Novos ritmos.
Acordo sempre às oito e meia, às nove vêm-me buscar ao hotel para irmos tomar o pequeno-almoço com a família. Acontece o mesmo em todas as refeições: primeiro como eu, o Ashraft, o Sho Sho e o pai deles – os homens da casa. As crianças brincam à volta, as mulheres vão servindo. O Farooq junta-se a nós, já tem 17 anos por isso pode começar a comer quando já estamos a meio. Elas esperam. Nos cinco dias que passei em Phardapur, não vi as mulheres comer uma única vez.
Passo os dias entre a aldeia e as grutas, conversa-se muito e descansa-se mais, aproveito para começar a escrever. O Sho Sho vai cortar o cabelo e eu faço a barba e uma “hair massage”. Andamos sempre de mota, à boa maneira indiana – a três. Vamos a Ajanta comprar peixe (uma experiência que não recomendo aos mais impressionáveis). Compro o Dhoom 2, o sucesso do momento, e fazemos uma sessão de cinema no meu quarto. O Farooq fica viciado no Sonic. Conheço uns tugas do Porto e em cinco minutos descarrego quase três semanas sem falar português. O Ashraft continua com o seu fetiche com japonesas, e eu faço-lhe companhia. A aldeia está em alvoroço por causa das eleições locais, e os políticos oferecem álcool a quem prometer votar neles. O meu hotel é a sede de campanha de um dos partidos. Todos os dias falta a luz. O calor aumenta. Janto sentado no chão, com cabras e galinhas à volta, esporadicamente enxotadas pela mãe dos irmãos Ali.
Está-se bem em Phardapur.
10/03/2007
OS MELHORES ANOS
Muçulmanos, católicos ou hindus; portugueses, indianos ou chineses...
Não interessa a côr nem a religião... os melhores anos são sempre os mesmos.


Não interessa a côr nem a religião... os melhores anos são sempre os mesmos.


07/03/2007
DOIS ANOS DEPOIS
Custou, mas cheguei. Estou em Phardapur com os meus amigos Sho Sho e Ahsraft. A família recebeu-me com sorrisos do tamanho da Índia, os putos estão todos muito maiores.
A filha do Ashraft tem dois anos, já anda e apesar de alguma timidez, aos poucos começa a ganhar confiança aqui com o Uncle.
O Shu Shu casou, como esperado. E a Barki está à espera de bebé – seis ou sete meses, ninguém sabe muito bem.
Passaram dois anos!
A filha do Ashraft tem dois anos, já anda e apesar de alguma timidez, aos poucos começa a ganhar confiança aqui com o Uncle.
O Shu Shu casou, como esperado. E a Barki está à espera de bebé – seis ou sete meses, ninguém sabe muito bem.
Passaram dois anos!
06/03/2007
NEW DRIVER
Um autocarro para Aurangabad. Sais de Bombaim ao princípio da noite, uma hora depois do previsto, mais duas para sair da cidade. Dizem-te que vais chegar às seis da manhã, calha bem porque depois ainda tens mais três horas num autocarro local, provavelmente a abarrotar de gente e mercadorias, até chegares ao teu destino final: Phardapur, onde te esperam outros amigos.
Passas a noite à conversa com quatro estudantes de Engenharia Electrónica, são todos de Bombaim mas foram colocados em Aurangabad. Convidam-te para jantar, partilham bebidas e histórias, falam sobre Bollywood, as diferenças culturais entre a Europa e a Índia, os casamentos arranjados e projectos para o futuro.
Adormeces.
Acordas, são quase seis da manhã. O autocarro está parado na estrada. Um furo.
Ainda não sabes, mas vai demorar pouco mais de uma hora até ao autocarro estar novamente a andar. Entretanto perguntas a um dos estudantes quanto é que falta para chegar a Aurangabad. Pelas tuas contas, não deve faltar muito.
“Três ou quatro horas”, responde-te.
“Três ou quatro... mas são quase seis da manhã, devemos estar quase a chegar...”
“O condutor enganou-se no caminho, estivemos mais de três horas perdidos, mas agora já estamos no caminho certo.”
Sorris. Não tens pressa, não tens horários, provavemente há pessoas no autocarro a quem este atraso faz mais diferença. Sorris, porque sim. E sorris mais quando o indiano, com ar de quem diz o Obviamente Previsível e Aceitável, acrescenta:
“New Driver.”
