23/10/2013

SALTOS & SORRISOS

Ontem viajámos no comboio que liga Yangon a Mandalay. Uma epopeia de dezasseis horas que só mesmo quem a viveu é que sabe. O comboio é velhote - é o mesmo que descrevi brevemente, há duas semanas, quando fiz a mesma viagem, mas à noite.

Partimos à hora certa. Seis da manhã, o sol a nascer atrás de uns prédios e templos, cada assento a sua avaria. Um não reclinava, vários não se punham direitos, outros rodavam como uma cadeira de barbeiro. Teias de aranha por todo o lado, um ar de abandono que noutros lugares poderia dar azo a outras reacções. Mas estamos na Birmânia, faz parte da aventura, há que desligar o "chip" - o costume.

O país passou devagar na janela, ao longo do dia. Enquanto íamos para Norte, o Sol atravessou na perpendicular: vimo-lo nascer do lado direito, e mergulhar no horizonte à esquerda. Entretanto atravessámos paisagens e pessoas, templos e música, muitos sorrisos por todo o lado.

Na carruagem passavam a toda a hora vendedores de bebida e comidas várias. Partilhámos a carruagem com estudantes e monges, famílias locais e até um casal de ratos que andou a fazer jogging toda a tarde, ou a brincar à apanhada. Depressa nos habituámos à sua presença.

Dezasseis horas! Saímos às seis da manhã, chegámos às dez da noite. Estafados, claro. Este comboio não é um comboio qualquer. Montade em carris muito curtos, abana como nunca vi nenhum outro abanar. Sacode e agita em todos os sentidos e direcções, em várias velocidades e intensidades. Mesmo assim consegui dormir, mais do que naquela primeira vez, quando um velhote nos quis embebedar, tão contente que estava de nos conhecer.




Estamos finalmente em Mandalay, portanto. Ontem viemos directos para o hotel, os onze e respectivas mochilas e sacos, e ainda o driver e um "assistente" - todos encaixados, sabe-se lá como, numa carrinha mínima de caixa aberta e capota de lona. O hotel não era longe. Jantámos tarde, todos mareados, "esta cerveja sente-se logo", não era da cerveja, era mesmo a tontura de estar em solo firme, depois de tanto tempo ao sabor das ondas... hmmm... dos carris.

Hoje passamos dos carris para os pedais. Aluguei bicicletas e vamos pedalar pela cidade, visitar mais uns templos e mosteiros, explorar mais um bocadinho deste lugar feito de sorrisos. E saltos - pelo menos ontem.

4 comentários:

Clara Amorim disse...

Que crónica fabulosa! Muito bem escrita e cheia de pedacinhos de humor!
Também ela ainda a saltitar no nosso pensamento! ;)

VITOR SIMÕES DIAS disse...

Como eu o invejo!Fascina-me viajar,,,
inflismente agora já não posso como outrora,,,que bela descrição dessa viajem!adorei.)

agrades disse...

Que fascinante deve ser a Birmânia!
Gostei muito de ler a aventura.

LV disse...

Deve ser fantástica esta viagem, quem sabe este destino não será uma próxima viagem ????? :)
Os amigos ratos é que não me fazem muita falta e deixam-me pouco à vontade, mas não hão-de ser eles a desviar-me deste circuito .....