05/02/2014

O PRIMEIRO CLICK

Há algum tempo que ando com esta ideia de publicar diariamente, além dos relatos e crónicas e curiosidades, uma "foto do dia".

E porque não começar hoje?

Esta é fresquinha-fresquinha, foi tirada hoje de manhã numa praia a quinhentos metros do meu hotel, onde de manhã tem uma actividade frenética de pescadores e peixeiras e curiosos - e ao fim do dia enche-se de bancas de comida, vendedores de souvenirs e turistas locais, que vêm em casais, grupos de amigos, excursões.

Alguém dá uma ajudinha aqui com a corda?


04/02/2014

SÓ NA ÍNDIA #06

Só na Índia é que um muçulmano dá o nome da Madre Teresa de Calcutá à sua loja.

Quando estava na aldeia do Kosik, fui com ele a uma óptica em Aranbag, porque precisava de arranjar qualquer coisa nos seus óculos.

Achei logo piada à loja, porque se chamava "Teresa Optics" - uma referência repetida na decoração, que tinha várias fotografias da Madre Teresa de Calcutá. Mas como estávamos no West Bengal (o estado do qual Calcutá é capital), nem estranhei muito. A Madre Teresa é uma referência incontornável por aqui.

A surpresa aconteceu quando, em conversa com o empregado (que estava todo contente por falar com um estrangeiro), este pergunta-me o nome. Apresento-me e estendo-lhe a mão, ao que ele responde:

"Chamo-me Hamid."

Hamid? Mas isso é nome de muçulmano, pensei.

E era mesmo. Explicou-me que o pai - o dono da loja - tinha uma admiração enorme pela Madre Teresa, e que decidiu homenageá-la assim.

E esta, hem?

Pouco depois, fomos a uma clínica para levantar uns raio-X que o Kosik tinha feito na semana anterior. Adivinhem o nome da clínica... ;)




UM MOMENTO

No dia em que fui cortar o cabelo, ainda na aldeia do Kosik, tivemos uma pequena avaria na mota. O meu amigo parou junto a uma oficina e ficou a tratar do problema com o mecânico - e eu, depois de observá-los durante uns minutos, deixei-me de pé junto à estrada a ver o mundo a passar e a acontecer.
A determinada altura vi uma velhota com ar - desculpem-me o latim - andrajoso, a sair de um buraco num muro pintado com publicidade a uma cimenteira. Despenteada, toda curvada, roupa e pele sujas como o chão que pisava. Andava devagar e aparentemente sem destino. Parecia perdida. Olhava à volta em silêncio, não a vi chamar ninguém nem fazer gestos. Estava ali, somente.

Desviei por momentos o olhar e concentrei-me numa vaca do outro lado da estrada. Também ela parecia perdida. Vi-a aproximar-se do alcatrão daquela forma que só-na-Índia, parece que sabe que é sagrada, nem se dá ao trabalho de ver se vem algum carro. Eles que parem.

Atravessou lentamente a estrada, ouviu uma buzinadela e obrigou a que pelo menos três viaturas travassem e se desviassem dela. Lembrei-me que há muito tempo me explicaram que todas as vacas têm alguém que toma conta delas. Pode ser alguém que não esteja visível - mas estará pelas redondezas. Não há vacas sem dono. Várias vezes expliquei a mesma coisa a outros amigos, que acham sempre estranho ver vacas sozinhas "por aí". Mas esta... de onde vinha esta vaca? E para onde ia? Parecia-me abandonada, sem ninguém a tomar conta.

E no entanto...

Só quando a vaca estava a chegar ao "meu" lado da estrada é que percebi o que estava a acontecer. A velhota com ar de quem tinha acordado de uma longa hibernação estava a voltar lentamente para o buraco de onde tinha saído, num muro pintado com publicidade a uma cimenteira. E a vaca ia atrás dela. Não foram precisas palavras nem gestos nem gritos. Não foram precisos instrumentos, paus e palavras de ordem, nem canções, nem nada. Uma troca de olhar.

A vaca entrou pelo buraco do muro pintado com publicidade a uma cimenteira e eu montei-me à pendura na mota, que o Kosik ja me chamava para voltarmos para casa.

01/02/2014

SÓ NA ÍNDIA #05

Um elefante em cima de um camião. No meio do trânsito. Normalíssimo. Só na Índia, mesmo.




31/01/2014

FELIZ ANO DO CAVALO!

Comemora-se hoje na China, no Vietname e um bocadinho por todo o mundo: o início de mais um ano lunar.

Este ano é o Ano do Cavalo.

Que seja um ano de longas cavalgadas e vento no cabelo, de vastas e férteis planícies, a perder de vista. Liberdade. Que seja um ano de horizontes largos. Ou de alargar de horizontes.

Um bom Ano do Cavalo para todos!



27/01/2014

FUI AO BAETA

...mas não cortei o cabelo. Foi só para fazer a barba.

Tinha comentado com o Kousik que precisava de me barbear, ao que ele me desafiou a ir a um barbeiro local que era amigo dele. E quem sou eu para recusar uma ideia destas.

Fiquei conquistado logo à partida - o cenário, as cores, o kitsch. Que espectáculo.

Esta nem sequer era a primeira vez que fazia a barba num barbeiro local - já vivi experiências similares, noutras voltas pela Índia. Mas nunca deixa de ser uma emoção original. Sentir a lâmina a raspar na pele, que entretanto foi massajada com espuma. Ter invariavelmente um público de três ou quatro pessoas que não resistem a vir-ver o estrangeiro. Ser massajado na cara com uma máquina estranhíssima, não sei que nome tem, nunca vi em mais lado nenhum sem ser na Índia.



Mas o momento-do-dia aconteceu logo ao inicio, quando o barbeiro me estava a aplicar a espuma à cara. Eis que de repente começa também a espalhá-la pela minha testa... ao que achei estranhíssimo e perguntei ao meu amigo porque estava aquilo a acontecer.

"Que eu saiba não tenho barba na testa", disse a brincar.

"É por causa da poluição", responde-me. "Assim, quando te lavar a cara a seguir, ficas com a pele mais limpa."

Com o meu barbeiro bengali.

No final, o barbeiro pediu ao Kousik para lhe dar as fotografias da sessão. Quer emoldurar uma para pôr na parede! :)

23/01/2014

EM FAMÍLIA

Quando se é recebido assim, com o coração, é como se estivéssemos em casa.

Falta aqui o avô, o pai e o cunhado do Kousik...

Os dias que passei com a família do Kousik, na aldeia de Goghat, foram de uma empatia rara. A curiosidade de cada um - e cada qual à sua maneira - pelo estrangeiro; e a minha vontade de me integrar, de aprender e apreender. Que colorida harmonia, entre risotas e surpresas.

A noite passada a partilhar fotografias e histórias da minha família. Ou de viagens a países distantes. As conversas ao pequeno-almoço com o avô do Kousik, que em tempos foi professor de História, e que falava um inglês antigo, enferrujado mas aristocrático. A super-avó Bhaloma, sem dúvida o pilar central daquele lar, por quem eu me apaixonei e ela por mim. Queria saber o que significavam as minhas tatuagens; ouviu atentamente cada explicação acerca da minha família, traduzida pelo neto; queria lavar-me a roupa; cozinhou-me todas as suas especialidades; não queria que eu fosse embora - e no final chorou um bocadinho, já com saudades, a antecipar o meu regresso.

Quando me fui embora, fui com um nó na garganta, os olhos quentes, a voz embargada - mas fui com o coração cheio, o espírito renovado, e com saudades da minha família.

Ficam alguns momentos:











SÓ NA ÍNDIA #04

Só na Índia é que os animais da quinta são "vestidos" no Inverno, para se protegerem do frio.

A primeira vez que vi uma vaca agasalhada na Índia, há três ou quatro Invernos, convenci-me que era privilégio de ser animal sagrado. Mas entretanto vi cabras, cães e ovelhas.

Estas vi na aldeia do Kousik, esta semana. Realmente... só na Índia! :)





22/01/2014

A FLORESTA ASSOMBRADA

Ainda relativamente às três horas de aventura sobre duas rodas:

Tínhamos saído de Bishnupur há pouco mais de meia hora e o sol aproximava-se vertiginosamente do horizonte. Estimei mais meia hora de luz - ou seja, dois terços do percurso iam ser feitos à noite. O que não foi, concerteza, o nosso melhor momento em termos de planeamento. Devíamos ter saído mais cedo, claramente. Conduzir à noite, na Índia, é ainda mais perigoso do que de dia. E, no entando, apesar de me ter passado isso pela cabeça, confesso que não era propriamente a ideia que dominava o meu estado de espírito.

Eu seguia radiante.

Sentia-me num clássico de Bollywood, a atravessar de mota a paisagem indiana, sentado no meio de dois amigos, uma mochila à frente do que vai à frente, uma mochila ao meu lado, outra atrás do que vai atrás. Os três a viver uma aventura - só faltava um deles começar a cantar e aparecerem as coreografias do costume, as cores e os ritmos, quem sabe uma indiana de sari, com os cabelos a dançar ao vento e a fazer olhinhos e boquinhas.

Ninguém cantou.

