09/12/2009

THRÈ SÍ NHÂ

(parte 2)

Ainda lhe dei o benefício da dúvida – durante a primeira meia hora. Insisti comigo próprio que se calhar os ombros não eram a especialidade dela: assim que passasse para as costas, as coisas iam melhorar. Ou talvez as pernas. Ou os pés.

Da dúvida passei à frustração, da frustração ao medo de sair magoado – até que cheguei à brilhante conclusão que, das duas uma: ou desistia e saía a meio da massagem, ou rendia-me ao ridículo da situação.

Deixei-me ficar. Abandonei o corpo ao destino e sorri timidamente, mais para mim próprio do que para ela, com alguma tristeza por ver o meu dinheiro e o meu tempo assim desperdiçados.

“OK?”, perguntava-me a Thrè Sí Nhâ de vez em quando, com voz de coelhinha da Playboy a meio da vigésima oitava sessão fotográfica do dia.

Ao princípio, quando ainda acreditava que ela ia melhorar, tentei dar-lhe ânimo. Respondi “OK” com ar de quem está realmente a gostar. À segunda vez já não fui tão convincente, à terceira tentei transmitir alguma indiferença, num OK rápido e seco. A partir da quarta vez, deixei de responder. Não, não estava nada OK.

Não está OK, quando a pessoa que me massaja as costas o faz com a mesma paciência e técnica de quem passa a ferro uma das cento e trinta camisas que tem para engomar nesse dia. Não está OK, quando a pessoa que me massaja aparenta estar cheia de pressa, porque não quer perder o episódio da “sua” telenovela preferida.

Não está OK, quando a pessoa que me massaja faz uma pequena pausa na massagem, vai buscar o telecomando à outra sala, liga a televisão e assiste à telenovela, ora sorrindo, ora comentando o que está a acontecer, em voz baixa, falando com os seus próprios botões. Senhoras e senhores, estimados e espantados leitores deste blog: isto é verdade! Isto aconteceu.

A Thrè Sí Nhâ estava tão concentrada na sua novela que, quando a acção ficava mais emocionante, eu sentia as suas mãos a abrandarem de ritmo, abandonando aos poucos a função para a qual estavam a ser pagas – até que finalmente paravam, e então era preciso eu usar a clássica técnica de tossir e mexer-me um pouco, para ela despertar daquele irritante torpor e ganhar novamente ritmo e força nos dedos.

Outra altura houve, não me lembro se antes ou depois da novela – as peripécias misturaram-se numa intragável salada cujos ingredientes já não distinguia – em que o telefone da Thrè Sí Nhâ começou a emitir uns sons estranhos. Não era música, não era um toque, não sei definir, por esta altura eu já não ouvia lá muito bem. Era um SMS.

Sei que era um SMS: porque depois de o ler, a Thrè Sí Nhâ conseguiu a fantástica proeza de prosseguir a massagem com uma só mão, enquanto com a outra respondia à mensagem – várias vezes.

Noutra acrobacia de registo e que, confesso, preferia ter assistido de fora (talvez sentado na plateia de um circo, para poder rir às gargalhadas), a Thrè Sí Nhâ resolveu subir à marquesa e massajar-me com os pés… equilibrando-se em cima de mim.

Esta foi a parte em que comecei a ter medo.

Tentando exibir uma graciosidade que não tinha, Thrè Sí Nhâ colou as mãos ao tecto e os pés ao meu corpo, e não caiu. Quase – por várias vezes –, mas não caiu. Andou nas minhas coxas e quase. No meu rabo e quase. Um pouco mais acima e quase. Mas não caiu. Ora desequilibrava-se para a esquerda e punha logo mais pressão no pé direito, ora desequilibrava-se para a direita e toca a pisar com força do lado esquerdo. E quem está por baixo que aguente.

No meio daquele terror e à medida que ela avançava pé ante pé (literalmente!), eu ia pensando para mim mesmo, nas costas é que não pisas, se me pisas nas costas mando um berro que vai acordar o Ho Chi Minh do seu sono embalsamado, esteja aqui no Mausoléu ou a levar retoques na Rússia.

