02/07/2015

(MAIS OU MENOS) RAPTADO!

Nove muçulmanos, vários interrogatórios, uma tortura com insectos e uma fuga ao fim de vinte e quatro horas. A crónica que se segue contém descrições que podem chocar os leitores mais impressionáveis.

Parte 1:
Interrogatório e rapto

Depois da Agradável Surpresa que foi Murshidabad, comecei a voltar "para baixo" no mapa. O objectivo final era chegar a Bhubaneswar - onde a minha mota ficará guardada para uma segunda volta, em 2016 -, mas como isso implicava alguns dias de estrada, em vez de regressar pelo mesmo caminho fiz um desvio, de maneira a visitar Shanti Niketan (onde fica a icónica universidade fundada pelo Nobel da Literatura indiano, Rabindranath Tagore).

Apesar de nem estar muito mau tempo no momento em que saí de Murshidabad, ao longo do da manhã as condições foram piorando. Primeiro vento e muito pó, depois aguaceiros daqueles que não chegam a ser chuva, mas que deixam a mota, o piso e eu próprio encharcados - e isto por estradas nem sempre fantásticas, algumas recheadas de buracos e trânsito, outras com obras e lama. De vez em quando uma ou outra mais pitoresca... mas admito que foi uma manhã complicada de gerir. Encostei várias vezes para me abrigar da chuva, avancei sempre devagar por questões de segurança - e quando perto da hora de almoço fiz nova paragem para me abrigar, parecia que estava em cima da mota há trezentas e quarenta e uma horas sem parar. Sentei-me num banco corrido de madeira e pedi um chai ao velhote sentado a amassar o pão. Ele sugeriu-me umas chamuças, eu aceitei - estavam deliciosas. E enquanto esperava que a chuva passasse, reuniu-se a multidão do costume à minha volta. Sorri, estafado, não estava para grandes conversas mas quem sou eu para estar ou não estar para grandes conversas:

Coming from? Your good name? Job? How old? Are you married? Why? First time in India? Are you like India? Your country money is? Are you Islam (por causa da tatuagem)? Hindu? Christian? Iphone cost price in your country? Indian visa how much cost? How many rupees monthy income?

E a chuva, que não há meio de parar.

Findo o primeiro interrogatório, dois rapazes insistiram que os acompanhasse até à loja do outro lado do cruzamento. A mota ficou parada à frente do boteco, eu atravessei e fui apresentado ao tio e ao irmão do avô, ao cunhado da vizinha da prima em segundo grau, mais ao sobrinho-neto da sogra do irmão do melhor amigo.

A sensação não me é nova, é verdade. Mas não deixa de ser caricata. E tem tanto de cansativa como de cómica, admito que é preciso algum poder de encaixe e muita paciência. E, no entanto, é uma porta aberta a vários filmes - ou pelo menos tem sido, pela minha experiência.

E desta vez não foi excepção.

Estava há mais de uma hora em conversa com este-e-aquele, a responder aos mesmos interrogatórios com algumas variáveis, conforme os interesses e o inglês de cada um. Ah, pois: o inglês. Não me posso esquecer de sublinhar este facto: nesta aldeia à volta de um cruzamento, como nas outras aldeias ao longo da estrada e da história desta viagem, inglês é coisa rara de se falar. E, no entanto, lá nos entendemos. Mas, como dizia: mais de uma hora a ser passeado, apresentado e entrevistado, e eis que a chuva parecia estar finalmente a acalmar. Na verdade não me apetecia nada mandar-me à estrada outra vez, estava estafado - mas tinha de ser. E relembrei os meus novos amigos que estava ali só de passagem, e que daqui a pouco tinha de me ir embora.

Nada disso!, anunciaram enquanto me agarravam pelo braço. Ficas aqui connosco, há um lodge a três quilómetros, precisas de descansar.

Não resisti muito a este rapto, confesso. Fui uma vítima fácil. Mas a ideia de um quarto e cama... não, desculpem-me!, estou a trocar a ordem das coisas: a ideia de um duche. Um duche! Só a ideia de um duche era suficiente para me convencer.

O mais curioso é que a partir do momento em que aceitei a ideia do "rapto", de ficar ali em vez de continuar, fiquei logo muito mais relaxado. Só de saber que não tinha de levar outra vez com buracos e lama e tubos de escape. E o duche! Daqui a nada ia tomar banho!

Mais um chá com este, um cigarro com aquele, já almoçaste? Não?, então vens comer a nossa casa. Lembrei-lhes que estava a precisar desesperadamente de um banho, sugeri irmos ao lodge primeiro e depois a casa deles, mas quem sou eu para sugerir seja o que for. Afinal: é um rapto ou não é um rapto?

Fomos para casa de um deles, portanto, onde por milagre sabe-se lá de que santo já me esperavam a mulher, a mãe e a avó. Fui levado para o jardim, onde havia um poço - e enquanto uma delas dava "à bomba" eu lavei rosto, pescoço, braços e mãos. Depois descalcei-me e entrei, instalaram-me num dos quartos e acenderam a televisão. Eu fiquei sentado na borda da cama, descalço e a olhar para o infinito, ora sorrindo, ora fingindo que estava interessado nos telediscos que passavam, enquanto durante cinco minutos ficou tudo em silêncio a olhar para mim. A ver o estrangeiro. Trocaram algumas impressões, não faço ideia nem nunca saberei o que disseram.

Almocei com o primo do dono da casa, que era o único que comia - todos os outros estavam em jejum, por causa do Ramadão. As mulheres nem entraram no quarto, enquanto comíamos. Depois fumámos um cigarro no terraço, trocámos histórias, pediram para ver as fotografias da minha família. Mostrei e entretanto voltaram a aparecer as mulheres da casa, que ficaram deliciadas.

Resumindo as voltas e as conversas: pouco depois estava a ser convidado para ficar. Nem foi bem convidado, foi mais: telefonámos para o lodge e disseram-nos que estão cheios, todos os quartos reservados. Por isso ficas aqui. E fiquei, que remédio. Estacionei a mota no jardim e levei a mochila para o quarto, tomei um banho de balde (lá se foi o tão sonhado duche quente) e fiz uma sesta com os homens da casa. A meio da tarde fomos passear com os amigos, fui apresentado à metade da aldeia que faltava conhecer, bebi mais uns chais, vimos o pôr-do-sol. Depois começou a escurecer e voltámos para casa, subimos ao terraço e estenderam uma esteira no chão, onde nos deitámo-nos à conversa, com a lua a testemunhar. Um enorme halo à volta, mais Júpiter e Vénus em sensual aproximação. O céu estava carregado de estrelas. E à nossa volta voavam dezenas de pirilampos. Parecia uma cena de um filme de Bollywood, mas sem o drama e as coreografias do costume.

A segunda parte vem já a seguir.

3 comentários:

lv disse...

Muito bom, fantástico mesmo :)

Clara Amorim disse...

Temos história para um livro...! 😉

Bárbara Pinto disse...

Delicioso!!