04/04/2020

FUI DAR UMA VOLTA (AO SUPERMERCADO)

Acordei com o coração aos pulos e uma excitação quase infantil, sensações que me fizeram recordar outra manhã, há mais de trinta anos - a do dia em que participei no Clube Amigos Disney, da RTP1, que era apresentado pelo Júlio Isidro. Lembro-me de estar nervoso porque íamos "à televisão". Lembro-me perfeitamente de ir a condizer com a minha irmã Joana, Cenoura dos pés à cabeça, a minha mãe tinha esta mania de nos vestir de igual. E lembro-me também da banda que tocou chamar-se GNR, achei estranho porque tinham o mesmo nome do jipe da polícia de Sintra, e o cantor era muito alto e excêntrico, nunca tinha visto ninguém assim.


Mas voltando ao primeiro de Abril do ano Vinte-Vinte: completei, finalmente!, os catorze dias de isolamento social, ou prisão domiciliária, ou castigo - chama-lhe o que quiseres - desde o meu dar-de-frosques da Índia. Parecia mentira, mas tinham passado duas semanas sem sair de casa (uma vez para pôr o lixo, à noite, mas fui a correr e voltei logo, prometo), sem ver ninguém a não ser uns amigos que no outro dia passaram para dizer olá, ao portão. De resto: casa. Casa. Casa. A namorá-la, a mimá-la e a pô-la (mais) bonita, a viajar em cada recanto e nas histórias que contam as coisas que a enchem. A ler e a escrever, a organizar os arquivos de fotos no computador, a cozinhar petiscos de vários países (como já deves ter reparado no Instagram), a pôr a conversa em dia com amigos, no WhatsApp; a aprender a saudar o sol, de manhã e a meditar - nem que seja cinco minutos. Só me faltou cravar riscos na parede, com o canivete.

Duas semanas, my friend. E apesar de saber que o cenário não vai mudar por-aí-além, nos próximos tempos, pois o planeta mantém-se em modo Apocalipse, já é um alívio poder ir à rua, nem que seja só para ir às compras, ou para passar nos Correios e enviar os livros que entretanto me vão encomendando.

Fora isso, e como diz o hashtag: stay the fuck home.


Acordei um bocado ansioso, portanto. E excitado, como já disse. Tinha planeado uma viagem cheia de perigos e emoções. Arrisquei a melhor fatiota de domingo, perfumei-me e meti os livros no carrinho das compras. Enfiei a máscara na cara, ou a cara na máscara. E fui dar uma volta.


Confesso que estava à espera de ver menos pessoas na rua. Muito menos, aliás. É verdade que a cidade está muito vazia. Tudo fechado. Poucos carros a circular. Ouvem-se os passarinhos e a poluição baixou. Certo. Mas vi muita gente. Parecia mais Agosto do que propriamente o Faroeste em dia de duelo. Mas o pior, além daqueles que estavam claramente a ir-às ou a voltar-das compras, ou a passear o cão, ou a ir para o trabalho, foi a quantidade de velhotes a passear, muitos sem máscara - e não sei se é por problemas de ordem técnica com os aparelhos de audição, Alzheimer ou só teimosia, mas ó velhinhos: a não ser que sejam adeptos de desportos radicais ou estejam a praticar algum tipo de eutanásia-free-style, não me parece que seja propriamente o momento para passeiozinhos. Além de ser uma atitude muito pouco solidária com todo o cenário actual: desde os profissionais de saúde que estão a "dar o litro" e muito mais, para tentar apaziguar o bicho; às pessoas que pura-e-simplesmente ficam em casa, com todo o transtorno que isso pode causar, para não fazerem parte da estatística e da cadeia de infeções e doentes.


