16/08/2011

O METRO MAIS BONITO DO UNIVERSO

Eu sei que isto vai soar a chiché, mas é uma verdade incontornável e não consigo evitar a comparação: ir a Moscovo e não andar de Metro é como ir a Roma e não ver o Papa. Aliás: é pior ainda. Porque o Papa pode estar em visita a algum país, ou em peregrinação, ou a fazer uma sesta, ou a fazer cocó.

O Metro não - no fundo, no fundo, o Metro está sempre lá. Bem no fundo, aliás, que eu nunca vi escadas rolantes tão longas. Cheguei a contar sete minutos, sem exagero!, a descer para as profundezas.


Esta manhã conheci um malaio que está a viajar de bicicleta (partiu de Singapura e vai para Londres) e depois de fazermos uma prova de cozinha russa num hotel de cinco estrelas (chique!) decidimos ir dar uma volta de metro. Tinham-me aconselhado a visitar duas ou três estações em particular, por isso guiámo-nos pelo mapa do metro (bilingue) que ele tinha descarregado no seu iphone e foi fácil orientarmo-nos.
















Mas eu queria mais.

Desafiei o Winston a irmos à descoberta, e não é que ele saca outra vez do seu iphone e diz com o ar mais natural do mundo:

"Podemos sempre pesquisar no google."

Sou mesmo saloio. Fiquei tão feliz. Fizemos um search por "most beautiful metro stations in Moscow" e apareceram logo algumas preciosidades. Entretemo-nos durante horas a entrar e a sair do metro, sempre de máquina na mão, boca aberta de tanto fausto - é incrível.










































Conclusão número 1: É obrigatório ver. Não me perguntem o nome das estações outra vez, são demasiado complicadas para memorizar. Mas é mesmo obrigatório.

Conclusão número 2: Eu quero um iphone! Se o brinquedo já em andava a seduzir há algum tempo, com a quantidade de funcionalidades que me dão jeito em viagem, agora foi a gota de água. Quero um! Quero um! :)

A EMBAIXADA MAIS RÁPIDA DO UNIVERSO



Demorou dez minutos a fazer.

Se num país normal este tempo já uma surpresa, imagine-se na Rússia, onde a burocracia é levada aos limites da estupidez.

Quando fui à Embaixada da Mongólia em Moscovo, ia preparado para pagar a "taxa expresso", para ter o visto pronto em 24 horas. Qual não foi a minha surpresa quando o senhor do guiché me manda esperar "um bocadinho".

Dez minutos.


15/08/2011

SABES QUE ESTÁS NA RÚSSIA...

...porque quando chegas a Moscovo, chegas a "Moskba":


...porque todas as ruas parecem ter nomes estranhos. As palavras escritas em cirílicos ficammais... exóticas:


...porque vês um McDonald's em cada esquina:


...porque tal como a geografia, a herança comunista e quase tudo neste país, também o capitalismo vem em tamanho XL:




...porque as ruas têm umas vinte e tal faixas em cada sentido:


...porque é preciso descer quilómetros de escadas rolantes até chegar às plataformas do metro:


...porque o mapa do metro é tão "marado" que ficamos com os olhos todos trocados:


...porque há imagens e referências àCatedral de S. Basílio por todo o lado. Pintada à entrada do meu hostel,em fotografias penduradasnas paredes de um restaurante, grafitada num muro a caminho da embaixada da Mongólia... está em todo o lado, incluindo no Kremlin, a própria, a verdadeira, finalmente ao vivo e a cores, ao fim de um longo dia de caminhada pela cidade:








Sabes que estás na Rússia porque parece que toda a gente está "de trombas". Porque há garrafas de cerveja e de vodka nas mãos das pessoas que andam na rua, e abandonadas pelos cantos, e nas montras dos quiosques, e nos cartazes de pubicidade. Por todo o lado álcool. E mulheres bonitas. Louras, altas, elegantes - com ou sem estilo, as russas são lindas. Sabes que estás na Rússia, porque ouves as pessoas falar e parece português, por momentos acreditas que sim, soa ao mesmo - mas é diferente.