“OK?”, perguntou-me pela octagésima vez. Não respondi, claro. Em vez disso, lembrei-me de várias técnicas de tortura que tinha visto há uns anos numa exposição, em Óbidos, e visualizei-me a aplicá-las na própria da Thrè Sí Nhâ.

E o tempo, não passa?

Assolava-me a terrível sensação de ter entrado numa cápsula mágica em que o tempo se arrasta, onde cada instante é uma eternidade. Que alegrias me traria esta cápsula, em tantos outros momentos da minha vida. Repito: tantos outros. Não este.

A certa altura, senti no nariz um pingo quente, não sabia se era ranho ou água. Tinha a cabeça enfiada no buraco da marquesa, as mãos sabe-se lá onde, a Thrè Sí Nhâ a tentar não cair de cima de mim. E na ponta do nariz, um pingo a descer devagar, a aumentar de tamanho e de peso, não ia aguentar muito tempo.

Pior ainda: dores de barriga. Quando a Thrè Sí Nhâ finalmente voltou para o chão, mandou-me virar de barriga para cima. Aproveitei a desculpa para limpar o nariz às costas da mão, deitei-me e senti a barriga às voltas. Mas porque raio fui eu comer Pho?

E já agora: quanto tempo é que falta para isto acabar? Se ela me toca na barriga eu desfaço-me aqui mesmo, sem complexos nem constrangimentos. Vou desistir – estou muito perto de desistir.

Felizmente, ela desistiu antes de mim. Melhor: o relógio decidiu que já era tempo. Depois de aguentar mais cinco longos minutos, a Thrè Sí Nhâ anunciou que tinha terminado a massagem. Apeteceu-me bater palmas – não a ela, mas a mim próprio, por ter aguentado noventa minutos desta tortura ridícula. Mas a urgência de uma retrete era mais forte: troquei de roupa e saí a correr, tão desesperado por uma casa de banho como por ver aquele sítio pelas costas.

Esta hora e meia era para esquecer – ou para recordar até à eternidade.

“Good, sir?”, perguntou-me o senhor da recepção, quando fui pagar e pedir a factura. Respirei fundo, dividido entre uma vontade enorme de o insultar e um leve sentimento de misericórdia. Respondi:

“I can be honest… or I can be nice.”

“Nice?”

O sorriso e o tom que usou para fazer a pergunta mostravam que não tinha entendido o que eu queria dizer com aquela frase. Eu já não tive estofo para responder, nem para explicar, nem para ser honesto ou simpático. Sorri e paguei, em silêncio, dobrei a factura em quatro e meti-a no bolso. As dores de barriga acalmaram, quase por milagre, no momento em que saí para a rua.

Há ironias com piada: para relaxar do stress em que saí da massagem, fui dar uma volta pelo caos do Bairro Antigo de Hanoi.

7 comentários:

Anónimo disse...

Lindo, adorei, coitado de ti.... valeu-nos a história que adorei, bjs Mãe

Anónimo disse...

Coitado Jorge, para te animar digo-te em 1ª mão que os Pearl Jam vêm ao optimus Alive 2010 em 10 de Julho!

Bjs
carmo

sofia disse...

Muito bom Jorge! Para além de muito bem escrito (valha o que valer esta apreciação feita por mim), acho sempre que é sinal de inteligência uma pessoa saber rir-se de si própria. Não é fácil admitir que se tem um pingo de ranho a escorrer do nariz!!! Muito bom!

sofia disse...

Muito bom Jorge! Para além de muito bem escrito (valha o que valer esta apreciação feita por mim), acho sempre que é sinal de inteligência uma pessoa saber rir-se de si própria. Não é fácil admitir que se tem um pingo de ranho a escorrer do nariz!!! Muito bom!

Vera Vassallo disse...

Que meeeeedddddoooooo......
Deixa lá...na volta ofereço eu o spa...hehehehehe
beijoka maninho adoro-te

Kitta disse...

Muito bom Jorge!! Pagava para ter assistido a esta cena... :)

O texto está muiiito bem escrito!

Beijinhos
Maria B.

magui disse...

Simplesmente fantastico, foi uma delicia este relato.
Obrigada por partilhar este momento levando me às lágrimas de tanto rir, boa recuperação.

Magui