Ao cruzar-me com outras pessoas na rua, notei que a maior parte baixava os olhos. Eu fiz o mesmo a maior parte das vezes, admito. Como se estivesse envergonhado por estar fora de casa. Como num sonho em que de repente percebes que estás nu, numa situação qualquer que não-tem-nada-a-ver. A sério: sentia-me um transgressor, observado, culpado de alguma coisa - e acredita que fiz-o-que-tinha-a-fazer o mais depressa que pude, correios, supermercado e olhar-à-volta-e-respirar-fundo, e ala pra casa, triste e revoltado porque faz-me falta o mundo e as suas paisagens, as pessoas e as sensações; mas mais-ou-menos conformado com o facto de saber que não estou sozinho nesta tempestade. E não: não acho que estamos todos no mesmo barco - mas estamos claramente a atravessar o mesmo mar. Com tudo o que isso implica para o Indivíduo, que é ao mesmo tempo membro de uma Família, parte de uma Comunidade, membro da Sociedade.

Que grande cambalhota esta, hem?

Com duplo mortal encarpado e pirueta invertida. Pontuação máxima, sim senhor, recorde olímpico, leva lá a bicicleta e vai-te embora, ó Covid.

Como tu, espero que passe depressa, a Tempestade. Vai passar, não tenho dúvidas. Não sei - ninguém sabe! - o que vem a seguir, mas acredito na sabedoria popular e essa diz-me que a Bonança há de vir.


Já convoquei meia dúzia de deuses hindus, tive uma conversa de homem para homens com o Gautama e o JC, rezei virado pra Meca, fiz oferendas a Yemanjá, Rainha do Mar, Princesa de Aiocá, bati três vezes na madeira, atirei sal por trás do ombro esquerdo, queimei velinhas e incenso, pendurei um daqueles olhos turco atrás da porta. Algum há de funcionar.

E como diz outro hashtag, vamos todos ficar bem.

26/03/2020

ABRACEMOS O NAMASTÉ

Desde que cheguei da Índia que estou em casa de quarentena, sozinho – e se, ao princípio, o que mais me fez confusão foi o facto de estar confinado a quatro paredes e um pátio; confesso que ao fim de uma semana de cativeiro, mais do que das paisagens, sinto falta das pessoas. De um sorriso. Um abraço. Um beijo. Sinto falta do calor de outro ser humano.

Já estou mesmo a ver: no dia em que terminar esta pandemia, saio à rua e num impulso abraço o primeiro vizinho que me aparecer à frente, e entusiasmado desato a beijar a senhora do cabeleireiro à frente, mais o senhor do café, a rapariga do 3º esquerdo e o namorado, a avó e o cachorrinho, mais o periquito e basicamente todos os que tiverem o azar (ou sorte) de se cruzar comigo nesse dia.

E se mais pessoas estiverem no-estado-em-que-eu-estou, vai ser bonito.

Ou não. Porque choraminguices e lambuzices à parte, o mais provável é que o regresso à “normalidade”, se é que isso existe, com ou sem aspas – mas esse regresso há de ser gradual, meio-a-medo, baby-steps, como aquele indiano no comboio que se sentou no meu lugar, junto a meus pés, enquanto eu dormia, e aos poucos foi reclamando espaço enquanto eu ficava mais apertado, todo encolhido.

Adiante. Eu e as historinhas.

Numa fase em que tanto se fala de “distância social”, “achatar a curva” e “isolamento”, lembrei-me de um programa em que participei como convidado, há uns anos, na SIC. Não me recordo do nome, era um daqueles que passa à tarde, apresentado pelo João Baião. O tema da intervenção, em que fui acompanhado por uma psicóloga que ia contextualizando alguns dos exemplos que eu apresentava, era “cumprimentos pelo mundo”.

Nem de propósito.

Porque estava aqui eu a aterrar desta fantasia pós-isolamento, quando comecei a considerar se, entre alguns hábitos que provavelmente vão mudar a seguir à pandemia, não deveríamos (pelo menos nos primeiros tempos) reservar a beijoca e o esfreganço só para os mais íntimos, e talvez adoptar outras formas de nos cumprimentarmos uns aos outros.