Mas o indiano-da-frente informou-me que estávamos prestes a atravessar a Floresta de Jaypur, uma enorme massa verde no mapa do West Bengal. Dito-e-feito: uns minutos depois passámos um controlo da polícia e um sinal com o nome da floresta em várias línguas. E foi então que o indiano-de-trás disse qualquer coisa do género:

"É melhor despacharmo-nos a atravessar a floresta, porque este lugar é perigoso à noite."

Não liguei muito, os indianos são cheios de superstições, mas não resisti a saber mais:

"Perigoso, como?"

"Há bandidos. Mandam parar quem passa e roubam tudo. Não viste a polícia à entrada?"

Respondi que sim e não disse mais nada. Estava à espera de alguma história mirabolante e levei com uma verdade crua - e cruel. A ser verdade, não me apetecia nada estar ali quando escurecesse."

O sol já se tinha posto há muito. A luz estava a diminuir rapidamente.

Pouco depois, como se eu tivesse perguntado mais qualquer coisa, o indiano-de-trás prosseguiu com os relatos:

"Há três dias um casal foi encontrado enforcado numa árvore."

Enforcados? Terei ouvido bem? Mas será que estamos a falar de mitos urbanos? Estas coisas acontecem mesmo? Tenho de ir procurar no google, pensei. Mas claro que nunca mais me lembrei.

E pouco depois:

"E também há animais selvagens."

"Tipo tigres?", perguntei a brincar. Já não há tigres selvagens na Índia, em teoria.

"Não, claro que não. Mas elefantes, javalis, cães selvagens e coelhos."

Coelhos. Medo.

Confesso que, dado o estado de espírito meio enebriado com a essência do momento, só me apetecia rir daquela conversa. Uma parte de mim desejava que escurecesse rapidamente, queria fazer aquela travessia à noite e sair sem problema, só para dizer que atravessei a Floresta de Jaypur à noite. A Floresta Assombrada.

Mas de repente, saído das árvores na berma da estrada, eis que vejo... um lobo. Não estou a brincar, não estou a exagerar. Um lobo. Eu próprio tive de olhar segunda vez para ter a certeza. Nenhum dos indianos o viu - mas eu vi. Um lobo.

Vamos lá a despachar, está bem? ;)

MAIS VALIA ESTAR CALADO

Ao fim de quase uma hora em cima da mota, estranhei o facto da estrada estar em tão bom estado. Lembrava-me que, apenas uns dias antes, tinha andado aos saltos e aos trambolhões dentro do autocarro - e era realmente esquisito estar agora a viajar num piso em tão boas condições. Será que havia dois caminhos?

Comentei esta minha admiração, mais em descargo-de-consciência do que à-espera-de-uma-justificação. E obtive resposta imediata do indiano sentado atrás de mim:

"Yes, this road is very much excelent."

Ao que o indiano à frente acrescentou, vinte segundos depois:

"It's the end."

É o fim? O fim de quê?, perguntei.

"Just a little more, it's the end only. Then starts the very much bad road."

Nem a meio do caminho íamos. Fui falar para quê.

UM CONVITE... POR ESCRITO

Não sei se foi por timidez, ou porque não dominava bem o inglês e queria ter a certeza de que se fazia entender - mas o convite para ir com o Kousik e o amigo para a aldeia deles, e para ficar a dormir em casa da família do Kousik... foi feito por escrito.

Durante a tarde que passámos em Bishnupur, o Kousik estendeu-me uma fola A4 com uma carta escrita. Foi dos momentos mais engraçados: eu a ler a carta em frente aos dois indianos, eles a olhar para mim, a estudar-me as reacções, na expectativa do que eu ia dizer.

Na carta, o Kousik voltava a apresentar-se. Estudante do 4º ano de Pintura, no Indian Art College de Calcutá. E depois de pedir desculpa pelo inglês e assumir que tinha estado a escrever a carta à noite, com um dicionário ao lado, passava então a convidar-me para visitar a aldeia, que ficava a 50km de Bishnupur, cerca de uma hora e vinte de mota. Descrevia alguns dos pontos de visita mais interessantes, assegurava-me que me ia sentir seguro com a sua família - e desculpava-se com o facto de ser uma casa pobre, feita de "solo".

Recusa-se um convite destes?

Claro que não.

E lá fui com os meus dois novos amigos, a três numa mota, mais as minhas mochilas e uma que eles traziam... durante três horas - três!, incluindo paragens para descansar e tomar chai, claro.

SÓ NA ÍNDIA #03

Só na Índia é que dois cidadãos nacionais se encontram e têm de comunicar em inglês, porque nenhuma fala a língua nacional oficial - o hindi.

