16/10/2015

BOM FIM-DE-SEMANA!

Sexta-feira: já estamos em Bagan, passámos o dia a passear de e-bike entre templos milenares, ruínas e estátuas de budas. Tira-os-sapatos, põe-os-sapatos, calça-descalça, que calor, que dia bom.

Repito: que dia bom.

A seu tempo, as fotos. Por enquanto fica um desejo de um fim-de-semana bem passado, e um click do dia que respeita o tema dos outros posts partilhados hoje:


AS FREIRAS VESTEM-SE DE ROSA

Se ainda não sabia, passa a saber: na Birmânia há freiras budistas. Rapam o cabelo, como os homens. Seguem mais ou menos as mesmas regras. Mas vestem-se de côr-de-rosa e vivem em mosteiros separados.

Sendo Amarapura uma espécie de Planeta dos Monges, não podia faltar na paisagem humana este lado feminino da vida monástica birmanesa. Assim, é muito comum ver freiras a passear na rua, a ir-e-vir da escola, a pedir as almas de manhã.

Neste mais recente passeio com o grupo da Nomad, fomos visitar um mosteiro de freiras. Mal saímos do mosteiro masculino "voámos" na direcção deste outro e chegámos mesmo a tempo de assistir ao silencioso ritual diário que envolve o almoço.

Ficam alguns registos:







MÁQUINA ZERO, DIZ O BUDA

Há muito, muito tempo, um príncipe cortou o seu longo cabelo para renunciar à vaidade e ao Ego.

Fez muito mais, este príncipe. Mas para este post interessa a história do cabelo, apenas. Disse o senhor àqueles que o seguiam (não no instagram ou no facebook, mas na vida real) que deveriam imitar-lhe o gesto e fazer o mesmo - e que não deveriam deixar passar duas luas sem rapar o cabelo outra vez, e que evitassem olhar para espelhos.

Esta história aconteceu há mais de 2500 anos, mas ainda há quem siga os ensinamentos deste príncipe e quem viva a sua filosofia.

Chamava-se Siddharta, ficou conhecido por Buda.

Não é a primeira vez que assisto ao "ritual da rapadela" entre monges budistas - e confesso que no Laos teve outra envolvência, pois a certa altura fui convidado a participar e a rapar o cabelo a um dos monges - mas ontem vimos uns miúdos a rapar o cabelo uns outros... e não resisti a registar o momento.

Estávamos em Amarapura, eu e o grupo da Nomad. Nos arredores de Mandalay. Tínhamos assistido ao nascer-do-sol na ponte U Bein, depois tomámos o pequeno-almoço num restaurante local - e depois fomos para a zona dos mosteiros, para assistir ao almoço dos monges. Quando vimos quatro sentados a um canto, no jardim, a rapar o cabelo uns aos outros.

Ficam as fotos:




Ao contrário do que acontece na Tailândia e do Laos, onde os monges rapam o cabelo uma vez por mês (nos dias de lua cheia), aqui na Birmânia pode-se rapar em qualquer altura.E com bastante mais frequência.


13/10/2015

BIRMÂNIA, AQUI VAMOS NÓS!

Não é propriamente "notícia de última hora" - pois estamos em viagem há uns quatro ou cinco dias - mas já arrancou a terceira edição da viagem à Birmânia que organizo com a Nomad.

Estamos neste momento em Mandalay, depois das primeiras voltas por Yangon e a Rocha Dourada. Tem chovido bastante, parece que amanhã vai finalmente melhorar... mas o espírito do grupo mantém-se em alta. Ontem, por exemplo: não custou nada, as quinze horas de comboio! ;)

Mas a viagem começou um dia antes de começar.

A Conceição, uma das viajantes Nomad que integra este grupo e que já me acompanhou pela Turquia e Indochina, veio para o Myanmar uns dias mais cedo. E entre outros programas e passeios, veio dar uma volta comigo na Circle Line.

A Circle Line é uma linha de comboio que "dá a volta" a Yangon. O comboio local que a percorre demora quase três horas a completar o percurso... e é uma experiência, por si só. Não tanto pelas paisagens que atravessa, mas pela vida que acontece dentro das suas carruagens. De vendedores de-tudo-e-mais-alguma-coisa, a monges a caminho das aulas de inglês, velhotas a voltar do hospital, homens de negócios, estudantes, grupos de amigos, famílias.

Palavras para quê, se posso ilustrar um bocadinho deste colorido com fotografias:









07/10/2015

SÃO REFUGIADOS

Imagina que...

...rebentava uma guerra no teu país, uma guerra sem bons-da-fita, se é que há guerras com bons-da-fita. Uma guerra sem hipótese de heróis nem santos e muito menos milagres, só destruição e morte e terror à tua volta. Tentavas viver no meio do caos e dos destroços, do sangue e das lágrimas, das noites passadas sem dormir, das refeições em família onde não se troca uma palavra, e o coração em sobressalto por-tudo-e-por-nada. As pessoas à tua volta, amigos e vizinhos, familiares, professores, o condutor do autocarro que te leva para o trabalho - as pessoas começavam a desaparecer, meros perfis no facebook que aos poucos deixam de ser actualizados.