Passas a noite à conversa com quatro estudantes de Engenharia Electrónica, são todos de Bombaim mas foram colocados em Aurangabad. Convidam-te para jantar, partilham bebidas e histórias, falam sobre Bollywood, as diferenças culturais entre a Europa e a Índia, os casamentos arranjados e projectos para o futuro.
Adormeces.
Acordas, são quase seis da manhã. O autocarro está parado na estrada. Um furo.
Ainda não sabes, mas vai demorar pouco mais de uma hora até ao autocarro estar novamente a andar. Entretanto perguntas a um dos estudantes quanto é que falta para chegar a Aurangabad. Pelas tuas contas, não deve faltar muito.
“Três ou quatro horas”, responde-te.
“Três ou quatro... mas são quase seis da manhã, devemos estar quase a chegar...”
“O condutor enganou-se no caminho, estivemos mais de três horas perdidos, mas agora já estamos no caminho certo.”
Sorris. Não tens pressa, não tens horários, provavemente há pessoas no autocarro a quem este atraso faz mais diferença. Sorris, porque sim. E sorris mais quando o indiano, com ar de quem diz o Obviamente Previsível e Aceitável, acrescenta:
“New Driver.”
05/03/2007
AGORA É QUE É
Já comprei o bilhete para Aurangabad, hoje vou-me embora nem que as vacas tussam.
04/03/2007
A CEREJA NO TOPO DO BOLO
Já dizia alguém – e bem – que o Universo conspira a nosso favor.
Como se não bastasse mais uma mítica noite de pescaria na farmhouse – nós em cima da ponte, o Vilas no barco, depois o dinamite deitado ao rio e as dezenas de peixes a boiar, aqui não é preciso canas de pesca nem outros acessórios – quando voltámos para casa a lua cheia resolveu armar-se em tímida e aos poucos escondeu-se atrás da nossa sombra.
Na noite do Holi, num fim-de-semana que dificilmente esquecerei, houve um eclipse total da lua. Para quem não fazia ideia – sim, eu – foi mais uma agradável surpresa.
Como se não bastasse mais uma mítica noite de pescaria na farmhouse – nós em cima da ponte, o Vilas no barco, depois o dinamite deitado ao rio e as dezenas de peixes a boiar, aqui não é preciso canas de pesca nem outros acessórios – quando voltámos para casa a lua cheia resolveu armar-se em tímida e aos poucos escondeu-se atrás da nossa sombra.
Na noite do Holi, num fim-de-semana que dificilmente esquecerei, houve um eclipse total da lua. Para quem não fazia ideia – sim, eu – foi mais uma agradável surpresa.
HOLI HOLI
Fim de semana na farmhouse: vinte e sete pessoas, música sempre a bombar, banhos no rio e na piscina, pescarias e caçadas à noite, muito bhang e um festival em que as pessoas se pintam umas às outras – e como não há muitas palavras que consigam descrever as sensações e os momentos vividos nestes dias, ficam algumas fotografias.
02/03/2007
NUNCA MAIS ME VOU EMBORA
Vem aí o Holi, está-se a preparar qualquer coisa e eu vou ficar mais uns dias por Bombaim.
01/03/2007
SERIAL KILLERS
Lionel Richie, Tina Turner, Elton John, Sean Connery, Clint Eastwood e mais três ou quatro celebridades cujo nome não me lembro agora: peço desculpa, mas ontem vocês morreram para algumas pessoas.
A boa notícia é que o Bob Marley está de volta, depois de um retiro de não sei quantos anos.
A boa notícia é que o Bob Marley está de volta, depois de um retiro de não sei quantos anos.
ERA PARA IR
Era para ir ter com uns amigos a Phardapur, mas não fui.
Já tinha o bilhete e tudo, o Abbey ia deixar-me ao autocarro quando começou a insistir para que fosse com ele e mais uns amigos a Ratnagiri, uma terra junto à costa, a caminho de Goa. Está muito trânsito, disse-me, se calhar nem chegamos a tempo ao autocarro. E o que é que são 250 rupias? Fui com eles para Ratnagiri, guiámos a noite toda, chegámos às cinco da manhã.
Era para ir para Goa a seguir a Ratnagiri, mas não fui.
Já que estava tão perto e tinha as minhas coisas comigo, mais valia aproveitar para fazer um bocadinho de praia, e depois seguir para Phardapur. Mas no dia de partida achei que fazia mais sentido voltar para cima, o Vicky e os outros iam ficar por ali e o Abbey ia voltar sozinho, e o mínimo que eu podia fazer para retribuir a hospitalidade era acompanhá-lo.
