12/11/2013

ATÉ JÁ, HÀNÔI

Não apetece nada ir embora... e, ao mesmo tempo, estou ansioso por refazer as pisadas do costume, sudeste asiático fora, de Hànôi a Luang Prabang. Vão ser mais duas semanas sempre em movimento, quatro países ao todo, tantas experiências e partilha.

Vai ser bom rever os amigos desta aventura: o Batman em Siem Reap e o Xay em Luang Prabang, a Lyly em Saigão e o gang de Hué... vai ser giro. Apetece.

E depois da volta completa, fico uns dias em Luang Prabang... e a seguir volto para cá.







11/11/2013

LEMBRANDO O MIRINAE

Todo este stress com o tufão Haiyan fez-me reviver uma aventura inesquecível que aconteceu há exactamente quatro anos, com o primeiro grupo que acompanhei numa viagem pela Indochina.

Tínhamos apanhado o Reunification Express em Hué e teoricamente íamos passar vinte horas sobre carris até Saigão. Partimos de manhã (eu e oito pessoas) e a paisagem passou meio desfocada ao longo do dia, sempre com a chuva a bater com força nas janelas - até que escureceu.

E de repente: um safanão forte, uma travagem brusca, as luzes apagaram-se. Silêncio absoluto. Algo acontecera.

O vento projectava ramos de árvores e lixo, que chocavam contra a janela do nosso compartimento. Não se via nada lá para fora... só água e folhas a voar no escuro.

"Acho que o comboio descarrilou", disse uma das raparigas do grupo.

Resumindo: tínhamos sido atingidos pelo furacão Mirinae. Categoria 1, mas fortíssimo. Claro que não nos apercebemos logo disso. Durante aquela noite, parados no meio da escuridão, pensávamos  que era apenas uma tempestade. Alguém nos veio dizer que os carris estavam debaixo de água, que não era seguro o comboio avançar no escuro, que teríamos de esperar pela manhã seguinte. E na manhã seguinte disseram-nos que algures tinha caído uma ponte, e mais para a frente um aluimento de terras...

O comboio tinha recuado durante a noite, para uma zona mais alta. Parou junto a uma pequena aldeia e, quando saímos na manhã seguinte, havia gente numa pequena plataforma, rodeados de alguidares cheios de água. Eram para nós. Refrescámo-nos aí e fomos convidados a ir à aldeia comer. Não havia restaurante, mas alguém fez chegar umas sanduiches. Depois vieram os ovos cozidos... com fetos de pato lá dentro.

E isto foi só o princípio de uma descoberta mútua, entre nove estrangeiros e dezenas de locais. Durante o tempo que ali passámos, não tivemos outra hipótese senão esperar. Curiosos, miúdos e graúdos foram ganhando confiança, descobrindo formas de comunicar - a sério: não tenho palavras para descrever as sensações deste encontro, desta partilha, desta descoberta.





Passaram-se dois dias e duas noites. Sempre na promessa de "logo à tarde o comboio arranca", e logo à tarde diziam "logo à noite", e logo à noite era "amanhã de manhã". Apanhámos bebedeiras de aguardente de arroz com os locais, ensinámos jogos às crianças, jogámos às bola e fizemos explorações a pé, na estrada, para avaliar os estragos. Os dentes lavavam-se nos alguidares que eram distribuídos, de manhã, na plataforma. E à noite, depois de copos e conversa, lá voltávamos ao nosso compartimento para dormir. E o comboio não mexeu um milímetro, durante todo este processo.








Aos poucos fomos percebendo que a tragédia era de dimensões bem maiores que um comboio avariado. Soubemos, por telefone, que tínhamos cruzado caminho com um tufão. Que estavamos isolados pela água, estradas cortadas, sabe-se lá mais o quê. Que havia cento e tal mortos a lamentar. Que provavelmente era melhor começar a planear algo, porque não podíamos ficar ali à espera que alguém nos viesse salvar.

Ao fim de dois dias e duas noites, por muito que nos apetecesse ficar e aproveitar ainda mais a irrepetível experiência humana que foi partilhar este acontecimento com as pessoas daquela aldeia... arranjei nove motas e nove drivers, e "evacuámo-nos".

Por rios de lama e estradas levadas pela enchurrada, por carris e cruzando caminho com equipas de televisão, gente a carregar mantimentos, o governo civil e o exército... saímos pelos nossos pés.






