13/08/2014

VOAR

Hoje deu-me para voar. Nas saudades.

Daqui a duas semanas estou de volta à Turquia - e não-tarda-nada volto a experimentar uma das sensações mais bonitas: sobrevoar a Capadócia de balão de ar quente, ao amanhecer.


12/08/2014

SONG OF THE OPEN ROAD

Como é natural, repetiram-se hoje nas redes sociais as referências ao grito "Good Morning, Vietnam!", bem como ao poema que o falecido Robin Williams lê no filme "Clube dos Poetas Mortos".

A propósito disso, dei por mim a revisitar Walt Whitman, o autor desse "Oh Captain! My Captain!". Mas estive a ler outro poema. O meu preferido, do (pouco, infelizmente) que conheço deste genial americano.

Chama-se "Song of the Open Road" e tem sido uma referência pontual, quando estou em viagem, quando estou "para aí virado". Tinha-o guardado para um dia que fizesse sentido partilhá-lo aqui - e hoje parece-me ser relevante. Mas como é um poema longo, passo a transcrever apenas a parte inicial:

Afoot and light-hearted I take to the open road,
Healthy, free, the world before me,
The long brown path before me leading wherever I choose.

Henceforth I ask not good-fortune, I myself am good-fortune,
Henceforth I whimper no more, postpone no more, need nothing,
Done with indoor complains, libraries, querulous criticisms,
Strong and content I travel the open road.

The earth, that is sufficient,
I do not want the constellations any nearer,
I know they are very well where they are,
I know they suffice for those who belong to them.

(Still here I carry my old delicious burdens,
I carry them, men and women, I carry them with me wherever I go,
I swear it is impossible for me to get rid of them,
I am fill'd with them, and I will find them in return.)

A SENHORA AO LADO

Enquanto se desenrolava o drama (desculpem-me, o filme de terror) no balcão em que estava a ser atendido (desculpem-me, na secretária), mesmo ao lado um novo teatro estava prestes a começar (desculpem-me, uma telenovela).

Começou o turno da senhora do lado. E apesar dos sorrisos e das palavras simpáticas para a rapariga que se sentou à sua frente, começou um corte-e-costura com a senhora sentada à minha frente. Como se nós, e as pessoas todas naquela sala, fossemos invisíveis. Nem se deu ao trabalho de baixar a voz.

"Eu a partir de agora não tenho sentimentos, não tenho direito a ter sentimentos, porque pelos vistos exagerei na reacção à morte da minha sogra, que só era minha sogra há seis meses, mas ela conhecia-me desde os meus cinco anos, eu sou amiga do meu marido desde pequeninos, mas pelos vistos não posso sofrer pela morte dela..."

Com todo o respeito, mas: bla, bla, bla.

Porque é que eu tenho de ouvir a novela da sogra (paz à sua alma) e dos sentimentos da nora de seis meses - mas estamos no cabeleireiro ou onde é que estamos? Eu só quero fazer o meu passaporte. Não tenho de levar com a senhora em frente a dizer-me que não tem paciência para pessoas, que só quer despachar as pessoas; e a outra a choramingar e a cuscar; e depois aparece não-sei-quem e é vê-las a revirar os olhos, a bufar.

Já passou.

Isto foi ontem - hoje é outro dia.

É o Dia Mundial da Juventude, por sinal.

CARPE DIEM

Esta noite sonhei num sorriso, aquele que acompanha a voz a gritar ao microfone, a desejar "bom dia" ao Vietname. Esse sorriso que já não existe.

Fica um bocadinho de Vietname.



11/08/2014

A SENHORA ATRÁS DO BALCÃO (QUE NÃO É UM BALCÃO)

"Por favor tirem-me deste filme!"

"Acha mesmo que isto é um filme, minha senhora?"

A senhora olha para o meu amigo António, do lado de lá da secretária para o lado de cá, um teclado e um monitor, mais papeis e documentos entre ambos; estupefacta pela pergunta.

"E que tipo de filme é que acha que é?", acrescentou ele.

"Um filme de terror!"

Eu deixo-me escorregar um pouco na cadeira, de maneira a esconder o rosto atrás do monitor que está na secretária à minha frente. Rio-me, mas não acho piada nenhuma. Depois olho para a rapariga sentada na secretária ao lado, que tal como nós também está a tratar do passaporte, e que tal como nós está a sorrir: de pânico.