E note-se que já estou a considerar um “desconto” para os mais chegados, pois imagino que muitas pessoas já sonhem com a avalanche de beijos das nossas avós. Eu falo por mim: já sonho com o aroma doce do baton de uma, vermelho e vincado nas minhas bochechas e testa; e com o abraço e a ternura da outra, a dizer-me que estou feio porque a barba está comprida, a perguntar-me quando sai o meu próximo livro.

Entretanto, alguém me disse que as tias de Cascais só têm 50% de probabilidade de ser contagiadas com corona, porque só dão um beijinho em vez de dois. Mas por muito encorajadora que seja a estatística, eu procuro uma solução que seja 100% eficaz. Assim, parece-me pertinente lembrar que há cumprimentos por esse mundo fora que não implicam contacto físico – e que, enquanto o bicho não tiver desaparecido de cena, podem ser interessantes de adoptar/adaptar. E não: não estou a falar de fenómenos como o Wuhan Shake, que sinceramente me parece meio infantil; ou o Elbow Shake, que além de um pouco pateta, acaba por não ser muito eficaz, já que os especialistas nos dizem que devemos espirrar e tossir para os braços.


A saudação que me parece mais óbvia, seja pela minha proximidade emocional com o país, como pelo facto de ter acabado de voltar de lá, é o Namasté. Suponho que saibas do que estou a falar – mas se não sabes, passas a saber.

Namasté é um gesto com milhares de anos que se faz juntando as palmas das mãos, ao nível do peito, com os dedos juntos e a apontar para cima, ao mesmo tempo que se baixa ligeiramente a cabeça. Representa gratidão, respeito e humildade – e significa algo do género “o Divino em mim faz uma vénia ao Divino em ti”. Bonito, hem?

Curiosamente, alguns textos antigos hindus falam do facto deste mudra (gesto) proteger e conter a energia de uma pessoa, em vez de absorver a da outra. Ao contrário (digo eu), e só a título de exemplo, de um aperto de mão. Isto parece-me interessante. Porque se, por um lado, é fácil perceber o lado prático que isto tem na realidade scifi que estamos a viver; por outro, talvez contenha a explicação da própria origem do gesto, que provavelmente surgiu para proteger as pessoas de contágios, numa sociedade que era mais vulnerável contra todo o tipo de doenças. Ou seja: vai-na-volta e o Namasté nasceu num pós-pandemia, há 4 ou 5 mil anos.


Wai tailandês é uma clara evidência da influência indiana no país. Este é um dos pormenores/curiosidades que normalmente abordo, quando acompanho grupos no Sudeste Asiático: o facto de na Tailândia (como no Myanmar, Camboja e Laos, já agora) a cultura ser tão influenciada pela Índia. Isso vê-se na comida, no vestuário tradicional e até no alfabeto, entre tantas outras manifestações. Se, por um lado, a religião dominante nestes países é o budismo; por outro, divindades como Brama, Ganesha ou Garuda são amplamente reverenciados. Só a título de exemplo: o rei da Tailândia tem o cognome de Rama X, porque acredita-se que a família real tailandesa é descendente de Rama, o príncipe de Ayodhya que é o personagem principal do épico hindu Ramayana. Nas fotografias oficiais do rei, as molduras têm sempre um Garuda em baixo, sendo que este homem-águia é o veículo de Vishnu (o deus de quem Rama é uma das encarnações). E esta, hem?

Anyway... tal, como o Namasté, o Wai também se faz juntando as mãos e baixando a cabeça. A diferença é que, no Wai, a altura a que as mãos se juntam depende do respeito que uma pessoa “deve” à outra. Entre conhecidos e amigos: começa-se com as mãos em frente ao peito e diz-se sawadee krab (se for um homem a fazer) ou sawadee kah (se for mulher) ao mesmo tempo que se elevam até quase tocar com a ponta do indicador no queixo, e enquanto se faz a vénia. Para os irmãos mais velhos e outros familiares, os dedos quase tocam o nariz. Para os pais, os polegares ficam à altura do nariz. Para os avós e outros velhotes, bem como aos monges, são os polegares que tocam na testa. E ao rei, nem pensar em estar de pé, só de joelhos, e as mãos quase que vão atrás da cabeça. O último nível é reservado ao próprio Buda, pelo que algumas pessoas chegam a deitar-se no chão, com os braços estendidos para a frente.