No momento em que deixávamos a aldeia para trás, ainda sem saber muito bem como processar tudo o que nos tinha sucedido, um enorme arco-iris apareceu no céu. Desatámos todos a rir, apetecia dizer tanto mas não foi preciso, aquele momento era nosso, para sempre nosso, algo que nenhum esqueceu até hoje.

Confesso que, escrever sobre esta experiência deixa-me novamente emocionado. Isto mexe com qualquer coisa. Há tanto mais para contar, há detalhes deliciosos, há risadas e ansiedade, há um descobrir lento daquilo que aconteceu. Uma inocência nas brincadeiras, na nossa postura ali, que só depois de sairmos é que perdemos. Há a frustração de largar uma coisa que só se dá verdadeiro valor depois. Há coisas difíceis de descrever, também. Ou de dar uma ordem lógica. Entre o sonho e o telejornal... aquilo que vivemos foi... único.

Fica uma primeira partilha, a propósito do que se passou esta semana - e espero um dia ter capacidade, disponibilidade e arte para conseguir escrever qualquer coisa de jeito, qualquer coisa que faça justiça ao que sentimos não só durante aqueles dois dias, mas na "ressaca" daqueles dois dias. Qualquer coisa que faça justiça à minha memória e à dos meus companheiros de viagem.

JÁ PASSOU

O super tufão chegou a Hànôi tímido e tristonho, de cabeça baixa e culpa impressa nos gestos. Pudera... tendo em conta o rasto de destruição que deixou nas Filipinas.

Na capital vietnamita, a noite foi de chuva e muito vento. A manhã acordou cinzenta e triste, arranquei com o grupo para explorar uma cidade a "ressacar" a tempestade que-afinal-não-foi-bem-tempestade. Vestimo-nos a rigor com impermeáveis e corta-ventos, avançámos tímidos por baixo de uma chuvinha-molha-parvos... e por volta das dez da manhã, tal como me garantira a internet ;) a chuva parou.

Sentámo-nos a beber uma bia hoi, e à medida que a cerveja descia pelas gargantas, refrescando-as, também a cidade se iluminava. As nuvens afastaram-se e revelaram um céu azul, sorridente, que convidava a sair à rua. Portas e janelas abriram-se, quem ainda não tinha saído: saiu.

E Hànôi transformou-se naquela que é suposto ser.

Passeámos pelo Bairro Antigo e negociámos passadas com motas, vendedores, taxis e outros turistas. Descobrimos pormenores e pequenos nadas, aprendemos a ler a cidade, os seus símbolos e mensagens, as suas imperfeições, as suas manias - personalidade. Esta cidade tem personalidade.

É uma cidade incompleta, onde cabe cada um de nós, onde cabem as nossas percepções, as nossas acções, os sonhos. É uma cidade de recantos e surpresas, de insólitos e clichés. Um lugar para adaptar.

Se eu gosto de Hànôi? Isso não é novo.

E já tenho pena de ir embora. Amanhã prosseguimos viagem, a Indochina começa a descer pelo mapa fora, à procura de experiências e sensações. Felizmente "daqui a nada" já por cá ando outra vez.

Ah! E o tufão? Eu sei lá para onde foi. Ou se ainda o é.

O tufão é agora uma memória, uma história - infelizmente triste, para centenas de milhares, nem quero imaginar... :( por aqui passou tímido e arrependido.

10/11/2013

SETE DA MANHÃ

...e continua uma ventania "dos diabos".

Bom dia. Vamos lá ver o que se consegue fazer. Não me importo de me molhar, andar à chuva, desviar das poças. Mas vento? Vamos lá ver.

UPDATE DO UPDATE

O vento afinal está de mau feitio.

UPDATE

Já chove em Hànôi. Menos do que se esperava - e ainda bem - mas oiço o vento a bater nas janelas, nos telhados de zinco da casa ao lado, nos ramos das árvores em frente ao meu hotel. Nada de grave.

Hoje foi um "daqueles dias". O arranque de mais uma Indochina - a "fazer piscinas" entre o hotel e o aeroporto. Não foi dos mais intensos, metade do grupo já tinha chegado antes. Mesmo assim: o suficiente para dormir pouco e chegar ao fim da tarde cansado, a apetecer cama.