Em conversa com os meus novos amigos, apercebi-me que nenhum fala hindi, a língua oficial da Índia. Comunicam entre eles em bengali, a língua oficial do estado do West Bengal - e se viajarem na Índia, ou se quiserem fazer conversa cm alguém de outro estado, falam em inglês.

Lembro-me de, há uns anos, ter assistido ao meu amigo George - do Kerala, mas estava a trabalhar em Goa - a ser abordado por outro indiano, e não entender nada do que ele lhe disse, pelo que lhe perguntou se falava inglês. Isto para mim foi estranhíssimo.

Claro que num país do tamanho de um continente, isto é quase uma inevitabilidade. A Índia, ao contrário da imagem romântica de marajás e elefantes que muita gente tem, é um imenso caldeirão de centenas - senão milhares - de culturas, civilizações, histórias e tradições.

Aviso em bengali, hindi e inglês.

A Constituição da Índia reconhece o hindi e o inglês como "línguas oficiais nacionais", mas dá poder a cada um dos vinte e oito* estados para escolherem as suas "línguas maternas oficiais". Ou seja: somando tudo, a mesma Constituição reconhece vinte e três línguas oficiais!

São elas, além do hindi e do inglês: assamese, bengali, bodo, dogri, gujarati, kannada, kashmiri, konkani, maithili, malayalan, manipuri, marathi, nepali, oriya, punjabi, sanskrit, santali, sindhi, tamil, telugu e urdu.

Mas há mais!

Para se ter uma noção, na Índia há 30 línguas com mais de um milhão de falantes; 60 com mais de cem mil e 122 com mais de dez mil!

E como se pode imaginar, cada qual apresenta os seus números. O censo de 1961 reconhecia 1.652 línguas (incluindo dialetos, claro). Em 1991, o número baixara um pouco, para 1.576 "línguas maternas", segundo a classificação oficial indiana. O projecto "People of India" identificou 325 línguas utilizadas por vários grupos étnicos e comunidades. A entidade SIL Ethnologue refuta com uma lista de 415 línguas vivas.

A salganhada é o que se vê.

Na prática, apenas metade da população indiana fala hindi - e alguns só o "arranham". A outra metade domina apenas a "língua materna". E quando viaja: fala em inglês.

Só na Índia! ;)

20/01/2014

AS CORES!

Resistir - é inútil.

Este país. Este país.


BISHNUPUR (DE MOTA, A TRÊS)

Cheguei a Bishnupur a meio da tarde, ainda a adaptar-me ao mundo em meu redor. Bishnupur? Mas isso é onde, e é o quê? Não sei. Nem eu sei muito bem.

O meu objectivo principal, ao "planear" a primeira semana deste mês na Índia, foi fugir das cidades grandes, dos "must-see" das brochuras turísticas, dos lugares que eu já conhecia. Podia ter ido para directo para Bodhgaya (o destino final, antes de voar para Bombaim), mas alguma coisa me disse que devia primeiro explorar um bocadinho.

E porquê Bishnupur?

Porque ao pesquisar sobre vários lugares entre Calcutá e Bodhgaya, este chamou-me a atenção:

1. pelo nome, porque Bishnupur vem claramente de Vishnu, que é um dos meus deuses "preferidos" na mitologia hindu.

2. porque li que havia, nos templos desta antiga capital do reino Malla, referências ao Ramayana e ao Mahabharata - e fiquei com curiosidade de as "comparar" com aquelas que estão em Angkor e em Bangkok, por exemplo.

3. pelas fotos que vi na internet, pois os templos não só têm uma arquitectura muito própria, mas são de terracota.

Ou seja: estava na Índia há menos de vinte e quatro horas e de repente tinha chegado sabe-deus-onde, para ver sabe-deus-o-quê. Registei-me num hotel com nome de uma conhecida deusa, caí redondo na cama - e só acordei ao fim da tarde, o sol já posto, mesmo a tempo de dar uma primeira volta pelo centro da pequena vila, espreitar a internet num cybercafé (não há wifi aqui) e jantar.

E depois: cama. Amanhã é um dia novo.

Na manhã seguinte, o estudante de Belas Artes que tinha conhecido no autocarro apareceu de mota com um amigo. Combinámos ir ver os templos juntos e lá fomos "a três" na mota, eu ensanduichado entre os dois indianos, a sorrir porque nem fora preciso grande adaptação: ainda agora a viagem começara e já estava a viver uma aventura.

Quanto aos templos: que surpresa. Não é a primeira vez que isto me acontece, mas não deixa de ser surpreendente. A Índia é tão rica em termos de património, que mesmo numa terrinha perdida no mapa há vestígios arqueológicos destes, originais e de uma importanta histórica ímpar.