Noutros tempos, no Camboja e na India também era assim que se saudava os deuses. Há muitas referências gráficas (em pinturas, baixos relevos e esculturas) de pessoas deitadas no chão em adoração máxima. Nem há um mês, em Hampi, encontrei algumas esculpidas no chão.


Tanto o Namasté como o Wai são muito fluídos, e adaptam-se a variadíssimas situações, para além do cumprimento: tanto servem para agradecer como para pedir desculpa, concordar, apaziguar ânimos ou até para suplicar.

Mas há mais: 

O japoneses, por exemplo, fazem o Ojihi, uma vénia que envolve toda uma complexa etiqueta, que vai desde o ângulo de inclinação até à duração, entre outros factores mais ou menos esotéricos. Confesso que, quando estive no Japão em 2018, não cheguei a viver nenhum episódio tão caricato como o Bill Murray no Lost in Translation.

Em alguns países islâmicos, o salam aleikum é acompanhado da mão direita a tocar no coração, enquanto se faz uma pequena vénia com a cabeça.

Em algumas zonas do Tibete, põe-se a língua de fora – mas só um bocadinho, para mostrar ao outro que não somos a reincarnação de um rei malvado do século IX, que tinha a língua preta.

Nas Ilhas Marshall, franze-se as sobrancelhas, enquanto que em algumas tribos da Zâmbia, as pessoas batem palmas com as mãos em concha, duas vezes, de uma forma muito particular, enquanto dizem “mulibwanji”. E os Masai, no Quénia, saltam! Okay, não é bem um cumprimento, é mais para dar as boas-vindas. Mas podia ser interessante, já estou a ver o Marcelo a cumprimentar o povo, tudo aos saltos.

Seja como for: alternativas não faltam. Nem que seja a saudação Vulcan, popularizada pelo Mr. Spock do Star Trek, e que era acompanhada pela frase “vida longa e próspera” – que, tendo em conta o cenário mundial, nem é assim tão despropositado. Aliás: a adoptar esta opção, sugiro também que se passe a usar o mesmo tipo de indumentária dos personagens da famosa série.

Enfim: acho que já deu para perceber que por um tempo, da mesma forma que os Esquimós vão ter de deixar de tocar com as suas pestanas nas pestanas dos outros, os Maoris e os Beduínos de roçar os narizes, e os Kunik de cheirarem as bochechas – a nós talvez convenha baixar o tom da beijoca e do xi-coração, pelo menos em grande parte das situações. É um tema, definitivamente, a debater.

20/03/2020

QUARENTENA... OU PRISÃO DOMICILIÁRIA?

Hoje, para celebrar a entrada na Primavera, fiz um boneco de neve.

A sério: fiz mesmo. Com ervilhas a fazer de olhos e uma malagueta pequenina, que trouxe do Laos, em vez de nariz. Podes espreitar no fim deste post, vou partilhar uma foto.

E não: não estou a dar em doido. Ainda. Acho eu. Espero.

Estou só há sessenta e sete horas e quarenta e dois minutos em quarentena - mais minuto, menos minuto. Não que esteja muito obcecado com o tempo. Nada disso. Não estou propriamente a cravar riscos na parede, com um canivete, por cada hora que passa. Mas queres o quê? Eu sei que ainda agora começou, e falta-me ainda uma longa caminhada... mas não consigo deixar de pensar que estes dias fechado em casa têm um travozinho a prisão domiciliária. E logo eu, que até estou habituado a estar sozinho. Moro sozinho, viajo sozinho - mas é por opção.

Enfim: se tem de ser, tem de ser. É pelo bem de todos - assim acredito, assim espero que seja.