Que filme, digo eu. E não é concerteza um filme de terror. É mais uma espécie de comédia trágica.

Passo a explicar:

Fui tratar do passaporte, hoje de manhã. Um ritual que me vejo obrigado a repetir todos os anos, uma vez que as minhas voltas com os grupos da Nomad enchem-me num instante, e quase por completo, as páginas do documento. Basta uma temporada. Depois é juntar-lhe as "minhas" voltas e reviravoltas... e está um passaporte cheio em menos de doze meses.

Ou seja: uma vez por ano lá vou eu "fazer" um novo. Desta vez fui acompanhado pelo meu amigo António, pois vamos viajar juntos no início do próximo ano e ele também tinha de renovar.

Penso que já falei "por alto" do António, aqui. É um viajante "da nossa praça" que sofreu um acidente em casa, no ano passado, que lhe trocou um bocado as voltas à vida, não interessa entrar em detalhes agora - mas positivo e corajoso como ele é, conseguiu trocar as voltas às voltas e neste momento começa a lançar-se, aos poucos, em aventuras e projectos novos. E as viagens, obviamente, fazem parte dos seus horizontes.

Enfim: isto tudo para justificar o facto de estarmos a ser atendidos no balcão "prioritário", que lida com crianças de colo e pessoas com deficiências ou mobilidade reduzida.

Esperámos um pouco, pois havia duas crianças à frente.

Uma era a Lara: com dois anos e dois carrapitos, que estava a fazer uma fita feia para tirar a fotografia. Não parava sossegada, chorava baixinho, os pais tentavam acalmá-la mas parecia complicado conseguir que parasse um pouco. E a senhora do balcão, antes ainda das conversas sobre filmes de terror e outros dramas, já demonstrava uma triste falta de paciência. Ora bufava, ora revirava os olhos, olha estalava a língua em desaprovação. Ninguém ali - nem nós que estávamos à espera, nem os pais que estavam com a criança - demonstrava sinais de impaciência ou nervosismo. Ninguém, excepto a senhora atrás do balcão. Que nem sequer é um balcão. É uma secretária.

"Ponha lá a miúda quieta!"

"Minha senhora, a criança tem dois anos, tem que ter um pouco  de paciência."

"Eu tenho pessoas à espera!", e lá resmungava qualquer coisa em voz baixa, que ninguém entendia mas que todos percebiam-muito-bem. A senhora atrás do balcão. Que triste constatação.

Levantei-me para dar algum apoio aos pais da Lara, eles agradeceram as dicas e voltei a retirar-me, para não ser muito intrusivo. E foi então que fiquei a conhecer o Alexandre, que era a criança que ia ser atendida a seguir - antes de nós, portanto. O Alexandre devia ter uns três anos. Tinha uma pequena afro bem cuidada e um sorriso de desarmar qualquer um, até um israelita em final de serviço militar, com as hormonas aos saltos de tantos palestinianos matar. Mas políticas à parte: o sorriso do Alexandre. O sorriso e o seu à-vontade conquistaram-nos logo, e num instante estávamos a brincar com ele, ora a dar passou-bens, ou a fazer conversa, ou então ele pedia emprestada a bengala do António, que era quase o dobro da altura do miúdo, e lá ia passear pela sala cheia de gente - muito engraçado.

A Lara e a família lá se despacharam, o Alexandre e o pai acabaram por ser recambiados, pois a mãe não estava presente - e chegou a nossa vez. E levámos com uma daquelas funcionárias públicas clássicas, por muito que me custe descrever isto assim, com este adjectivo, pois tantas vezes já fui bem atendido e gosto de acreditar que mesmo num trabalho alegadamente chato, há pessoas com jeito, com paciência, com brio. Mas não vou entrar nessa discussão agora, senão este post, que já vai longo, mais longo fica.

A verdade é que a senhora encarnava com dedicação (e deve dar imenso trabalho, acreditem) aquela caricatura do funcionário público que está de trombas com a vida, frustrado com o seu trabalho, resmungão e sem qualquer noção do que é atender pessoas.

A qualquer pretexto, fosse porque o sistema ia abaixo, o computador não reconhecia isto-e-aquilo, porque a caneta desaparecia e sei lá que outras pequenas chatices, a senhora lá ia barafustando entre dentes, soprando balões imaginários, sempre com aquele ar de "só a mim" e de "já estava mesmo à espera" ou "tinha de ser". Que stress. É que deve dar imenso trabalho, deve consumir tantas energias, ser assim tão resmungão.