Noutro país, este lugar podia muito bem ser de visita "obrigatória" na rota dos turistas. Foi capital de um reino, tem particularidades arquitectónicas únicas, artesanato muito peculiar - e até gastronomia própria. Mas na Índia há tantos Taj Mahais, Kama Sutras e Marajás, que Bishnupur fica assim: meio-esquecida. Perdida no mapa.

Ou seja: como qualquer turista que se preze, adorei. Sou egoísta. Quero tudo só para mim. Não gosto de ver outros turistas onde estou. Como qualquer turista: quero exclusividade. Não é assim que acontece? Vamos à Torre Eiffel e ao Taj Mahal, a Angkor Wat e à Grande Muralha, ao Cristo Redentor... e queixamo-nos das multidões. Tanta gente. Queremos o Mundo só para nós.

Aqui está, então: Bishnupur. Nem um só branco à vista.

Sou só eu - e mais dois indianos. A três numa mota, como num filme de Bollywood.







Vishnu a sonhar na criação do Mundo, enquanto Lakshmi lhe massaja as pernas. É aqui que Brahma "é criado", a partir de uma flor de lótus que nasce do ventre de Vishnu.

A trindade hindu: Brahma (o criador), Vishnu (o protector) e Shiva (o destruidor). Vishnu está montado em cima do seu fiel companheiro "de armas", Garuda. Este é um dos meus personagens preferidos da Mitologia Hindu. Shiva, por sua vez, surge em cima do boi Nandi, como é costume.
 


Gostei do passeio e dos templos - mas mais do que a visita em si, confesso que o melhor foi mesmo a companhia. Se tivesse feito isto sozinho, tinha sido um pouco de "mais do mesmo". Mas com dois locais, ou quase-locais, foi diferente.

Conversa-conversa-conversa. Foi o que foi.

Entretanto, a meio do dia convidaram-me para os acompanhar no regresso - para ir com eles para a aldeia. Ficaria em casa do Kousik, uma casa "feita de terra", explicou-me ele, "porque somos pobres, mas a minha família ia ficar muito contente e honrada por te receber".

E recusa-se uma oferta destas? Mesmo que seja preciso viajar de mota durante três horas: três pessoas e duas mochilas enormes. Recusa-se uma oferta destas?

Mas essa já é outra volta. ;)

PERIPÉCIAS NA ESTRADA

A primeira parte da viagem passou relativamente depressa. Consegui um lugar sentado à frente, em Calcutá, por isso fui o tempo todo a apreciar a paisagem e, aos poucos, a descomprimir.

Estava na Índia há mais ou menos doze horas. Calcutá fora apenas um detalhe, um pormenor de logística: e agora estava a atravessar o West Bengal, a caminho sabe-se lá donde, vacas e trânsito e gente... e a buzina. Que irritante buzina.

Em Arambag, uma pequena cidade que só sabe que existe quem por lá passou, troquei para outro autocarro - este estava quase cheio, quando entrei, e apesar de três ou quatro lugares disponíveis, o espaço para as pernas era tão curto que optei por me sentar na última fila. Claro que tinha a noção que ia significar mais saltos e safanões, é sempre a mesma coisa quando se vai nos bancos de atrás. Mas não tinha hipótese.

E foi como tinha de ser: só faltaram mesmo as cambalhotas, porque de acrobacias foi a viagem fértil. Desta segunda viagem do dia já não posso falar muito da paisagem - o autocarro ia tão cheio e eu tão apertado lá dentro e concentrado em manter-me no meu lugar, que foi impossível ver-o-que-seja.

O que não quer dizer que não tenha sido interessante, a viagem. Aliás: se calhar até foi melhor assim - em vez da paisagem lá fora, fui entretido pela paisagem humana "cá dentro". Ainda nem tínhamos partido e já duas pessoas tinham iniciado conversa comigo. Um deles estava a estudar Artes em Calcutá e tinha vindo passar o fim-de-semana com a família, numa aldeia a meia hora de Arambag. O outro era fotógrafo e tinha ficado muito curioso com a minha máquina. Depois destes vieram outros - uns com um inglês mais trabalhado, outros mais básicos, uns mais tímidos e outros extrovertidos. mas todos curiosos, como é apanágio na Índia.

Quando finalmente cheguei a Bishnupur, além de estar todo partido por causa do aterrador carrossel que era a estrada (this road is very bad condition, terá sido a frase que mais ouvi durante a viagem), sentia-me... feliz. Não sei porquê, mas é a palavra que mais se enquadra com o meu estado de espírito. Não aconteceu nada de especial no autocarro, nenhum acontecimento digno de nota, ou que me tenha marcado profundamente. Não aprendi nenhuma grande lição, ou pequena. Mas esta comunhão de curiosidades mútuas. Cheguei feliz.