Já tinha o bilhete e tudo, o Abbey ia deixar-me ao autocarro quando começou a insistir para que fosse com ele e mais uns amigos a Ratnagiri, uma terra junto à costa, a caminho de Goa. Está muito trânsito, disse-me, se calhar nem chegamos a tempo ao autocarro. E o que é que são 250 rupias? Fui com eles para Ratnagiri, guiámos a noite toda, chegámos às cinco da manhã.
Era para ir para Goa a seguir a Ratnagiri, mas não fui.
Já que estava tão perto e tinha as minhas coisas comigo, mais valia aproveitar para fazer um bocadinho de praia, e depois seguir para Phardapur. Mas no dia de partida achei que fazia mais sentido voltar para cima, o Vicky e os outros iam ficar por ali e o Abbey ia voltar sozinho, e o mínimo que eu podia fazer para retribuir a hospitalidade era acompanhá-lo.
26/02/2007
PEDRO E O LOBO
Fica aqui registado, para que se saiba que não é só na história.
Ontem foi domingo – para os hindus não é propriamente dia santo, mas descansa-se à mesma. Milhares de pessoas aproveitam para passear nos parques, jogar criquete em descampados, ou para ir dar uma volta à praia.
Eu cheguei de Pune a seguir ao almoço e como a meio da tarde houve um apagão em Bombaim que durou mais de quatro horas, resolvi fazer uma sesta, acordei com o som de ambulâncias. Em Bombaim ouve-se de tudo, a cidade é um caos para os sentidos, incluindo a nível auditivo – mas não se ouvem muitas ambulâncias. Percebi logo que alguma coisa tinha acontecido, alguma coisa fora de normal.
Vem hoje nas notícias: um grupo de cinco amigos decidiu celebrar o aniversário de um deles. Tentaram ir para um centro comercial, mas o segurança não os deixou entrar por estarem mal vestidos (?). por isso acabaram por ir para a praia de Marve, onde inventaram uma brincadeira de muito mau gosto – fingir que se estavam a afogar. Da primeira vez conseguiram chamar a atenção de quem passava, houve mesmo quem corresse para a água para os ajudar. Mas à segunda não tiveram tanta sorte, e o pior é que a brincadeira deu para o torto, quando duas raparigas acabaram mesmo por se afogar e morrer.
Um dos corpos foi recuperado antes do anoitecer, o outro apareceu hoje de manhã embrulhado nas redes dos pescadores.
Ontem foi domingo – para os hindus não é propriamente dia santo, mas descansa-se à mesma. Milhares de pessoas aproveitam para passear nos parques, jogar criquete em descampados, ou para ir dar uma volta à praia.
Eu cheguei de Pune a seguir ao almoço e como a meio da tarde houve um apagão em Bombaim que durou mais de quatro horas, resolvi fazer uma sesta, acordei com o som de ambulâncias. Em Bombaim ouve-se de tudo, a cidade é um caos para os sentidos, incluindo a nível auditivo – mas não se ouvem muitas ambulâncias. Percebi logo que alguma coisa tinha acontecido, alguma coisa fora de normal.
Vem hoje nas notícias: um grupo de cinco amigos decidiu celebrar o aniversário de um deles. Tentaram ir para um centro comercial, mas o segurança não os deixou entrar por estarem mal vestidos (?). por isso acabaram por ir para a praia de Marve, onde inventaram uma brincadeira de muito mau gosto – fingir que se estavam a afogar. Da primeira vez conseguiram chamar a atenção de quem passava, houve mesmo quem corresse para a água para os ajudar. Mas à segunda não tiveram tanta sorte, e o pior é que a brincadeira deu para o torto, quando duas raparigas acabaram mesmo por se afogar e morrer.
Um dos corpos foi recuperado antes do anoitecer, o outro apareceu hoje de manhã embrulhado nas redes dos pescadores.
25/02/2007
EU VI UM SAPO
E eu vi um Rolls Royce. Daqueles mais antigos, com rodas suplentes dos lados – daqueles que só se vêm nos filmes.
Foi em Pune, hoje de manha. E ontem a noite, fui ter com uma amiga a um bar de jazz, com uma banda holandesa a tocar no jardim, e conheci um velhote que é fã de Rão Kyao.
Foi em Pune, hoje de manha. E ontem a noite, fui ter com uma amiga a um bar de jazz, com uma banda holandesa a tocar no jardim, e conheci um velhote que é fã de Rão Kyao.