Sabes que estás na Rússia. Nem que seja porque estás "em pulgas", em contagem decrescente para embarcar no Transiberiano, um dos grandes clássicos de viagem, e é em Moscovo que tudo começa. Falta pouco.

Bem-vindo a Moscovo, apesar das "trombas". Apesar dos grunhos, dos encolheres de ombros, dos desviares de olhar e das caras feias. Há um coração grande e sorrisos escondidos atrás das esquinas, não te preocupes. Quando menos se espera, eles aparecem.



QUERES FAZER O TRANSIBERIANO?

Começou com uma pergunta mais ou menos deste calibre, esta aventura.

Em conversa no skype, o Tiago Costa (um dos meus bosses na nomad) informou-me que queriam lançar a viagem do Transberiano, e "tu és o gajo ideal para liderar uma viagem destas".

Nem hesitei.

Fui para a google pesquisar relatos de outros viajantes, peguei no lonely planet e comecei a "desenhar" a viagem. Mas quanto mais fundo mergulhava no assunto, mais apreensivo ficava. Não me parecia perigoso, o passeio - mas confesso que me assustavam um bocado, estas paragens. Muita burocracia, pouca simpatia, comunicação difícil. Liguei para o Pedro Gonçalves (o outro boss da nomad):

"Epá... não sei se me sinto muito à vontade com isto... primeiro porque nunca fiz o Transberiano, é território novo... e depois porque estes não são propriamente países muito fáceis de viajar... acho que é uma responsabilidade muito grande levar um grupo comigo sem ter experiência..."

E bla, blá, blá de incertezas e ansiedades. E sim: eu falo com os meus bosses com "epá". Got a problem? ;)

No dia seguinte, novo telefonema - mas desta vez no sentido contrário. Atendo.

"Este ano vais sozinho, então. Para ficares a conhecer o terreno. Fazes a viagem, publicas no teu blog as fotos e uns textos, e no próximo ano levas um grupo."

Sim, boss. Aqui estou eu. :)

11/08/2011

LÁ VOU EU!



Parti hoje para uma aventura que promete emoções novas e experiências inesquecíveis.

Eram 12:45 quando o comboio 18E arrancou da plataforma 10 da estação de Yaroslavsky, em Moscovo. E eu: lá dentro.

Estou a fazer o Transiberiano. Depois de Kiev e da capital russa, eis-me a embarcar no clássico dos clássicos, iniciando uma viagem que faz parte do imaginário de qualquer viajante que "se preze". ;)

De Moscovo a Pequim, passando pela Sibéria e pela Mongólia - incrível! E o melhor de tudo é que vou em "reperage", porque no próximo ano, se tudo correr como previsto, repito a dose com um grupo de aventureiros da nomad.


09/08/2011

PARECE QUE É, MAS NÃO É



Ando por Kiev e dou por mim a cantar o jingle publicitário de um anúncio a uma bebida que aquecia o coração, nos anos 80.

Parece que é mas não é,

que gosto, que satisfação...

E porquê?

Vejo uma loira a mastigar pastilha elástica, com uma micro-saia de cabedal justíssima, leggings a imitar pele de leopardo, sapatos com salto de agulha (acho que é assim que se chamam, são altíssimos, como é que a senhora se consegue equlibrar naquilo), camisa transparente de renda preta e lantejoulas prateadas sobre um top com um padrão a condizer com as leggings. O rosto excessivamente pintado, as unhas compridas e berrantes, o perfume em excesso...


...parece que é. Parece mesmo que é. Mas não é.


É só mau gosto. E esta não é a única loira de pastilha elástica, verniz côr-de-rosa, micro-saia e outros não-menos-curiosos etecetras, em Kiev. São muitas as mulheres, nas ruas da capital da Ucrânia, loiras e não-loiras, que assumem pretensões a passerelles em Milão, quando nunca passariam de uma montra em Amesterdão.

