Partilhei este click no meu facebook, ontem - mas não podia deixar de o publicar aqui também. Das fotos que tirei ao longo do dia, esta é uma das minhas preferidas :)
O click de hoje é o que foi e que pode vir a ser, é o tempo que passa efémero e fatal, são os olhos de um que faltam no outro, identidades perdidas, outras em risco. É o que está por trás do medo, é o medo propriamente dito:
17/09/2014
16/09/2014
BOM DIA, CAIRO
Chega este "bom dia" já ao ao fim da tarde, mas antes assim que nunca.
Nas primeiras voltas pelo Cairo, ontem à tarde, uma das coisas que mais me chamou a atenção foram os murais, os grafittis, as mensagens espalhadas pela cidade. O Cairo fala connosco, grita as suas frustrações e os seus fantasmas - e também tem mensagens de esperança. O Cairo tem tanto de fatalista como de optimista, parece-me. Mas ainda é cedo para coclusões.
Fica o click de hoje:
Nas primeiras voltas pelo Cairo, ontem à tarde, uma das coisas que mais me chamou a atenção foram os murais, os grafittis, as mensagens espalhadas pela cidade. O Cairo fala connosco, grita as suas frustrações e os seus fantasmas - e também tem mensagens de esperança. O Cairo tem tanto de fatalista como de optimista, parece-me. Mas ainda é cedo para coclusões.
Fica o click de hoje:
HÁ TREMOÇOS NO CAIRO
Tremoços?!
Até ontem, nunca tinha visto tremoços em país algum, sem ser em Portugal. Já tinha sido tema de conversa, o facto de ser tão peculiar ao Rectângulo e como era estranho não se consumir noutros lugares.
Morreu o mito.
Vi tremoços à venda, no Cairo. Em copos de plástico, com meios-limões por cima. Disse-me o senhor que os vendia, que caem muito bem com uma cervejinha. E esta, hem?
Até ontem, nunca tinha visto tremoços em país algum, sem ser em Portugal. Já tinha sido tema de conversa, o facto de ser tão peculiar ao Rectângulo e como era estranho não se consumir noutros lugares.
Morreu o mito.
Vi tremoços à venda, no Cairo. Em copos de plástico, com meios-limões por cima. Disse-me o senhor que os vendia, que caem muito bem com uma cervejinha. E esta, hem?
MY FRIEND!
"My friend! Where are you from?"
É só amigos, no Cairo. Vêm ter connosco e convidam-nos para
visitar a sua loja de perfumes, dão-nos dicas sobre o Museu do Cairo, visitas
às Pirâmides, aconselham-nos contra estes-e-aqueles-outros, há até quem nos
avise acerca de demonstrações ao fundo da rua, não vão por ali, can I help you,
my friend.
Apesar de tudo, são menos chatos do que estava à espera,
estes "amigos". Vinha preparado para manobras de desvio e estratégias
de fuga, desculpas várias, conversa e até jás. Vinha preparado para o nível
oito, saíu-me um nível dois, no máximo.
São, acima de tudo, curiosos - os egípcios. E se ao longo do
dia fomos reparando nessa característica, foi ao final da tarde, quando subimos
à Torre do Cairo para uma panorâmica incrível sobre a cidade (tão caótica quanto mágica), que nos
apercebemos dessa extrema curiosidade. Toda a gente olhava, timidamente ao
início, depois com mais alguma coragem. Vinham perguntar-nos de onde éramos, se
estávamos a gostar do Cairo. Pediram para tirar fotografias connosco. Sorriam
muito. E sem intenções de vender fosse-o-que-fosse. Interesse genuíno, pura
curiosidade.
Começámos por dar uma volta no centro, pelas ruas à volta do
hotel, em direcção à Praça El Tahrir, mundialmente famosa por ser o palco das
manifestações e contra-manifestações que foram tema de telejornal durante meses
a fio. A caminho almoçámos num restaurante chamado Estoril, um velho clássico
com boa comida e serviço cuidado. Foi bom.
