15/01/2014

84?!

Um euro vale, neste momento, cerca de oitenta e quatro rupias. Oitenta e quatro!

Nunca tinha visto a rupia com um câmbio tão baixo. Ora aí está uma boa desculpa/motivo para viajar para o subcontinente.

Como se fosse preciso mais desculpas/motivos. ;)

14/01/2014

SHUTDOWN SIAM

A caminhada até Siam Square foi feita sempre no meio de milhares de pessoas e apitos e bandeiras, tal como durante todo o dia. Cheguei já a meio da tarde, o sol a começar a sua descida diária, as sombras dos prédios agora mais esticadas, as pessoas ainda mais espalhadas pelas ruas, quando até há pouco tempo se tentavam proteger do calor.

Conheço bem esta zona, chamo-lhe a avenida-dos-centros-comerciais, é aqui que venho quando quero ir ao cinema, quando por alguma razão tenho de ir ao shopping, eheh. Na Siam Square, o centro nevrálgico desta área, fica de um lado o MBK e o Toyiu, noutro o Siam Central e mais alguns centros comerciais, e noutra esquina fica o Museu de Arte Moderna, que também costuma ter exposições interessantes.

O Museu era o único sítio fechado - nem que seja por ser segunda-feira. Toda a gente sabe que os museus fecham às segundas.

De resto: quase tudo aberto. Lojas, centros comerciais, restaurantes. Tudo cheio, deve ter sido um bom dia de vendas. Mas cheio-cheio era fora. Inacreditável. Nem sei como ainda me surpreendia. Não sei quantas pessoas estavam nas ruas ontem, as autoridades dizem cento e oitenta mil mas de certeza que eram muito mais - eu apontaria para cinco, seis vezes mais.

Começava a ficar cansado, admito. E a bateria da máquina quase a acabar. Fiz as fotos que achei necessário, petisquei qualquer coisa e decidi voltar. Queria um duche, queria cama, queria um sumo de laranja natural e apetecia-me descarregar as fotos, ver o resultado.

Foi como tinha de ser. Já tenho fotografas que baste, pensei. E no momento em que finalmente comecei a voltar, a bateria foi-se abaixo. Meti-me no BTS. Voltei até ao rio, como que rebobinando o trajecto que fizera a pé ao longo do dia. Da janela do skytrain via, lá em baixo, grandes multidões e o colorido das bandeiras. Foi um dia bom.













ENTRETANTO, NA RAMBUTTRI

A ansiedade, confesso, começa a causar alguns "danos". Desde hoje à tarde que me sinto mais nervoso e irritadiço, um pouco nostálgico - ansioso, portanto.

Amanhã é o dia em que teoricamente recebo o meu passaporte. Tenho voo marcado para Calcutá. E há mais de um ano que não piso solo indiano.

Três boas razões.

Com o Shutdown ao "rubro", nada é certo em Bangkok. Até hoje à tarde eu não tinha a certeza se o passaporte estaria pronto amanhã. Apesar de ser o prazo oficial. Mas sabia que a Embaixada da Índia fechara ontem, por causa dos protestos - e de repente havia uma forte hipótese de o visto não em ser entregue a tempo de apanhar o voo.

Hoje confirmaram-me que estará pronto amanhã. O que, por si só, não quer dizer que eu me "safe". Estou confiante que sim, sou um optimista por natureza... mas e se há atrasos por causa dos bloqueios... e se o passaporte chega tarde demais e não consigo ir para o aeroporto a tempo?

E se os manifestantes tomam conta da autoridade dos controladores aéreos, como ameaçaram hoje?

Não me apetece nada ficar aqui "preso" mais tempo.

Bem: "preso" não fico, porque com o passaporte na mão, não há quem me segure em Bangkok. Preciso de sair daqui. Toda esta ansiedade pré-shutdown... preciso de repirar outros ares. Foi muito interessante enquanto aconteceu, gostei da experiência de ir ao Democracy Monument todos os dias, na contagem decrescente para a grande manifestação de ontem. E claro que estar no meio destes todos acontecimentos... tudo aquilo que senti nas voltas de ontem. Foi realmente histórico, inesquecível, não trocava estes dias por praia nem por mais nada, ainda bem que fiquei por aqui.

Mas é hora de ir embora.

E se tudo correr como previsto, amanhã a esta hora estou a entrar num avião da Air Asia a caminho de Calcutá.

Índia: aqui vou eu outra vez.

Ah, é verdade! Rambuttri é o nome da rua onde fico instalado, quando estou em Bangkok.

SHUTDOWN RATCHAPRASONG

Deixemos a bola com quem sabe da bola, e voltemos por agora a Bangkok, onde continua o Shutdown. Ontem o dia e a noite passaram sem incidentes de maior. No jornal de hoje soube que um grupo "independente" tinha ocupado uma ponte aqui ao pé, mas nem este tipo de acções não programadas foram reprimidas. A ocupação está a decorrer com alguma "normalidade", se é que posso utilizar esta palavra aqui.