Cruzo-me com um rapaz com penteado à Richard Marx, t-shirt às riscas e calções de ganga apertados, dobrados acima do joelho, ele a subir e eu a descer as infindáveis e barulhentas escadas rolantes do Metro. Chego a uma estação com muitos ecos, música clássica, candelabros enormes e lettering vintage. O comboio chega, as portas abrem com estrondo. Saem homens de negócios com pastas de cabedal e camisas suadas, adolescentes com lenços da bandeira dos Estados Unidos ao pescoço e calças de ganga rasgadas nos joelhos, mulheres orgulhosas dos seus enchumaços nos ombros, casais de mãos dadas - nas mãos livres levam garrafas de vodka. Dentro da composição, misturada na multidão tristonha, uma mulher de longas saias, quase-quase até aos pés, ténis velhos e meias brancas, casaco de malha grossa sobre camisa às florzinhas. O aviso sonoro misturado com interferências e ecos... soa-me a russo...


...e até parece que é, mas não é.


Não é a União Soviética, não é. Não é a década de oitenta - é mesmo a Ucrânia do séc. XXI, uma curiosa mistura de sonhos modernos e austeras lembranças, pirosas ambições e preconceitos ingénuos.

De novo na rua, é-me impossível não reparar na morena de olhos de gelo azul, cabelos de anúncio de champô - e uma pele assim, só tratada em photoshop. Um par de pernas de fazer inveja a muitas pseudo-Giseles, graciosidade nos movimentos, parece que faz tudo em câmara lenta. Aproxima-se de um Jaguar prateado, seguida de um anafado e suado segurança, que dança à sua volta numa caótica sequência de vénias, salamaleques e vossas-excelências. Traz alguns sacos de papel, onde estão estampados logotipos de marcas que normalmente requerem etiquetas especiais, de maiores dimensões, tantos são os zeros no preço. Sem nunca largar o BlackBerry, a morena de olhos de gelo azul entra no carro, fecha a porta, baixa o vidro da janela e dá ao segurança uma gorjeta maior que o salário dele, a avaliar pelo sorriso.


Nunca fui a Nova Iorque, mas sabe-se lá porquê, esta é uma imagem que associo à Grande Maçã. Pois é: parece que é, e podia até ser numa série de sítios. Mas não é - é Kiev.

E olhe para onde olhar, vou dar sempre de caras com o inevitável Cirílico. Querem contradições? Coisas que são mas não parecem, ou que parecem e não são? Neste alfabeto, os "H" lêem-se "N", os "Y" lêem-se "U", os "B" são "V" e os "P" são "R". Isto só para dar alguns exemplos.

Numa cidade pródiga nestes contrastes entre o que parece e o que é, acaba por ser um exercício curioso, tentar identificar aquilo que a torna única.


Não sei como explicá-lo, e estive aqui menos de uma semana... talvez seja preciso voltar... mas a verdade é que a cidade é espantosa, e tem uma personalidade muiyo própria. Igrejas ortodoxas e blocos de apartamentos soviéticos, compridas limusines brancas e "pesadões" taxis Volga, diners americanos e pizzarias chiques, música clássica no metro e "às bolinhas" nos vistosos carros dos novos-ricos. Bandeiras da URSS, noivas que parecem suspiros, táxis amarelos com quadradinhos pretos que parecem acabadinhos de chegar de Manhatan, publicidade ao Euro 2012, restaurantes que se chamam "Máfia" com clientes que parecem mafiosos verdadeiros, tantas coisas parecem ser e não são, tantas outras são e não parecem, cartazes do último Harry Potter em cirílico, saldos de 50%, obras e mais obras, uma loiríssima de vestido roxo e sapatos roxos a falar a um telemóvel roxo - e a entrar (juro que vi!) num BMW roxo. Tudo se mistura em Kiev, tudo se complementa em Kiev, tudo isto é, nada disto é, parece que é, ou não parece mas é,

parece Kiev mas não é?

É. Garanto que é.

04/08/2011

KYIV!

Cheguei a Kiev ontem às tantas, mas ainda estou meio baralhado, meio atarantado - não consigo escrever nada.

Ontem foi um dia mau. Começou com um atraso no voo da TAP e a partir daí foi sempre a descambar, com direito a uma paragem-prolongada em Bruxelas, uma paragem-surpresa em Munique... e a bagagem, como gostou muito da capital belga, ficou a passar a noite lá, enquanto eu preenchia papéis no Aeroporto Borispol, em Kiev.


Agora acordei - e está a chover. A chover a sério.


Falamos em breve, vou tomar o pequeno-almoço, que bem preciso.