Amanhã começamos com o programa propriamente dito - mas a chuva não ajuda. Não apetece mesmo nada ter de andar na rua com o tempo assim. Mas é água. Água é água. E não vão ser uns pinguinhos que nos vão fazer ficar "em casa".

Haiyan - ou o que resta dele -, despacha-te lá com isto, desaparece de uma vez por todas, já fizeste estragos a mais... :(

CRISTIANOS RONALDOS #13 e #14

Parece que o CR7 marcou três no jogo de ontem.

Mas não foi só no relvado que se fez um hat-trick: ao longo deste fim-de-semana, fotografei três Ronaldos - dois em Hànôi, um numa aldeia de pescadores em Halong Bay.

O primeiro - o cartaz com o Cristiano e o Messi - já o partilhei aqui. Quanto aos outros dois... ei-los! ;)





MAIS SOBRE O SUPER-TUFÃO HAIYAN

Parece que o pior já passou, em Danang.

Estive novamente à conversa com a Joana Afonso, que entretanto conseguiu voo para Saigão. Vão fugir ao mau tempo e continuar a aventura pelo Vietname onde está melhor:

"Aqui já está tudo calmo! Muita chuva mas o vento fraco. Já conseguimos voo para Ho Chi Minh City, hoje ao fim da tarde. Esperemos que não cancelem, só queremos sair de Danang."

Então foi mais calmo do que se esperava. Já viste as imagens das Filipinas? Fala-se em dez mil mortos.

"Nas Filipinas era categoria 5. Aqui deve ter passado com categoria 2."

Parece que sim. E agora já está em categoria 1, mas vem na direcção de Hànôi. Dizem que vai chover imenso toda a noite e amanhã durante o dia.

"Aqui em Danang está tudo calmo. Já fomos ao aeroporto de táxi, a viagem dura cinco minutos, não vimos nada de especial."

E Hoi An? Sabes alguma coisa?

"Não sei. Também estamos curiosas. Mas parece que não foi tão dramático quanto se esperava. A ansiedade ao início, quando procurávamos um lugar seguro... essa foi a parte dramática. Ficámos um bocadinho apreensivas com o quarto que nos foi dado, porque ficava no sétimo andar, com duas paredes envidraçadas que faziam esquina. Já estavam reforçadas com barras de ferro interiores, mas ainda assim assustava. O recepcionista do hotel não conseguia dar-nos informações, a comunicação ekm inglês aqui é muito pobre. Ligámos a televisão e percebemos que falavam do tufão, mas não entendíamos nada. E depois começámos a receber mensagens de Portugal, a perguntar se estávamos bem... e percebemos que a coisa devia ser grave, para a notícia já ter lá chegado."

"Jantámos no restaurante do hotel e não encontrámos turistas, só vimos chineses e alguns locais, que procuravam um abrigo mais seguro. Às dez da noite estávamos de volta ao quarto, ponderámos pedir para trocarem para outro por estarmos rodeadas de vidro, mas decidimos ver como corria. As ruas lá em baixo estavam desertas. Tudo fechado, com traves a reforçar porras e janelas. Sacos de areia em todos os telhados."

"A noite passou sem stress. Estávamos protegidas. Por volta da meia-noite acordei com a tempestade lá fora. Assustou-me pensar que poderia piorar... mas não piorou. Acho que os ferros nas janelas tornaram a estrutura ainda mais estável, e não se ouvia as janelas a bater. Só mesmo o barulho forte do vento e da chuva. Perdemos Hoi An... mas ganhámos um tufão!"

AO VIVO, A PARTIR DO MAIOR FURACÃO DE SEMPRE

Na última terça-feira fui ter com três portuguesas ao Teatro de Marionetas de Água, aqui em Hànôi, e fomos beber uma Bia Hoi na rua, sentados nos habituais bancos de plástico rente ao chão. Acabámos a noite no bar de um amigo meu... e depois despedimo-nos, com a promessa de um almoço em Saigão, no final desta semana.

No entanto, a meteorologia pôs-nos em contacto mais depressa do que esperávamos. A Joana Afonso e duas amigas estão neste momento retidas em Danang, no meio da mais violenta tempestade do ano, em todo o Mundo - chama-se Haiyan e é uma das maiores desde que há registo. Hoje já conversámos um bocadinho (aqui já é de manhã) e combinámos partilhar aqui no blog o relato do que se vai passando.