Tem piada: uma das coisas que posso dizer que tenha sido mais "marcante" nem sequer é dos momentos mais inspiradores. Quando o estudante de Artes saiu do autocarro, meia hora depois de arrancarmos e depois de já termos trocado contactos e tudo, despediu-se e disse:

"Chegas a Bishnupur às três da tarde. Liga-me que eu amanhã vou ter contigo de mota e levo-te a ver os templos."

Agradeci, retribui as despedidas e mal o autocarro partiu, olhei para o telefone e vi que eram duas e meia. Afinal a viagem é mais curta, pensei. E porque a estrada era realmente má - só mais meia hora de caminho eram boas notícias. Mas passaram-se trinta minutos. E mais trinta. E não havia maneira de chegar. Entretanto a conversa prosseguira com outras pessoas, por isso até ia distraído e a rir de tantos saltos e abanões. Mas as horas: o tempo passava e nunca mais chegávamos.

Até que reparei no relógio do senhor sentado do eu lado direito. Marcava uma e quarenta e cinco da tarde - o meu já ia muito mais à frente, o meu já ia nas três e quinze. E foi então que percebi.

Tinha-me esquecido de mudar as horas, quando cheguei de Bangkok.

Que estúúúúpido! ;)

Ou seja: eu não acordei às sete da manhã: acordei às cinco e meia. Não me levantei às nove, mas às sete e meia. E não saí do hotel às dez - saí para a rua às oito e meia. Nada mau.

Eu não parti no autocarro das onze, mas no das nove e meia. E agora ainda vou ter de suportar uma hora de viagem - pelo menos!

Damn! ;)

AS VACAS QUE EU AINDA NÃO VI

Ao fim de três horas na estrada, comecei a estranhar não ter visto ainda vacas. E pensei as próximas linhas:

Ainda não vi vacas. Já vi cabras, cães, porcos, galinhas, corvos - mas vacas não vi. Vi ao longe a silhueta de um búfalo, recortada contra o nevoeiro. Mas vacas. Vacas-vacas, daquelas sagradas, a mastigar o lixo na berma das estradas. Não vi. Vacas sagradas, deitadas no meio da estrada com ar de quem sabe perfeitamente o estatuto que tem - e por isso "não quer saber". Dessas não vi.

Tomei nota mental destas ideias, escrevo um post sobre isto, quando chegar a Bishnupur - pensei. Mas passados alguns segundos apareceu a primeira. E a segunda. E mais três ou quatro ou doze. E uma ali ao fundo. Ok, pronto: já vi vacas. Não se fala mais nisso.

19/01/2014

NA ESTRADA

O processo de conquista e cedência (vulgo: guerra) de espaço na estrada, aqui na Índia, é um exercício impróprio para pessoas facilmente impressionáveis, e mesmo para pessoas dificilmente impressionáveis. É uma arte que tem tanto de magia como de filme de terror, é um jogo de sorte e azar que ao mesmo tempo tem fórmulas secretas, perícia e muito "jogo de cintura".

Primeiro: porque é preciso conviver com elementos "naturais" como buracos, crateras, lombas e barreiras de várias naturezas, árvores nas bermas, muros e pedras, palcos de comícios políticos, obras, camiões avariados, restos de acidentes do dia anterior, miúdos a ir para a escola, miúdos a vir da escola, mulheres de saris coloridos à espera de outros autocarros, homens a mijar na berma, filósofos a pensar no significado da vida, parados no meio da estrada.

Depois: porque é necessário negociar com os autocarros-camiões-riquexós-bicicletas-carros-triciclos-carroças-motas que ultrapassamos, bem como com os autocarros-camiões-riquexós-bicicletas-carros-triciclos-carroças-motas que nos ultrapassam, e os autocarros-camiões-riquexós-bicicletas-carros-triciclos-carroças-motas que se cruzam connosco em sentido contrário, e os autocarros-camiões-riquexós-bicicletas-carros-triciclos-carroças-motas que ultrapassam os autocarros-camiões-riquexós-bicicletas-carros-triciclos-carroças-motas no sentido contrário, e os autocarros-camiões-riquexós-bicicletas-carros-triciclos-carroças-motas que se atravessam à nossa frente, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, na perpendicular ou oblíquos, devagar e depressa, bem assinalados ou vindos do nada. E há ainda os que vão depressa e de repente travam, e os que vão devagar e de repente aceleram, e os que decidem dar a volta, os que se desviam de alguma coisa, e as coisas que se desviam deles... são tantas as possibilidades, as dimensões, os impensáveis e os tava-se-mesmo-a-ver.

