17/03/2007

CAVACO SILVA?

Na Índia, a lotação está constantemente esgotada – mas há sempre lugar para mais um, se for preciso. Ontem à noite, por exemplo, estive quatro horas na plataforma 5 da Jhansi Junction Railway Station, à espera do comboio para Delhi, sem me poder mexer porque corria o risco de perder os poucos centímetros que ocupava no banco de madeira.

E se não enlouqueci, foi porque conheci um dos indianos mais engraçados com quem falei até agora, um puto de vinte anos com uma cultura geral incrível. Em vez das perguntas do costume (what’s your country, name, job, are you married, etc.), começámos por ter uma conversa banal sobre comboios, depois falámos sobre o Harry Potter e a coisa foi descambando para Bollywood, História de Portugal e perguntas do género:

“What’s the name of your President?”

E uma vez dada a resposta, surprende-me com:

“Yes, Cavac-silve! He was here a couple of months ago.”

16/03/2007

ORCHHA!

Orchha é uma aldeia meio-perdida no mapa (segundo os padrões indianos, o que implica que está cheia de gente à mesma). É uma terrinha pequena, surpreendentemente limpa, com um rio espectacular onde apetece dar um mergulho e nadar... e à volta, por todo o lado, não dá para não reparar: ruínas.

Ruínas de templos, ruínas de palácios, de túmulos, casas, estábulos, jardins – um mimo.

E também há um templo onde todas as noites uma multidão reza a Rama, de vez em quando descontrolam-se um bocado e é preciso a Polícia intervir. E há os condores – acho que são condores, é um pássaro meio-águia-meio-abutre. Aliás, nos céus de Orchha há um exagero de pássaros, não sou de reparar muito apesar de ser um bocado cabeça-no-ar, mas aqui “ele há” papagaios, corvos, águias e tantas outras aves que não sei nomear. E há macacos, ao fim da tarde aparecem da selva e atravessam a cidade, de sul para norte, à procura de comida. E já fui convidado para um casamento. E há o rio – já falei do rio? Apetece mergulhar... sim, já falei do rio. Adoro o rio.

Adoro Orccha. Gosto da energia desta terra, apetece-me ficar o mais tempo possivel aqui – mas não posso. Tenho de estar amanhã em Delhi, onde vou encontrar o meu amigo Hamid e depois chega a Joana.

Mas volto, prometo que volto.

ORCHHA 1





ORCHHA 2






ORCHHA?

Chegas a Jhansi – cansado. Estás há horas dentro de comboios, sentado em bancos de madeira, apertado no meio de famílias inteiras a caminho sabe-se lá de onde. Durante a última hora, tiveste de aturar um gajo cheio de anéis e correntes e outros doirados (sim, com “i”), cabelo puxado para trás com óleo de côco, risco ao meio, pose estudada e um sorriso falso de dentes demasiado brancos e gengivas encarnadas do vício de mascar paan. A testa banhada em suor, a camisa muito apertada, manchada debaixo dos braços... e um jeito muito próprio de expulsar velhinhas do banco, para se poder sentar confortavelmente.

Chegas a Jhansi e já te queres ir embora, sabes que vais para uma aldeia chamada Orchha mas não fazes ideia para onde vais.

Pagas o dobro da tarifa normal pelo riquexó, quase nem discutes o preço porque não estás para isso. Sentas-te e o riquexó arranca, quase nem notas na paisagem que atravessas, nem pareces tu.

Os 16km que separam Jhansi de Orchha passam num instante, o tempo para acender um cigarro, fumá-lo com calma e renascer, mesmo a tempo... de te apaixonares.

A primeira coisa que vês são ruínas. Ao longe, junto à estrada: por todo o lado restos de outros tempos. Apetece-te saltar do riquexó, em andamento, e brincar ao Indiana Jones.

15/03/2007

PENSAMENTO DO DIA

Está escrito na parede do meu quarto:

If we have peace in our heart
we can have peace in the world.