"My friend, can I help you?"
Não é preciso, sabemos para onde vamos. Mas não sabemos
nada. Hoje queremos andar, só. Estou cansado da viagem, das noites mal dormidas, de
quinze dias intensos a explorar a Turquia com dez pessoas - tenho mesmo de
começar devagar. Felizmente, o Manel está no mesmo registo.
"My friend, come see my shop, you don't have to buy,
just look."
Agora não, temos de ir ali. Passamos a Praça e o Museu côr-de-rosa,
ao fundo o prédio que era a sede do partido do Mubarak, com a sua fachada ainda
queimada, destruída, uma lembrança dos "tempos maus". Por todo o lado
há mensagens escritas nas paredes, em arábico por isso não sei o que dizem, mas
parecem-me protestos, gritos, desabafos. Há grafittis coloridos, criativos,
perco-me a tirar algumas fotos.
E de repente: o Nilo e as suas margens cheias de hotéis enormes,
metade estão fechados, mas o rio nem repara, o rio passa como sempre fez.
Atravessamos a ponte para o outro lado, cuidado que há uma manif à frente, não
ligamos e claro que não há nada. Paramos num jardim para ler um bocadinho o
guia, para perceber o que há para ver, o que podemos fazer. E depois de mais
umas voltas lá estamos num elevador com uma família egípcia, todos a sorrir mas
sem dizer nada, a subir a Torre do Cairo.
Que vista!
E, ao fundo... pela primeira vez...
PRIMEIROS PASSOS NO CAIRO
A primeira memória que hei-de guardar do Cairo - só o tempo o dirá, mas foi muito forte e acho que vai ficar bem registada - é a cidade vista do avião, ainda. Vinha distraído com qualquer coisa, agora irrelevante, quando o meu amigo Manel me chamou a atenção, olha ali, e eu olhei, e do lado de fora da janela a cidade esticava-se até ao horizonte, plana e castanha, carregada de um céu triste, impressionante na sua dimensão.
Aterrámos no vasto e arenoso aeroporto, saímos do avião e tratámos das formalidades do costume, levantámos as mochilas - tudo sem qualquer problema, muito fluído. Além de nós, não vi no aeroporto mais de uma dúzia de outros ocidentais. Que estranho, tendo em conta o que já foi este país, em termos de turismo.
O taxi largou-nos no centro e demos uma voltinha a pé, com as mochilas às costas, quais Leonardos diCaprio no "The Beach", meio-fascinados-meio-perdidos, à procura de um hotel. Não tínhamos marcado nada, mas trazíamos algumas referências. E fomos parar à Pensione Roma, um clássico de outros tempos que ainda está muito bem tratado. Na recepção uma velhota impecável, a falar um inglês clássico, tudo nos parecia tirado de uma história da Agatha Christie mas sem a parte dos crimes e dos mistérios.
De misterioso, só o elevador. Que sensação estranha, quando entrei no prédio e deparei com um poço de elevador igualzinho a outro em que tinha sonhado, não sei se há meses ou anos. Não me lembro quando. Mas lembro-me bem do sonho, um elevador que subia-subia-subia, que saía do prédioe continuava a subir pelos ares, eu via uma cidade lá em baixo e não sabia o que segurava o elevador, se por cima ou por baixo, se cabos ou uma grua, e tinha imenso medo porque abanava muito... enfim, um sonho. Mas quando vi o mesmo elevador à minha frente!
Curiosamente não me deu tremeliques nem ansiedades. Podia ter dado, não é muito o meu género - mas podia ter dado para isso. Entrámos no elevador e desde o início que foi uma viagem agradável. Parecíamos transportados para um filme antigo, para outros tempos. No elevador vinha um senhor tão clássico quanto o prédio. Não deixou entrar um rapaz que trazia uma bandeja com comida, porque "depois fica o elevador a cheirar a cebola". E subimos os três até ao quarto andar. Abriram-se as portas. Um corredor comprido e alto, o pé direito destes andares tem pelo menos quatro metros, e ao fundo a recepção, a senhora antiga de vestido as florzinhas, o livro de hóspedes enorme e cheio de histórias.
