14/11/2013

VAMOS IRRITAR O RONALDO

Hoje encontrei no facebook uma campanha cujo objectivo é irritar o Cristiano Ronaldo. Diz a mesma que, quando provocado, o madeirense joga melhor. E como Portugal precisa de urgentemente de se qualificar para o Mundial - e para isso, convém sempre um CR7 inspirado - vamos lá então irritar o Ronaldo. Por Portugal.

Assim, e porque sei que o Cristiano é um fiel seguidor do FUI DAR UMA VOLTA, aqui vai a minha provocação:

Em Hué, antiga capital do Vietname, há um café cujo nome é inspirado naquele que, para muitos, é o melhor jogador de futebol do mundo.


FORÇA NAS CANETAS!

Diz o jornal que comprei, hoje no Vietname, que a Selecção joga amanhã com a Suécia.

Força, Ronaldo! Boa sorte, Portugal!


13/11/2013

EM MOVIMENTO

Estamos em movimento, na Indochina.

Ontem de manhã deixámos Hànôi para trás, num mini-autocarro cheio de gente. Como de costume, demorou imenso tempo para arrancar. Estaciona aqui, marcha-atrás, manobras e estaciona ali. Assim durante meia hora. Não consigo entender a lógica, se a há. Nunca a entendi. Às vezes tenho a sorte de estar um autocarro já na rua, um autocarro com lugar para onze pessoas. Mas isso só acontece às vezes. E quando não acontece, lá vamos nós para o parque onde estão estacionados os autocarros, entramos naquele em que nos mandam entrar... e esperamos. Avança e recua, estaciona aqui e ali, deixa este passar, buzina e refila mil vezes, entra este, sai aquele. E quando finalmente saímos da estação, damos uma ou duas voltas ao quarteirão, em câmara lenta, a pisar ovos, a arrastar. Apanhamos mais algumas pessoas - e eventualmente vamos embora.


Só então ligo à Hoa, a senhora que me organiza o passeio de mota pelos arredores de Ninh Binh. Só então sei quando vou chegar. Combinamos horas, "encomendo" almoço, aí vamos nós. Bom dia, Vietname!

Desta vez chegámos pouco antes da uma. Comemos, guardámos as mochilas e lá fomos de mota, os onze e o mundo à nossa volta - primeiro para Trang An, onde fizemos um pacato passeio de barco de três horas, remando rodeados de uma paisagem linda, uma espécie de mini-Halong-Bay em terra, assim lhe chamam os guias. Bem ou mal, não me interessa. Tem tanto de verdadeiro como de falso. O facto é que é um passeio regenerador, que contrasta com a confusão de Hànôi, sabe tão bem o silêncio e a água, os kingfishers a voar baixinho, os patos que mergulham à nossa passagem, o som dos remos na água, e ao longe um templo. Atravessamos grutas cheias de estalactites a pingar sobre as nossas cabeças, surpreendemo-nos com a perícia das mulheres que remam, desviando-se das pedras e das estalactites, baixamos a cabeça quando tem mesmo de ser, quando o tecto é baixo demais. Está-se tão bem assim.












Depois voltamos às motas, passamos por aldeias e gente a dizer adeus, vamos até à gruta Mua - mas desta vez nem fomos à gruta propriamente dita, subimos apenas aos degraus que levam a um pequeno templo lá em cima, lá ao fundo, lá ao longe. Desta vez não subi. Acho que foi a primeira, em tantas edições da viagem. Fiquei a meio caminho - nem tanto! - à conversa com quem também quis ficar.

Anoitece em Ninh Binh.

Voltámos para o hotel, jantámos, refrescou-se quem se queria refrescar - e às oito e meia da noite apareceram os carros para nos levar à estação de comboios. Pouco mais de meia hora depois estávamos na plataforma a ver o comboio chegar, e mais uns minutos passados estávamos sobre carris, a descer Vietname afora, quase setecentos quilómetros até Hué, no centro do país... onde estamos agora, neste momento, a retemperar energias durante duas horas. Daqui a pouco saímos para a rua, mais uma vez de mota, mais uma vez de espírito aberto para apreender os estímulos, para ler a paisagem à nossa volta e retribuir sorrisos e cumprimentos.

Já conversamos, portanto. :)

12/11/2013

QUE TRAGÉDIA... :(

Ontem à noite recebi um mail do meu amigo Bunty, que entre outras coisas dizia o seguinte:

"Did you see about the Philippines? I am reading about it all the time. It's a pity. First there was Earthquake in Cebu city. Do you know the 15th century church we went... it has toppled? The St Nino one, with the cross of Fernao de Magalhaes. And now this typhoon killed so many people..."

O quê? Cebu? Cebu foi atingida pelo Haiyan?

Fui imediatamente procurar notícias e qual não foi a surpresa - o choque! - quando me apercebi que a ilha onde estive há pouco mais de um mês - Cebu - foi um dos lugares mais atingidos pelo tufão! Tão concentrado estava nos últimos dias com o grupo a chegar a Hanói, bem como com o próprio Haiyan, que ainda não tinha lido com atenção sobre pormenores do que se estava a passar nas Filipinas.

Estou sem palavras. Segundo um enviado da ONU no terreno, oitenta a noventa por cento da construção do norte de Cebu foi destruída. Não há ideias quanto a perdas humanas, ainda.

Não sei bem o que pensar sobre isto.

Quero dizer: a tragédia é inexplicável, sinto-me tão triste, revoltado e frustrado como qualquer outra pessoa. Mas o facto de ter estado naquele lugar há pouco mais de um mês, de ter trocado sorrisos e dois dedos de conversa com as pessoas na rua, nos mercados, na bomba de gasolina, nos restaurantes... é uma sensação estranha.

O que é feito das pessoas com quem me cruzei ao longo de uma semana na ilha? O que é feito da paisagem que dá cor às fotografias que tirei? Que sons e que cheiros pairam, em vez daqueles que eu conheci?





Não vou fazer copy/paste dos factos que li nas notícias, nem adaptá-los numa leitura "minha" do que está a acontecer. Acredito que aí em Portugal já deve estar bem explorado, o assunto. Eu é que só vejo-o-que-vejo na internet, sempre que posso. Ainda nem fotos vi - e para ser franco, não sei se quero ver.

Fala-se de pilhagens, destruição e desespero; leio projecções acerca de quantos mortos, mais não-sei-quantos desalojados, ajuda internacional a caminho, os lugares inacessíveis. Que tragédia. Que tragédia.

Logo neste país, onde o slogan usado até ao limite, em publicidade e souvenirs, e até nas conversas das pessoas na rua, é:

"It's more fun in the Philippines."

Parece-me tão macabro, à luz do que está a acontecer.

:(



ATÉ JÁ, HÀNÔI

Não apetece nada ir embora... e, ao mesmo tempo, estou ansioso por refazer as pisadas do costume, sudeste asiático fora, de Hànôi a Luang Prabang. Vão ser mais duas semanas sempre em movimento, quatro países ao todo, tantas experiências e partilha.

Vai ser bom rever os amigos desta aventura: o Batman em Siem Reap e o Xay em Luang Prabang, a Lyly em Saigão e o gang de Hué... vai ser giro. Apetece.

E depois da volta completa, fico uns dias em Luang Prabang... e a seguir volto para cá.







11/11/2013

LEMBRANDO O MIRINAE

Todo este stress com o tufão Haiyan fez-me reviver uma aventura inesquecível que aconteceu há exactamente quatro anos, com o primeiro grupo que acompanhei numa viagem pela Indochina.

Tínhamos apanhado o Reunification Express em Hué e teoricamente íamos passar vinte horas sobre carris até Saigão. Partimos de manhã (eu e oito pessoas) e a paisagem passou meio desfocada ao longo do dia, sempre com a chuva a bater com força nas janelas - até que escureceu.

E de repente: um safanão forte, uma travagem brusca, as luzes apagaram-se. Silêncio absoluto. Algo acontecera.

O vento projectava ramos de árvores e lixo, que chocavam contra a janela do nosso compartimento. Não se via nada lá para fora... só água e folhas a voar no escuro.

"Acho que o comboio descarrilou", disse uma das raparigas do grupo.

Resumindo: tínhamos sido atingidos pelo furacão Mirinae. Categoria 1, mas fortíssimo. Claro que não nos apercebemos logo disso. Durante aquela noite, parados no meio da escuridão, pensávamos  que era apenas uma tempestade. Alguém nos veio dizer que os carris estavam debaixo de água, que não era seguro o comboio avançar no escuro, que teríamos de esperar pela manhã seguinte. E na manhã seguinte disseram-nos que algures tinha caído uma ponte, e mais para a frente um aluimento de terras...

O comboio tinha recuado durante a noite, para uma zona mais alta. Parou junto a uma pequena aldeia e, quando saímos na manhã seguinte, havia gente numa pequena plataforma, rodeados de alguidares cheios de água. Eram para nós. Refrescámo-nos aí e fomos convidados a ir à aldeia comer. Não havia restaurante, mas alguém fez chegar umas sanduiches. Depois vieram os ovos cozidos... com fetos de pato lá dentro.

E isto foi só o princípio de uma descoberta mútua, entre nove estrangeiros e dezenas de locais. Durante o tempo que ali passámos, não tivemos outra hipótese senão esperar. Curiosos, miúdos e graúdos foram ganhando confiança, descobrindo formas de comunicar - a sério: não tenho palavras para descrever as sensações deste encontro, desta partilha, desta descoberta.





Passaram-se dois dias e duas noites. Sempre na promessa de "logo à tarde o comboio arranca", e logo à tarde diziam "logo à noite", e logo à noite era "amanhã de manhã". Apanhámos bebedeiras de aguardente de arroz com os locais, ensinámos jogos às crianças, jogámos às bola e fizemos explorações a pé, na estrada, para avaliar os estragos. Os dentes lavavam-se nos alguidares que eram distribuídos, de manhã, na plataforma. E à noite, depois de copos e conversa, lá voltávamos ao nosso compartimento para dormir. E o comboio não mexeu um milímetro, durante todo este processo.








Aos poucos fomos percebendo que a tragédia era de dimensões bem maiores que um comboio avariado. Soubemos, por telefone, que tínhamos cruzado caminho com um tufão. Que estavamos isolados pela água, estradas cortadas, sabe-se lá mais o quê. Que havia cento e tal mortos a lamentar. Que provavelmente era melhor começar a planear algo, porque não podíamos ficar ali à espera que alguém nos viesse salvar.

Ao fim de dois dias e duas noites, por muito que nos apetecesse ficar e aproveitar ainda mais a irrepetível experiência humana que foi partilhar este acontecimento com as pessoas daquela aldeia... arranjei nove motas e nove drivers, e "evacuámo-nos".

Por rios de lama e estradas levadas pela enchurrada, por carris e cruzando caminho com equipas de televisão, gente a carregar mantimentos, o governo civil e o exército... saímos pelos nossos pés.






No momento em que deixávamos a aldeia para trás, ainda sem saber muito bem como processar tudo o que nos tinha sucedido, um enorme arco-iris apareceu no céu. Desatámos todos a rir, apetecia dizer tanto mas não foi preciso, aquele momento era nosso, para sempre nosso, algo que nenhum esqueceu até hoje.

Confesso que, escrever sobre esta experiência deixa-me novamente emocionado. Isto mexe com qualquer coisa. Há tanto mais para contar, há detalhes deliciosos, há risadas e ansiedade, há um descobrir lento daquilo que aconteceu. Uma inocência nas brincadeiras, na nossa postura ali, que só depois de sairmos é que perdemos. Há a frustração de largar uma coisa que só se dá verdadeiro valor depois. Há coisas difíceis de descrever, também. Ou de dar uma ordem lógica. Entre o sonho e o telejornal... aquilo que vivemos foi... único.

Fica uma primeira partilha, a propósito do que se passou esta semana - e espero um dia ter capacidade, disponibilidade e arte para conseguir escrever qualquer coisa de jeito, qualquer coisa que faça justiça ao que sentimos não só durante aqueles dois dias, mas na "ressaca" daqueles dois dias. Qualquer coisa que faça justiça à minha memória e à dos meus companheiros de viagem.