Tudo ao som de um estridente buzina - não: mais do que estridente. Estridente é elogio. Estas buzinas são como uma agulha a ser espetada dentro do ouvido. Uma agulha fininha e comprida, a entrar lentamente nos tímpanos. Uma buzina que ocupa o espaço todo à volta, e até o tempo todo à volta, uma buzina capaz de incandescer. Nunca apitada menos de quatro ou cinco segundos seguidos, às vezes tenho a sensação de que funciona como um escudo de protecção, criando uma barreira invisivel à volta, uma bolha, porque a verdade é que tudo se afasta à volta, trânsito e pessoas e o destino e outras fatalidades, há uma inevitabilidade eternamente adiada. Até ao dia.

Isto para dizer que saí de manhã de Calcutá, com destino marcado para Bishnupur - mas como não havia ligação directa, apanhei primeiro um autocarro local para Arambag, a três horas de viagem, onde então teria de mudar para outro, que em mais duas horas me levaria onde queria ir.

18/01/2014

A PROPÓSITO DE BELEZA


Quem também me disse que sou bem-parecido foi o Anil Kappoor, o indiano que faz de apresentador no filme "Quem quer ser milionário".

Aconteceu há dois anos, em Istambul. Estava com o meu amigo Bunty, a sair do Grand Bazaar, quando vejo o actor sentado a beber um chá, num cafézinho de esquina, como se nada fosse.

"Bunty!! Did you see that? It's Anil Kappoor!"

O Bunty nem tinha reparado. Passámos por uma estrela de Bollywood e quem é que o viu? Não o indiano, mas o português.

"Não viste? Está ali sentado... ali!"

Parecíamos dois teenagers, todos excitados. Eu nunca fico assim com "famosos", há que se honesto. Normalmente não ligo muito, ou ligo apenas o suficiente para reparar. Mas ficar nervoso como fiquei desta vez. Não.

Decidi ir lá trocar dois dedos de conversa.

"Excuse me, sir."

O Anil Kappor levanta a cabeça e fica a olhar para mim. O que quer este estrangeiro, devia estar a pensar.

"Sorry to disturb you, mas queria dizer-lhe que vou frequentemente à Índia e é muito comum virem dizer-me que sou parecido consigo."

Pronto, já disse.

E o que respondeu o Anil?

"No, but they're wrong. You are more good looking."

Ahah. Isto aconteceu! A tremer de nervosismo, dei-lhe um "bacalhau" e agradeci... e vim-me embora. E o Bunty, que assistiu a isto de boca aberta, sem querer acreditar no que estava a acontecer, nem teve tempo de nos tirar uma fotografia.

17/01/2014

SÓ NA ÍNDIA #02

Só na Índia é que um homem diz a outro que é bonito, ou que tem bom corpo, que o penteado é isto-e-aquilo... sem "segundas intenções".

Ia-me esquecendo de um pormenor muito engraçado na conversa do segurança do ATM, e que é mesmo típico da Índia. Estava eu a digitar códigos e valores a levantar, quando o senhor se vira e diz-me que sou bonito:

"Sir, you are very handsome, sir.

Não é a primeira vez que isto me acontece. O que é bastante mais agradável do que se tivesse dito que sou feio. O que também já me aconteceu. Mais ou menos. Já me aconteceu dizerem que estou gordo, ou que determinado corte me fica mal. Os indianos têm muito isto: uma sinceridade no trato, são muito directos, dizem as coisas por dizer, sem intenções escondidas.

Lembro-me de uma vez ser apresentado a uma rapariga:

"Jorge, esta é a Lalita, há uns anos teve um acidente e foi preciso amputar uma perna. Lalita, mostra-lhe a perna."

E a Lalita sorri e levanta um bocadinho o sari, lá está a prótese por baixo.

Outra vez, foi assim:

"Jorge, este é o Sachin, os pais dele morreram quando era novo, ele vive com uma tia e eu ajudei a criá-lo."

E o Sachin sorri, é uma fatalidade e concerteza que os indianos são bons a dramatizar as fatalidades, e até as não-fatalidades. Mas é também um facto - e factos são factos.

Outro foi-me apresentado como "este é o não-sei-quantos, olha lá os olhos dele, são verdes, já alguma vez tinhas visto um indiano com olhos verdes".