14/03/2007

EU SEI QUE PARA SEMPRE É MUITO TEMPO

Mas cheguei hoje a Orchha, e quero ficar aqui o resto da minha vida.

CRICKET WORLD CUP

Vai começar o Mundial de Cricket – está tudo louco, não é só a Britney.

SANCHI - FOTOS




OS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS

Ainda durante o passeio de bicicleta: depois das ruas de Vidishya aventurei-me um pouco mais para o campo, 5km até às grutas de Udayagiri, que de grutas tinham pouco. Umas estátuas cravadas nas rochas, Vishnu na sua encarnação de javali a segurar na deusa Terra pela boca, e umas mini-grutas fechadas a cadeado – os deuses devem estar loucos!, assim trancados pelos próprios seguidores.

Uma da tarde, já pedalei uns 20km. O calor é muito, a água nenhuma, nem uma garrafa num raio de 5km. Suei litros, estou a ficar desidratado. Resolvo descansar um pouco num dos templos, à sombra. Dois esquilos fazem-me companhia durante uma hora, não há um único turista – estrangeiro ou indiano – neste lugar esquecido.

Sobrevivi. Se calhar foi por causa do ar sagrado que respirei durante uma hora enquanto descansava, talvez algum deus com cabeça de animal me tenha abençoado, ou então era só fita e não estava nada a desidratar.

Levantei-me assim que vi umas nuvens aproximarem-se do sol, desci a montanha e montei-me na bicicleta, e toca a pedalar outra vez de volta a Vidishya... onde me esperava, num restaurante à beira da estrada, uma garrafa de água gelada e já agora um belo almoço – e só para equilibrar as emoções fortes do dia, porque não uma das melhores refeições desta viagem? Um kaju panneer delicioso, picante qb, acompanhado de chapattis e arroz branco.

Os empregados do restaurante eram uns putos de 16/17 anos, assim que uns velhotes se levantaram eles aproveitaram que eu era o único cliente e puseram Shakira, Ricky Martin e Britney Spears a bombar.

E por falar em Britney e em Deuses Que Devem Estar Loucos... o que é que se passa com a jovem estrela americana? Aqui na Índia anda tudo muito preocupado com a rapariga, parece que rapou a cabeleira loira e já foi enfiada num manicómio.

Coitadinha da Britney!

13/03/2007

FUI DAR UMA VOLTA

Diz o povo (e diz bem) que a seguir à tempestade vem a bonança.

Como prometido, saí de Bhopal assim que pude: enfiei-me num autocarro a cair de podre e fui para Sanchi, uma aldeia muito pacata à beira da estrada, com umas stupas budistas no cimo de um monte. Património da Humanidade, um sucesso entre os monges do Sri Lanka.

Sanchi não tinha nada de especial – se calhar foi por isso mesmo que gostei tanto do sítio. Muito calmo, gente simpática, bicicletas a 5 rupias por hora.

Aluguei uma e fui dar uma volta, 15km até Vidishya onde supostamente há uns templos e outras coisas giras para ver, mas a confusão era tal que a certa altura desisti do turismo propriamente dito e limitei-me a pedalar entre o trânsito e o caos, nas ruas cheias de gente e comércio e vacas e lixo.

Estou ma-ra-vi-lha-do.

É isto que eu gosto na Índia. Por muito que haja para ver, Taj Mahais e outros Monumentos Tais, o melhor de tudo, o que realmente me agarra, o que me faz voltar é o ritmo. É a confusão, é o barulho, são as vacas que se atravessam, os putos a dizer “hallo” e os personagens que parecem tirados dos filmes do Indiana Jones, outros directamente do imaginário de Bollywood. É o ter de estar sempre atento, o não ter descanso, estar a adorar e pouco depois ter de me controlar para não ter um ataque de nervos, mas não faz mal porque logo a seguir já estou apaixonado outra vez.

12/03/2007

QUALQUER COISA DE MUITO MAU

Passo a explicar o meu estado de espírito de ontem à noite, quando decidi sair de Bhopal sem sequer me dar ao trabalho de dar uma vista de olhos pela cidade. Rapidamente, porque as más energias não são para aqui chamadas.