Uma das coisas que me surpreendeu mais, nas voltas de ontem, foi a aparente quase-ausência de autoridades. Não se vê exército e mesmo os polícias são muito raros. Ou, pelo menos, discretos. Isso contribui para que a multidão esteja mais descontraída, não se sente reprimida ou constrangida - e acaba por funcionar bem. Claro que podemos sempre analisar isto de outra forma: e se alguma coisa acontecer, onde estão aqueles que supostamente deviam proteger as pessoas, ou resolver o que houver para resolver?

Enfim: questões há muitas. O certo é que correu tudo bem. Podia ser diferente. Podia haver canhões de água e balas de borracha, polícia anti-motins e o aparato que já vimos tantas vezes em tantos lugares. E correu melhor? Resolveu alguma coisa? Como disse: questões há muitas. E respostas também. Mas tantas vezes complicamos o que não tem de ser complicado. ..

(Estou neste momento a ouvir uma ambulância ao longe, banda sonora comum em qualquer grande cidade - mas que não deixa de ser inquietante, neste contexto...)

Voltemos ao relato de ontem. Do Lumphini Park resolvi ir a pé até Ratchaprasong, um cruzamento entre duas grandes vias de comunicação da cidade onde supostamente estaria mais um dos sete palcos principais do Shutdown. Ficava ali perto, a cerca de dois quilómetros, por isso atirei-me à estrada - eu e centenas de pessoas que, pelos vistos, andavam entre uma e outra manif.

Mas nem andei muito: cem metros e de repente um pequeno autocarro que estava a "fazer piscinas" parou mesmo à minha frente. Ratchaprasong?, perguntei. E entrei. Sempre me poupava um bocadinho. Dois minutos depois saí para o meio de mais uma multidão. Avancei na direcção do "coração" da manif... e foi aí, do topo de uma passagem "aérea" com vista para milhares e milhares de pessoas a cantar pela liberdade, com bandeiras a dançar sobre o colorido das cabeças e chapéus de sol, que fiquei irremediavelmente rendido à experiência que estava a viver. Juro que senti os olhos a ficar quentes, um nó na garganta que não me deixava falar, um aperto no coração que não conseguia explicar.

Fotos feitas, energias repostas e toca a andar para o próximo spot. Siam Square não fica longe - que tal mais um passeio? ;)









Nunca fui ao Mexefest... mas pelo que já ouvi falar deste festival em Lisboa, onte tive a sensação de estar num evento desse género. Mas em vez de concertos - ia de manif em manif.

RONALDOOOOOO!

Não é novidade para ninguém, aposto que em Portugal é o tema principal das conversas, hoje - bem como de capas de jornais, notícias na televisão, fotos e comentários no facebook. Ele já merecia.

Estou a falar do álbum de fotos que tenho no facebook, claro. Hoje acrescentei mais 10 fotos dos Cristianos Ronaldos que encontro pelo mundo fora. Vão lá espreitar. O rapaz merece.

E convido a quem tenha fotos de "Ronaldos": enviem-nas para fuidarumavolta@yahoo.com, que eu publico.

Ah! Diz que também ganhou um prémio qualquer, ontem à noite, não foi? Numa gala da FIFA ou lá-o-que-é. ;)

13/01/2014

SHUTDOWN LUMPHINI

A primeira paragem do dia foi no Lumphini Park, no final da avenida Silom. Passei aqui toda a manhã, num deslumbre inicial ainda misturado com algum cinismo. Irritou-me, ao início, o facto de estarmos numa zona comercial - os centros comerciais estavam quase tão cheios quanto as ruas.

Por todo o lado havia gente a vender souvenirs, comida e coisas que não tinham nada a ver com a manif. E ao mesmo tempo que me ia deixando envolver pelo espírito, atravessando a Silom a pé quase de uma ponta à outra, fui também desligando-me de preconceitos e purismos.

Os tempos são os tempos que são. Venham de lá as compras, os selfies e o comércio. E centenas de milhares de pessoas, que ao longo da manhã foram enchendo o Lumphini, as ruas à volta, a cidade toda.



















Almocei num restaurante "português" chamado Piri Piri e depois segui caminho, a pé, em direcção a outro dos sete principais palcos desta "revolução".

Mas isso fica para o próximo post, que aqui já se faz tarde e "estou que nem posso". Boa noite!

AS PESSOAS

A paisagem são as pessoas. A cidade são as pessoas. Os apitos, os braços no ar, as palavras de ordem: as pessoas. As cores. Os sorrisos. A esperança num futuro melhor: são as pessoas. A vontade de mudar. A revolução.

Ninguém sabe no que vai dar este "Shutdown". Mas o dia de hoje, dê no que der, concorde-se ou não com a estratégia, goste-se ou não de quem a lidera - o dia de hoje é uma vitória das pessoas.

Está a ser difícil encontrar palavras que descrevam as emoções de hoje, a experiência que vivi. Porque há tanto de deslumbre como de crítica, há ironias e surpresa - é uma mistura agridoce de sensações e sentimentos, de razão e emoção.

Assim, antes de partilhar a minha volta de hoje e eventuais considerações e curiosidades, queria fazer uma pequena homenagem - pode chamar-se homenagem? - ao espírito de intervenção, à iniciativa crítica, ao "ir".