As coisas que ouvimos - e que não vou transcrever aqui.

Mas nós: sempre a sorrir, sempre bem educados, pacientes, solidários.

No hurries, no worries.

Mas saímos dali cansados, confesso. E não foi por esperar imenso tempo para que as máquinas reconhecessem as assinaturas, ou porque o sistema tinha ido abaixo, ou fosse lá o que fosse com os inesperados do momento. Acontece. Bem ou mal, depressa ou devagar, as coisas funcionam, o barco anda, os problemas resolvem-se.

Saímos cansados, porque todo aquele mau humor disfarçado com sorrisos amarelos, ou explicações vindas depois dos desabafos, ou palavras ditas entre dentes como resposta a coisas ditas em voz alta por outras pessoas... não tinha que ser assim. Eu não reclamo por um sistema perfeito, mas por favor: um bocadinho mais de paciência. A vida é Hoje, e este Hoje não é uma dramática fatalidade a que estamos acorrentados. É, na minha opinião, a paisagem que passa. E se não soubermos tirar partido da viagem, que sentido faz chegar ao destino?

Lá está: podia agora demorar-me horas nisto.

Mas o que eu queria mesmo era contar-vos da senhora atrás do balcão. Que nem sequer é um balcão. É uma secretária.

UM ELEFANTE, UMA TELEVISÃO ANTIGA E MUITA COCAÍNA

Estava eu em Sintra a passear com o "meu" elefante Ramsen, à procura de um veterinário, quando alguém me apontou uma casa junto à linha do comboio. Entrámos lá para dentro - eu, o elefante e mais três ou quatro amigos - e encontrámos um quarto decorado com papel de parede dos anos sessenta, uma televisão vintage daquelas com quatro pézinhos assentes no chão, a dar desenhos animados a preto e branco. Também havia rádios, uma mesa e cadeiras - tudo antigo.

Apareceu o veterinário:

"Onde está o paciente?"

Ao que achei estranho, porque eramos quatro pessoas e um elefante, à partida não havia dúvida sobre quem era o paciente.

O médico começou a ver o elefante, a dar-lhe pancadinhas aqui e a escutar ali, mas ao mesmo tempo reparei que ele ia discretamente a uma mesa, de vez em quando, onde tinha umas linhas de cocaína que ia snifando. Comecei por não dizer nada, mas a certa altura o homem estava a ficar descontrolado, já nem as linhas fazia, cheirava directamente de um montinho branco, scarface style, já com o nariz todo branco.

Mas continuou a consultar o elefante Ramsen. E eu sentei-me no chão, porque não tinha cadeira para mim, e sem querer encostei-me a umas fichas eléctricas que estavam ligadas à tomada e a luz da sala apagou-se.

"Mau contacto", disse o médico, ao que comecei a tentar ligar a ficha outra vez, dando pequenos toques em todas, correndo o risco de apanhar um choque eléctrico.

E depois acordei: estou em Lisboa.

10/08/2014

AS COISAS QUE NÓS ESQUECEMOS

Reconheço que não sou o blogger mais disciplinado no que toca a acompanhar/seguir outros blogues. Longe disso. Quero dizer: gosto de muitos blogues, quando me lembro vou lá espreitar... mas confesso que, quando acabo de escrever, editar, publicar, corrigir, verificar, rectificar tudo aquilo que partilho no meu blog, normalmente já não tenho muita paciência/energia para "navegar" e ir espreitar os outros.

No entanto, de-vez-quando e de-quando-em-vez lá vou eu pôr as minhas cyberleituras em dia, sorrir, viajar.

Ainda agora estive a deliciar-me com um blogue onde já não passava há muito tempo, apesar de ser um dos que mais gosto. Chama-se "things we forget" e basicamente é uma colecção de post-its que o autor desenha com mensagens positivas e que depois deixa em algum lugar público.

Penso que o autor é de Singapura.

Mas não me interessa agora de onde é. Quero partilhar aqui esta ideia - tão simples, e ao mesmo tempo tão forte.

Ficam alguns dos mais recentes post-its "esquecidos" pelo autor, por aí:









A LUA

Já viram a lua hoje?!