O comboio entre Jalgaon e Bhopal: desconfortável, muito stressante, viajei “clandestino” num compartimento cheio de army-wanna-bes, que estavam a voltar de umas entrevistas e testes para o Exército, em Bangalore, e todos tinham reprovado. Imagine-se o ambiente. Entre algumas conversas porreiras – mais para o fim da viagem –, tive o azar de me sentar ao pé do indiano mais intragável dos últimos tempos.

Entre outras barbaridades, teve a lata de afirmar que Portugal era um país sem Cultura, sem História, sem Tradições. Disse-me que já lá tinha estado – mas era mentira, nem me sabia dizer onde. Disse só por dizer, só para se armar, só para me picar. Não quero saber: dos teus falarás, dos teus não ouvirás. É assim que diz o ditado, não é? Qualquer coisa do género. Por outras palavras: falas assim do meu país e levas logo uma liçãozinha de História – aliás, muito apreciada pelos outros indianos à volta. E como se não bastasse a aula, eis que saco do meu trunfo, um livro de fotografias de Portugal comprado à última hora numa loja de souvenirs da Rua Augusta...


...e giro, giro foi ver os ex-futuros-militares a suspirarem pelo nosso cantinho à beira-mar plantado.
Estação de comboios de Bhopal: um nojo. A pior de sempre, um mar de gente a dormir no chão (eram quase duas da manhã quando cheguei), um cheiro podre a merda-suor-mijo-chulé, eu à procura de espaço onde pousar os pés, para conseguir atravessar o hall. Crianças a chorar, velhos a gemer, ratos a passear entre as pessoas – e não digo mais porque não quero chocar ninguém.

“Full”, foi o que me disseram em cinco hotéis. Em alguns casos, claramente mentira. Mas também não sei dizer porquê. Estava prestes a desesperar, eram duas e meia da manhã e ninguém me dava um quarto, e quando finalmente encontrei um lugar onde ficar, o senhor da recepção aproveitou-se da hora e do meu estado para me cobrar quase três vezes mais do que é normal por um quarto. Eu não refilei, só queria uma cama, só queria um tecto.

11/03/2007

NÃO ME INTERESSA

Cheguei a Bhopal, mas estou já de saída.

Se calhar é a cidade mais bonita do mundo, se calhar espera-me algures numa das suas ruas a mulher da minha vida, quem sabe se é aqui que está a oportunidade que me vai enriquecer muito além do imaginável.

Pode ser que sim, mas não me interessa: estou de saída. Vou fazer uma finta ao meu destino, e vou sair daqui assim que o sol nascer.

TOU XIM?

Estou sentado em cima de uma mota, à pendura com o meu amigo Sho Sho, atravessando um descampado mesmo à saída da aldeia, quando nos cruzamos com um puto de nove ou dez anos, todo esfarrapado.

Já estou à espera de um “hallo-how-are-you” gritado a plenos pulmões, um aceno, no mínimo um sorriso. Mas no País das Maravilhas, tudo pode acontecer. O puto tira do bolso imundo um telemóvel impecável, abre-o e aponta na nossa direcção... e clic!, tira-nos uma fotografia!

O telelé conquistou definitivamente o mundo. Uma das maiores diferenças que tenho constatado entre a Índia de há dois anos e a de hoje é a universalização desse pequeno objecto que tanto alegrou o pastor alentejano, no clássico anúncio da Telecel.

Aqui é normal as pessoas iniciarem contacto na rua, nos comboios, em todo o lado. Antes, trocavam-se moradas, em alguns casos e-mails. Agora, números de telefone. Ontem à noite estava à conversa com uma húngara que me perguntava:

“Será que eles estão mesmo à espera que nós lhes liguemos?”

10/03/2007

PHARDAPUR BLUES

Novos ritmos.

Acordo sempre às oito e meia, às nove vêm-me buscar ao hotel para irmos tomar o pequeno-almoço com a família. Acontece o mesmo em todas as refeições: primeiro como eu, o Ashraft, o Sho Sho e o pai deles – os homens da casa. As crianças brincam à volta, as mulheres vão servindo. O Farooq junta-se a nós, já tem 17 anos por isso pode começar a comer quando já estamos a meio. Elas esperam. Nos cinco dias que passei em Phardapur, não vi as mulheres comer uma única vez.

Passo os dias entre a aldeia e as grutas, conversa-se muito e descansa-se mais, aproveito para começar a escrever. O Sho Sho vai cortar o cabelo e eu faço a barba e uma “hair massage”. Andamos sempre de mota, à boa maneira indiana – a três. Vamos a Ajanta comprar peixe (uma experiência que não recomendo aos mais impressionáveis). Compro o Dhoom 2, o sucesso do momento, e fazemos uma sessão de cinema no meu quarto. O Farooq fica viciado no Sonic. Conheço uns tugas do Porto e em cinco minutos descarrego quase três semanas sem falar português. O Ashraft continua com o seu fetiche com japonesas, e eu faço-lhe companhia. A aldeia está em alvoroço por causa das eleições locais, e os políticos oferecem álcool a quem prometer votar neles. O meu hotel é a sede de campanha de um dos partidos. Todos os dias falta a luz. O calor aumenta. Janto sentado no chão, com cabras e galinhas à volta, esporadicamente enxotadas pela mãe dos irmãos Ali.

Está-se bem em Phardapur.

PHARDAPUR BLUES 1






PHARDAPUR BLUES 2




OS MELHORES ANOS

Muçulmanos, católicos ou hindus; portugueses, indianos ou chineses...

Não interessa a côr nem a religião... os melhores anos são sempre os mesmos.



07/03/2007

DOIS ANOS DEPOIS

Custou, mas cheguei. Estou em Phardapur com os meus amigos Sho Sho e Ahsraft. A família recebeu-me com sorrisos do tamanho da Índia, os putos estão todos muito maiores.

A filha do Ashraft tem dois anos, já anda e apesar de alguma timidez, aos poucos começa a ganhar confiança aqui com o Uncle.

O Shu Shu casou, como esperado. E a Barki está à espera de bebé – seis ou sete meses, ninguém sabe muito bem.

Passaram dois anos!

06/03/2007

NEW DRIVER

Um autocarro para Aurangabad. Sais de Bombaim ao princípio da noite, uma hora depois do previsto, mais duas para sair da cidade. Dizem-te que vais chegar às seis da manhã, calha bem porque depois ainda tens mais três horas num autocarro local, provavelmente a abarrotar de gente e mercadorias, até chegares ao teu destino final: Phardapur, onde te esperam outros amigos.

Passas a noite à conversa com quatro estudantes de Engenharia Electrónica, são todos de Bombaim mas foram colocados em Aurangabad. Convidam-te para jantar, partilham bebidas e histórias, falam sobre Bollywood, as diferenças culturais entre a Europa e a Índia, os casamentos arranjados e projectos para o futuro.

Adormeces.

Acordas, são quase seis da manhã. O autocarro está parado na estrada. Um furo.

Ainda não sabes, mas vai demorar pouco mais de uma hora até ao autocarro estar novamente a andar. Entretanto perguntas a um dos estudantes quanto é que falta para chegar a Aurangabad. Pelas tuas contas, não deve faltar muito.

“Três ou quatro horas”, responde-te.

“Três ou quatro... mas são quase seis da manhã, devemos estar quase a chegar...”

“O condutor enganou-se no caminho, estivemos mais de três horas perdidos, mas agora já estamos no caminho certo.”

Sorris. Não tens pressa, não tens horários, provavemente há pessoas no autocarro a quem este atraso faz mais diferença. Sorris, porque sim. E sorris mais quando o indiano, com ar de quem diz o Obviamente Previsível e Aceitável, acrescenta:

“New Driver.”