Ficámos, pois claro.
Da janela vejo telhados carregados de lixo e antenas parabólicas. Trazidos por quem, ou pelo quê? Pessoas ou tempestades? Ou apenas o tempo?
O céu está carregado de poluição, buzinas e música, ambulâncias e o namaz cantado a pulmões cheios. Que calor. Não dormi quase nada na noite anterior, porque tivemos de sair para o aeroporto às quatro da manhã. E na noite antes da última, ainda em Ankara, pouco mais dormi. Sento-me na cama, a ler o Lonely Planet, a ver o que fazer, ainda não pesquisei nada sobre o Egipto, não preparámos esta viagem. Não temos pressa, nem eu nem o Manel, estamos ambos cansados.
Adormeço.
Quando acordar, duas ou três horas depois, vou estar com fome e vou querer sair, comer qualquer coisa, dar uma volta. Mas sobre isso já conversamos :)
Aterrámos no vasto e arenoso aeroporto, saímos do avião e tratámos das formalidades do costume, levantámos as mochilas - tudo sem qualquer problema, muito fluído. Além de nós, não vi no aeroporto mais de uma dúzia de outros ocidentais. Que estranho, tendo em conta o que já foi este país, em termos de turismo.
O taxi largou-nos no centro e demos uma voltinha a pé, com as mochilas às costas, quais Leonardos diCaprio no "The Beach", meio-fascinados-meio-perdidos, à procura de um hotel. Não tínhamos marcado nada, mas trazíamos algumas referências. E fomos parar à Pensione Roma, um clássico de outros tempos que ainda está muito bem tratado. Na recepção uma velhota impecável, a falar um inglês clássico, tudo nos parecia tirado de uma história da Agatha Christie mas sem a parte dos crimes e dos mistérios.
De misterioso, só o elevador. Que sensação estranha, quando entrei no prédio e deparei com um poço de elevador igualzinho a outro em que tinha sonhado, não sei se há meses ou anos. Não me lembro quando. Mas lembro-me bem do sonho, um elevador que subia-subia-subia, que saía do prédioe continuava a subir pelos ares, eu via uma cidade lá em baixo e não sabia o que segurava o elevador, se por cima ou por baixo, se cabos ou uma grua, e tinha imenso medo porque abanava muito... enfim, um sonho. Mas quando vi o mesmo elevador à minha frente!
Curiosamente não me deu tremeliques nem ansiedades. Podia ter dado, não é muito o meu género - mas podia ter dado para isso. Entrámos no elevador e desde o início que foi uma viagem agradável. Parecíamos transportados para um filme antigo, para outros tempos. No elevador vinha um senhor tão clássico quanto o prédio. Não deixou entrar um rapaz que trazia uma bandeja com comida, porque "depois fica o elevador a cheirar a cebola". E subimos os três até ao quarto andar. Abriram-se as portas. Um corredor comprido e alto, o pé direito destes andares tem pelo menos quatro metros, e ao fundo a recepção, a senhora antiga de vestido as florzinhas, o livro de hóspedes enorme e cheio de histórias.
Ficámos, pois claro.
Da janela vejo telhados carregados de lixo e antenas parabólicas. Trazidos por quem, ou pelo quê? Pessoas ou tempestades? Ou apenas o tempo?
O céu está carregado de poluição, buzinas e música, ambulâncias e o namaz cantado a pulmões cheios. Que calor. Não dormi quase nada na noite anterior, porque tivemos de sair para o aeroporto às quatro da manhã. E na noite antes da última, ainda em Ankara, pouco mais dormi. Sento-me na cama, a ler o Lonely Planet, a ver o que fazer, ainda não pesquisei nada sobre o Egipto, não preparámos esta viagem. Não temos pressa, nem eu nem o Manel, estamos ambos cansados.