Assim sendo, deixo-vos a primeira parte conversa, a partir das mensagens que trocámos hoje de manhã, sobre os primeiros momentos da tempestade:

"Até agora está tudo ok. Chegámos a Hoi An na sexta à noite, a um hotel de 4 estrelas fantástico, com vista para o rio. Mal chegámos tínhamos uma mensagem fixada, a avisar do tufão. Ficámos preocupadas porque nos ia estragar os dias de férias, mas não valorizámos muito o tufão, porque uma senhora sueca que estava no hotel disse para não nos preocuparmos... iam ser só uns dias de chuva."

Mas viam pessoas a preparar-se? Qual era o panorama?

"No dia seguinte (ontem, sábado) fomos passear por Hoi An e aí percebemos que poderia ser perigoso. Sim, vias a protecção civil, ou o equivalente aqui. A cortar ramos de árvores. A televisão nacional a fazer reportagens de rua. E os lojistas à hora de almoço a fechar as portas e a reforçá-las com traves de madeira. Sacos de areia a serem colocados nos telhados... mas ficámos mesmo assustadas quando numa aula de cozinha, a chefe que estava a dar o curso nos perguntou em que hotel estávamos. Quando dissemos que era junto ao rio, disse-nos logo que tínhamos de sair dali. Depois continuámos a perguntar aos lojistas e ao pessoal do hotel, e disseram-nos que era o pior tufão de sempre! Muito maior que o Katrina. E nós ali com o rio junto às mesas do pequeno-almoço, num quarto no rés-de-chão. Decidimos que, mudar por mudar, se calhar mais valia ir para Danang."

Pois, fizeram bem.

"Sempre é uma cidade, com prédios maiores. Mal ouvi a chefe perdi o apetite para o almoço que tínhamos preparado. Fomos a correr para o hotel, fizemos as malas, reservámos outro hotel em Danang e viemos logo. Chegámos aqui às 15:30 de ontem. E estamos fechadas no quarto, desde então."

"Quando chegámos ao hotel vimos que estavam a colocar traves de ferro nas janelas dos quartos, fita cola nos vidros - e colocaram também luzes de emergência nos halls e nas escadas."

Assim que tiver mais novidades da Joana e das amigas, vou publicando aqui.

09/11/2013

OUTSIDE/INSIDE

E já que estou "numa" de vender o passeio ;) eis o barco em que viajámos:

e o quarto onde dormimos:

Nada mau, hem?

E já mencionei a comida? As ameijoas com manteiga e ananás... o peixe com erva príncipe e malagueta... o camarão, a carne de porco, o frango, as verduras e as saladas, a sopa de abóbora, os springrolls que aprendemos a fazer na aula de culinária... eu já nem me lembro da quantidade de coisas que comemos. Só sei que foi tããão bom.

REGRESSO À BAÍA

Agora, mais do que nunca, é que é caso para cantar o "voltei, voltei".

Voltei - e gostei. Adorei!

É verdade que tivemos sorte. Com o tempo, com o barco, com o grupo. Os dois dias passados em Halong Bay foram de uma paz retemperadora - mesmo aquilo que estava a precisar antes de arrancar com mais uma temporada da Indochina. Ainda por cima, ao que parece, este vai ser um início emocionante, com o super tufão Haiyan cheio de pressa para se juntar a nós.

Pensamento positivo: há-de passar rápido e sem deixar muitas marcas.

Mas voltando ao tema principal deste post: a baía.

Como já tenho repetido desde ontem... voltei e fiz as pazes com Halong. Continuo a achar o lugar extremamente turístico, faz-me pena que seja praticamente impossível fugir à carneirada. Somos parte do rebanho, é inevitável - e às vezes há que aceitar o-que-tem-de-ser, sorrir e valorizar o momento, a experiência, os pormenores.

Foram dois dias bonitos, portanto. Quem diria. O boletim meteorológico garantiu-nos que ia chover e trovejar; mas chegámos a Halong Bay e o céu abriu-se num azul de postal, o sol brilhou o tempo todo... e nós agradecemos, sorrindo, ora no convéns a olhar para a paisagem, ora nos kayaks a passear entre ilhotas, com o sol a pôr-se à nossa frente, ora a explorar grutas com mais oitocentos e vinte e nove turistas... ou simplesmente sentados à mesa, a comer. Até no barco a comida era deliciosa! Este país.

Eis algumas fotos de ontem e hoje: