07/02/2010

EXPERIÊNCIAS GOURMET #03

Vientiane, Dezembro de 2009: o segundo grupo da nomad tinha regressado a Portugal há pouco mais de vinte e quatro horas e eu tinha um voo daí a dois dias, em Bangkok, para Singapura.

Passei a noite num nightbus, vindo de Luang Prabang. Cheguei à capital do Laos ainda o sol não tinha nascido, dirigi-me imediatamente ao hotel onde costumo levar os grupos nomad – consegui um preço especial e ali fiquei a dormir toda a manhã. Quando finalmente acordei, tinha uma chamada não atendida no telemóvel: era o Lin.

O Lin – melhor: o mr. Lin – é o driver do riquexó-camioneta que nos acompanha em Vientiane, quando venho com grupos. Vai-nos buscar à fronteira e deixa-nos no hotel, faz o tour pela cidade e ainda nos leva ao Buddha Park, o devaneio kitsch de alguém que tinha muito dinheiro para estoirar e não sabia bem onde. Ainda bem.

Mas adiante: o Lin tinha-me convidado para almoçar. Liguei-lhe, disse-me para ir ter com ele ao “point”, o lugar onde ele costuma estar parado a ver se consegue clientes, e lá fui, sem saber muito bem o que me esperava. E o que me esperavam eram quatro ou cinco amigos, tudo muito animado com o facto de terem uma desculpa para folgarem essa tarde – e a desculpa era eu.

Entrámos para a parte de trás do riquexó-camioneta. Um deles trazia um pato vivo com as patas amarradas, atirou-o para junto dos nossos pés e eu imediatamente tive a certeza que estava ali o almoço.



Cumprimentei os amigos e cumprimentei o almoço – e lá fomos em alegre cavaqueira.

O medo do bicho era tanto que, assim que nos pusemos a caminho, "borrou-se" todo. E com tanto solavanco e travagem, foi ver o almoço a rebolar-se na própria m#*!@, por mais que eu desviasse o olhar, por muito que eu me tentasse abstrair do cheiro.

Chegámos a casa do mr. Lin. Uma boa casa, com um jardim enorme com relva, onde estenderam uns panos enormes e almofadas para nos deitarmos. E assim que nos sentámos no chão à conversa, estava eu a puxar de um cigarro quando se materializou, vinda sabe-se lá de onde, uma grade de Beer Lao. Ora vamos lá ver uma coisa: alguns meses antes, isto não me teria impressionado muito – nunca fui apreciador de cerveja. Mas a Beer Lao mudou tudo.

Quanto ao almoço: o Lin e um dos amigos trataram de tudo. Deram banho ao bicho e deixaram-no de molho ao sol, depois agarraram nele com carinho, gentilmente empurraram a sua cabeça para trás, como amantes que se preparam para lhe beijar o pescoço… e com um golpe certeiro, cortaram-lhe a garganta. O sangue começou a jorrar para dentro de um recipiente ali posto de propósito, depois depenaram o bicho, cortaram a carne aos bocados e cozinharam tudo num wok.



Reparei com curiosidade que tinham guardado o sangue no tal recipiente, onde juntaram cinco colheres de água e cinco de molho de peixe. Quando os vi a preparar o wok, perguntei inocentemente:

“You’re going to cook it with the blood?”

Eles disseram que sim – e eu, sorrindo, expliquei-lhes cheio de inocência que, em Portugal, também tínhamos um prato parecido.

“It’s called cabidela.”


O sangue não foi usado para cozinhar a carne. O sangue (fresco!) era o molho.

Mr. Lin!

7 comentários:

Anónimo disse...

Não terão uma costela vampiresca? Blaaarrrggg!!!E se de começam a crescer os caninos? Se eu já não comia cabidela, depois disto e como diria o outro,é que JAMAIS. Manda mais. Bjs. Your favourite auntie

LV disse...

Jorge o que te falta mais experimentar?????. Só falta dizer que até gostaste ...!!!! Como é possível !!!! E não te fez mal à barriga esse molhinho?. O tapete e os restantes ingredientes não eram nada maus, mas o molho???? ....

margarida disse...

Meu Deus Jorge as coisas que tu comes.... Beijos
Tia Guida

Mafalda disse...

Coitado do pato...

Madalena disse...

Jorginho, como é? O almoço não me pareceu nada aptecivel, mas tenho de te dar os parabéns pelas fotografias, adorei!!!
Beijinho
Madalena (Manel)

Madalena disse...

Jorginho, como é? O almoço não me pareceu nada aptecivel, mas tenho de te dar os parabéns pelas fotografias, adorei!!!
Beijinho
Madalena (Manel)

Madalena disse...

Jorginho, como é? O almoço não me pareceu nada aptecivel, mas tenho de te dar os parabéns pelas fotografias, adorei!!!
Beijinho
Madalena (Manel)