24/02/2007
ERA PARA SER
Era para ser uma noite de pescaria. Aparecem uns amigos em casa e passas a tarde em preparativos: é preciso confirmar se as canas de pesca estão em bom estado, é preciso ir comprar mais fio, alguns acessórios, dois tipos de isco. Sais de casa já noite, depois de jantar, para apanhar a maré certa. Passas por um bairro de pescadores mas nem sabes muito bem porquê, provavelmente para receber umas dicas, quem sabe para comprar um peixe só para não aparecer em casa de mãos a abanar – nunca se sabe, e é preciso impressionar a miúda.
A caminho da praia mais uma paragem: falta comprar álcool. Achavas que ias passar uma noite sentado numa rocha a olhar para o mar e a contar estrelas? Nada disso, enquanto esperas que algum peixe morda o isco, já agora bebe qualquer coisa.
Era para ser uma pescaria, mas não foi.
Não sei quando nem onde é que os planos mudaram, as coisas aqui acontecem em hindi e eu disso percebo pouco.
Era para ser uma noite de pescaria, mas acabas num casarão à beira mar, com piscina e um jardim de fazer inveja a muitas Cinhas e Lilis. Nada mau. A maré está baixa, por isso entre ti e a água há uns vinte metros de areia. A lua sorri. E já agora, se há álcool e cigarros e música trance num dos telemóveis, porque não fazer uma festa? Afinal, os donos da casa só voltam daqui a seis meses...
A caminho da praia mais uma paragem: falta comprar álcool. Achavas que ias passar uma noite sentado numa rocha a olhar para o mar e a contar estrelas? Nada disso, enquanto esperas que algum peixe morda o isco, já agora bebe qualquer coisa.
Era para ser uma pescaria, mas não foi.
Não sei quando nem onde é que os planos mudaram, as coisas aqui acontecem em hindi e eu disso percebo pouco.
Era para ser uma noite de pescaria, mas acabas num casarão à beira mar, com piscina e um jardim de fazer inveja a muitas Cinhas e Lilis. Nada mau. A maré está baixa, por isso entre ti e a água há uns vinte metros de areia. A lua sorri. E já agora, se há álcool e cigarros e música trance num dos telemóveis, porque não fazer uma festa? Afinal, os donos da casa só voltam daqui a seis meses...
23/02/2007
O PRAZER DO INESPERADO
Perceber que aquilo que era suposto já não vai ser. A sensação de impotência perante as coisas que acontecem à tua volta. Esquecer o futuro como o tinhas imaginado, porque o presente é tão rico e cheio de emoções que não permite planos rígidos, combinações sérias, compromissos.
O futuro muda assim que deixa de ser futuro.
Tudo o que tu vives, tudo o que sentes, todas as coisas que te permitem que te defines, no tempo e no espaço – tudo isso muda, tudo isso respira, como tu.
Inspira. Inspira bem fundo. Custa, eu sei. Mas faz como te digo. Deixa que o cheiro a lixo e a fumo e a esgoto a céu aberto se instalem nos teus pulmões. Mais vale assim que resistir. E agora expira. Liberta tudo. Reaprende a respirar, porque aqui vive-se a um ritmo completamente diferente.
O futuro muda assim que deixa de ser futuro.
Tudo o que tu vives, tudo o que sentes, todas as coisas que te permitem que te defines, no tempo e no espaço – tudo isso muda, tudo isso respira, como tu.
Inspira. Inspira bem fundo. Custa, eu sei. Mas faz como te digo. Deixa que o cheiro a lixo e a fumo e a esgoto a céu aberto se instalem nos teus pulmões. Mais vale assim que resistir. E agora expira. Liberta tudo. Reaprende a respirar, porque aqui vive-se a um ritmo completamente diferente.
22/02/2007
PASSO A EXPLICAR

Um dia sais de casa com três amigos porque um deles vai cantar num evento a 70km de Bombaim – é suposto passar a noite num hotel, e de manhã visitar um parque aquático. Levas fato de banho?
Instalas-te no hotel, vais ver o Abbey a cantar para uma plateia de velhotes... o que é que estamos a fazer aqui? É proibido beber, é proibido fumar, e atrás do palco há uma estátua gigante de Shiva esculpida na rocha e uma cascata iluminada por projectores de várias cores.
E de repente alguém anuncia que o evento vai acabar mais cedo que o previsto, a multidão dispersa e agora já não faz sentido ficar no hotel – por isso voltas para o carro e acabas a noite ainda mais longe de casa. E sem saber muito bem como, estás no meio da selva a tentar caçar um coelho, porque não encontras javalis.
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