Adormeço.
Quando acordar, duas ou três horas depois, vou estar com fome e vou querer sair, comer qualquer coisa, dar uma volta. Mas sobre isso já conversamos :)
PRIMEIRA SURPRESA
Enquanto "arrumo" ideias sobre o primeiro dia no Egipto e as primeiras impressões do Cairo, permitam-me partilhar aqui aquela que foi uma das surpresas mais sorridentes: a quantidade de Vespas que andam na rua.
Quem acompanha o blog ou o facebook há mais tempo, sabe que gosto de Vespas. Cresci rodeado desse amor incondicional às motas, com um carinho muito especial às pequenas italianas. E quando viajo, se encontro um país onde se vêem muitas na rua, fico logo de sorriso armado.
Aconteceu assim na Tailândia, na Indonésia e no Vietname. Na Índia, também há muitas. Mas nunca tinha imaginado que no Egipto houvesse tantas. São aos milhares.
Supresa boa :)
Quem acompanha o blog ou o facebook há mais tempo, sabe que gosto de Vespas. Cresci rodeado desse amor incondicional às motas, com um carinho muito especial às pequenas italianas. E quando viajo, se encontro um país onde se vêem muitas na rua, fico logo de sorriso armado.
Aconteceu assim na Tailândia, na Indonésia e no Vietname. Na Índia, também há muitas. Mas nunca tinha imaginado que no Egipto houvesse tantas. São aos milhares.
Supresa boa :)
15/09/2014
PRÓXIMA PARAGEM: CAIRO
Este é um post agendado. Foi escrito ontem à noite, antes de me deitar - quando tinha apenas três horas para dormir intensamente ;) até sair para o aeroporto.
A esta hora, neste exacto momento em que estás a ler estas palavras (posso tratar-te por tu, não posso?), já estarei no Egipto. Estreia absoluta. Não há smiles que traduzam o que sinto agora.
Assim que puder, conversamos.
A esta hora, neste exacto momento em que estás a ler estas palavras (posso tratar-te por tu, não posso?), já estarei no Egipto. Estreia absoluta. Não há smiles que traduzam o que sinto agora.
Assim que puder, conversamos.
HORA DE PONTA
Ontem ao fim da tarde, quando voava de Ankara para Istambul, vi sete aviões cruzarem-se com o "meu", no sentido contrário. Devia ser hora de ponta.
Sete! E estou apenas a contar os que vi. Se calhar passaram mais do outro lado, ou por cima, ou por baixo; se calharam cruzaram-se connosco alguns quando eu não estava a ver. Quantos terão sido?
Eram seis da tarde quando levantei voo da capital turca. Dez minutos antes tinha saído outro voo com destino a Istambul, como o meu. E quinze minutos antes. E vinte minutos antes. E aqueles que iam sair depois. Entre as cinco e as sete da tarde é um exagero de voos, entre uma cidade e a outra. É, literalmente, hora de ponta.
Sete! E estou apenas a contar os que vi. Se calhar passaram mais do outro lado, ou por cima, ou por baixo; se calharam cruzaram-se connosco alguns quando eu não estava a ver. Quantos terão sido?
Eram seis da tarde quando levantei voo da capital turca. Dez minutos antes tinha saído outro voo com destino a Istambul, como o meu. E quinze minutos antes. E vinte minutos antes. E aqueles que iam sair depois. Entre as cinco e as sete da tarde é um exagero de voos, entre uma cidade e a outra. É, literalmente, hora de ponta.
14/09/2014
AS FOTOS QUE FALTAM
Hoje no aeroporto de Ankara não consegui carregar todas as 28 fotos que queria partilhar aqui. Agora que já estou em Istambul, net rápida e bateria carregada, ficam então as fotos que faltam:
TURQUIA, REMIX 2014
Acabou hoje a 5ª edição da viagem "Istambul ao Curdistão", que durante duas semanas explora intensamente a Turquia. Foram quatro mil e quinhentos quilómetros percorridos, muiats emoções fortes, igrejas e mesquitas e kebabs, sorrisos e stresses, trekkings e museus, passeios de barco, mergulhos no mar, muita História e Geografia misturadas, remisturadas... e ainda um passeio maravilhoso em balão de ar quente, sobre a Capadócia, ao amanhecer.