Três dias em quarentena, portanto. Os primeiros dois foram passados a arrumar as malas e as ideias, a combater o jet lag, a fazer contas à comida que tinha em casa, à comida que a minha prima Joana me veio cá deixar antes de eu chegar, à comida que trouxe da Índia.

Trouxe comida da Índia, sim. Tinha direito a 30kg de bagagem e a mochila pesava dez. E porque não? Trouxe comida e trouxe máscaras, gel desinfectante, luvas, todo um kit apropriado ao momento. Só não trouxe papel higiénico, não me faz falta, uso chuveirinho. Mas tendo em conta o panorama, podia ter planeado melhor. Papel higiénico é leve... dez quilos dá quantos rolos? Ainda fazia negócio.

Devaneios à parte: hoje consegui finalmente sair desse meio-termo entre o enjoadinho e o tem-a-mania, e dediquei parte do dia a limpar a casa. Ainda não foi a limpeza que quero, longe disso - mas é um princípio. Depois de limpar o pó aqui-e-ali (a sério, estamos mesmo a falar disto?!), decidi aventurar-me no frigorífico e dei conta que ainda não tinha espreitado o congelador. A porta estava colada, a custo consegui abri-la... e surpresa: passei os vinte minutos seguintes a raspar gelo e a limpar toda uma Antártida de desleixo doméstico.

Ou seja: no fim, tinha no chão gelo suficiente para um boneco.

E porque não? Já vi bem pior, nas redes sociais.

Fica então o boneco prometido - e um pedido de desculpas pelo post tão pouco construtivo. Hoje à noite vou dar uma volta a algumas pastas de fotos, organizar ficheiros... deixa lá ver se encontro alguma coisa de interessante ;)


19/03/2020

DAR DE FROSQUES, CORONA STYLE

Estás a ver aquela sensação que fica quando o frigorífico deixa de fazer barulho e parece que, de repente, estás rodeado por uma bolha de um morno, mole silêncio?

Foi exactamente o que senti ontem, no meu primeiro dia de quarentena, depois de mais de vinte e quatro horas às voltas em aeroportos-às-moscas e aviões cheios de gente assustada, deito bola de pinball, de rosto enfiado na máscara, ou de máscara enfiada no rosto, luvas à CSI Miami e a respirar à Darth Vader. A dar de frosques, corona style, de uma Índia em pânico para uma Lisboa que não está melhor, mas sempre é a minha casa.

Tive sorte. Considerando o panorama kafkiano de cancelamentos de voos, fronteiras fechadas e países em lockdown, tive muita sorte.


Mas voltando à bolha: nem sequer é uma sensação nova, esta. Sempre que volto da Índia, tudo me parece meio-sem-cor, meio-sem-som, meio-sem-sabor. Sinto sempre falta daquela exagerada intensidade sensorial, que tem tanto de ingénuo como de histérico, infantil, rocambolesco ou kitsch.

Só que, desta vez, o silêncio que envolve a minha casa, a minha rua, a minha cidade, o meu país - este silêncio não tem nada a ver com choques culturais, referências cromáticas ou nostalgias sensoriais. Desta vez é diferente: este silêncio é o véu transparente que cobre uma comunidade assustada, ansiosa, meio perdida, a tentar decifrar e reagir a um pesadelo twilightzoniano, que "mais parece um filme de ficção científica". Já ouvi tantas pessoas dizer isto - e sinto o mesmo.

Expressões como "distância social" ou "achatar a curva" entraram de rompante no léxico do dia-a-dia. Sem um com-licença nem um faz-favor, sem um pingo de cerimónia, foi só chegar e esparramar-se de perna estendida, a coçar os tomates e a mandar vir.


Estou de quarentena, portanto: catorze dias, pelo menos. Não apetece nada, claro. Não apetece a ninguém. Estou em Portugal e só quero matar saudades e abraçar/beijar família e amigos. Faz falta este combustível chamado Amor. Mas tem de ser: assim exige o bom senso, depois de tanto tempo em trânsito. E assim exige a lei - ou, se não exige, devia.

