(parte 1)
Podia ter-se chamado Alzira, fosse outra a geografia no dia em que nasceu. Podia ser alentejana, ser filha de um Joaquim e de uma Augusta – mas não. Cresceu numa aldeia vietnamita a onze mil quilómetros do Alentejo. Não se chama Alzira nem é filha de um Joaquim. Chama-se Teresa.
Teresa, em vietnamita, diz-se Thrè Sí Nhâ.
Ou pelo menos quero acreditar que sim: que se chama Teresa, e que a tradução é esta.
Nasceu numa aldeia que não aparece no mapa, de tanto se esconder atrás do nevoeiro, algures nas montanhas do Norte do Vietname. Os pais eram (e são) agricultores, tal como foram os avós, e os avós dos avós – bem vistas as coisas, Thrè Sí Nhâ nunca teve grandes alternativas profissionais. Cresceu ao ritmo das estações e das colheitas, a plantar arroz e a colher arroz – o mesmo que comia às refeições. Podia ter trabalhado com uma enxada, se fosse alentejana. Mas a geografia deu-lhe outros instrumentos, que lhe provocaram os mesmos cortes nas mãos, calos e uma aspereza que se entranhou na pele e nos modos.
Aos vinte e poucos decidiu, vá-se lá saber porquê, fugir para a cidade. Juntou uns dinheiros, ignorou avisos e perigos, apanhou um autocarro cheio de gente e um dia, duas noites e algumas avarias depois, deu por si perdida no meio de um frenético labirinto de ruas coloridas e histéricas. Hanói.
Entre sonhos não realizados e empregos improvisados, Thrè Sí Nhâ conformou-se com o equilíbrio possível. Passaram dias, semanas e meses. Agora vive uma existência pouco exigente, arranstando-se silenciosamente entre um mal-pago trabalho de limpezas no Bodega Hotel, a negligência de um namorado ausente e muito amigo de uma caneca cheia de Bia Hoi, e a ansiedade pelas cenas dos próximos episódios da sua telenovela preferida.
Aos domingos de manhã, junta-se a um grupo de velhotas que fazem ginástica nas margens do lago Hoan Kiem. Abanam-se fora de ritmo ao som de músicas latinas, massajam os ombros umas das outras, de pé, em fila indiana, e de vez em quando excitam-se com a possibilidade de ver uma tartaruga gigante a nadar no rio. Diz que dá sorte. E às quintas-feiras, ao princípio da noite, vai dar uma volta a pé pelo Bairro Antigo, a ver montras e os turistas que passam de Lonely Planet na mão.
Foi uma coincidência, conhecê-la.
Ou uma ironia. Não sei que nome dar às circunstâncias que nos levaram a cruzar destinos. Mas a verdade é que aconteceu.
Eu tinha ido jantar a uma qualquer tasca de esquina, sentei-me num minúsculo banco de plástico e apesar de não estar muito bem da barriga, insisti em pedir Pho, o prato nacional – sopa de massa de arroz com carne de vaca.
Acabada a refeição, voltei para a rua. Objectivo: regressar ao hotel. Mas, a meio-caminho, um néon brilhante chamou-me a atenção. Não era a primeira vez que o via, já tinha passado por esta rua várias vezes.
Foot Massage.
Prometera a mim mesmo, noutras ocasiões, que “um dia destes” ia parar aqui e investir noventa minutos do meu tempo num mimo absolutamente dispensável, mas delicioso. Adoro massagens. E como diriam os pacotes de açúcar em Lisboa: “hoje é o dia.”
“Ora muito boa tarde, quanto custa.” O costume. Deram-me uma lista de massagens possíveis, escolhi a Body Massage 90 Minutes, não interessa o preço. Mandaram-me esperar numa sala com três marquesas, uma televisão enorme e os canos à vista.
E enquanto esperava, imagino que tenha sido isto que aconteceu: o senhor da recepção voltou para a recepção, limpou o suor da testa e olhou em redor, à procura sabe-se lá do quê, com uma expressão enigmática no rosto. Pânico, diria quem o conhece bem.
A Thrè Sí Nhâ ia a passar na rua, distraída com um sem-número de preocupações. Tinha lido uma mensagem suspeita no telemóvel do namorado, confrontou-o e foi acusada de ser ciumenta e possessiva, de o estar a espiar, de ser a má da fita. E por falar em má da fita: a sua telenovela preferida estava mais emocionante que nunca: esta semana ia descobrir-se toda a verdade sobre quem roubou as jóias da Huóng Giang, e o Nguyên Hâi ia finalmente beijar a Thu Hà.
“Desculpe… por acaso sabe fazer massagens?”