09/08/2014

BOM DIA, VERÃO

O sal na pele, o calor e os caracóis e uma cerveja fresquinha, tremoços, óculos escuros, areia debaixo dos pés. Bom dia, Verão!


08/08/2014

QUANTO MAIS DURMO, MAIS DURMO

Estou habituado a dormir seis-sete horas por noite. Quando viajo com os grupos da Nomad, até é normal dormir menos - e apesar de ir acumulando algum cansaço que no final das viagens acaba por se "vingar", a verdade é que aguento bem.

Mas aconteceu que esta semana, a dormir numa tenda e com pouco mais que fazer e pensar além de boa-vida, muita-conversa e paparoca, acabei por ferrar umas oito-nove horas por noite... além de passar pelas brasas na praia, adormecer no autocarro... que fenómeno!

Parece que quanto mais durmo, mais sono tenho.

Faz bem estar de férias, hem?

BOM DIA, LADO A

Já se acabaram as mini-férias, tive de voltar para Lisboa/Sintra... mas as cores do Lado A ainda predominam no meu caleidoscópio.


07/08/2014

O LADO B

Cheguei à Praia da Amoreira e fiquei em estado de choque, ao dar de caras com o histérico colorido dos chapéus-de-sol, bóias e pranchas. Sentei-me com os meus amigos a tomar um café, a preparar estratégias e a repensar o dia, se a tanto fosse preciso. Mas não foi.

Na Amoreira como em tantas outras praias, há um Lado A e um Lado B. O primeiro é aquele que tem os hits de Verão, as batidas latinas com techno à mistura, as baladas mais comerciais, os artistas de renome. Toda a gente gosta do Lado A. E eu não tenho nada contra. Quem sou eu para ter alguma coisa contra. E quantas vezes também eu gosto desse Lado A.

Mas confesso que, podendo escolher, prefiro virar a cassette. O Lado B é aquele que tem a faixa escondida, que tem músicas menos tocadas, que precisa de alguma paciência para ser valorizado. E nas praias é a mesma coisa. Basta andar um bocadinho mais no areal. Ou ir para a Esquerda em vez de ir para a Direita, ou passar aquelas rochas até uma pequena baía... há sempre um cantinho mais exclusivo.

Ou seja - e voltando ao início deste post -, cheguei à Praia da Amoreira e fiquei em estado de choque. Tanta gente. Sim: é Agosto, eu sei. É normal, é sempre assim, sempre foi e há-de ser. E no entanto não estava satisfeito. Mas bastou um olhar mais demorado... e se formos por Ali?

Fomos por Ali.

Passámos um caminho de pedras, um pequeno areal com seis ou sete chapéus-de-sol, mais umas rochas e voilá:



Uma praia (quase) só para nós.

UAUS PANORÂMICOS

Quem diria que, nestes dias de pouco mais que conversa, praia e boa comida, ia descobrir um bocadinho tão interessante do nosso mundo.

Aqui mesmo, no Rectângulo, um lugar às riscas, em formato panorâmico :)












BOM DIA, DE PAPO PARA O AR

Que bem que têm sabido os últimos dias, de papo para o ar...

Ah: e assumo a areia na lente, a porcaria nas fotos... que remédio. É o Verão! :)

03/08/2014

BOM DIA, VIDA BOA

Vida boa, a de não-fazer-nada além de muito-pouco.

Fim-de-semana de piscina e vida-de-lorde, e daqui a nada partimos para uns dias de campismo e boas energias.

O blog segue com os mínimos indispensáveis, nos próximos dias.


01/08/2014

POR FALAR EM ARTISTAS

Quem anda a pé pelo Porto já deve ter reparado que a cidade está mais Hazul.

E se escrevo com "H" não é gralha nem erro ortográfico. Não estou a falar da cor azul, nem do Fê-quê-pê - mas de um artista que assina com este nome. Pelo Porto fora, em prédios devolutos e paredes várias, lá aparecem uma espécie de Nossas Senhoras estilizadas, várias formas geométricas, animais e/ou referências a animais - muita criatividade.

Jorge gosta disto.

Procuro na net e descubro uma "guerra" com Rui Rio, perfis em redes sociais, guias da cidade que incluem as suas obras, instruções para descobrir-lo pela cidade.

Vou estar ainda mais atento, a partir de agora.