Com tanto tempo em casa, decidi voltar a dedicar-me ao blog. Ando há três-quatro anos neste vai-não-vai, sem muita paciência, entre o desta-é-que-é e o fica-pr'amanhã, pois a minha disponibilidade foi sendo transferida aos poucos para as redes sociais e para os livros.

Ou seja: desta-é-que-é. Mesmo. A ver vamos.

Dito isto: entre recordações de viagens passadas, partilha de curiosidades e histórias, e quem sabe alguns planos para o futuro, vou escrever aqui uma espécie de diário da minha quarentena. É o que dá ter tempo. Por isso, convido-te a passar por aqui todos os dias, a partilhar também os teus pontos de vista e experiências, no comentários - e, já agora, a dar uma vista de olhos ao meu instagram, que também está animado, como sempre.


19/10/2019

ONDE COMPRAR "O MARAJÁ FAZ ANOS" e "DE VESPA NA ÍNDIA"

Para conheceres os meus "mais novos", podes fazer uma encomenda comigo, contactando-me por e-mail, facebook ou instagram. Ou, se preferires, os livros estão à venda nas seguintes livrarias:

Palavra de Viajante
Rua de S. Bento, 34
Lisboa

Espiga
Rua de Clemente Meneres, 65
Porto

Déjà Lu
Fortaleza da Cidadela,
Av. D. Carlos I
Cascais

Arquivo
Av. Combatentes da Grande Guerra, 53
Leiria

Santiago
Largo de São Tiago do Castelo
Óbidos

Rimas e Tabuadas
Rua Dr. Avelino Germano, 24-54
Guimarães

100ª Página
Av. Central, 118
Braga

29/01/2019

EMOÇÕES FORTES NO THAIPUSAM

‘Satu! Dua! Tiga! Check!’, repete até à exaustão um grito entediado, nos altifalantes, ao ponto de eu já sentir falta da estridente chinfrineira que veio substituir, há uns cinco minutos.

Estou sentado num restaurante improvisado numa tenda, a comer arroz com algo que, quando fiz o pedido, achei que era galinha. Mas estamos num templo, ou mais ou menos, e aqui não se serve carne.

‘Somos mais de três mil, hoje, aqui nas Batu Caves’, diz-me o homem sentado ao meu lado, na mesa corrida em inox, ‘alguns estão fardados, mas muitos vieram como eu, à paisana. Para garantir a segurança dos peregrinos, mas sem impor demasiado a nossa presença’ – e, depois de uma pausa carregada de cumplicidade, ‘e para apanhar os bandidos, que assim não sabem quem nós somos’.

São onze e meia da manhã e já está um calor quase insuportável. Fiz bem em vir cedo, penso para mim próprio. E para a próxima vou experimentar vir também durante a noite, várias pessoas me disseram que é a melhor altura, o ambiente está um pouco mais calmo, o ar mais fresco, menos húmido.

Mas eu quero o caos.

Vim bem cedo, aos primeiros raios de sol, porque queria assistir ao Thaipusam no auge das emoções, rodeado de quase dois milhões de cotoveladas e se-faz-favores, apertado entre telefones a filmar, crianças a chorar, famílias inteiras a gritar ‘Vel! Vel! Murugan!’, bandas a tocar música e um frenesim colorido e electrizante.

Levanto-me, pago a conta, saio para a rua - que calor!

Vejo um kavadi a ser transportado, algures no meio da multidão. Aproximo-me, tiro três ou quatro fotografias, é impossível não ficar impressionado com esta atmosfera, a devoção, os rituais. Das cores com que se vestem ao facto de raparem os cabelos, mais os anzóis espetados nas costas, e as setas na língua. Mas uma coisa de cada vez. À minha frente, e na fotografia que mais tarde hei-de descarregar no computador, está um homem com uma espécie de andor aos ombros (o kavadi), decorado com penas de pavão, grinaldas de flores, berloques e rococós vários... e, claro está, a imagem de um deus hindu.

