo estranhos.

Não há quase comunicação possível, parece que se estão "nas tintas" para tudo, sempre de trombas, não olham nos olhos.

Depois de três horas no comboio, saí na estação de Vladimir - a minha primeira paragem nesta aventura transiberiana. Daqui era suposto apanhar um autocarro para Suzdal, mas havia duas filas nas bilheteiras. O Chun (o taiwanês que conhecera à saída de Moscovo) perguntou a uma senhora se a fila onde estava era a correcta. Reacção imediata: um encolher de ombros e desvia logo o olhar, tipo só-me-faltava-agora-aturar-perguntas-idiotas.

Conseguimos o bilhete, apesar de tudo. Metemo-nos no pequeno autocarro, que demorou uma hora até Suzdal - tal como previsto. E como tínhamos ouvido falar que era preciso fazer a pé os últimos 2km até ao centro, decidimos confirmar com o driver.

"Suzdal?", enquanto saíamos, a apontar para o chão.

"Dah."

Até o "sim" parece que traz frete.

Ou seja: saímos. E começámos a caminhada. Dois quilómetros... "faz-se bem, não custa nada". E não custa. Mas o Chun tinha um pensamento para partilhar:

"Acho que vi algumas pessoas no autocarro a dar 10 rublos ao driver, de certeza que era para ele os levar ao centro da vila."

Dito e feito: passa o autocarro por nós.

E porque é que o homem não nos disse que ia ao centro, quando perguntámos? Não é preciso saber inglês - bastam alguns gestos. Porque não fez mais uns trocos? Porque é que nos deixou ir a pé? Eu conheço dois-ou-três-ou-mais países capazes de dar umas lições de hospitabilidade, solidariedade e até sentido de negócio, a estes senhores. Seja por uma questão de comunicação, coração ou puro interesse comercial, sei de lugares onde nunca - nunca! - nos deixariam ir embora assim, caso houvesse alternativa. E às vezes, mesmo que não houvesse.

Anyway. O passeio até foi agradável.

PARTE 2: UMA SURPRESA COLORIDA

E a vila revelou-se uma surpresa... muito colorida. As casas lindíssimas, todas em madeira e ricas em recortes nas janelas e nos telhados - e as cores! As cores!




















21/08/2011

CURIOSIDADES DO METRO DE MOSCOVO (3/3)




Esta estação apareceu em várias das listas que encontrámos no google, ao pesquisarmos pelas "most beautiful metro stations in Moscow". Tinha 72 estátuas de bronze que retratam a sociedade do séc. XIX, mas quatro delas eram mais especiais do que as outras: representavam um homem com um cão... e quase toda a gente que passava por elas, tocava no cão e fazia uma espécie de oração.

Pedimos a um senhor que passava para nos explicar o porquê. Ele não falava inglês, mas entre russo e muitos gestos, lá percebemos que era uma espécie de superstição, que dava sorte, e que as pessoas misturavam isso com a sua fé, aproveitando para rezar quando tocavam no cão.

E isso explica o dourado do focinho. :)


















CURIOSIDADES DO METRO DE MOSCOVO (2/3)

Estava um guia turístico a explicar a um grupo de americanos (sim, há tours no Metro de Moscovo!) que o autor deste painel morreu à fome três dias depois de o completar.

Três dias?! Mas isso não quer dizer que, enquanto estava a fazer o painel, já estava a passar fome?

A ser verdade, fica a herança. Este painel faz parte de um conjunto lindíssimo de meia dúzia, que fazem desta estação uma das mais fotografadas pelos turistas - estrangeiros e locais.




CURIOSIDADES DO METRO DE MOSCOVO (1/3)

Às voltas pela cidade, encontro "insólitos" por todo o lado. É normal. Pessoas, histórias, lugares, acontecimentos - a vida é cheia de curiosidades, e em viagem é normal que se esteja mais atento, para além de estarmos em território novo.

Adiante: hoje tenho três posts para publicar, e são todos de curiosidades do Metro de Moscovo.

Começo com uma máquina self-service de jornais e revistas, que encontrei em muitas das 176 estações do Metro de Moscovo.

Todo o tipo de leitura disponível, desde jornais mais "sérios" a imprensa cor-de-rosa, títulos desportivos, revistas de decoração. Muito boa ideia.