Além disso, na Índia é muito comum os homens apreciarem outros homens. Comentam os músculos uns dos outros da mesma forma que criticam uma "barriguinha a mais". Têm os seus heróis preferidos porque lutam bem, porque são bonitos, porque têm um bom corte de cabelo ou vestem-se bem, ou simplesmente porque gostam do estilo deles. Ou porque são musculados. Ou porque têm jeito com as miúdas. Na Índia, aprecia-se o corpo e o estilo dos outros com uma normalidade que chega a ser um bocadinho constrangedor, confesso.

Voltando ao segurança: estive tentado a dizer que ele também era "handsome", mas estava mais preocupado em tirar o dinheiro da máquina do que em fazer conversa. E assim que me vi com o dinheiro e o cartão, agradeci e fui-me embora.

SÓ NA ÍNDIA #01

Só na Índia é que o segurança do multibanco entra para dentro da casinha contigo e começa a fazer conversa enquanto levantas dinheiro. E acha isso normal.

Aconteceu-me ontem, em Calcutá. Estava a caminho da estação de autocarros, a desesperar por um ATM porque não tinha conseguido levantar dinheiro no aeroporto, quando vejo o logotipo do HSBC, o banco chinês que é como um oásis, na Ásia - é internacional, há em quase todos os países e funciona bem.

Entrei na "casinha" com as mochilas e pousei a mais pequena num balcão ao lado da caixa, e quando estou a enfiar o cartão na ranhura, eis que a porta atrás de mim se abre e o segurança entra, todo sorridente.

"Namaskar!"

Namaskar para ti também, amigo, mas não vês que estou a levantar dinheiro, não é boa altura para fazer conversa, apeteceu-me dizer. Mas sorri e virei-lhe as costas, tapando o teclado, já com medo que fosse algum esquema, não queria que me visse a digitar o código.

Digitei o código.

Seleccionei o tipo de conta, escolhi "levantamento de outras importâncias" e pedi vinte mil rupias. Só quinze mil, disse-me a máquina. Só posso dar quinze mil. Não há problema, quero quinze mil então.

"Which country, sir?"

E o outro a dar conversa.

"Portugal."

Entretanto a máquina recusou-se a dar-me os quinze mil. Amuou. Não sei porquê, se calhar não gostou de mim, ou do facto de não ter a atenção concentrada apenas nela, ou estava num "daqueles" dias - seja lá porque razão for, o facto é que pela segunda vez, voltava a não conseguir levantar dinheiro. E tendo em conta que neste momento só tenho um cartão activo... comecei a ficar preocupado.

"Cristiano Ronaldo!"

O quê? Cristiano... na Índia? Não é muito comum. Normalmente as pessoas lembram-se do Vasco da Gama, na Índia. Por causa do que aprenderam na escola. Mas o Cristiano, sendo este um país de cricket, não é uma referência assim tão forte. Por outro lado: estamos em Calcutá. O futebol aqui tem outra dimensão.

Sorri, disse-lhe yes e retirei o cartão da máquina, resignado a ter de trocar os dólares que trazia do Cambodja. Sobravam-me depois alguns euros. Contas feitas conseguia viajar duas semanas, provavelmente. Não é dramático, tenho um cartão novo "a caminho" de Bombaim, mas preferia estar mais à vontade.

Entretanto o segurança deve ter reparado no meu insucesso, porque perguntou-me se eu não tinha conseguido levantar, e depois quis saber quanto é que tinha pedido. Não me pareceu que fosse nenhum esquema, o senhor aparentava estar realmente bem intencionado. Resolvi seguir o meu instinto e respondi-lhe a verdade. Quinze mil.

"Your card cannot take fifteen. You must take ten thousand."

Isto até podia ser algum esquema, alguma armadilha. Mas eu estava dentro da casinha do multibanco com o segurança, com as minhas mochilas, e sem dinheiro para ir embora de Calcutá. Precisava de tentar.

Voltei a voltar-lhe costas, portanto.

Tapei o teclado enquanto voltava a digitar o código. Levantamentos. Outras importâncias. Dez mil. E eis que oiço o som de notas a ser contadas.

"It's coming", diz o segurança a sorrir.

Agradeci ao senhor e guardei o dinheiro no bolso, mal "nasceu". Depois veio o cartão, ia guardá-lo mas o segurança voltou ao "ataque":

"You can take more. You can take twenty thousand, thirty thousand, forty thousand. You can take how much you want. But each time, ten thousand only."

Levantei mais dez mil. São ao todo mais de duzentos euros, chegam-me para os primeiros quinze dias, à partida.

Saí para a rua com o dinheiro no bolso e as mochilas à minha volta, agradeci ao segurança com um aperto de mão, ele sorriu e disse:

"You welcome, sir. Have a good trip."

Só na Índia, mesmo.