Todos os dias choras por alguém, rezas pelos que ficam, sonhas que o pesadelo acabe.

E se essa guerra se prolongasse até à eternidade, ou o que parece uma eternidade, e a Paz não passasse de um eco longínquo, uma utopia, um sonho interrompido vezes sem conta. E apesar de tudo resistiass, não me vou embora, é a minha terra, é a minha casa e dos meus antepassados, tenho as minhas raízes aqui, isto há-de passar. Um dia isto há-de passar.

Acreditas sinceramente que não pode piorar mais, olhas pela janela e não vês um único edifício em pé, a tua rua pinta-se de tons de Cinzento, como as outras ruas, como o céu por cima delas, como as lágrimas que são paisagem no teu rosto postal-ilustrado. Isto não pode piorar. Isto há-de passar.

:(

Mas de repente aparecem novos actores neste filme, e são ainda piores do que os maus da fita, e agora já não é só um pesadelo, isto é o Inferno como nunca o imaginaste. Esperaste por um Bruce Willis ou um James Bond, sonhaste com super-heróis de capa e poderes sobrenaturais. Em vão.

Decides ir embora.

Por muito que te custe deixar o lar, a tua zona de conforto... na verdade, pouco sobra do teu lar - e que conforto há numa casa destruída, a vizinhança, o horizonte. Queres fugir. Qualquer lugar é melhor que este. Qualquer lugar é melhor que o teu lar, qualquer lugar é melhor que a tua zona de conforto.

Deixas para trás o teu Passado, os teus Antepassados. Desistes daquele que era para ser o teu Futuro.

Não há Futuro. Não assim.

Qualquer Coisa é melhor que Isto.

E levas o quê, contigo? Umas mudas de roupa, de certeza. Comida e dinheiro, o que ainda sobrar. E mais? Entre o pouco que sobra e o que é prático levar. Provavelmente nunca mais vais ver a tua casa, não sabes se alguma vez voltarás a ver as pessoas que costumavas ver todos os dias. Levas o quê?

Levas fotografias.

Levas as histórias que guardas na tua cabeça e no teu coração - muitas delas começam com uma fotografia. A festa de anos do teu irmão, o casamento da prima, as férias em família, primeiros passos, almoçaradas em família, os colegas da escola, sorrisos sinceros e sorrisos ensaiados, momentos que por qualquer razão pediram para ser eternizados no papel. Instantes congelados numa imagem... que conta muito mais que a própria imagem, que é só o ponto de partida para mil histórias, e lembra pessoas queridas, momentos especiais, atitudes, sentimentos, sensações.

:(

Agora a sério:

O momento que mais me marcou na semana passada em Assos, cuja publicação - peço desculpa - tive de suspender por uns dias, resulta mais ou menos de um exercício como este que te propús fazer.

Passo a explicar o que aconteceu, então.

Estava na tal plataforma sobre o mar quando reparei no que parecia lixo a boiar. A água aqui é limpíssima e muito transparente, por isso aquela concentração de papéis pareceu-me muito invulgar. E porque o mindset já estava muito virado para esta questão, lembrei-me logo dos refugiados.

"O que será aquilo?", perguntei à Bahar.

"Espero que não sejam fotografias", foi a resposta.

Na água estavam duas miúdas a fazer snorkeling, a Bahar chamou-as e pediu que fossem ver o que era aquela papelada toda que a corrente trazia. Pouco depois, com alguns dos papéis nas mãos, as miúdas gritaram:

"São fotografias!"

Trouxeram-nas para a plataforma, juntaram-se outros turcos à nossa volta, todos de férias como nós, e imediatamente perceberam que as pessoas nas fotos não eram seus conterrâneos:

"São sírios", explicou-me a Bahar apontando para pormenores como a roupa, a decoração das casas, etc. Tínhamos quatro ou cinco fotos à nossa frente, numa apareciam uns vinte miúdos a posar com a professora, outra era de uma miúda toda arranjada a posar no jardim, e noutra um pai com uma criança ao colo. Alguém perdeu estas suas memórias, com a pressa de agarrar um futuro incerto. Terão caído por acidente, terão sido atiradas por alguém?

Seja como for, alguém perdera esta ligação com o Passado.

Atirei-me à água e consegui recuperar mais umas trinta. Um turco fez o mesmo e trouxe vinte-e-pouco. Deixámo-las a secar ao sol, e ao longo da tarde foram aparecendo mais - apanhámos as que conseguimos.

Juntámos ao todo oitenta e duas fotos.

Que sensação: tentar descortinar as histórias por trás de cada uma. De repente, todos os que estávamos naquela plataforma partilhámos a mesma tristeza, a mesma solidariedade. Praticamente sem trocar uma palavra, todos percebemos que este Passado perdido, esta última lembrança...

...estas fotos têm de voltar à pessoa que as trazia.

Passei o resto da tarde a olhar para o mar, não sei se à procura de mais alguma foto, ou se simplesmente a tentar imaginar o que será perder a única ligação física com o passado, depois de largar tudo e ir atrás de uma vida nova, de uma segunda oportunidade.




Decidimos guardar num lote único, para não ficarem divididas entre vários. Oitenta e duas fotos. A Bahar trouxe-as para casa, digitalizou-as e conseguiu que o Hurriyet, um dos principais jornais turcos, as publicasse numa reportagem de capa no passado Domingo. E na quinta-feira (amanhã) sai uma reportagem em Portugal, na revista Sábado.

Queremos encontrar forma de tornar isto viral, de fazer chegar esta boa notícia a quem provavelmente chorou pela sua perda. Um dia destes, pode ser p'rá semana ou daqui a dois meses ou daqui a três anos - mas um dia, estas fotos vão encontrar o "caminho de volta". E hão-de voltar a provocar um sorriso, uma lágrima, uma gargalhada. Saudade.

06/10/2015

A SENHORA DO LADO DIREITO E O RAPAZ DO LADO ESQUERDO

O voo de Kuala Lumpur para Yangon demora apenas duas horas e meia - nada de especial, comparado com as maratonas que às vezes faço entre Europa e Ásia.

Mas, curiosamente, a viagem de ontem à tarde provou-me que duas horas e meia podem custar muito mais a passar do que seis, sete ou vinte horas.

Tudo começou quando entrei no avião e reparei que o meu boarding pass indicava o lugar 16B, ou seja, ia ficar sentado no meio de uma fila. Nem à janela, nem à coxia. Estranhei, porque normalmente na AirAsia marco sempre o lugar quando compro o bilhete. Sendo uma lowcost, tem um custo acrescido - mas é tão barato que prefiro dar mais um bocadinho e garantir um lugar à janela, para assim encostar a cabeça e dormir um pouco. No entanto, fosse por erro da companhia ou por distracção minha, desta vez não tinha um lugar à janela. E como o voo vinha completamente cheio, decidi não chatear a hospedeira (e ainda bem, porque quando cheguei a casa fui confirmar na reserva e realmente o erro tinha sido meu).

Enfim: lugar ao meio.

Mas podia ser pior. Podia ser na Iberia, ou na Lufthansa - e então ter de me encaixar sabe-se lá com que ginásticas e malabarismos, passes de mágica e truques de contorcionistas. Na AirAsia costuma haver respeito pelas pernas dos passageiros.

Continuando: sentei-me.

Do meu lado esquerdo, junto à janela, vinha um rapaz de 26 anos chamado Chit Ko Ko, que depois de oito anos a trabalhar como chef num restaurante chinês na Malásia, voltava finalmente a Yangon, onde a família o esperava para uma nova vida. Queria casar-se com a namorada que não via desde miúdo, queria votar nas eleições que aí vêm e fazer parte da mudança que sonha para o seu país, queria vir à janela e pagou mais por isso, porque era a primeira vez que viajava de avião. Suponho que, na ida da Birmânia para a Malásia, há quase uma década, tenha ido por terra. Ilegal, claro.

"Não vais reconhecer o teu país", disse-lhe. "Está muito diferente, vai ser um choque."

E o sorriso dele aumentava, de cada vez que lhe falava das mudanças no "seu Myanmar".

Do lado direito, na coxia, vinha uma senhora dos seus sessenta. De boné branco, com o nome de uma marca de remédios, a condizer com um polo roxo com o mesmo logotipo e um saco dourado igual. Vinha de uma espécie de congresso, ela e mais umas cinquenta pessoas, tinham estado em KL para um encontro - estão a ver o cenário. Todos mais-ou-menos vestidos de igual, com os mesmos brindes e sempre a rir, espírito de grupo depois de uns dias de teambuilding. Provavelmente ficaram num daqueles hotéis gigantes para grupos, onde comeram e beberam e fizeram a festa; provavelmente houve discursos e cantoria, algumas bebedeiras, muitas histórias trocadas, um tour organizado de autocarro às Petronas e às Batu Caves. Bem pintada, a senhora: sempre impecável, com a carteira pousada no colo mal se sentou - e com uma espécie de inquietação que, apesar de relativamente discreta, tinha um potencial enorme de se tornar irritante.

Estávamos ainda na pista quando a Senhora do Lado Direito começou a conversar com o Rapaz do Lado Esquerdo. Claro que não entendi nada do que diziam, pois falavam em birmanês. Mas depressa me apercebi do conteúdo, quando a senhora começa a passar ao rapaz (ou seja, à minha frente) frascos de comprimidos e saquinhos com sei-lá-o-que lá dentro.

Não se calava.

Eu sorri com o insólito da coisa, os dois em amena cavaqueira e eu no meio, respirei fundo e contei até dez, "isto é só um bocadinho, eles já se calam."

Mas não.

O avião entrou na pista e não se calaram, eu peguei na revista e fingi estar a ler - e não se calaram. Comecei a abanar o passaporte, a segurar no banco à minha frente, a mexer-me e a "ocupar" o espaço entre eles para dar a sensação que estava nervoso... mas não se calaram. Prego a fundo, agora é que não consigo sair daqui, vou esperar por estarmos lá em cima e depois tenho de sair deste lugar, não posso viajar assim, com esta irritação em estéreo, são duas horas e meia, vou dar em maluco.

Não se calaram.

Ou seja: chegados a cinco mil metros, ou seja lá a que altitude estávamos, eu voltei-me para a senhora e, interrompendo o longo monólogo com um sorriso, perguntei-lhe se não queria trocar de lugar comigo.

"Não."

"Mas se calhar é mais prático trocarmos de lugar", insisti sempre a sorrir.

"Porquê?"

E aqui o sorriso diminuiu ligeiramente, mas juro que estava a achar piada à situação, por isso nunca fiz "cara feia":

"Porque estão os dois em alegre conversa, e sinceramente para mim é um bocado desconfortável estar no meio."

"Queres descansar?", perguntou o rapaz.

"Sim."

Ao que a senhora acrescentou:

"Mas uu não quero trocar de lugar."

E dito isto, o meu sorriso esmoreceu e então deixei bem claro:

"Okay, então por favor deixem-me descansar agora."

Note-se ainda que tinha passado a noite a acompanhar as eleições e o futebol, ou seja, não tinha muitas horas de sono. Estava realmente cansado.

Fechei os olhos e deixei-me relaxar. A situação tinha tanto de cómico como de trágico. Não estava especialmente irritado, apesar de ter motivos para isso. Mas estava, como se diz no Norte e como diria o Almodovar, "à beira".

Nem dois minutos passaram, quando a senhora voltou ao ataque. Primeiro a falar baixinho, o que (agora admito) começou a irritar-me. Mas não abri os olhos. Pode ser que não seja nada, pensei. Mas não era. E muito rapidamente o murmúrio deixou de ser murmúrio e lá estava ela a vender a merda dos comprimidos, desculpem-me o francês mas era assim mesmo. O rapaz praticamente nem respondia, e quando abri os olhos sorriu timidamente como que a dizer "eu não tenho culpa".

Virei para a senhora um olhar cheio de facas apontadas - e ela calou-se e fingiu que não era com ela.

Fechei os olhos - e recomeçou imediatamente a falar.

"Really?", disse eu em voz alta, já a passar-me.

"Mas porque é que não trocas com ele?", respondeu-me a Senhora do Lado Direito a apontar para o Rapaz do Lado Esquerdo.

"Eu quero ir à janela, é a primeira vez que voo, quero ver o meu Myanmar."

E eu no meio.

"A senhora é que está a falar com ele, troque comigo se quiser continuar. Senão, por favor respeite o meu espaço. Tenho duas pessoas a falar aos meus ouvidos, uma de cada lado."

E apesar de poder dar a sensação de estar irritado - e estava - a verdade é que consegui dizer isto tudo a sorrir, mais pelo insólito da conversa do que propriamente pelo espírito da coisa.

Entretanto apareceu a comida. Acabámos por conversar um bocadinho os três, enquanto comíamos. O Rapaz do Lado Esquerdo não tinha encomendado nada (paga-se à parte, claro) por isso tanto eu como a Senhora do Lado Direito partilhámos as nossas refeições com ele.

Ela até era simpática, muito educada e visivelmente feliz e apaixonada pelo que fazia. Mas vender o produto, em birmanês, aos meus ouvidos - há limites.

Finda a refeição, deixei claro que "agora quero descansar" e fechei os olhos. Calaram-se os dois, finalmente, adormeci e até sonhei, passou-se uma hora até que começo a ouvir uma música rock. Abro os olhos: tenho um telemóvel à frente da cara. É a Senhora do Lado Direito que o segura, mostrando ao Rapaz do Lado Esquerdo o filme que fez da banda rock birmanesa a actuar no jantar da empresa.

A sério?!

Devo ter-lhe feito uma cara de tal forma ameaçadora que a Senhora do Lado Direito se levantou sem dizer mais nada - e foi ter com os outros do boné branco com o logotipo. o Rapaz do Lado Esquerdo sorriu e encostou a cabeça ao banco da frente, eu fechei os olhos outra vez e deixei-me adormecer... mas por pouco tempo.

De repente, senti o ar aquecer do Lado Esquerdo, primeiro no braço e depois no pescoço. O que é isto? Abri os olhos e inspirei ao mesmo tempo, imediatamente o meu corpo sofreu uma convulsão e virei a cabeça para o Lado Direito. Oh não.

O gajo tinha-se peidado.

Mais uma vez: desculpem lá qualquer coisinha, eu nem sou de descrever nestes termos as coisas à minha volta, quem me acompanha sabe disso. Mas hoje não estava para grandes floreados.

A sério?!

E não foi uma, nem duas, nem três. Felizmente a Senhora do Lado Direito tinha ido embora e eu já tinha o corpo todo inclinado para o lugar dela, cheio de nojo do cheiro mas principalmente de sentir aquele ar quente a tocar-me.

Mas este avião nunca mais chega ao seu destino?!

Quantas horas passaram desde que saímos de Kuala Lumpur? Uma e meia? Sete? Oito? Duzentas?!

Deixem-me sair daqui. E entretanto a Senhora do Lado Direito voltou e tive de corrigir a postura, mas felizmente o ar tinha arrefecido e assim permaneceu. Pouco depois o Rapaz do Lado Esquerdo pediu desculpa, deixem-me passar, preciso de ir à casa-de-banho.

Ai precisas, precisas.

E pouco mais aconteceu. Mal voltou da casa-de-banho anunciaram que estávamos a chegar a Yangon, não-sei-quê dos cintos, não-sei-quê dos aparelhos electrónicos, não-sei-quê dos tabuleiros, o costume.

Isto do tempo é uma coisa muito relativa. Às vezes duas horas custam muito mais a passar do que seis. Vá-se lá entender ;)

Ou como me disseram no outro dia:

"Os anos passam a correr. O pior são os dias."

VOLTAS E REVIRAVOLTAS, PARTE 276

Ok: vamos lá pôr as voltas em dia.

Cheguei ontem à noite a Yangon, no Myanmar - depois de um fim-de-semana em Kuala Lumpur em que aproveitei para matar saudades dos amigos de lá, sair à noite e dormir manhãs inteiras, escrever à tarde e acompanhar futebóis e eleições... enfim, fiz pouco mais que Nada.

Segue-se mais um grupo de viajantes da Nomad, que chegam daqui a três dias para uma aventura de duas semanas que nos levará a Mandalay, Bagan, Popa e ao lago Inle.

Mas antes da Birmânia e da Malásia: a Turquia.

Foi um mês em cheio, Setembro: as duas primeiras semanas a passear com dez viajantes de Istambul ao Curdistão, a terceira de-papo-para-o-ar em Assos com a Bahar, e os últimos dias novamente em Istambul, aproveitando uma coincidência muito engraçada (também havemos de falar sobre isso) para passar algum tempo com o meu primo Diogo.

São tantas as histórias, pormenores e curiosidades que tenho para partilhar aqui... é sempre a mesma coisa, não consigo acompanhar todas as voltas a tempo, eheh. Mas ao longo dos próximos dias tenciono actualizar muito do que tenho aqui acumulado. Incluindo uma história que anda aqui "pendurada", não sei se já repararam, tem a ver com umas fotos que encontrei de refugiados sírios. No domingo passado fez capa de um jornal turco, e esta semana vai aparecer num meio de comunicação português. Amanhã conversamos sobre isso.

Entretanto estou a preparar alguns posts novos, hoje "passo por aqui" mais umas vezes :)


01/10/2015

SÃO REFUGIADOS (parte 8)

E chegamos finalmente ao último destes pequenos episódios relacionados com os refugiados sírios, em Assos.

Mais uma vez, estava deitado de papo para o ar, a ver se aproveitava os últimos raios de sol - ao final da tarde ia-me embora para Çanakkale, de onde seguiria um nightbus para Istambul. E eis que oiço a sirene da lancha. Levantei-me para ver o que se passava - e eis que mesmo ao pé de nós estava um bote. Pareceu-me o mesmo da tarde anterior, com os refugiados equipados com coletes côr-de-laranja. Mas desta vez estavam "a sair".

A lancha passou pelo bote sem parar e continuou para junto das rochas. O traficante deve ter saltado à água - e pelos vistos escapou, porque depois de alguns minutos parada junto à praia, a lancha acabou por afastar-se e foi ter de novo com o bote. Que, entretanto, não tinha avançado nem mais um centímetro.

Depois de rondar também o bote, a lancha acabou por ir embora a alta velocidade, outra vez com a sirene em histérica gritaria. O bote original ficou ali para-a-frente-e-para-trás, chegou mesmo a aproximar-se mais da praia... mas a certa altura decidiu-se pelo "outro lado" e lá foi em direcção ao horizonte, às montanhas lá ao fundo, a uma vida nova, cheia de incertezas mas pelo menos com alguma esperança.

Uma ou duas horas depois: a lancha outra vez. Mas agora trazia um bote a reboque, cheio de gente. E foi depositá-los junto à praia. Não sei se era o bote que vimos sair antes, ou se era outro. Isto a esta distância começa a parecer-me tudo igual. Mas lá ficaram, junto às rochas, acabaram por saltar para terra e desapareceram entre as árvores.

Mais duas, três, quatro horas. Nem sei bem. Ia a tarde já bem avançada, "a esta hora já ninguém se mete ao mar". Ou não. Eis que os refugiados aparecem outra vez na praia, penso que eram os mesmos de antes por causa dos coletes, mas não posso garantir. E desta vez dividem-se em dois grupos... e lá vão em eles em dois botes mais pequenos. Nunca mais os vi.

SÃO REFUGIADOS (parte 7)

Estava quase a acabar, a semana junto ao mar.

Foi uma semana de mixed feelings, como já devem ter reparado pelos últimos posts. A proximidade do drama dos refugiados sírios acrescentou uma profundidade inesperada ao que eram para ser dias de puro descanso junto ao mar.

Interessante, no mínimo. Mas não me vou demorar agora com esse debate.

Foi no dia antes do dia em que nos fomos embora. Ao final da tarde apareceu um bote de refugiados... mas vinha no sentido inverso. Não o tínhamos visto a sair antes, o que não quer dizer que isso não tivesse acontecido. Obviamente não estávamos de plantão a toda a hora, a ver quem saía. Mas a verdade é que apareceu do nada, vindo do mar... para a Turquia.

Vinham a remar, em vez de usar o motor. Estariam sem gasóleo?

Traziam todos coletes salva-vidas cor-de-laranja. Era a primeira vez que avistávamos um grupo destes. Ainda brincámos um pouco com o assunto: estariam perdidos, convencidos que estavam a chegar à Europa? Ou seriam refugiados europeus, a fazer o sentido inverso?

Mas era realmente estranho. Aproximaram-se da costa devagar, ficaram imenso tempo parados junto as umas rochas... e aos poucos foram desembarcando e desaparecendo na floresta. No final ficou apenas uma pessoa, ainda vestida com o colete, pôs-se a remar para a frente e para trás, a determinada altura ainda achei que se ia embora sozinho. Mas não. Acabou por sair também do bote, puxou-o para terra... e desapareceu.

Nem o senhor do restaurante, que normalmente é quem nos ilumina sobre o assunto, conseguiu explicar o sucedido.

30/09/2015

SÃO REFUGIADOS (parte 6)

Ao fim de alguns dias de férias, consegui finalmente sair da "praia" e lá fui com a Bahar até à parte de cima da cidade, também conhecida por Behramkale e que é uma espécie de Óbidos com vista para o mar. No centro de uma vila antiga toda recuperada, bastante pacata mas com lojas de souvenirs e restaurantes um bocadinho por todo o lado, estão espalhadas as ruínas de uma fortaleza e um templo greco-romano a Atena, deusa da justiça, da inspiração, das artes e de mais uma mão-cheia de coisas.

Aqui viveu Aristóteles, por exemplo. Fundou uma academia, casou com Pythias, a filha do rei Hermias, e só quando a cidade foi capturada pelos Persas é que fugiu para a Macedónia, onde mais tarde haveria de ser o tutor daquele que a História haveria de conhecer por Alexandre, o Grande.

Mas biografias à parte, esta terrinha tem muito que se lhe diga. Bem arranjada, toda pacata, gente simpática, tem uma energia muito positiva. É pena que seja, actualmente, um dos palcos desta tragédia humana que aflige o Médio Oriente e a Europa.

Enfim. Nada que não tenhamos mencionado já aqui.

Mas serve este post para relatar mais um evento testemunhado. Desta vez mais ao longe, do topo do monte onde fica o Templo de Atena. Com uma vista panorâmica excepcional sobre o Mar Egeu e o Mar de Marmara - e as montanhas da ilha de Lesbos à frente.

Depressa reparei em quatro botes que se dirigiam para a Grécia, claro. Cada um a diferentes distâncias. Não consegui reparar no que aconteceu ao que ia mais avançado, pois a certa altura era só um pontinho no horizonte, mas os outros três não tiveram grande sorte.

O mais próximo da costa foi rapidamente "apanhado" pela lancha da polícia, que o rodeou durante bastante tempo, até que se lançou ao encalço do segundo barco. Fiquei convencido que mais cedo ou mais tarde também este primeiro acabaria por avançar... mas a verdade é que ficou ali parado imenso tempo. Não avançava nem recuava. A dada altura deu-me a sensação de alguma coisa ter sido atirada ao mar - e pouco depois constatei que havia uma pessoa a nadar para terra. Provavelmente o traficante, que deve ter apanhado um valente susto com a lancha. Enquanto o via a nadar, o bote ficou no mesmo sítio. Estariam a discutir sobre o que fazer? Teria a polícia esvaziado o tanque de gasóleo? Não consegui perceber - e até me ter ido embora, o bote não saiu do mesmo sítio.

Quanto ao segundo, obviamente acabou por ser apanhado pela lancha. Á distância a que me contrava não consegui descortinar o sucedido, mas dali já não saíram. A lancha ficou com este bote o resto do tempo, pelo menos até me ir embora.

Já o terceiro bote, que ia bem mais avançado, acabou por encontrar destino pior: um barco da Marinha. Lá de baixo, da praia, ainda não tinha reparado nestes barcos maiores. Estão mais ao largo, e só agora que mudei de perspectiva é que dei por eles. Vi-o aproximar-se do bote e apercebi-me de movimentações várias que, embora não sendo muito claras, também não foram difíceis de entender. Os refugiados foram todos transferidos do bote para o barco maior, e depois não sei o que fizeram ao bote mas deixei de o ver. Terá sido furado, como me disse o senhor do restaurante? Terá sido trazido para dentro do barco? Não faço ideia, deixei de o ver assim que o barco começou a dirigir-se para a costa turca, já preparado para apanhar o outro bote que estava, ainda, sob a alçada da lancha da polícia.

SÃO REFUGIADOS (parte 5)

Ao quarto dia em Assos acordámos com um céu imaculado, e o mar a fazer de espelho do azul por cima... com condições destas, de certeza que ia estar "animado", o vai-vai de botes rumo à Europa.

Durante o pequeno-almoço vimos dois a sair, mais outro a meio da manhã. E a certa altura, durante a tarde, ouvimos uma sirene que vinha do lado do mar. Apercebemo-nos logo de um bote ne água, não muito longe - e logo de seguida avistámos a lancha da polícia, em alta velocidade, em direcção ao bote. Parou junto aos refugiados, não faço ideia que palavras foram trocadas, provavelmente um "puxão de orelhas" porque assim que o bote começou a voltar para a costa, a lancha partiu para outras paragens - e obviamente que, pouco depois, o bote parou e deu duas voltinhas... avança-recua-avança e vamos mas é embora que para trás não há nada que interesse, e lá foram novamente em direcção à Grécia.

"Já estão fartos disto", diz o senhor do restaurante quando falamos da acção da polícia. "Todos os dias a mesma coisa. Os botes acabam por ir, de qualquer forma. Às vezes vêm aqui para receber algum dos traficantes, de certeza. para facilitar. Outras vezes pegam nos refugiados, furam os botes e trazem as pessoas para terra."

Sirenes outra vez.

Volta a lancha e pára o baile... ou, melhor, pára o bote.



Mais conversa e repete-se o esquema, volta o bote para trás, a lancha desta vez demora-se um pouco mais... mas acaba por ir embora. E, claro está, nem meia hora depois estava o bote novamente lançado para a ilha de Lesbos. Lá vão eles.

SÃO REFUGIADOS (parte 4)

Peço desculpa a quem já tinha lido o post que aqui estava antes, mas por enquanto tive de o "esconder". Preciso de debater e entender melhor algumas questões relativas à privacidade das pessoas que aparecem nas fotos, e também a forma como isto vai ser divulgado.

Muito em breve volto a partilhar aqui a história e as fotos, mas por enquanto avanço com outros episódios relativos ao refugiados. Até já.

29/09/2015

SÃO REFUGIADOS (parte 3)

Ao terceiro dia em Assos, estava deitado ao sol quando pareceu-me ouvir gritos, como que alguém a pedir ajuda. Levantei-me e tentei perceber o que se passava, então reparei que mais à frente na praia, a uns duzentos metros, estava um homem na água a "esbracejar".

"Está alguém em perigo", comentei com a Bahar, que vinha a sair da água.

"E está um barco mesmo aqui ao lado", respondeu-me apontando noutra direcção.

Olhei na direcção para onde apontara e só então reparei no bote, tão perto, cheio de gente.

Entretanto já outras pessoas se tinham levantado para perceber de onde vinham os gritos. Estava claramente alguém na água. Começámos a dirigir-nos para o lugar da praia que ficava mais perto do homem, mas não foi preciso correr porque alguém que estava mais perto tinha-se entretanto atirado à água e nadava na sua direcção. Vimo-lo a puxar o outro para fora, com uma pequena bóia - e acabámos por assistir à cena a uns vinte metros, já não havia nada a fazer, perferimos não nos aproximarmos mais. O homem estava agora deitado nas pedras, a respirar fundo, e confesso que ficámos divididos entre o seu destino e o do barco, que entretanto se afastava.

Muito depressa o homem começou a querer levantar-se e sair dali, pôs-se a apontar para não-sei-onde na praia, não entendi bem o que era, mas

"Ele está bem, não é grave, olha como se mexe. Foi só susto."

Ao que um turco que entretanto tinha parado ao nosso lado comentou:

"Deve ser um turista. Foi nadar, ficou cansado e assustou-se."

Voltámos então para a nossa parte da praia, numa das cinco ou seis plataformas de madeira que se estendem sobre a água, cada uma com capacidade para umas vinte ou trinta pessoas - e dez ou quinze minutos depois, subimos ao restaurante para almoçar e ficámos a ver o bote dos refugiados, ainda à vista, mas já só um pontinho cada vez mais pequeno no horizonte.

"Nós a fazer um grande drama, já a imaginar que o "afogado" era um refugiado que caíra à água... afinal era só um turista."

"Mas olha que não era um turista", disse-me então o senhor do restaurante. "Aquele gajo era o traficante. Estão sempre a fazer isto: avançam cem metros com os refugiados, dão instruções a um ou dois e depois atiram-se à água e abandonam-nos ao destino e à sorte. Muitas vezes nem embarcam com eles, limitam-se a orientá-los e já está. Achas que se atrevem a ser apanhados pela polícia? Nem pensar. Só que este teve azar: atirou-se à água e enquanto nadava de volta teve uma cãimbra. E se nós tivessemos percebido logo que era o traficante, garanto-te que ninguém o tinha ido lá salvar."

SÃO REFUGIADOS (parte 2)

Depois daquele primeiro contacto com os botes na água e os refugiados à espera, passámos a tarde a discutir o assunto. Tudo o que vem de trás, o que estava-se-mesmo-a-ver-que-ia-acontecer, as consequências, os perigos, os horrores, o drama humano e social.

Por um lado tínhamos noção que aqui na Turquia, nesta fase do processo, não estávamos em posição de interferir ou, de certa forma, tentar ajudar. Com alguma ingenuidade começámos a planear ir a algum supermercado comprar bóias e braçadeiras para as crianças. Fazia-nos alguma confusão pensar que estas pessoas gastam tanto dinheiro e energia a pensar no bote que os leva para "o outro lado", mas que nem se dão ao trabalho de levar bóias. Mas quando contámos a ideia ao dono do restaurante, ele riu-se e explicou-nos que a) muitos têm bóias e às vezes deitam-nas fora para ter mais espaço nos barcos e b) é preciso pagar mais para levar um colete salva-vidas, por exemplo.

"Além disso, estão à espera de encontrar os refugiados aí pela rua para lhes darem as braçadeiras? Eles estão escondidos, como aqueles naquela quinta, e estão sob o cuidado dos traficantes. Vocês não querem meter-se com os traficantes, certo?"

Okay, foi ingénuo pensar nisto.

E algumas horas depois, como que para confirmar aquilo que o senhor nos tinha dito, apareceram a boiar na água... quatro bóias pretas, tipo câmaras-de-ar. Pois.


28/09/2015

SÃO REFUGIADOS (parte 1)

"Olha ali à frente, aqueles botes."

Volto-me para onde aponta o dedo da minha amiga Bahar, algures no mar à minha frente.

"São refugiados sírios, vão para a Grécia."

Confesso que a minha primeira reacção foi de algum cepticismo. Como é que ela podia garantir com tanta certeza que eram refugiados... quando, fantasiei, poderiam ser só algumas pessoas num bote, a passear.

Contudo, depressa perdi qualquer cepticismo. Não só a) o dono do restaurante me disse que não havia ali passeios, a não ser de barco a motor ou barcos de pesca, como b) num instante percebi que aqueles barcos não iam em passeio. Um deles ia já muito avançado, a meio-caminho de Lesbos. Os outros estavam mais perto, mas avançando mar adentro. Que sensação pesada, quando me "caiu a ficha" da realidade que ali surgia a olho nú.

"Estamos muito perto da Grécia. É uma das distâncias mais curtas, de Assos para Lesbos... e com o mar tão calmo, todos os dias vemos botes a sair... carregados de gente."

Nos dias seguintes eu próprio confirmaria esta afirmação.

Entretanto fui ao bungalow buscar o telefone. Tenho a máquina avariada, por isso era a única forma de registar aquele momento. Ainda consegui tirar uma fotografia aos botes, mas a qualidade é muito fraquinha. Fica aqui a tentativa de registar este momento tão estranho, um eco de angústias e horrores, desespero e esperança.

E ninguém faz nada.

"Na Europa é diferente, podes interferir porque eles estão entregues a eles próprios. Eles querem que intervenhas. Já chegaram. Mas aqui é preciso ter cuidado. Aqui eles ainda estão sob a "alçada" dos traficantes. Aqui mais vale não interferir, pois não sabes com quem te vais meter."

Fazer o quê? Aqui não há nada a fazer. E mesmo que tivessemos oportunidade: fazer o quê?

"Além disso, normalmente só damos pelos botes quando estão na água."

Fiquei a ver os botes afastarem-se, perdido em pensamentos e intenções, frustrações e medos - até que a Bahar me chama novamente:

"Olha ali mais refugiados. Devem estar escondidos naquela quinta, o dono do restaurante disse-me que estão à espera do barco deles."

Mais uma vez, a qualidade da imagem é péssima. Mas é o que há.

AONDE É QUE EU IA?

Estava em Çanakkale, da última vez que escrevi alguma coisa no blog, há uma semana atrás. Tinha acabado a viagem com o grupo da Nomad, pisei cocó de cão, fiquei "trancado" do lado de fora da guesthouse... e fui para a praia.

Fui para Assos, ou Berhamkale, sinceramente ao fim de uma semana acabei por nunca perceber qual-é-qual, parece que depende se falamos da parte-de-cima junto às ruínas greco-romanas e a uma terrinha do género de Óbidos... ou se queremos mencionar a parte-de-baixo, junto ao mar e com vista sobre a Grécia, onde fica o antigo porto romano e umas casinhas recuperadas, que hoje são hotéis de charme e restaurantes de peixe.

Eu fiquei na parte-de-baixo, teoricamente ia dormir numa tenda mas na primeira noite choveu e mudaram-nos para um bungalow. E apesar do tempo depois ter ficado maravilhoao, acabámos por ficar no bungalow o resto da semana.

Estes dias passados em Assos foram de descanso puro: pouco mais fiz que mergulhar nas águas transparentes e cristalinas do Mar Egeu, deitar-me a apanhar sol, comer peixinho grelhado com legumes e saladas, beber chá turco e raki. Que paz.





Mas... e há sempre um "mas".

Estes pacatos dias tiveram um lado mais triste também, sob a forma de um tema que foi transversal a todas as conversas e debates, e que esteve presente a olho nú: os refugiados sírios.

Esta zona onde fiquei está muito perto da Grécia, é mesmo um dos pontos com menos distância. Ou seja: todos os dias vi sair botes apinhados de refugiados... que seguiam na direcção da Europa. Tudo muito perto, e todos os dias um acontecimento novo. Ou seja: nos próximos posts, hoje à tarde e nos dias que se seguem, vou abordar este assunto mais concretamente.