"Empurra! Empurra!", grito ao meu irmão Vasco enquanto tento furar entre os passageiros que sobem para o comboio, carregados de sacos enormes, malas, caixotes e cestos cheios de sei-lá-o-quê.
"Só temos dois minutos", penso entretanto para os meus botões, ou digo para o ar, ou será que também gritei isto?, é tanta a confusão que já não sei muito bem aquilo que exteriorizo e o que guardo para mim.
Olho para trás e o meu irmão está a rir-se, entalado no meio do caos. Olho para a frente e desespero, não vamos conseguir, não vamos conseguir, como é que vamos sair daqui... nós temos que conseguir!
Mas calma: recuemos um bocadinho no Tempo e no Espaço, para perceber melhor o que se está a passar.
Depois de me despedir do grupo "Os Excursionistas", com quem viajei duas semanas pela Birmânia, enfiei-me num autocarro nocturno que mais parecia uma nave espacial, em Mandalay... tomei um comprimido mágico assim que as luzes se apagaram... e quando acordei estava o sol a nascer e tinha sido teletransportado para a estação de autocarros de Yangon.
Táxi para o centro, mochila às costas e ziguezagues entre gente e trânsito, subi umas escadas de um filme de terror e registei-me num hostel com ar condicionado, onde passei o resto da manhã a recuperar sono e energias, pois ao final da tarde chegava ao Myanmar o meu irmão Vasco - vamos viajar juntos nas próximas duas semanas.
Jantámos com amigos na Rua 19, passámos o dia seguinte a caminhar pela cidade - e ao final da tarde, antes de sairmos para visitar o espectacular Shwedagon Pagoda, fomos à estação dos comboios comprar bilhetes para Mawlamyine, para onde pretendíamos viajar no dia seguinte.
"Aqui só vendemos bilhetes para o próprio dia, têm de voltar amanhã de manhã."
Isso já eu sabia, mas estava a ver se passava.
"E ali do outro lado, nas outras bilheteiras... aí posso reservar, certo?"
"Sim, aí fazem-se as reservas. Mas já fechou... fecha às três."
Okay: isso é que eu não sabia.
Ou seja: sem reserva feita, teríamos de arriscar e voltar na manhã seguinte, uma hora antes do comboio partir, e tentar a nossa sorte. E das duas uma: ou havia bilhetes em upper class e lá-vamos-nós confortáveis até ao nosso destino; ou, caso a upper class estivesse esgotada, teríamos de viajar em bancos de madeira durante as dez horas que demora a percorrer a distância entre Yangon e Mawlamyine. Sim: dez! E numa linha que não é propriamente conhecida por ser suave e confortável.
Fomos para o Shwedagon Pagoda, portanto. Rezar para que houvesse bilhetes no dia seguinte.
Às seis da manhã estávamos a sair do hostel e quinze minutos depois chegámos à estação de comboios de Yangon. Mingalabar, caro senhor da bilheteira, queremos ir para Mawlamyine no comboio das sete e um quarto, por gentileza pode vender-nos dois bilhetes em upper class?
"Sorry. It's full."
Não.
Isto não pode estar a acontecer.
Eu sabia que devia ter pensado nisto com tempo. Devia ter sido mais organizado. Quando estou com os grupos da Nomad planeio estas coisas com antecedência e especial cuidado. E agora que somos dois... a sério, não quero sequer imaginar o que serão dez horas a viajar naqueles bancos.
"Full?! Are you sure?"
Que pergunta tão cheia de desespero.
"Podemos viajar em carruagens diferentes, não há problema. Only two tickets, sir."
"No available seats. You take ordinary class."
Olhei para onde o senhor apontou com a cabeça, vi ao fundo uma bilheteira - atrás de dezenas de pessoas a empurrar para conseguir o próximo bilhete. Senti um grosso pingo de suor a escorrer pelas costas abaixo. O meu irmão a rir-se, é a primeira vez na Ásia, estava a adorar. Mas eu nem queria acreditar que ia ter de lutar por um lugar num banco de madeira.
(imagem roubada na net)
Estou feito.
To be continued... ;)
22/10/2016
19/10/2016
THE WIVES OF MANDALAY
A propósito de nomes de grupos:
Há pouco mais de um mês, estava eu a viajar na Birmânia com um grupo que era composto exclusivamente de mulheres. Nove, para ser mais exacto. Era a primeira vez que tal me acontecia - apesar de, em regra, haver mais mulheres que homens nos grupos que acompanho com a Nomad.
Mas nove!
Enfim: já não me lembro a propósito de quê, mas quando estávamos em Mandalay desafiei-as a virem comigo a um karaoke local. Combinei com uns amigos birmaneses e à hora combinada lá fomos, eu e oito das nove senhoras - e quando chegámos ao local os meus amigos ainda não tinham chegado, por isso tratei eu de reservar um quarto.
(Ao contrário do karaoke ocidental, que normalmente é feito em bares e restaurantes, o asiático requer alguma privacidade, por isso alugam-se quartos especialmente preparados para o efeito, onde se pode cantar à vontade com os amigos, beber umas cervejas e até jantar.)
Quando voltei da "recepção", as meninas do grupo tinham-se sentado num longo sofá, na sala de espera, e ao aproximar-me delas expliquei-lhes que tínhamos de esperar dez a quinze minutos, que os meus amigos haviam de chegar entretanto, isto-e-aquilo...
...e numas cadeiras mesmo ao nosso lado estava um grupo de meia dúzia de rapazes com dezoito-dezanove anos, fascinados por verem este homem a falar com oito mulheres - e elas muito atentas a ouvir. Curiosos, não paravam de olhar e comentar entre eles. Até que eu me virei na sua direcção e, piscando o olho, fiz um movimento com a mão que abrangiu as oito mulheres e disse, com o ar mais natural possível:
"My wives."
Os miúdos desataram-se a rir e lançar urras e vivas, e então acrescentei:
"One for each day of the week."
Espera lá: deixa-me explicar uma coisa, antes de prosseguir. Na cultura birmanesa, acredita-se que a semana é composta por oito dias: segunda, terça, quarta de manhã, quarta à tarde, quinta, sexta, sábado e domingo. Daí a piadinha com os dias da semana.
Continuando:
"One for each day of the week", e apontando para uma das senhoras disse "monday", depois para outra e disse "tuesday", na próxima "wednesday morning" e por aí fora. Os gajos entraram em extâse, a bater palmas e aos gritos, a rir e a rebolar no chão.
Eu continuei a falar com as minhas "wives", como se não fosse nada, e eis que de repente um dos miúdos vem ter comigo e abraça-me como se eu fosse o herói da vida dele. E depois perguntou-se se podia tirar uma selfie comigo.
Só rir.
Claro que o grupo ganhou, nesse exacto momento, um nome. Durante o resto da viagem e nas histórias que havemos de contar um dia quando formos velhinhos, este grupo passou a chamar-se "The Wives of Mandalay".
E porque não tenho fotos que ilustrem o momento em si, partilho hoje uma pequena selecção de retratos de família tirados ao longo da emocionante viagem que fizemos, em Setembro, na Birmânia:
Há pouco mais de um mês, estava eu a viajar na Birmânia com um grupo que era composto exclusivamente de mulheres. Nove, para ser mais exacto. Era a primeira vez que tal me acontecia - apesar de, em regra, haver mais mulheres que homens nos grupos que acompanho com a Nomad.
Mas nove!
Enfim: já não me lembro a propósito de quê, mas quando estávamos em Mandalay desafiei-as a virem comigo a um karaoke local. Combinei com uns amigos birmaneses e à hora combinada lá fomos, eu e oito das nove senhoras - e quando chegámos ao local os meus amigos ainda não tinham chegado, por isso tratei eu de reservar um quarto.