Thrè Sí Nhâ olhou para o homem que lhe tinha dirigido a palavra. Não o conhecia. Deu um passo atrás e ele sorriu, nervoso, também atrapalhado com a situação. Trocaram algumas impressões rápidas, ele fez-lhe uma oferta e ela não recusou. Sim: sabia fazer massagens – toda a gente sabe fazer massagens. Costumava fazer ao namorado, quando ele lhe pedia. E uma vez, quando era mais nova, viu na televisão da escola um programa tailandês a explicar as técnicas tradicionais dessa velha arte – não que Thrè Sí Nhâ falasse tailandês, mas pelas imagens já deu para aprender alguma coisa.
Vestiu a bata que lhe deram e foi encaminhada para uma sala com três marquesas, uma televisão enorme e os canos à vista. Lá dentro, um estrangeiro: eu.
Coincidência? Ironia do destino? Ou uma piada de mau gosto? Não perca as cenas do próximo episódio.
23/11/2009
22/11/2009
21/11/2009
EXPERIENCIAS GOURMET #01
Começo, com este post, uma “rubrica” que promete alguns arrepios, sorrisos e, quem sabe, água na boca.

Hoje ficam as fotos daquela que foi a minha experiência mais radical, a nível gastronómico. Um ovo cozido que estava algures entre a gema e o pintainho. Aconteceu numa aldeia algures no centro do Vietname, quando fiquei retido com o primeiro grupo nomad num comboio, por causa do tufão Mirinae.






Um ovo com sabor a frango, portanto.
Hoje ficam as fotos daquela que foi a minha experiência mais radical, a nível gastronómico. Um ovo cozido que estava algures entre a gema e o pintainho. Aconteceu numa aldeia algures no centro do Vietname, quando fiquei retido com o primeiro grupo nomad num comboio, por causa do tufão Mirinae.
Um ovo com sabor a frango, portanto.
20/11/2009
O DIA DO STOR
Há 52 anos que no Vietname se celebra, no dia 20 de Novembro, o Dia do Professor. As ruas estão cheias de alunos a gozar uma espécie de feriado.
Quem não for rezar pelos professores ao templo, e quem não lhes der presentes e não festejar nas escolas, leva uma Falta de Material.
19/11/2009
BOM DIA, VIETNAME!
Aproveito o novo despertar do blog para partilhar algumas fotografias tiradas no Hoan Kiem Lake (o Lago da Espada Devolvida), ao início da manhã. Este é um ritual que se repete 365 dias por ano: milhares de pessoas saem para a rua (muitas de pijama) e vão fazer exercício. Em toda a cidade, uns correm, outros fazem ginástica, tai chi, yoga... e há quem jogue badminton, e quem simplesmente abane o corpo. Há de tudo, o que interessa é mexer.
Algumas destas fotos não são minhas, e mal estaria o mundo se eu ficasse com o crédito delas. Assim sendo, agradeço e peço uma salva de palmas à Ana, ao João, à Lucília e à Sofia, que fazem parte do primeiro grupo nomad na Indochina, e a quem roubei uma ou outra chapa.














Algumas destas fotos não são minhas, e mal estaria o mundo se eu ficasse com o crédito delas. Assim sendo, agradeço e peço uma salva de palmas à Ana, ao João, à Lucília e à Sofia, que fazem parte do primeiro grupo nomad na Indochina, e a quem roubei uma ou outra chapa.
18/11/2009
HÁ MALES QUE VÊM POR BEM?
Voltei ontem a Hanoi.
Estafado e feliz, com o coração cheio, com um sorriso de adolescente depois do primeiro beijo. Estafado: depois de 19 dias intensos de viagem pela Indochina, com o primeiro grupo nomad. Feliz: a transbordar de aventuras, fotografias, gargalhadas e peripécias.
Cheguei a Hanoi e, depois de umas férias de facebook, apetecia-me partilhar imagens e pensamentos. Queria mostrar as fotos da destruição causada pelo furacão Mirinae, fomos apanhados bem no centro do caos. Queria explicar a que sabe aranha frita, ou um ovo cozido que não tem gema nem pintainho, mas qualquer coisa "in between". Queria postar as fotos das noites loucas de Saigão e de Vang Vieng. Tanta coisa. Qual não foi a minha surpresa/frustração quando, ao não conseguir aceder ao facebook, faço um search no google e descubro que, há mais ou menos uma semana, o site foi censurado no Vietname.
Bloqueado.
Interdito.
Cen-su-ra-do, com todas as sílabas.
E não me venham com histórias de "fechado para balanço", "voltamos já" e outras desculpas tão ou mais ridículas. A verdade é que, ao que parece, a liberdade de expressão – prevista na Constituição vietnamita – não é propriamente o direito mais respeitado pelas autoridades do país.
Claro que os responsáveis negam responsabilidades, nada disto é oficial… mas ninguém consegue aceder ao site. É um facto. Para mais sobre este assunto, podem ler:
http://www.allfacebook.com/2009/11/vietnam-possibly-blocking-facebook/
e
http://www.independent.co.uk/life-style/gadgets-and-tech/news/goodbye-vietnam--facebook-faces-blackout-1822740.html
entre muitos outros sites. A história não é propriamente secreta.
Assim sendo: há que improvisar. Vou despachar-me e acabar este texto, enquanto não desligam a internet de vez, e já agora a imprensa escrita, a televisão e a rádio. Desculpem o tom de indignação… mas estou mesmo indignado.
E já que falamos de Hanoi: a temperatura desceu. Ontem à noite fui buscar o edredon ao armário, hoje não despi a camisola o dia todo. Dezassete de máxima, mas diz que vai aquecer.
E enquanto não aquece, vou dar uma reviravolta a este blog. Já não actualizava isto há muito tempo. Há muuuuuuito tempo.
Há males que vêm por bem? Pode ser que sim: com o facebook cancelado, sinto um novo entusiasmo com o fuidarumavolta. Já tenho algumas coisas na manga... e prometo que vou actualizar isto com a regularidade de outros tempos. :)
23/08/2009
NOVA IMAGEM E NOVIDADES
Há tanto tempo que não mexia neste blog. Vou mudar a imagem toda, acrescentar algumas histórias antigas... e há novidades fesquinhas e boas a caminho!
E enquanto o blog "vai à faca", porque não visitar o doisnomadas.blogspot.com?
É o blog que abri, a meias com o Carlos, para partilharmos as aventuras que vamos vievr com os grupos da nomad. O Carlos na América Central (parte esta semana, a viagem começa no princípio de Setembro), e eu na Indochina - lá para Outubro...
Até já!
E enquanto o blog "vai à faca", porque não visitar o doisnomadas.blogspot.com?
É o blog que abri, a meias com o Carlos, para partilharmos as aventuras que vamos vievr com os grupos da nomad. O Carlos na América Central (parte esta semana, a viagem começa no princípio de Setembro), e eu na Indochina - lá para Outubro...
Até já!
18/08/2008
PARA QUEM NÃO TENHA REPARADO
Se é que alguém ainda vem a este blog... tendo em conta que o Até onde vais com 1000 euros? está a bombar, claro. Mas pronto: para quem não tenha reparado, estou de volta. Já cheguei da viagem de Dakar - há pouco mais de um mês. Estou "retirado" em Sintra, a escrever o livro sobre esta aventura. Será que volto a pegar neste blog? Espero que sim, tenho aqui tantas boas memórias e histórias. Mas por enquanto está assim, muito caladinho, sem grandes novidades.
03/02/2008
COUNTDOWN
Estou em contagem decrescente. Faltam alguns dias, não sei ao certo quantos, para partir em mais uma aventura. Desta vez, África. Assim que houver novidades, conto-as.
(Esta foi a primeira vez que falei, "em público", do projecto que viria a ser o "Até onde vais com 1000 euros?". Só foi pena que, uma vez lançado o outro blog, nunca mais me lembrei de vir deixar aqui um post a contar a novidade. Fico esquecido durante muito tempo, este blog...)
(Esta foi a primeira vez que falei, "em público", do projecto que viria a ser o "Até onde vais com 1000 euros?". Só foi pena que, uma vez lançado o outro blog, nunca mais me lembrei de vir deixar aqui um post a contar a novidade. Fico esquecido durante muito tempo, este blog...)
10/06/2007
SÓ ME FALTAVA MAIS ESTA
Já andei de mota a três. Já vi muitos filmes em salas de cinema com ventoínhas
a arrefecer o público histérico, já viajei em comboios a abarrotar, já brinquei às cores no Holi e
celebrei a luz no Diwali. Já bebi bhang lassi, visitei mesquitas e
templos, andei de camelo, conheci reis e marajás. Não tenho qualquer tipo de
problema em comer com a mão direita e fazer o que tem de ser feito com a mão
esquerda. Abano a cabeça de um lado para o outro quando quero concordar com
qualquer coisa, digo Atcha em vez de Ok. Faço um Namaste quando
quero cumprimentar alguém, toco no coração com a mão direita depois de apertar a
mão a um muçulmano.
E quem diria que, depois de tanto tempo na Índia, depois de tantas descobertas e experiências novas... ainda há muito com que me surpreender.
A chamada Experiência Indiana tem muito que se lhe diga. Se perguntarmos a cada estrangeiro qual é a sua, provavelmente temos tantas respostas diferentes quanto os entrevistados. O facto deste ser um país tão rico culturalmente, tão diferente do nosso e ao mesmo tempo tão próximo, faz com que as possibilidades de novas experiências sejam imensas.
Eu já experimentei muita coisa na Índia, de certa forma estava convencido que o mais básico estava feito, pouco mais me poderia surpreender. Por isso: qual não foi a minha surpresa quando um amigo em Orchha me perguntou se eu alguma vez tinha voado um papagaio.
E não, eu nunca tinha experimentado.
Na Índia, miúdos e graúdos são doidos por papagaios. Flying kytes, é como se diz. Os papagaios de papel, sejam a voar ou pendurados em árvores e fios de electricidade, são uma das marcas mais recorrentes da paisagem indiana. Há torneios nas aldeias, há até um Festival Internacional do Papagaio, é normal ver pessoas em cima dos terraços a voá-los ao mesmo tempo que os vizinhos, para ver quem derruba quem. Há quem esmague vidro e cole o pó resultante no fio, para derrubar os "inimigos". Há quem faça pequenos nós para “agarrar” o outro.
E eu... todo cheio de mim mesmo porque já fiz isto-e-aquilo... afinal eu nunca tinha feito uma coisa tão básica na cultura indiana. Nunca tinha voado um papagaio.
Só me faltava mais esta. Faltava.
E quem diria que, depois de tanto tempo na Índia, depois de tantas descobertas e experiências novas... ainda há muito com que me surpreender.
A chamada Experiência Indiana tem muito que se lhe diga. Se perguntarmos a cada estrangeiro qual é a sua, provavelmente temos tantas respostas diferentes quanto os entrevistados. O facto deste ser um país tão rico culturalmente, tão diferente do nosso e ao mesmo tempo tão próximo, faz com que as possibilidades de novas experiências sejam imensas.
Eu já experimentei muita coisa na Índia, de certa forma estava convencido que o mais básico estava feito, pouco mais me poderia surpreender. Por isso: qual não foi a minha surpresa quando um amigo em Orchha me perguntou se eu alguma vez tinha voado um papagaio.
E não, eu nunca tinha experimentado.
Na Índia, miúdos e graúdos são doidos por papagaios. Flying kytes, é como se diz. Os papagaios de papel, sejam a voar ou pendurados em árvores e fios de electricidade, são uma das marcas mais recorrentes da paisagem indiana. Há torneios nas aldeias, há até um Festival Internacional do Papagaio, é normal ver pessoas em cima dos terraços a voá-los ao mesmo tempo que os vizinhos, para ver quem derruba quem. Há quem esmague vidro e cole o pó resultante no fio, para derrubar os "inimigos". Há quem faça pequenos nós para “agarrar” o outro.
E eu... todo cheio de mim mesmo porque já fiz isto-e-aquilo... afinal eu nunca tinha feito uma coisa tão básica na cultura indiana. Nunca tinha voado um papagaio.
Só me faltava mais esta. Faltava.
Não que tenha estado horas a
aperfeiçoar técnicas e truques, mas experimentei. Por momentos peguei no fio e
brinquei com o papagaio lá em cima, um quadrado verde sobre um fundo branco e
cinzento, um céu carregado de nuvens, as monções quase a chegar.
Só me faltava mais esta, e também me faltava um ioga às cinco da manhã junto ao rio, com vista sobre templos e palácios. E faltava-me um banho matinal no rio, com direito a champô e sabão, à conversa com cinco ou seis amigos, um daqueles momentos que apetece eternizar.
Só me faltavam estas? Não, ainda há muito que experimentar. Mas de cada vez que se vive qualquer coisa de maravilhoso e novo, parece sempre que foi a derradeira experiência, que “agora é que estou completamente por dentro”.
Só me faltava mais esta, e também me faltava um ioga às cinco da manhã junto ao rio, com vista sobre templos e palácios. E faltava-me um banho matinal no rio, com direito a champô e sabão, à conversa com cinco ou seis amigos, um daqueles momentos que apetece eternizar.
Só me faltavam estas? Não, ainda há muito que experimentar. Mas de cada vez que se vive qualquer coisa de maravilhoso e novo, parece sempre que foi a derradeira experiência, que “agora é que estou completamente por dentro”.
06/06/2007
O DALAI LAMA DENTRO DE UM CARRO, UMA TEMPESTADE DE NEVE A 3500M & UMA SALA DE CINEMA IMPROVISADA
É um título comprido, o desta crónica. O que não quer dizer que me vá demorar muito – até porque o tempo não está para isso. Aliás, com 47 graus à sombra, o tempo não está nem para isso nem para mais nada.
Depois do pesadelo da viagem de regresso à Índia, estive uma semana a fazer pouco mais que nada em Dharamsala. Quer dizer... em McLeod Ganj. Ou em Baghsu, para ser mais preciso. Não interessa: fiquei em Baghsu, que é na continuação de McLeod, que por sua vez faz parte de Dharamsala. Fui mais explícito?