Fica um apanhado destes quinze dias, em vinte e oito fotos "remix":
Nota: a internet aqui no aeroporto de Ankara está muuuuito lenta, as fotos demoram eternidades a carregar, e a bateria está quase a acabar. Além disso, tenho de embarcar não-tarda-nada. Logo à noite ponho as fotos que faltam.
Gulé gulé :)
(Adeusinho, em turco)
Fica um apanhado destes quinze dias, em vinte e oito fotos "remix":
Nota: a internet aqui no aeroporto de Ankara está muuuuito lenta, as fotos demoram eternidades a carregar, e a bateria está quase a acabar. Além disso, tenho de embarcar não-tarda-nada. Logo à noite ponho as fotos que faltam.
Gulé gulé :)
(Adeusinho, em turco)
13/09/2014
ANCÁRA OU ÂNCARA
Ankara em Portugal diz-se "Ancára", com a tónica na segunda sílaba; mas eles aqui dizem "Âncara".
Dito isto: eu digo como eles dizem. ;)
Ah: já chegámos à capital da Turquia. Estafados, depois de doze horas em mais um autocarro. Cumprem-se assim quase-quatro-mil-e-quinhentos quilómetros de estrada, em duas semanas, pela Turquia fora. Melhor: pela Turquia dentro.
Este país.
Dito isto: eu digo como eles dizem. ;)
Ah: já chegámos à capital da Turquia. Estafados, depois de doze horas em mais um autocarro. Cumprem-se assim quase-quatro-mil-e-quinhentos quilómetros de estrada, em duas semanas, pela Turquia fora. Melhor: pela Turquia dentro.
Este país.
12/09/2014
A LENDA DE SHAHMARAN, A RAINHA DAS SERPENTES
Quem já foi a Mardin, no sudeste da Turquia, no coração da Mesopotâmia e com vista sobre a Síria; deve ter reparado na quantidade de souvenirs à venda com a imagem de uma espécie de sereia.
Pois saibam que contam as avózinhas da Pérsia e do Curdistão que em tempos
viveu, numa aldeia turca perto do Mediterrâneo, uma criatura chamada Shahmaran,
meio-mulher-meio-serpente, que era sábia e bondosa, e que diziam ser a rainha
das cobras.
Dizem que quando Shahraman morre, o seu espirito passa para
uma das suas filhas, assim se perpetuando no tempo e nas histórias, acumulando
conhecimento e experiência.
Conta a lenda que há muito, muito tempo, quando os animais
falavam, vivia em Tarsus um homem chamado Cemshab (ou Tasmasp, depende de quem
conta a história), que vivia de vender lenha e mel. Um certo dia Cemshab/Tasmasp
descobriu uma gruta cheia de colmeias com mel de alta qualidade, e convidou os
amigos a explorá-la; mas esses "amigos" estavam mais interessados no
dinheiro que poderiam ganhar e, movidos pela ganância, acabaram por encarcerar
o protagonista desta história no fundo da gruta. Cemshab/Tasmasp ficou encurralado
no escuro, desesperado com a sua (má) sorte - e quando estava prestes a
conformar-se com a fatalidade do que lhe sucedera, reparou que havia um pequeno
buraco, algures no escuro, de onde vinha um fio de luz. Começou a escavar à
volta do buraco até conseguir atravessá-lo, e eis que descobriu um jardim maravilhoso,
cheio de flores e cascatas ao fundo, nuvens e arco-íris e passarinhos a chilrear
- estão a imaginar o cenário, certo?
Tipo "my little pony".