(Ao contrário do karaoke ocidental, que normalmente é feito em bares e restaurantes, o asiático requer alguma privacidade, por isso alugam-se quartos especialmente preparados para o efeito, onde se pode cantar à vontade com os amigos, beber umas cervejas e até jantar.)
Quando voltei da "recepção", as meninas do grupo tinham-se sentado num longo sofá, na sala de espera, e ao aproximar-me delas expliquei-lhes que tínhamos de esperar dez a quinze minutos, que os meus amigos haviam de chegar entretanto, isto-e-aquilo...
...e numas cadeiras mesmo ao nosso lado estava um grupo de meia dúzia de rapazes com dezoito-dezanove anos, fascinados por verem este homem a falar com oito mulheres - e elas muito atentas a ouvir. Curiosos, não paravam de olhar e comentar entre eles. Até que eu me virei na sua direcção e, piscando o olho, fiz um movimento com a mão que abrangiu as oito mulheres e disse, com o ar mais natural possível:
"My wives."
Os miúdos desataram-se a rir e lançar urras e vivas, e então acrescentei:
"One for each day of the week."
Espera lá: deixa-me explicar uma coisa, antes de prosseguir. Na cultura birmanesa, acredita-se que a semana é composta por oito dias: segunda, terça, quarta de manhã, quarta à tarde, quinta, sexta, sábado e domingo. Daí a piadinha com os dias da semana.
Continuando:
"One for each day of the week", e apontando para uma das senhoras disse "monday", depois para outra e disse "tuesday", na próxima "wednesday morning" e por aí fora. Os gajos entraram em extâse, a bater palmas e aos gritos, a rir e a rebolar no chão.
Eu continuei a falar com as minhas "wives", como se não fosse nada, e eis que de repente um dos miúdos vem ter comigo e abraça-me como se eu fosse o herói da vida dele. E depois perguntou-se se podia tirar uma selfie comigo.
Só rir.
Claro que o grupo ganhou, nesse exacto momento, um nome. Durante o resto da viagem e nas histórias que havemos de contar um dia quando formos velhinhos, este grupo passou a chamar-se "The Wives of Mandalay".
E porque não tenho fotos que ilustrem o momento em si, partilho hoje uma pequena selecção de retratos de família tirados ao longo da emocionante viagem que fizemos, em Setembro, na Birmânia:
18/10/2016
MAIS UM "BEST OF" DA BIRMÂNIA
Há um ano que não viajo com máquina fotográfica - a minha "deu o berro" e ainda não tive coragem para investir dinheiro e tempo numa nova. Ou seja: quando quero registar algum insólito, um momento especial, um sorriso, um bocadinho do mundo... uso o telefone.
Só que a Birmânia está-se nas tintas para este meu infortúnio. Insiste em surpreender-me, por vezes com requintes de malvadez, com imagens e cores e momentos que me fazem chorar desconsoladamente pelo facto de não ter uma máquina comigo. "Tivesses!", é o que parece dizer-me o país.
Enfim: chega de lamechices. Verdade-seja-dita, mas não me envergonho nada daquilo que tenho conseguido com o meu iphone - e um bocadinho de photoshop. E a selecção de fotos que se segue, todas feitas durante a volta pela Birmânia com "Os Excursionistas", é a prova disso.
Boa viagem!
Só que a Birmânia está-se nas tintas para este meu infortúnio. Insiste em surpreender-me, por vezes com requintes de malvadez, com imagens e cores e momentos que me fazem chorar desconsoladamente pelo facto de não ter uma máquina comigo. "Tivesses!", é o que parece dizer-me o país.
Enfim: chega de lamechices. Verdade-seja-dita, mas não me envergonho nada daquilo que tenho conseguido com o meu iphone - e um bocadinho de photoshop. E a selecção de fotos que se segue, todas feitas durante a volta pela Birmânia com "Os Excursionistas", é a prova disso.
Boa viagem!
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