03/07/2014

ONDE É QUE ESTÁ O BOTÃO DO EJECT?

Portanto: adeus, Pequim - até à próxima.

Da guesthouse ao aeroporto foi um instante - viajei numa espécie de nostálgico turpor, sentado no banco de trás do táxi, acelerando na autoestrada vazia enquanto a cidade e as suas histórias ficavam para trás, no espaço e no tempo; o sol a nascer atrás de um horizonte de prédios em contra-luz.

Check-in. Imigração. Shuttle para o terminal. Pequeno-almoço. Embarque.

Vamos lá embora.

Próxima paragem: Macau.

Tinha pedido um lugar à janela e fui parar à fila 22, que é lugar junto à saída de emergência - mais espaço para as pernas, que bom - mas o único que não tinha janela. Estive quase-quase para protestar com a hospedeira, mas acabei por me resignar. O voo: quase-cheio. As probabilidades de conseguir mudar: quase-nulas. E para ser muito sincero, queria mais dormir que ver as vistas. Assim sendo: toca a esticar as pernas porque enquanto o avião cruzar os céus, eu cruzo sonhos.

Fecho os olhos, respiro fundo, deixo o corpo e mente repousar, sempre são quatro horas de viagem até Mac... mas que chinfrineira é esta?

O Bêbado

Abro os olhos. Endireito-me no lugar, olho para trás com olhos de mas-o-que-vem-a-ser-isto. Um chinês de meia-idade e barriga-e-meia fala como um actor num palco, como se os passageiros das filas à volta fossem o público. O que, de certa forma, acaba por ser verdade. Só falta o holofote. Enrola o mandarim mais do que já se enrola quando se está sóbrio, senta-se e levanta-se, levanta-se e senta-se, ri e boceja em alto som, os dentes cheios de boca, os anéis cheios de dedos, e a hospedeira manda sentar, e a hospedeira manda estar sossegado, e a hospedeira vai ter com ele quando toca no botão-de-chamar-a-hospedeira, não entendo nada do que lhe diz, mas percebo muito bem. Ela vai embora, ele volta a carregar no botão-de-chamar-a-hospedeira. Mais duas, três, quatro vezes. Que triste coreografia.

O avião está pronto para sair há meia hora, mas estamos "à espera de vez".

O Mauzão

Sentada ao meu lado está uma senhora nervosíssima. Olha para o espelho, olha para as unhas, olha para as luzinhas acesas do no-smoking, olha para as luzinahs acesas do exit, olha para mim e desvia e foge, olha para o marido e agarra-se ao braço dele. Ele não reage, é de uma frieza inabalável, de vilão de filme de karaté, de quem não tem paciência para estas mariquices. Mauzão.

O telefone não pára de tocar. O Mauzão atende e fala como se estivesse no restaurante a comer um pato à pequim depois de ter despachado dois ou três inimigos. Atende, apesar de estarmos já a avançar para a pista (finalmente!), apesar da hospedeira ter mandado desligar o telefone várias vezes. Quero-lá-saber. Atende em alto e bom som, não tão alto quanto o bêbado atrás de nós, mas alto. Depois desliga. Depois atende. Depois desliga. Outra coreografia a juntar à do Bêbado e da hospedeira. Que bailado este, patrocinado pela Air Macau.

O Dorminhoco

Na fila à minha frente, um passageiro decide deitar-se ao longo dos bancos que tem vazios, ao lado. A hospedeira vem dizer-lhe que enquanto estivermos a descolar, tem que ir sentado e de cinto apertado. Não tem descanso, a sorridente rapariga. Mais tarde pode deitar-se, diz-lhe. Ou acho que diz. Ele faz-se de parvo, ou é mesmo parvo, finge não entender, dá voltas à almofada mas a hospedeira acaba por dar-lhe a volta a ele. Senta-se. E mal ela se afasta, volta a deitar-se.

A Criança

Uma voz anuncia que vamos finalmente levantar voo. O Bêbado da fila de trás arrota em aprovação, o ar enche-se de um perfume triste e a senhora ao meu lado segura-se com mais força ao braço livre do Mauzão, que ainda está ao telefone. Nem olha para ela. Na fila em frente, do outro lado do corredor, uma Criança com trinta-e-tal anos abraça-se a um urso de peluche castanho, diz-lhe ao ouvido para não ter medo, que tudo vai correr bem. Pouco depois adormece. Ela.

Onde é que eu estou? Que lugar é este - este momento, isto existe mesmo ou estarei a sonhar?

Ainda nem levantámos voo e já estou à procura do botão do eject.

Primeiro que consiga alguma paz de espírito para dormir - ainda vai demorar um bocadinho. Tenho que me adaptar a esta paisagem à minha volta. Mas como? Agora as paredes tremem e um barulho surdo toma conta do espaço todo, há dedos a apertar braços, dentes cerrados e pessoas ao telefone. Uns nervosos, outros ansiosos, há quem não dê por isso, tanto-faz.

Uma omolete

Acabo por adormecer, mas não por muito tempo. Acordo com o aroma quente das refeições que estão a ser servidas. Omolete ou noodles com carne? Escolho a opção mais amarela, em homenagem ao sorriso do Bêbado. A mulher ao meu lado olha para o Mauzão, ele faz-lhe sinal que não e ela recusa a refeição. Pouco depois há-de tirar umas salsichas da mala e oferecer ao marido.

Ponho os phones nos ouvidos, mesmo assim não consigo deixar de ouvir o Bêbado. Felizmente, por pouco tempo. Depois de sacar-de-uma-escarra (não sei o que fez com ela, entrei automaticamente em estado zen para me abstrair de tanta informação), descalçou-se e esticou-se ao comprido nos três lugares que tinha disponíveis. E a minha fila cheia. De repente o ar encheu-se de um ambiente de quarto fechado.

A sério: onde é que está o botão de eject. Aquele botão que os pilotos têm quando o avião é atingido pelo inimigo, é só carregar e somos imediatamente lançados, ainda sentados na cadeira, e depois abre-se um para-quedas e tudo acaba em bem, a não ser que o inimigo esteja à espera no solo. Mas eu quero lá saber do inimigo. Eu quero é sair daqui para fora. Onde é que está o botão do eject?

A viagem prossegue dentro da normalidade possível. Eu vou tirando notas mentais até que a informação é tanta que saco do telefone e escrevo algumas coisas, não vá o diabo tecê-las e esquecer-me. Só a mim. Volto a adormecer. Acordo com alguém a abanar-me os ombros, é a hospedeira a avisar-me que tenho de endireitar o banco, desligar o telefone, a rotina do costume. Obedeço, sou um bom rapaz, porquê dificultar o trabalho à rapariga, ainda por cima com um sorriso tão vermelho e tão giro.

Ao meu lado, a senhora segura nas mãos do Mauzão, mas desta vez por razões diferentes. Vejo palitos partidos no chão, que ela vai atirando à medida que deixam de ter utilidade. E o bocado que segura agora está a ser muito útil para limpar as unhas ao marido. A sério.

A Criança do urso de peluche continua abraçada ao próprio. Tem os braços cheios de nódoas negras - ela, não o urso. Há com cada pancada.

O Bêbado já acordou e decidiu que era uma boa altura para cantar. Canta.

O Dorminhoco também já está sentado, decidiu que era uma boa altura para aderir ao cartão das milhas da Air Macau e pediu ajuda à hospedeira, porque não sabe ler e escrever, ou porque não tem os óculos com ele, ou porque não tem paciência, ou pura e simplesmente porque acha que a hospedeira é que tem de fazer aquilo. Ela está sentada ao lado dele a escrever as informações que ele vai ditando. Que filme.

O avião aterra. Ainda na pista e já estão telefones a tocar. O Mauzão atende logo e manda despachar dois ou três gajos. Só falta a cena do polegar-para-baixo. O Dorminhoco levanta-se e abre o compartimento em cima, tira a mochila e ouve logo com a hospedeira histérica a mandar sentar, por motivos de segurança, blá blá, ele senta-se mas fica o compartimento em cima aberto, os outros passageiros agachados com medo que as malas lhes caiam em cima da cabeça. Ainda estamos na pista, a travar.

O avião pára onde tem de parar. A viagem acabou. Que filme, este. A China toda materializa-se por milagre no corredor entre as filas de bancos. Que pressa esta, que as pessoas têm de sair dos aviões, não é só na China, e é irracional.

A mulher ajeita o colarinho ao Mauzão, que em todo este processo não lhe dirigiu a palavra uma única vez. A Criança de trinta-e-tal anos arruma o peluche dentro de um saco, antes de o fechar pede desculpas pela barbaridade do acto. Eles não nos percebem, eu e tu. Até já, ursinho lindo. O Bêbado acalmou, curiosamente. Já nem o vejo, para ser sincero, deve ter furado a fila para ser o primeiro a sair do avião, dizem que há setenta e duas virgens à saída para o primeiro, só isso pode explicar a pressa. E daí: nunca entendi muito bem a cena das setenta e duas virgens. Mas isso são outras discussões.

Saio do avião e vejo um cartaz enorme que diz "Bem-vindos a Macau". Em português.

7 comentários:

Vento no Cabelo disse...

hilariante! :-)

Gloria Rabanea disse...

Viajei consigo nessa descrição cinematográfica! Aproveite Macau! Bjs

Anónimo disse...

Da para guiao de um filme de Hong Kong!!

Filipe Morato Gomes disse...

Ahahaha... o que eu me ri ao ler este post. Pena teres dormido tanto, senão tinhas ainda mais para contar ;)

Joaninha disse...

muito bom!

Oh, Mrs. Dalloway! disse...

É caso para dizer: freak flight 😁

Clara Amorim disse...

Maravilha, Jorge!
Já tinha saudades assim de uma crónica tão bem-humorada, bem ao teu estilo!!!