Neste éden imaginado pelas avós persas e curdas, vivia uma
criatura que era mulher da cintura para cima, cobra da cintura para baixo. Era
bonita e jovem como as sereias de outras lendas, frágil como as flores do
jardim onde nascera, a pele da cor do leite que corre nos rios míticos de
outras histórias.
Cemshab/Tasmasp conquistou a confiança de Shahmaran e acabou
por se apaixonar por ela, passando dias e noites a ouvir as histórias que ela
tinha para lhe contar, como que hipnotizado por todo aquele conhecimento, pela
extrema bondade dela, pela beleza que o rodeava.
Passaram-se anos e um belo dia Shahmaran esgotou as
histórias que conhecia - e o seu amado começou a ficar nostálgico, com saudades
da família e da vida que vivera até a conhecer. Partilhou esta sua ansiedade e pouco
tempo depois acabou por decidir regressar à sua terra. Shahmaran aceitou a
decisão, apesar de ter o coração partido, e pediu-lhe que voltasse um dia, se
assim o entendesse:
"Mas por favor nunca contes a ninguém o paradeiro deste
jardim. Não reveles onde vivo, porque temo que um dia alguém me queira
matar."
Cemshab/Tasmasp regressou a casa, e apesar da felicidade de
reencontrar a família ao fim de tanto tempo, nunca esqueceu Shahmaran. Manteve
a promessa durante anos, até que um dia o sultão adoeceu e o vizier, que era
"mau como as cobras", decidiu usar a oportunidade em seu proveito e
anunciou ao povo que a única cura para a doença era comer a carne de Shahmaran.
Todos os homens do reino foram recrutados para descobrir o paradeiro da rainha
das cobras, incluindo o herói desta lenda - e levaram-nos, um a um, para o
hammam, para ver se tinham "escamas" de cobra no corpo. Claro que, ao
descobrirem que Cemshab/Tasmasp tinha estado com Shahmaran, forçaram-no a
revelar a localização do jardim onde vivia a sua amada.
Ao ser apanhada pelos homens do vizier, Shahmaran declarou:
"Saibam que quem comer da parte do meu corpo que é
cobra, ganhará acesso a todos os segredos do mundo. Mas aquele que comer da
minha cabeça, morrerá instantaneamente."
O vizier atirou-se imediatamente a Shahmaran, não pensando
mais na alegada cura do sultão. Mordeu-lhe a cauda e começou a comer a carne de
cobra. Cemshab/Tasmasp, que não aguentou assistir ao sofrimento da amada,
decidiu então o sacrifício final. Comeu-lhe a cabeça, matando-a, e sabendo que
também ia morrer.
Uma espécie de Romeu e Julieta, mas um bocadinho mais
"twisted", portanto.
Mas calma: não se vão embora já. Esta história ainda não
acabou.
Shahmaran tinha mentido nos efeitos de quem come o quê. Na
verdade, quem comesse a sua cauda morria, e quem comesse a cabeça viveria. Ou
seja: o vizier começou a engasgar-se com a carne de cobra, sufocando
imediatamente, rebolando no chão e maldizendo este e aquele, até morrer. Já o
herói desta história viu-se iluminado... mas depois de matar a mulher que
amava.
Viveu para sempre com essa culpa, e foi um grande vizier do
sultão, nos anos que se seguiram.
Já Shahmaran passou, em espírito, para outra cobra; e apesar
de viver amargurada com os homens a partir desse dia, nunca revelou às outras
cobras o que lhe tinha sucedido. Diz-se na Pérsia e no Curdistão que o dia em
que as cobras souberem o que aconteceu naquele dia, vingar-se-ão dos homens e
conquistarão o mundo.
11/09/2014
ESTAFADO
Cheguei finalmente a Trabzon - com quase quarenta e cinco minutos de atraso, depois de praticamente nove horas de autocarro. Ao longo da tarde a paisagem foi passando do lado de fora, os quilómetros por baixo das rodas - e eu tanto "passei pelas brasas" como ouvi música, fiz conversa com o vizinho do lado, tirei notas e joguei sudoku.