Mas vamos lá contextualizar isto, que descrever não basta.

Chama-se Thaipusam, este festival celebrado em homenagem ao deus hindu da guerra, Lorde Murugan, filho de Shiva e Parvati. Conta a lenda que a mãe lhe ofereceu uma seta mágica chamada “Vel”, com a qual derrotou um demónio chamado Surapadman, salvando assim a Humanidade.

Por uma série de razões que posso abordar outro dia, num post próprio, a comunidade tâmil da Malásia é especialmente devota a este deus. Durante todo o ano, pedem-lhe ajuda em vários aspectos mundanos – e prometem realizar uma peregrinação às Batu Caves durante o Thaipusam.



Um bocadinho como os portugueses com Fátima – mas em vez de queimarem velas em forma de pernas e braços e cabeças, e de irem de joelhos até à capelinha (por acaso alguns até vão de joelhos, e também vi quem fosse a rebolar), aqui os peregrinos cumprem a procissão descalços, carregando em cima da cabeça ofertas (tigelas de leite, imagens do deus ou os tais kavadis, que podem ter até cem quilos!). E em vez de três voltas finais à capelinha, sobem os 272 coloridos degraus que dão acesso ao templo principal, que fica numa gruta de calcário.

Além disso, muitos dos peregrinos realizam actos de auto-mutilação, perfurando as bochechas ou a língua com pequenos espetos de prata, que simbolizam o “Vel”; ou espetando nas costas, braços e peito pequenos ganchos e anzóis, onde penduram frutas ou cordas; ou caminhando sobre sapatos de madeira com pregos espetados. Estes rituais destinam-se a derrotar os demónios internos do peregrino, tal como aconteceu com Lorde Murugan, merecendo assim a sua bênção. Até há pouco tempo, alguns sacrifícios eram muito extremos, mas começaram a ser desencorajados (e proibidos, em algum caso) pelos líderes da comunidade hindu da Malásia.







O Thaipusam é um dos festivais mais coloridos e frenéticos a que já assisti – e é visitado por quase dois milhões de pessoas, ao longo de três dias, entre peregrinos locais e curiosos, devotos de todo o mundo... e turistas que, como eu, estão ali entre o choque e o absoluto deslumbre.





















QUANDO
O Thaipusam comemora-se na Lua Cheia do mês tâmil “Thai”, que normalmente calha em Janeiro ou Fevereiro. Em 2020, será no dia 8 de Fevereiro.

ONDE
Apesar da procissão ter início perto da Chinatown, no templo Mahamariamman (o mais antigo templo hindu da cidade), o epicentro da festa é nas Batu Caves, a 13km (norte) de Kuala Lumpur

COMO LÁ CHEGAR
Há quatro formas de lá chegar, durante o festival:

1)   O Comboio KTM Komuter, a partir de KL Sentral ou de outra estação (consultar as linhas de comboio de Kuala Lumpur aqui). Teoricamente, o primeiro comboio é às 06:56, mas nesta altura é costume haver muitos serviços extra. Este ano, estava a funcionar 24h/dia. A viagem demora 40min e há comboios de 50 em 50 minutos. O bilhete de ida e volta custa RM9 (2 euros).

2)   autocarros que partem da estação de LRT Pasar Seni (atrás do templo de Sri Mahamariamman, em Chinatown), estão bem sinalizados e um bilhete só de ida custa RM2 (menos de 50 cêntimos).

3)   Existe uma aplicação no sudeste asiático chamada GRAB, que é a Uber lá do sítio. Aliás: comprou a Uber. É descarregar e o resto já se sabe.

4)   Ou então, last but not leasta pé, com os peregrinos, desde Chinatown. Não é para todos... mas deve ser uma experiência única!

28/11/2018

ACABOU

Que sensação estranha, a de estar aqui sentado, em frente a um teclado e um ecrã, neste contexto. Um quarto de hotel em Kuala Lumpur, no rescaldo da trigésima segunda - e última - edição da "Indochina com Jorge Vassallo".

Não sei por onde começar. Não sei que palavras usar, que sequência dar ao turbilhão de ideias que sacode e varre o mundo em meu redor.

Por um lado: nostalgia.

Revisito sorrisos e lugares, nove anos de peripécias e partilha; desta colorida, atribulada, inesquecível viagem que é Viver. Acabou a Indochina.

Por outro: alegria.

Das mil e uma aventuras, guardo no coração as melhores e levo na bagagem algumas menos agradáveis. Faz parte. Fez de mim quem sou, também. E os próximos passos são a consequência inesperada e ao mesmo tempo óbvia daqueles que dei ao longo destes nove anos.

Acabou a Indochina.

Não sei se já interiorizei por completo, em toda a sua dimensão, em todo o seu peso, esta frase.


Tenho tempo. Não é num só post que vou arrumar a questão. Tenho tempo, eu sei. E tenho tanto para arrumar, ainda, neste arquivo louco e caótico de personagens e paisagens, de histórias contadas e outras ouvidas; de sabores, contrastes, texturas e aromas; de princípios e meios e fins; de temperaturas e velocidades várias, dimensões que desconhecia existirem, luzes e sombras, altos e baixos, amargos e doces... e picantes.

Nove anos. Trinta e duas edições da Indochina, onze da Birmânia, seis da Turquia, cinco Transiberianos e quatro viagens especiais de fim-de-ano. Not bad.

Mas é altura de abrandar. Já o é, há algum tempo - daí ter vindo a fazer, a cada ano, nas últimas três temporadas, menos viagens com grupos. Faz parte. Afinal, quando finalmente voltei a alugar casa em Portugal, no ano passado, ao fim de quase quinze anos sem poiso, já a balança começava a pesar um bocadinho mais para "o outro lado".

E quando larguei a editora e arrisquei-me numa edição de autor... algo já tinha mudado.

Não vou parar de viajar. Não vou parar de escrever. Mas vou mudar um bocadinho a dinâmica. É como aqueles anúncios a shampoos que mudam de embalagem: novo rótulo, a qualidade de sempre. O mesmo conteúdo. Eu continuo Eu.

Um post não chega, realmente. Que sensação estranha. Tanto que apetece escrever. E, ao mesmo tempo, não apetece nada.

Escrever no blog... há tanto tempo que não o fazia. Sem ensaios nem textos trabalhados: só eu e o teclado debaixo dos meus dedos. Já tinha saudades disto. Há dois anos que praticamente não "passo aqui". Isto tem de mudar. Tem de mudar. Isto vai mudar.

E por falar em mudar: a paisagem à minha volta, a paisagem por dentro, os olhos que apreciam uma e outra. Tanto mudou.

Nove anos.


16/04/2018

LANÇAMENTO DO LIVRO EM LISBOA

O primeiro evento de lançamento do meu novo livro, "De Vespa na Índia", aconteceu em Lisboa na passada sexta-feira.

O Salão Nobre da Junta de Freguesia do Lumiar estava "a rebentar pelas costuras", com cerca de 120 pessoas a assistir à apresentação.

À apresentação feita pelo presidente da Junta de Freguesia do Lumiar, Pedro Delgado Alves, seguiu-se um emocionado e muito humano discurso da Embaixadora da Índia em Portugal, Mrs. K. Nandini Singla, que deixou a audiência com um sorriso enorme. Um arranque perfeito para a apresentação do projecto "Tudo é Possível!" e do primeiro volume, que agora lancei.

Partilhei algumas histórias, curiosidades e ideias durante quase uma hora e meia... e depois respondi a algumas dúvidas e questões colocadas pelo público.

Foi uma noite muito gira, modéstia à parte. Adorei - e mal posso esperar pelo evento da próxima quarta-feira, em Matosinhos.

Ficam alguns registos, feitos pela minha amiga e fotógrafa Mariana Motta Veiga, a quem agradeço desde já a disponibilidade: