O Hamid esteve connosco até ao fim da tarde, depois voltou para Dharamsala mas não sem antes desafiar a Joana a vir lá comigo visitá-lo. Supostamente iamos ficar às voltas pelo Rajastão... vamos lá ver o que é que se consegue arranjar.
Mais tarde:
Estivemos a “fazer contas”, e se conseguirmos ser mesmo muito-muito rápidos, até dá para ir a Dhraamsala.
Partida! Largada! Fugida!
A Janota tem duas semanas para ver e fazer o máximo possível, não há tempo a perder, nem sei porque é que estou aqui sentado à frente do computador, a escrever, que desperdício de tempo!
Djaldi, djaldi... Chello!
“Karim, in a small courtyard off Matya Mahal, about 8 shops down from the Jama Masjid, is not visible from the road. One of the city’s most popular and famous restaurants, Karim has been run by descendants of the cooks of Mughal royalty since 1913. Menu full of rich, meaty meals.”
Esta é a descrição que o meu guia faz do restaurante onde o Hamid me levou a almoçar. Ainda estou a digerir o choque gastronómico, por isso vou dispensar considerações, pelo menos por enquanto. Apesar de não ter sido muito feliz na minha escolha, confesso.
Serviam cérebro de carneiro, mas não experimentei.
Outra vez a Índia a lembrar-me que já passaram dois anos – o Hamid veio ter comigo a Delhi, fica mais ou menos completo o ciclo de reencontros. Será mesmo que fica?
Querido Diário:
Sabias que dá para perceber, pelo cheiro, quando o comboio está a chegar a Delhi?
E se olharmos pela janela, temos o privilégio de partilhar com metade dos cidadãos um ritual de rara beleza, que vem de tempos ancestrais, que existe desde que o Homem é Homem: o Arrear do Calhau.
Um ritual tão antigo, tão antigo que, quase de certeza, antes da Eva aparecer lá no Jardim do Eden já o Adão tinha tratado do assunto.
Devaneios à parte, é assim em Delhi como no resto da Índia: nas primeiras horas da manhã, a paisagem à volta do comboio enche-se de indianos de cócoras em cima dos carris, de frente ou de costas, não interessa, calças nos tornozelos e um pequeno balde com água pousado ao lado, para chapinhar com a mão esquerda depois de concluído o serviço.
Bom dia, Delhi!
Na Índia, a lotação está constantemente esgotada – mas há sempre lugar para mais um, se for preciso. Ontem à noite, por exemplo, estive quatro horas na plataforma 5 da Jhansi Junction Railway Station, à espera do comboio para Delhi, sem me poder mexer porque corria o risco de perder os poucos centímetros que ocupava no banco de madeira.
E se não enlouqueci, foi porque conheci um dos indianos mais engraçados com quem falei até agora, um puto de vinte anos com uma cultura geral incrível. Em vez das perguntas do costume (what’s your country, name, job, are you married, etc.), começámos por ter uma conversa banal sobre comboios, depois falámos sobre o Harry Potter e a coisa foi descambando para Bollywood, História de Portugal e perguntas do género:
“What’s the name of your President?”
E uma vez dada a resposta, surprende-me com:
“Yes, Cavac-silve! He was here a couple of months ago.”
Orchha é uma aldeia meio-perdida no mapa (segundo os padrões indianos, o que implica que está cheia de gente à mesma). É uma terrinha pequena, surpreendentemente limpa, com um rio espectacular onde apetece dar um mergulho e nadar... e à volta, por todo o lado, não dá para não reparar: ruínas.
Ruínas de templos, ruínas de palácios, de túmulos, casas, estábulos, jardins – um mimo.
E também há um templo onde todas as noites uma multidão reza a Rama, de vez em quando descontrolam-se um bocado e é preciso a Polícia intervir. E há os condores – acho que são condores, é um pássaro meio-águia-meio-abutre. Aliás, nos céus de Orchha há um exagero de pássaros, não sou de reparar muito apesar de ser um bocado cabeça-no-ar, mas aqui “ele há” papagaios, corvos, águias e tantas outras aves que não sei nomear. E há macacos, ao fim da tarde aparecem da selva e atravessam a cidade, de sul para norte, à procura de comida. E já fui convidado para um casamento. E há o rio – já falei do rio? Apetece mergulhar... sim, já falei do rio. Adoro o rio.
Adoro Orccha. Gosto da energia desta terra, apetece-me ficar o mais tempo possivel aqui – mas não posso. Tenho de estar amanhã em Delhi, onde vou encontrar o meu amigo Hamid e depois chega a Joana.
Mas volto, prometo que volto.
Chegas a Jhansi – cansado. Estás há horas dentro de comboios, sentado em bancos de madeira, apertado no meio de famílias inteiras a caminho sabe-se lá de onde. Durante a última hora, tiveste de aturar um gajo cheio de anéis e correntes e outros doirados (sim, com “i”), cabelo puxado para trás com óleo de côco, risco ao meio, pose estudada e um sorriso falso de dentes demasiado brancos e gengivas encarnadas do vício de mascar paan. A testa banhada em suor, a camisa muito apertada, manchada debaixo dos braços... e um jeito muito próprio de expulsar velhinhas do banco, para se poder sentar confortavelmente.
Chegas a Jhansi e já te queres ir embora, sabes que vais para uma aldeia chamada Orchha mas não fazes ideia para onde vais.
Pagas o dobro da tarifa normal pelo riquexó, quase nem discutes o preço porque não estás para isso. Sentas-te e o riquexó arranca, quase nem notas na paisagem que atravessas, nem pareces tu.
Os 16km que separam Jhansi de Orchha passam num instante, o tempo para acender um cigarro, fumá-lo com calma e renascer, mesmo a tempo... de te apaixonares.
A primeira coisa que vês são ruínas. Ao longe, junto à estrada: por todo o lado restos de outros tempos. Apetece-te saltar do riquexó, em andamento, e brincar ao Indiana Jones.
Está escrito na parede do meu quarto:
If we have peace in our heartwe can have peace in the world.
Mas cheguei hoje a Orchha, e quero ficar aqui o resto da minha vida.
Vai começar o Mundial de Cricket – está tudo louco, não é só a Britney.