E por enquanto fica um primeiro olhar:






UM PASSATEMPO ORIGINAL

Sentado durante três horas no Alfa Pendular sem nada para fazer além de olhar pela janela ou cuscar no facebook? Enfiado num comboio da Linha de Sintra todos os dias, ida-e-volta, phones nos ouvidos com música para distrair?

O designer October Jones encontrou uma forma muito original de passar o tempo nas suas viagens diárias de comboio para o trabalho. E eu, que há dois dias vinha do Porto para Lisboa a fazer copy-pastes de posts antigos do blog para um projecto que ando a preparar, a certa altura distraí-me e dei por mim a navegar um pouco mais adiante... e descobri estas pérolas.

Ser original/criativo não escolhe momentos:












ONDE É QUE EU IA/VOU?

Onde é que eu ia?

Eu ia nas voltas do Cambodja, depois comecei a misturar fotos dos passeios em Sintra e Lisboa, meteu-se o assalto no Porto e o momento nostálgico de hoje, na Índia.

Que geográfica salganhada que aqui vai.

Onde é que eu vou?

Eu vou só ali consultar a almofada num instante, a ver se ponho em ordem ideias e o meu mapa de memórias e experiências. Amanhã de manhã conversamos.

Boa noite!

31/07/2014

MOMENTOS INTENSOS NA TERRA DO KAMASUTRA

Este assalto e perseguições no Porto - esta não foi a primeira vez que vivi emoções fortes, com polícia e ladrões ao barulho, com o Inácio e a Leninha.

Recuemos um bocadinho no tempo e no espaço:

Índia, Março de 2011

Ainda tinha no sorriso e no corpo as coloridas memórias do Holi, o Festival das Cores, que festejara com mais alguns estrangeiros e milhares de indianos nas ruas de Mathura, o lugar onde nasceu o Lord Krishna.

Viajei com uma holandesa para Agra, era a minha terceira vez na cidade do Taj Mahal por isso nem me dei ao trabalho de ficar (mais uma vez) boquiaberto perante aquele assombro de monumento. Fiquei um dia inteiro no hotel a ressacar a festa. E depois fomos para Khajuraho, a terra do Kamasutra, ou pelo menos assim gostam de nos convencer os indianos.

Tinha feito uns contactos no couchsurfing, depois de uma primeira experiência espectacular em Amritsar - e quando chegámos a Khajuraho, esperava-me um rapaz muito magro e um bocado eléctrico, sempre a rir e muito conversador, um bocado habituado demais a estrangeiros para o meu gosto. Acabei por ficar numa guesthouse, mas fiz algumas refeições com a família, deixei que o miúdo nos acompanhasse nos templos, e foi engraçado rever todas aquelas esculturas em posições de forte teor sexual - as tais posições que dizem ter inspirado o Kamasutra.

Até que chegou a Chamuça.

A Chamuça é uma mota com sidecar. Provavelmente já ouviram falar dela: é a mota em que o Inácio e a Leninha viajaram pela Índia durante já-nem-me-lembro-quantos meses.

Tínhamos combinado um encontro para pôr a conversa em dia - e ao meu segundo dia em Khajuraho chegou a Chamuça, o Inácio, a Leninha e a Kashi: sentámo-nos num terraço de um restaurante ao final da manhã... e só nos levantámos ao início da noite. Pequeno-almoço, almoço e jantar - três refeições à mesma mesa, horas a fio a trocar histórias e a partilhar emoções, que dia inesquecível. E depois do jantar: casa que se faz tarde. Estávamos todos no mesma guesthouse, fomos a pé pela estrada, incluindo o tal miúdo que me recebera pelo couchsurfing, que depois seguiria para casa dele.

Mas pouco depois de chegarmos à nossa guesthouse, estávamos a fumar um cigarro no alpendre virado para a estrada, quando de repente apareceu uma mota em alta velocidade, fez uma travagem brusca e veio estacionar mesmo à nossa frente. Os dois ocupantes, condutor e pendura, estavam visivelmente alcoolizados.