Já lá tinha estado com a Joana. Já sabia que era uma terra com pinta, cheia de bandeirinhas tibetanas por todo o lado; sabia que havia Royal Enfields muita loucas a passar na estrada, monges tibetanos à conversa com turistas, cursos de tudo-e-mais-alguma-coisa, bares de israelitas – e um bolo típico, o Baghsu Cake, que é uma delícia mas que não dá para levar para lado nenhum, nem para Portugal nem sequer para Delhi, porque se estraga num instante.
O que eu não sabia é que ia acabar por fazer um trekking com dois indianos até quase 3500m, batendo o recorde alcançado com o André e a Inês duas semanas antes, em Poon Hill. Também não sabia que ia ter um brevíssimo encontro com o Dalai Lama, que ia a passar de carro, e durante uma breve paragem da comitiva ficou mesmo ao meu lado – arrepios!
E, quem diria, o mundo é mesmo pequeno, encontrei uma portuguesa*, amiga de um amigo**, que conhecera mesmo antes dela vir para a Índia, nem eu sonhava que pouco depois era eu quem me metia num avião a caminho de Bombaim! E porque isto de viajar tem muito de partilha de experiências novas, eis que fomos ver o Shrek 3 numa sala de cinema improvisada... numa cave de uma loja de legumes!
* Matilde
** Locas
Depois do pesadelo da viagem de regresso à Índia, estive uma semana a fazer pouco mais que nada em Dharamsala. Quer dizer... em McLeod Ganj. Ou em Baghsu, para ser mais preciso. Não interessa: fiquei em Baghsu, que é na continuação de McLeod, que por sua vez faz parte de Dharamsala. Fui mais explícito?
Já lá tinha estado com a Joana. Já sabia que era uma terra com pinta, cheia de bandeirinhas tibetanas por todo o lado; sabia que havia Royal Enfields muita loucas a passar na estrada, monges tibetanos à conversa com turistas, cursos de tudo-e-mais-alguma-coisa, bares de israelitas – e um bolo típico, o Baghsu Cake, que é uma delícia mas que não dá para levar para lado nenhum, nem para Portugal nem sequer para Delhi, porque se estraga num instante.
O que eu não sabia é que ia acabar por fazer um trekking com dois indianos até quase 3500m, batendo o recorde alcançado com o André e a Inês duas semanas antes, em Poon Hill. Também não sabia que ia ter um brevíssimo encontro com o Dalai Lama, que ia a passar de carro, e durante uma breve paragem da comitiva ficou mesmo ao meu lado – arrepios!
E, quem diria, o mundo é mesmo pequeno, encontrei uma portuguesa*, amiga de um amigo**, que conhecera mesmo antes dela vir para a Índia, nem eu sonhava que pouco depois era eu quem me metia num avião a caminho de Bombaim! E porque isto de viajar tem muito de partilha de experiências novas, eis que fomos ver o Shrek 3 numa sala de cinema improvisada... numa cave de uma loja de legumes!
* Matilde
** Locas
29/05/2007
WELCOME TO INDIA
Eu sei que não é costume choramingar no blog. Sei que normalmente tento dar ênfase aos muitos momentos bons de viajar, e se menciono algum episódio menos positivo, é ao-de-leve.
Eu sei... mas o regresso à Índia foi mau de mais para passar ao lado.
Aviso já que é uma história longa.
Tudo começou ainda em solo nepalês. Às seis da manhã estava a enfiar-me num autocarro, esperavam-me pouco mais de sete horas de viagem rumo à fronteira. Foi uma viagem puxada, no mínimo. Estradas de montanha – como já era de esperar – e uma condução sem adjectivos foram os ingredientes necessários para um constante sobressalto geral, tanto nos estrangeiros como nos locais. Só para dar uma ideia, duas francesas decidiram sair a meio do caminho, e foram de taxi as restantes três horas – tal era o medo. Ainda tentaram convencer mais alguns viajantes a partilharem o carro, mas ninguém se deu ao trabalho.
Mas não foram só os estrangeiros a ficar incomodados com a viagem: então não é que, a duas horas da fronteira, estava eu meio-a-dormir, quando sinto qualquer coisa molhada no meu braço... a menina do banco de trás resolvera vomitar, sem avisar nem nada, sem ter a decência de pôr a cabeça de fora... e quem é que levou com o dal bhat ainda quente? Exactamente.
O pesadelo só agora começara. Lavei-me assim que parámos para um chichi, e depois foi rezar para chegar depressa à Índia. E que bom que foi passar a fronteira! Que bom, a diferença do cheiro e dos sons, os meus sentidos já estavam meio adormecidos com o ar puro e o silêncio dos Himalaias, bem que precisavam de um abanão.
