Formado em Marketing & Publicidade e curioso por natureza, não podia deixar de reparar nesta forma tão curiosa de fazer publicidade.
O chão de Moscovo está cheio de stencils a anunciar lojas, marcas, bares, cursos, concertos - tudo e mais alguma coisa. Como o passeio é alcatroado (apesar de estar em curso uma mega-remodelação na cidade, com quilómetros e quilómetros de alcatrão a dar lugar a uma espécie de calçada), o efeito é ainda mais visível.
Ou seja: nas minhas caminhadas por Moscovo, passei uma boa parte do tempo a olhar para baixo:
Eu sei que isto vai soar a chiché, mas é uma verdade incontornável e não consigo evitar a comparação: ir a Moscovo e não andar de Metro é como ir a Roma e não ver o Papa. Aliás: é pior ainda. Porque o Papa pode estar em visita a algum país, ou em peregrinação, ou a fazer uma sesta, ou a fazer cocó.
O Metro não - no fundo, no fundo, o Metro está sempre lá. Bem no fundo, aliás, que eu nunca vi escadas rolantes tão longas. Cheguei a contar sete minutos, sem exagero!, a descer para as profundezas.
Esta manhã conheci um malaio que está a viajar de bicicleta (partiu de Singapura e vai para Londres) e depois de fazermos uma prova de cozinha russa num hotel de cinco estrelas (chique!) decidimos ir dar uma volta de metro. Tinham-me aconselhado a visitar duas ou três estações em particular, por isso guiámo-nos pelo mapa do metro (bilingue) que ele tinha descarregado no seu iphone e foi fácil orientarmo-nos.
Mas eu queria mais.
Desafiei o Winston a irmos à descoberta, e não é que ele saca outra vez do seu iphone e diz com o ar mais natural do mundo:
"Podemos sempre pesquisar no google."
Sou mesmo saloio. Fiquei tão feliz. Fizemos um search por "most beautiful metro stations in Moscow" e apareceram logo algumas preciosidades. Entretemo-nos durante horas a entrar e a sair do metro, sempre de máquina na mão, boca aberta de tanto fausto - é incrível.
Conclusão número 1: É obrigatório ver. Não me perguntem o nome das estações outra vez, são demasiado complicadas para memorizar. Mas é mesmo obrigatório.
Conclusão número 2: Eu quero um iphone! Se o brinquedo já em andava a seduzir há algum tempo, com a quantidade de funcionalidades que me dão jeito em viagem, agora foi a gota de água. Quero um! Quero um! :)
Se num país normal este tempo já uma surpresa, imagine-se na Rússia, onde a burocracia é levada aos limites da estupidez.
Quando fui à Embaixada da Mongólia em Moscovo, ia preparado para pagar a "taxa expresso", para ter o visto pronto em 24 horas. Qual não foi a minha surpresa quando o senhor do guiché me manda esperar "um bocadinho".
...porque quando chegas a Moscovo, chegas a "Moskba":
...porque todas as ruas parecem ter nomes estranhos. As palavras escritas em cirílicos ficammais... exóticas:
...porque vês um McDonald's em cada esquina:
...porque tal como a geografia, a herança comunista e quase tudo neste país, também o capitalismo vem em tamanho XL:
...porque as ruas têm umas vinte e tal faixas em cada sentido:
...porque é preciso descer quilómetros de escadas rolantes até chegar às plataformas do metro:
...porque o mapa do metro é tão "marado" que ficamos com os olhos todos trocados:
...porque há imagens e referências àCatedral de S. Basílio por todo o lado. Pintada à entrada do meu hostel,em fotografias penduradasnas paredes de um restaurante, grafitada num muro a caminho da embaixada da Mongólia... está em todo o lado, incluindo no Kremlin, a própria, a verdadeira, finalmente ao vivo e a cores, ao fim de um longo dia de caminhada pela cidade:
Sabes que estás na Rússia porque parece que toda a gente está "de trombas". Porque há garrafas de cerveja e de vodka nas mãos das pessoas que andam na rua, e abandonadas pelos cantos, e nas montras dos quiosques, e nos cartazes de pubicidade. Por todo o lado álcool. E mulheres bonitas. Louras, altas, elegantes - com ou sem estilo, as russas são lindas. Sabes que estás na Rússia, porque ouves as pessoas falar e parece português, por momentos acreditas que sim, soa ao mesmo - mas é diferente.
Sabes que estás na Rússia. Nem que seja porque estás "em pulgas", em contagem decrescente para embarcar no Transiberiano, um dos grandes clássicos de viagem, e é em Moscovo que tudo começa. Falta pouco.
Bem-vindo a Moscovo, apesar das "trombas". Apesar dos grunhos, dos encolheres de ombros, dos desviares de olhar e das caras feias. Há um coração grande e sorrisos escondidos atrás das esquinas, não te preocupes. Quando menos se espera, eles aparecem.
Começou com uma pergunta mais ou menos deste calibre, esta aventura.
Em conversa no skype, o Tiago Costa (um dos meus bosses na nomad) informou-me que queriam lançar a viagem do Transberiano, e "tu és o gajo ideal para liderar uma viagem destas".
Nem hesitei.
Fui para a google pesquisar relatos de outros viajantes, peguei no lonely planet e comecei a "desenhar" a viagem. Mas quanto mais fundo mergulhava no assunto, mais apreensivo ficava. Não me parecia perigoso, o passeio - mas confesso que me assustavam um bocado, estas paragens. Muita burocracia, pouca simpatia, comunicação difícil. Liguei para o Pedro Gonçalves (o outro boss da nomad):
"Epá... não sei se me sinto muito à vontade com isto... primeiro porque nunca fiz o Transberiano, é território novo... e depois porque estes não são propriamente países muito fáceis de viajar... acho que é uma responsabilidade muito grande levar um grupo comigo sem ter experiência..."
E bla, blá, blá de incertezas e ansiedades. E sim: eu falo com os meus bosses com "epá". Got a problem? ;)
No dia seguinte, novo telefonema - mas desta vez no sentido contrário. Atendo.
"Este ano vais sozinho, então. Para ficares a conhecer o terreno. Fazes a viagem, publicas no teu blog as fotos e uns textos, e no próximo ano levas um grupo."
Parti hoje para uma aventura que promete emoções novas e experiências inesquecíveis.
Eram 12:45 quando o comboio 18E arrancou da plataforma 10 da estação de Yaroslavsky, em Moscovo. E eu: lá dentro.
Estou a fazer o Transiberiano. Depois de Kiev e da capital russa, eis-me a embarcar no clássico dos clássicos, iniciando uma viagem que faz parte do imaginário de qualquer viajante que "se preze". ;)
De Moscovo a Pequim, passando pela Sibéria e pela Mongólia - incrível! E o melhor de tudo é que vou em "reperage", porque no próximo ano, se tudo correr como previsto, repito a dose com um grupo de aventureiros da nomad.