E agora, para contextualizar um bocadinho o drama que se vai desenrolar, penso que é importante dar conta de um pormenor relevante: eu já tinha estado em Khajuraho, dez anos antes, quando viajara pela primeira vez na Índia. Tínhamos conhecido um grupo de indianos que nos tentou vender nem-me-lembro-o-quê, mostraram-nos um orfanato que o irmão de um deles tinha, jantaram connosco uma vez. Cheguei a manter contacto com um deles, durante pouco mais de um ano, mas acabámos por nunca mais falar, e quando voltei a contactá-lo antes deste meu regresso a Khajuraho, tinha-se casado com uma espanhola e vivia em Bilbao. Assunto arrumado.

O rapaz do meio é o Charli, que agora vive em Bilbao. O dos óculos escuros é o mauzão da história que conto hoje. A foto tem uns doze ou treze anos.

No meu primeiro dia deste regresso a Khajuraho, ia a passar junto a umas lojas de souvenirs e pareceu-me reconhecer um dos tais "amigos" de há dez anos. Abordei-o e obviamente que ele não fazia ideia de quem eu era, mas eu lembrava-me da cara dele por causa das fotografias da viagem. Enfim: a conversa durou cinco minutos, não levou a conclusão alguma, acabei por voltar ao meu passeio.

Voltemos ao alpendre da guesthouse, à mota que aparece do nada e vem parar mesmo à nossa frente. O pendura que salta para junto de mim é o Pintu, o tal que eu abordei na rua e que não me reconheceu, um dos indianos de há dez anos. Está completamente bêbado, começa a falar numa mistura de hindi e inglês, a rir mas com qualquer coisa de provocador na postura. O amigo dele mete-se com a Kashi, que começa a ladrar. O miúdo magricelas que nos acompanhou pelos templos está com ar assustado. Eu tento dizer algo simpático e apaziguador, porque parece-me realmente haver algo de provocador no discurso do outro. E eis que entre outras palavras em hindi, dirige-se para mim e chama-me benshod.

Do pouco que sei de hindi, uma das palavras é benshod.

Não a vou traduzir aqui, mas acreditem quando vos digo. Não é uma palavra simpática.

Ao que lhe respondi qualquer coisa do género "what benshod, please watch your language" e a partir daqui não sei muito bem como é que as coisas se desenrolaram, foi uma confusão de gritos e empurrões, a Kashi a ladrar e o outro a tentar fazer-lhe sei lá o quê, a Leninha a gritar-lhe em português, o Inácio a tentar acalmar os ânimos, o Pintu a querer bater no miúdo, a dizer que ele lhe tinha roubado o turista dele - eu.

Tentei chamar-lo à razão: lembrei-o que ele nem sabia quem eu era, quando o abordei na rua; que tinham passados dez anos e não havia qualquer tipo de contrato ou obrigação; e que além disso, eu é que tinha entrado em contacto com o outro pelo couchsurfing... mas não havia volta a dar, nem razão nem lógica que o convencessem. Os olhos brilhavam de uma raiva que não encaixava com a situação, o bafo tresandava a whisky barato. A certa altura tentou bater no miúdo, eu tenteu agarrar nele, não-sei-quem disse que ia chamar a polícia, depois o miúdo fugiu e o mauzão libertou-se e foi atrás, apanhou-o na estrada e começou aos pontapés e socos, eu e o Inácio a tentar acabar com aquela anormalidade, a Kashi a ladrar... e de repente sirenes e desaparecem os mauzões e a mota, nós vamos para o hotel a pedido do dono, o miúdo esconde-se connosco e a coisa fica por ali.

Mas na manhã seguinte repetiu-se a dose, apareceu o miúdo e pouco depois o mauzão, e depois o tio do miúdo e os amigos do mauzão, e a certa altura havia cadeiras a voar na estrada, sangue a salpicar o chão, gritaria e insultos e nós a ver, porque agora alguém nos explicara que aquela era uma guerra antiga, qualquer coisa de terrenos e castas, e que nós tínhamos sido só o último pretexto.

Acabou tudo na esquadra, fizemos questão de apresentar queixa mas no final a polícia não aceitou os nossos depoimentos, por muito que insistissemos - tanto drama para nada. Fomos parar à mesma esplanada do dia anterior, agora a tentar perceber o que se tinha passado, também a rir do caricato da situação

E três anos e meio depois: esta noite louca no Porto.

A Leninha acha que temos uma energia qualquer que atrai peripécias destas. Não me parece que seja tanto assim. Mas estou curioso para ver o que vai acontecer daqui a outros três anos e meio. ;)

Olha nós e a Chamuça! :)