Durou pouco, o estado de graça.
Abreviando porque isto de escrever na net implica abreviar: fica aqui um histórico do que se passou nas seguintes vinte e sete horas. Sim, escrevi bem, e escrevi por extenso para não haver enganos. Vinte e sete horas – num autocarro local, sem bancos reclináveis nem outras mordomias. Isso é para meninos, bem-vindos à Índia.
14:00 Comprei o bilhete numa banca junto ao autocarro, segundo as instruções do pica, depois de escapar a trinta mil esquemas. Mesmo assim, fiquei com a sensação que estava a ser enganado.
14:30 O autocarro já devia ter saído há dez minutos. O pica anunciou em voz alta que havia chegado o momento de pagar os bilhetes, 490 rupias para Delhi. Eu tinha pago 670 e apesar de se confirmar o roubo, resolvi não dar muita importância.
15:00 Vamos sair (finalmente!), com uma hora de atraso e o suor e desconforto que isso implica, com este calor...
15:01 Entra um homem que nunca-vi-mais-gordo e vem ter directamente comigo. Pede-me o bilhete, mostro-lhe o talão das 670 rupias e ele diz que aquilo não serve para nada e que tenho de pagar mais 490. Os 670 são uma taxa de serviço, diz-me. Eu passo-me, digo que não pago nem mais um tostão, ele expulsa-me do autocarro e eu digo que vou chamar a polícia e que ele e o pica vêm comigo. Gritos, ameaça de porrada, vou apanhar, vou apanhar.
15:05 Mantive o sangue-frio, insisti que ia chamar a polícia, gritei quase tão alto quanto ele, e declarei que o autocarro não saía sem mim. E como magia aparece um bilhete vindo sei-lá-de-onde, alguém arrasta o outro gajo, que já espuma da boca, para a rua... e o autocarro parte. Comigo lá dentro.
15:06 Sou um herói para os nepaleses que viajam comigo no autocarro. O episódio da quase-porrada vai ser conversa recorrente nas próximas vinte e sete horas.
15:10 Avançámos cinquenta metros, se tanto. Temos um furo.
16:15 O furo foi arranjado, o autocarro volta a arrancar. Estou prestes a afogar-me no meu próprio suor.
16:45 Somos parados pela polícia. Entram dois agentes que fingem revistar alguns sacos e caixas, mas estão claramente à procura de sacar alguma coisa. Tentam mexer na minha mochila (que tem o computador lá dentro) mas eu não deixo, pedem-me o passaporte e fingem que estão a le-lo. De pernas para o ar! Safo-me, não me chateiam mais.
17:00 Depois de chatearem quase toda a gente no autocarro, os policias deixam-nos partir. Mas não sem antes ficarem com uma das cinco caixas de maçãs que um miúdo levava para vender no mercado da terrinha. O puto está quase a chorar, era o ganha-pão dele. Apetece-me largar uma bomba atomica neste pais.
Este foi apenas o início de um longo pesadelo, e se me vou poupar a muito mais descrições não é por falta de histórias. Desde darmos meia-volta e fazer dez quilómetros para trás porque o pica deixou o telemóvel num restaurante onde parámos para jantar; a termos trinta e tal pessoas a mais, crianças de colo incluídas, a dormir nos corredores; passando pela decisão do pica de expulsar três pessoas dos seus lugares para ele dormir confortavelmente (sob ameaça de que se não fossem para o corredor, iam para a rua), e dos inúmeros quase-choques-frontais e outros dramas... esta viagem foi qualquer coisa.
Cheguei a Delhi mais morto que vivo, praticamente sem ter dormido porque não havia posição possível... e fui recusado em três hoteis, sem razão aparente, até finalmente encontrar um poiso para o resto do dia.
Bem-vindo à Índia... e que bom que vai ser quando finalmente chegar a Dharamsala!
Eu sei... mas o regresso à Índia foi mau de mais para passar ao lado.
Aviso já que é uma história longa.
Tudo começou ainda em solo nepalês. Às seis da manhã estava a enfiar-me num autocarro, esperavam-me pouco mais de sete horas de viagem rumo à fronteira. Foi uma viagem puxada, no mínimo. Estradas de montanha – como já era de esperar – e uma condução sem adjectivos foram os ingredientes necessários para um constante sobressalto geral, tanto nos estrangeiros como nos locais. Só para dar uma ideia, duas francesas decidiram sair a meio do caminho, e foram de taxi as restantes três horas – tal era o medo. Ainda tentaram convencer mais alguns viajantes a partilharem o carro, mas ninguém se deu ao trabalho.
Mas não foram só os estrangeiros a ficar incomodados com a viagem: então não é que, a duas horas da fronteira, estava eu meio-a-dormir, quando sinto qualquer coisa molhada no meu braço... a menina do banco de trás resolvera vomitar, sem avisar nem nada, sem ter a decência de pôr a cabeça de fora... e quem é que levou com o dal bhat ainda quente? Exactamente.
O pesadelo só agora começara. Lavei-me assim que parámos para um chichi, e depois foi rezar para chegar depressa à Índia. E que bom que foi passar a fronteira! Que bom, a diferença do cheiro e dos sons, os meus sentidos já estavam meio adormecidos com o ar puro e o silêncio dos Himalaias, bem que precisavam de um abanão.
Durou pouco, o estado de graça.
Abreviando porque isto de escrever na net implica abreviar: fica aqui um histórico do que se passou nas seguintes vinte e sete horas. Sim, escrevi bem, e escrevi por extenso para não haver enganos. Vinte e sete horas – num autocarro local, sem bancos reclináveis nem outras mordomias. Isso é para meninos, bem-vindos à Índia.
14:00 Comprei o bilhete numa banca junto ao autocarro, segundo as instruções do pica, depois de escapar a trinta mil esquemas. Mesmo assim, fiquei com a sensação que estava a ser enganado.
14:30 O autocarro já devia ter saído há dez minutos. O pica anunciou em voz alta que havia chegado o momento de pagar os bilhetes, 490 rupias para Delhi. Eu tinha pago 670 e apesar de se confirmar o roubo, resolvi não dar muita importância.
15:00 Vamos sair (finalmente!), com uma hora de atraso e o suor e desconforto que isso implica, com este calor...
15:01 Entra um homem que nunca-vi-mais-gordo e vem ter directamente comigo. Pede-me o bilhete, mostro-lhe o talão das 670 rupias e ele diz que aquilo não serve para nada e que tenho de pagar mais 490. Os 670 são uma taxa de serviço, diz-me. Eu passo-me, digo que não pago nem mais um tostão, ele expulsa-me do autocarro e eu digo que vou chamar a polícia e que ele e o pica vêm comigo. Gritos, ameaça de porrada, vou apanhar, vou apanhar.
15:05 Mantive o sangue-frio, insisti que ia chamar a polícia, gritei quase tão alto quanto ele, e declarei que o autocarro não saía sem mim. E como magia aparece um bilhete vindo sei-lá-de-onde, alguém arrasta o outro gajo, que já espuma da boca, para a rua... e o autocarro parte. Comigo lá dentro.
15:06 Sou um herói para os nepaleses que viajam comigo no autocarro. O episódio da quase-porrada vai ser conversa recorrente nas próximas vinte e sete horas.
15:10 Avançámos cinquenta metros, se tanto. Temos um furo.
16:15 O furo foi arranjado, o autocarro volta a arrancar. Estou prestes a afogar-me no meu próprio suor.
16:45 Somos parados pela polícia. Entram dois agentes que fingem revistar alguns sacos e caixas, mas estão claramente à procura de sacar alguma coisa. Tentam mexer na minha mochila (que tem o computador lá dentro) mas eu não deixo, pedem-me o passaporte e fingem que estão a le-lo. De pernas para o ar! Safo-me, não me chateiam mais.
17:00 Depois de chatearem quase toda a gente no autocarro, os policias deixam-nos partir. Mas não sem antes ficarem com uma das cinco caixas de maçãs que um miúdo levava para vender no mercado da terrinha. O puto está quase a chorar, era o ganha-pão dele. Apetece-me largar uma bomba atomica neste pais.
Este foi apenas o início de um longo pesadelo, e se me vou poupar a muito mais descrições não é por falta de histórias. Desde darmos meia-volta e fazer dez quilómetros para trás porque o pica deixou o telemóvel num restaurante onde parámos para jantar; a termos trinta e tal pessoas a mais, crianças de colo incluídas, a dormir nos corredores; passando pela decisão do pica de expulsar três pessoas dos seus lugares para ele dormir confortavelmente (sob ameaça de que se não fossem para o corredor, iam para a rua), e dos inúmeros quase-choques-frontais e outros dramas... esta viagem foi qualquer coisa.
Cheguei a Delhi mais morto que vivo, praticamente sem ter dormido porque não havia posição possível... e fui recusado em três hoteis, sem razão aparente, até finalmente encontrar um poiso para o resto do dia.
Bem-vindo à Índia... e que bom que vai ser quando finalmente chegar a Dharamsala!
18/05/2007
Começou ontem à tarde. Estava em Pashupati, uma zona sagrada de Kathmandu que é uma espécie de aldeia dentro da cidade, cheia de templos e sadhus a meditar, e um rio onde os nepaleses lavam os pés dos mortos antes de os cremarem.
Eu estava sentado numa espécie de varanda sobre o rio, no topo de uma colina com vista sobre toda a área. Eu e dezenas de nepaleses, e lá em baixo outras tantas centenas, ao longo das margens, nas pontes, espalhados pelos templos.
O fumo das cremações enchia o ar com um cheiro que me é difícil descrever. O cheiro a carne queimada – carne humana.
E de repente a chuva. Grossos pingos de água quente manchando a pedra do chão, primeiro timidos e ganhando confiança aos poucos. Abriguei-me debaixo de uma árvore, junto a vários nepaleses, à espera que acalmasse. Passaram cinco minutos, e outros cinco, nos degraus junto ao rio já corria uma cascata castanha. A árvore deixou de ser abrigo, chovia copiosamente sobre quem se juntara debaixo dela.
Corremos à procura de um lugar mais abrigado. Corremos devagar, porque a corrente da água no chão era tão forte que corríamos o risco de escorregar. Antes molhado que partido.
Apesar de quase cheio, ainda havia espaço num dos templos. Encharcado, sentei-me no muro a fumar um cigarro. Ao meu lado, um sadhu com rastas até à cintura e o corpo coberto de cinzas, a cara pintada de amarelo e encarnado, ouvia música através de uns headphones cor-de-laranja. Um sadhu com um MP3 novinho em folha!
Num pequeno templo mesmo ao nosso lado, um grupo de rapazes nepaleses tinha-se sentado à conversa com um sadhu, a fumar uma ganza. E mesmo à nossa frente, do outro lado do rio, começava mais uma cremação. O barulho da chuva a cair na pedra e da água a correr nos degraus abafava o choro das mulheres. Três homens faziam companhia a um cadáver cujos pés estavam mergulhados no rio. Levantaram-no devagar e levaram-no para junto da multidão. Seis fogueiras continuavam a arder, apesar da chuva. O fumo misturava-se com os pingos, o ar continuava impregnado daquele cheiro, o mesmo de Varanasi.
Ainda não parou de chover em Kathmandu. Ontem à tarde, ontem à noite, hoje de manhã e parece-me que vai ser assim o resto do dia. Troveja, de vez em quando o flash de um relâmpago ilumina o ar húmido da cidade. A electricidade é desligada entre as quatro da tarde e as oito e meia da noite. Chove, e eu vou-me embora. Daqui a dois ou três dias volto a atravessar a fronteira, de regresso à Índia.
Eu estava sentado numa espécie de varanda sobre o rio, no topo de uma colina com vista sobre toda a área. Eu e dezenas de nepaleses, e lá em baixo outras tantas centenas, ao longo das margens, nas pontes, espalhados pelos templos.
O fumo das cremações enchia o ar com um cheiro que me é difícil descrever. O cheiro a carne queimada – carne humana.
E de repente a chuva. Grossos pingos de água quente manchando a pedra do chão, primeiro timidos e ganhando confiança aos poucos. Abriguei-me debaixo de uma árvore, junto a vários nepaleses, à espera que acalmasse. Passaram cinco minutos, e outros cinco, nos degraus junto ao rio já corria uma cascata castanha. A árvore deixou de ser abrigo, chovia copiosamente sobre quem se juntara debaixo dela.
Corremos à procura de um lugar mais abrigado. Corremos devagar, porque a corrente da água no chão era tão forte que corríamos o risco de escorregar. Antes molhado que partido.
Apesar de quase cheio, ainda havia espaço num dos templos. Encharcado, sentei-me no muro a fumar um cigarro. Ao meu lado, um sadhu com rastas até à cintura e o corpo coberto de cinzas, a cara pintada de amarelo e encarnado, ouvia música através de uns headphones cor-de-laranja. Um sadhu com um MP3 novinho em folha!
Num pequeno templo mesmo ao nosso lado, um grupo de rapazes nepaleses tinha-se sentado à conversa com um sadhu, a fumar uma ganza. E mesmo à nossa frente, do outro lado do rio, começava mais uma cremação. O barulho da chuva a cair na pedra e da água a correr nos degraus abafava o choro das mulheres. Três homens faziam companhia a um cadáver cujos pés estavam mergulhados no rio. Levantaram-no devagar e levaram-no para junto da multidão. Seis fogueiras continuavam a arder, apesar da chuva. O fumo misturava-se com os pingos, o ar continuava impregnado daquele cheiro, o mesmo de Varanasi.
Ainda não parou de chover em Kathmandu. Ontem à tarde, ontem à noite, hoje de manhã e parece-me que vai ser assim o resto do dia. Troveja, de vez em quando o flash de um relâmpago ilumina o ar húmido da cidade. A electricidade é desligada entre as quatro da tarde e as oito e meia da noite. Chove, e eu vou-me embora. Daqui a dois ou três dias volto a atravessar a fronteira, de regresso à Índia.
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