Cheguei finalmente a Trabzon - estafado. Ainda levei o grupo a jantar mas não tive coragem nem energia de ir dar uma volta com aqueles que foram dar uma volta. Amanhã é um novo dia e se hoje me senti um bocadinho em baixo, mais uma razão para não me "esticar" agora.
Vou dormir.
Desta janela, no meu quarto, vê-se o Mar Negro.
Da janela do autocarro, a paisagem era esta:
Cheguei finalmente a Trabzon - estafado. Ainda levei o grupo a jantar mas não tive coragem nem energia de ir dar uma volta com aqueles que foram dar uma volta. Amanhã é um novo dia e se hoje me senti um bocadinho em baixo, mais uma razão para não me "esticar" agora.
Vou dormir.
Desta janela, no meu quarto, vê-se o Mar Negro.
Da janela do autocarro, a paisagem era esta:
BOM DIA, RECTA FINAL
A viagem pela Turquia entra agora na recta final. Hoje vamos de autocarro até Trabzon - passamos a tarde sobre rodas, mas já vamos dormir ao pé do Mar Negro. Amanhã damos um passeio pelo espectacular Mosteiro de Sumela e depois seguimos para Ankara, o ponto final deste intenso parágrafo.
Repito muitas vezes às pessoas com quem viajo, a uns mais que a outros, para viverem o momento presente e não ficarem reféns do que aí vem, ou do que já foi. Mas hoje não consigo evitar uma certa nostalgia pelas aventuras vividas neste país fantástico; não consigo ultrapassar esta vontade enorme, quase como que um chamamento, para me demorar mais tempo por cá.
Uns dias no Curdistão fazem-me querer explorá-lo durante semanas. A proximidade do Mediterrâneo transporta-me à retemperadora viagem de há uns anos, de barco pela costa. O contacto com a hospitalidade turca e até com a sua rudeza - tudo me leva a tempos diferentes, passado e futuro, que confusa nostalgia por tempos que já foram e por outros que hão-de vir, ou nem por isso.
Tenho uma tarde inteira para me debruçar sobre o assunto ;)
Enquanto isso, fica um click tirado em Ephesus, que ilustra o colorido do turismo de hoje contrastando com o sépia de outras histórias.
Já agora, uma curiosidade: apesar dos telejornais e de tudo o que se ouve e opina sobre o mundo aqui à volta, noto que este ano a Turquia está mais "composta", para não dizer "cheia". Até o leste. Sem dramatismos nem julgamentos, estou só a constatar. Concerteza que para alguns isto é bom, para outros nem por isso. Mas é o que é.
Repito muitas vezes às pessoas com quem viajo, a uns mais que a outros, para viverem o momento presente e não ficarem reféns do que aí vem, ou do que já foi. Mas hoje não consigo evitar uma certa nostalgia pelas aventuras vividas neste país fantástico; não consigo ultrapassar esta vontade enorme, quase como que um chamamento, para me demorar mais tempo por cá.
Uns dias no Curdistão fazem-me querer explorá-lo durante semanas. A proximidade do Mediterrâneo transporta-me à retemperadora viagem de há uns anos, de barco pela costa. O contacto com a hospitalidade turca e até com a sua rudeza - tudo me leva a tempos diferentes, passado e futuro, que confusa nostalgia por tempos que já foram e por outros que hão-de vir, ou nem por isso.
Tenho uma tarde inteira para me debruçar sobre o assunto ;)
Enquanto isso, fica um click tirado em Ephesus, que ilustra o colorido do turismo de hoje contrastando com o sépia de outras histórias.
Já agora, uma curiosidade: apesar dos telejornais e de tudo o que se ouve e opina sobre o mundo aqui à volta, noto que este ano a Turquia está mais "composta", para não dizer "cheia". Até o leste. Sem dramatismos nem julgamentos, estou só a constatar. Concerteza que para alguns isto é bom, para outros nem por isso. Mas é o que é.
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